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São Manoel e o dia da guerra de almofadas

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um dos fatores mais peculiares de se estudar num colégio de turno integral, como o São Manoel, era o pensamento que fazia jus ao próprio termo ‘integral’; por ser O DIA TODO naquele ambiente, cheio de moleques ocupando tudo ao mesmo tempo, o colégio contava com uma rede de apoio em áreas específicas, formando uma grade de horários fixa para otimizar o processo: em um período a criançada estava preparada para ter as aulas tradicionais (pela manhã), em outros momentos a criançada estava preparada para ter as refeições, variando ao longo de todos os turnos (três, no total do dia), em outro a criançada estava preparada para fazer atividades extracurriculares (pela tarde) e, claro, havia uma zona de intervalos para certificar o descanso e o bem-estar, em uma série de recreios variados pelo dia (três, no total); os períodos mais infernais, julgando o que eu imagino que devia se passar na cabeça dos funcionários, com certeza, eram o das refeições e o dos recreios – como eu já disse aqui: nas aulas e atividades extracurriculares, as turmas ficavam divididas pelas séries; porém, nas refeições e recreios todas as séries estavam juntas em espaços semelhantes e a confusão era tremenda.
o nosso maior recreio era após o almoço, uma hora e meia de pura correria e maluquice pelo pátio: futebol, brincadeiras, porradaria, atividades no ginásio, jogar Tazo, tocar o terror nos mais novos e por aí vai; porém, claro, ocorriam dias em que um moleque normal simplesmente não queria fazer festa e ficar pulando que nem um macaco louco. e o São Manoel pensava nisso… neste recreio grandão, o colégio disponibilizava uma sala de vídeos, passando a programação infantil da hora – geralmente o saudoso canal Fox Kids, com Homem-Aranha e depois Goosebumps – onde os alunos podiam ir e ter uma diversão, digamos, mais acomodada. está era a lógica…

… mas ilustremos a situação: vocês conseguem conceber uma sala escura, com uma TV, cheia de pirralhos variando da primeira à oitava série, todos sentados no chão, conversando, gritando, berrando, pulando de lá pra cá, com um número de almofadas limitadas e que não atendia toda a demanda – o que obviamente gerava brigas -, com apenas um funcionário cuidando de todo mundo? a chance de dar merda era: 100%. e frequentemente dava…
um dos desatinos infantis mais comuns era entrar naquela sala, que teoricamente seria para um descanso, uma diversão moderada, e tacar o puteiro em tudo: infernizar a vida dos mais novos, dos mais velhos, gritar, tentar desligar a TV, roubar almofadas alheias, empurrar os outros, fazer merda, causar pânico no pobre funcionário, enfim, garantido pela segurança do escuro quase total quebrado apenas pela luz pobrinha da TV, fazer todo tipo de bagunça e confiar que o funcionário não identificaria com certeza quem era o aluno peste enchendo o saco – era uma zona livre, tipo um filme pós-apocalíptico na vida real, apenas os fortes sobreviviam. porém, claro, esta era tarefa para poucos… ao menos na maioria dos casos, principalmente os mais novos, o pensamento era realmente ver TV; quando você ia crescendo e ficando mais ativo e maior, daí o diabo tomava conta do corpo e a sala de vídeo tornava-se um território de caos.
entretanto, em um dia peculiar, um daqueles dias que se marca eternamente na memória, sabe-se lá o porquê, talvez tivessem dado muita cafeína na hora do almoço, a pirralhada TODA que entrou na sala de vídeo – mesmo os mais novinhos – estava completamente fora de si. lembro-me também de, curiosamente, ser o dia no qual o colégio havia instalado um sofá novo lá, tentando diminuir o problema da falta de almofadas ou qualquer coisa assim, o que potencializou a merda ainda mais – novidade sempre trás desgraça.
o caos foi cinematográfico; pensando hoje, consigo imaginar aquela trilha de filme tocando na cabeça, Cavalgada das Valquírias sintonizando os atos encenados, enquanto umas cem crianças, por aí, todo mundo louco, de pé, malucando, gritando, atirando almofadas uns nos outros numa completa guerra sem controle e sem fim; gente pulando no sofá novo, berrando, todo mundo tentando se acertar e derrubar, parecia o fim da sala de vídeo como um todo: estava fadado que ninguém iria sair vivo daquela situação, tampouco os móveis, a TV, quem fosse, tudo seria destruído pela catarse louca.
enquanto toca agora na minha cabeça a trilha, recordo-me, também, das almofadas estourando uma a uma no meio do caos, algumas crianças mais histriônicas com um olhar encapetado beirando a psicopatia, atirando com mais violência e acertando os outros para machucar. os berros, seguidos das almofadas que estouravam, pautavam com naturalidade a animalidade que se seguiu: cada estouro garantia a vazada daquelas espumas e penas de enchimento, tornando o visual da tragédia ainda mais poético: era uma guerra de fato, organizada por crianças que perderam o controle das coisas.
com a merda toda acontecendo, a pobre funcionária que havia ficado de cuidar da sala de video naquele dia, simplesmente não tinha mais nenhum controle, desistiu e passou o rádio para mais alguns outros colegas que cuidavam do pátio relatando a situação; neste meio minuto de descontrole no qual o rádio informava e os funcionários corriam para o auxílio, a coisa escalonava pra algumas pequenas brigas, empurrões, talvez até um soco aqui e outro ali diante do já catastrófico ambiente entre penas e espumas voando, crianças aos montes em cima do sofá e a TV passando algum episódio de Homem-Aranha que ninguém ligava mais; a cena provavelmente era horrorosa; eu, lá no meio, pensando assim, óbvio, com meus amigos, estava curtindo tudo. eu era um dos agentes do caos. mas, anos depois, recordando os detalhes, quem viu de fora, como a funcionária, sentiu a desgraça na pele; até um certo medo de algo pior…
o problema só acabou quando chegaram mais outros funcionários, acompanhados de um dos diretores, que levou todo mundo pra salinha de detenção, sério, muita gente, enquanto davam uma bronca homérica nos principais organizadores do evento (ao menos quem eles imaginavam quem poderia ser); o diretor aos berros, gritando que ‘não se podia levar nada de novo para o colégio – provavelmente referindo-se ao sofá – que a gente estragava tudo’… era um pouco de verdade, sim, convenhamos, existia um clima de genialidade do mal em várias turminhas do São Manoel, talvez por ficar o dia todo bolando mirabolâncias que tentavam a todo custo sabotar todas atividades do colégio; mas esta criatividade, hei de admitir, fez adultos muito funcionais e criativos.
agradeço até hoje ao dia em que a sala de vídeo veio abaixo, a despeito do caos tomado e a merda toda que decorreu disso – inclusive com a interdição da sala de vídeo por alguns dias como punição -, garantiu-me algum tipo de memória que lembra as mais históricas guerras do mundo. em meio à violência catártica e os gritos, almofadas estouradas e sofá novo fracassado, tínhamos, ali, um verdadeiro Vietnã infantil.

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