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A longa noite dos museus – Porto Alegre version

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eis que este final de semana, no dia 21/05/16, rolou a primeira Noite dos Museus aqui na maior capital do mundo, a valorosa Porto Alegre. pra quem não conhece a parada, este é um evento europeu e que começou na Alemanha, mas já ganhou o mundo por aí e é feito em várias cidades; o objetivo é simples: numa noite específica, os principais museus da cidade ficam abertos de noite, com programação especial e tudo gratuito, numa certa integração entre diferentes instituições, pra galera poder irdes e virdes por aí aproveitando várias localidades e obras com temas específicos. não só isso, as exposições da(s) casa(s) contam com um pessoal da área para comentar & ajudar os mais leigos na percepção das obras com um ponto de vista mais adequado à compreensão da arte em toda sua magnitude. deu pra sacar, né?
o primeiro ponto que eu gostaria de comentar é: muito embora seja de fato um ‘evento artístico’, desde que se popularizou esta parada, a ‘Noite dos Museus’ – ou ‘a Longa Noite dos Museus’, no original – é um evento social. é só olhar as fotos por aí em todo mundo e perceber que, a despeito de rolar enquanto uma (grande) tentativa de integrar a arte de maneira exponencial para diferentes públicos, o propósito não para aí: a galera vai curtir, sim, as exposições, mas também vai curtir o clima de festinha, de gente reunida bebendo, pegação descolada e por aí vai; e também não há nenhum mal nisso: antes os jóvis aproveitando do lado de grandes pintores & músicos do que se drogando nas vielas, não é este o mantra? portanto, por mais que haja os conservadores chatões, haja o que hajardes, o evento de arte é, também e sobretudo, um evento social. digo isso porque é bom pautar a diferença para um manolo não cair de paraquedas achando ser um evento ultra-específico de críticos especializados e toda sorte de gente introspectando as mais diversas obras numa profundidade epistemológica-estética fodida; n’a Noite dos Museus até pode rolar isso, mas também vai rolar gente bebendo, gente conversando e nem aí pra arte, mas felizona de estar lá curtindo a vibe diferentona dentro dos museus.
voltando a fita para a maior capital do mundo:
COMO FOI EM PORTO ALEGRE?
dito o que havia de ser dito, vou seguir em específico no evento aqui de Poa; para isso, vou dizerdes o que eu acho que funcionou e o que não funcionou, bem resumido entre um tópico pro e um contra e eras isso. vamoles:
PROS –
o evento em si foi um tour de force certeiro, vá lá, vamos elogiar o curador, Francisco Marshall, a equipe de apoio e os patrocinadores, porque no que dependeu deles tudo funcionou digno, ainda mais numa cidade que há problemas severos ao saber utilizar seu espaço público de maneira não-tosca; talvez tenha dado alguma merda mais específica aqui ou ali, alguma briga, algum assalto na rua, mas isto são ferramentas do acaso que ninguém pode prever – embora, claro, estejam diretamente ligadas ao evento -, por fim, não é culpa da coisa em si.
no que dependeu deles, entre atrações convidadas, exposições, dinâmicas etc. tudo funcionou extremamente bem: os horários estavam bons, a agenda de apresentações estavam boa e calhou das exposições que já estavam ocorrendo nos museus condizerem com a expectativa do público: muita arte contemporânea e alguns artistas misturando técnicas clássicas com temas modernos, o que ajudaram a ‘facilitar’ a percepção porque, de certa forma, não havia nada um tanto quando descolado dos costumes de cada um que esteve lá. como não quero me adentrar nas questões técnicas por um simples caso de interferir diretamente na subjetividade de quem está ou esteve, o meu resumo, neste caso, é apenas na totalidade: as obras eram, em sua maioria (ao menos nos locais que eu passei), peças que facilitavam a compreensão do nosso tempo. aquarelas com temas atuais, muita fotografia, obra audiovisual, enfim, nada que se fundamentasse propriamente em estilos de arte mais clássicos. como o evento em si envolve uma certa velocidade de informação, foi da curadoria e da equipe também uma boa escolha às opções de museus colocadas: ajudou na coisa toda. não só isso, os eventos esporádicos de música, colocados cada qual em um museu, foram outro ponto alto; fora do circuito, mas ao mesmo tempo com muita qualidade para sair apenas da observação e completar a apreciação, também, interagindo com a muvuca.
os adjuntos que não diziam muito a respeito dos museus, embora lotados, também deram conta; diria apenas que faltaram locais de comida, pois claramente haviam poucos e, julgando que teve gente que chegou às 7 e foi embora passado da meia-noite, no mínimo um povo passou fome. portanto, mesmo que bons, deveriam ter mais umas barracas ou food-trucks espalhados, pra evitar a zoneira clássica de 40 minutos esperando na fila.

no mais, enquanto experimento, enquanto novidade, enquanto o fato de ser a primeira edição, o evento funcionou bem pra caralho, sim, no que dependia do evento tudo deu certo. mas aí vem a Prefeitura…

CONTRA –
rolaram vários ‘contra’, sim, e é importante comentar; primeiramente desassociar os objetos: TODOS os contra, no entanto, ficaram a cargo da pouca (ou nenhuma) vontade da prefeitura em auxiliar, porque claramente não houve NADA por parte do Estado que ajudasse a coisa a funcionar; lembrando que, enquanto evento totalmente gratuito, ainda assim, as pessoas gastam, consomem e, numa cidade onde carece de qualquer coisa – principalmente em virtude da crise, tudo é desculpa pra Prefeitura não fazer nada ‘porque não tem dinheiro’ -, aproveitar um evento destes, com custo quase zero e todo bancado em parcerias privadas, seria o ideal… mas, como sempre, ela nunca decepciona e falhou novamente e miseravelmente:
1) um dos maiores argumentos sobre este projeto na Europa e em qualquer outro lugar do mundo é a integração; portanto, é bem comum que em outras localidades sejam disponibilizadas linhas especiais de ônibus quando a coisa acontece, pra que as pessoas se locomovam na totalidade dos museus pagando pouco ou quase nada – na Argentina, se não me engano, quando rola em BSAS, inclusive, há uma linha de buso gratuita. notem que este pedido não é absurdo porque o evento: geralmente rola no final de semana, fora do horário de pico, totalmente alheio a qualquer incomodação; se a Prefeitura fizesse um acordo com QUALQUER UMA das cias., disponibilizando apenas UMA linha – até porque todos os museus do projeto na capital gaúcha basicamente ficavam numa linha reta, podendo contemplar em apenas uma avenida com O MESMO ônibus todo o percurso – e cobrando uma passagem ‘fechada’, um preço fixo inicial, ainda assim seria lucrativo, em virtude da parada TER BOMBADO PRA CARALHO; portanto, foi apenas má vontade mesmo, ou burrice, ou os dois: por não haver um transporte público e de massa, algumas localidades ficaram limitadas. como o caso do Museu Iberê, que tinha uma das melhores programações: lá não há fucking acesso nenhum, NENHUM, ou seja, só dava para chegar de carro ou de táxi; totalmente contra a ideia do evento, ser gratuito, pagar um táxi para ir para lá era apenas contraproducente; assim como logo encheram-se todos estacionamentos e o Iberê tornou-se uma ilha isolada inacessível para novas pessoas. quem foi, foi; quem não foi, não foi.
portanto, primeiro ponto baixo – e, novamente, não por culpa do evento, mas sim da Prefeitura: NÃO SACAR AS PARADAS; SER RIDICULAMENTE INERTE E NÃO DISPONIBILIZAR UMA LINHAZINHA ESPECIAL DE BUSO QUE FOSSE.
2) esta eu não sei com certeza, mas também estou apostando que teve relação com a Prefeitura e alguma grade de horários maluca: lá fora, este evento costuma entrar madrugada adentro. em Porto Alegre, capital mundial da surrealidade, o treco acabou… ali por meia-noite. se você pensar que haviam mais de cinco museus e mais de dez atrações, não precisa ser um paladino pra sacar que FICOU TUDO CORRIDO. mas por que não culpo a organização do evento? porque eu praticamente SEI que foi alguma opção maluca da Prefeitura limitando o horário, como tudo que rola em Porto Alegre, sabe-se lá o porquê tem de acabar cedo. note que, neste caso, nem haviam motivos: 100% dos museus ficam fora de rota residencial, ou seja, nenhum bairro ficaria vítima to tão malfalado barulho ou coisas do gênero. apenas acabou cedo porque, imagino, como tudo na cidade, a Prefeitura simplesmente não deixa e pronto: é uma cidade de véios pantufeiros, como eu já disse, seja feita a triste realidade.
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no mais, entre pros e contras, valeu a pena.
espero que a coisa se repita, sim, e que, mesmo em sonho, nossa amiga Prefeitura resolva ser mais PARTICIPATIVA no próximo, e não o boneco de posto inútil que é atualmente, abanando as mãos ao vento e esperando as coisas caírem do céu. dito isso, parabéns à equipe, novamente, porque tudo o que dependeu dela, funcionou e foi show!
phinalmente a cidade caminha perto das outras! fui!

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