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São Manoel, a área proibida e o portal temporal

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Eu já disse aqui em outras oportunidades que o São Manoel não ficava em cima de um cemitério indígena, mas todo mundo acreditava na lenda; de fato, isto é algo comum a todos colégios na infância: eles SEMPRE ficam em cima de um cemitério indígena, segundo seus alunos mais velhos. das duas uma: ou existiam muitos índios por aí em lugares ultra-específicos, ou na maioria dos casos é mentira para assustar a criançada. no caso do São Manoel, era mentira braba; isto porque o colégio ficava numa antiga pedreira – e essa é a verdade obscura.
quando você é criança, não faz a ligação óbvia… mas uma antiga pedreira é uma coisa MACABRA PRA CARALHO do mesmo jeito: pessoas devem ter morrido lá, pedras provavelmente caíram e esmagaram gente e é muito natural imaginar que vários túmulos improvisados foram criados, também, tal qual – ou ainda pior – que um cemitério indígena. mas essa é outra história; apenas comentei sobre a pedreira porque precisava situar a geografia da coisa neste meu novo causo.

atrás do refeitório – porque nós tínhamos refeitório, afinal, era um colégio de turno integral e as crianças geralmente faziam várias refeições lá – havia uma área de acesso restrito, apenas para funcionários e mesmo assim eles mesmos pouco entravam; era um local obviamente cobiçado, na cabeça dos alunos, embora não tivesse nada realmente interessante além de sua geografia (e por isso que ninguém entrava, nem mesmo quem podia).
nesta área, enquanto aluno, o acesso era totalmente proibido. para vocês, leitores, poderem imaginar melhor, em quase 8 anos de colégio eu consegui chegar naquele local uma ou duas vezes no máximo. mas é importante lembrar de lá, justamente para contar como um portal temporal surgiu no colégio! mais importante ainda, lembrar que o colégio havia sido erguido em cima de uma antiga pedreira; isto porque esta área, que só os funcionários podiam acessar, era o único local no qual ainda se lembrava um pouco do passado; o colégio fora erguido na frente do que havia sido removido das pedras (ao menos é o que eu consigo pensar), portanto, nós, alunos, quase não víamos as paredes gigantes de rochas outrora retiradas artificialmente e criadas pelo antigo trabalho: era apenas naquele acesso estrito, ali, atrás do refeitório naquela portinha proibida, que se abria um corredor estreito entre as colunas de cimento do colégio e um imenso paredão rochoso do outro lado – muito bonito, diga-se de passagem, com rochas maciças e concretas, muita umidade dando um efeito cenográfico surreal, misturando musgo, alguns pequenos declives molhados que, em dia chuvarada poderiam, inclusive, formar mini-cascatas e coisas do gênero – criando um ar ainda mais inusitado para aquele pequeno acesso; era a desculpa perfeita para aflorar a imaginação de qualquer criança, colocando a prova sua criatividade ao lidar com um cenário clássico de filme – ainda mais depois do lançamento de Goonies, que passava em ambiente extremamente semelhante… mas, infelizmente, os alunos nunca podiam acessar de fato. e isso ajudava a aumentar os rumores e toda a vontade por volta de fazer algo proibido.

o meu causo começa justamente aí: quebrando barreiras; um colega meu, nos áureos anos da infância mágica, ainda bem novo – se não me engano na segunda ou terceira série, onde tudo é possível na cabeça – contou um segredo para mim e para outro colega, ambos amigos mais próximos. segundo o que ele disse, por ter um ‘objeto místico’ (era um desses colares hippies de feira, sim, inegável que fosse outra coisa mesmo para uma criança), havia conseguido fazer um desejo com poderes reais e a mágica tinha aberto um portal do tempo, bem naquela área obscura do colégio – e este portal permaneceria aberto apenas por um dia. nós, então, escolhidos, tínhamos que acessar aquele local e finalmente chegar ao portal: daí em diante seríamos transportados para onde quisessemos na história do homem. admitam… na cabeça infantil, algo tão exagerado parecia plenamente plausível… e lá fomos nós embarcar na onda da coisa.
antes de adentrar a aventura, ficamos uma manhã inteira, no meio da aula, armando preparativos que nos ajudassem a enfrentar os problemas do outro lado do portal: armas feitas de papelão, além de um canivete que um de nós mantinha preso no chaveiro e sabe-se lá como nenhum diretor nunca reparou; frutas roubadas do primeiro lanche do dia, guardadas numa mochila e, enfim, tudo pronto para invadir a área e finalmente viajar no tempo. nada mais bastava senão pequenas clavas de papel, um canivetezinho chinelo e meia dúzia de frutas: tudo pronto para conhecer a humanidade e resistir a qualquer intempérie hostil que pudesse ocorrer. era mais um plano perfeito!
—–
o almoço era a refeição mais caótica, justamente por ter maior quantidade de gente e comida no mesmo espaço – todas as turmas e todas as séries sentavam juntas -, o refeitório SEMPRE ficava tipo refeitório de prisão, com brigas, gritaria demais, comida caindo e todos os funcionários enloquecidos tentando conter a arruaça e acalmar os ânimos da criançada (pensando assim, era pior que uma prisão; um monte de crianças reunidas são, logicamente, muito piores que condenados da justiça). era o momento perfeito para nós, então, que tínhamos a facilidade da distração armada pela confusão total, driblar o impedimento à area e poder entrar naquele corredor que agora escondia um portal mágico.
não deu outra, com o caos, o pouco número de funcionários para o grande número de desordem, a primeira parte do trabalho não foi difícil de concluir: a porta era fácil de se chegar – embora proibida de acesso -, da mesma maneira que fácil de todo mundo ver e, portanto, óbvio demais quando qualquer criança invadisse; entre um grito e outro, pratos derrubados e berros incontroláveis nas mesas, quando o curto tempo se abriu em uma oportunidade única, nós três acabamos virando a maçaneta e adentrando – cheios de si, claro, duvidando que alguém mais tivesse visto, embora provavelmente todo colégio tenha enxergado o absurdo.
caminhamos pelo longo corredor que realmente se parecia muito com a cena de um filme: o som de gotas tocando na parede rochosa tal qual uma caverna, a área que ficava mais escura cada vez que se afastava mais e mais da porta de acesso, as plantas úmidas que se formavam nas pequenas rachaduras das rochas; seguimos, seguimos, seguimos, até o fim. mesmo ainda por volta de meio-dia ou meio-dia e pouco, aquele lugar já era tremendamente escuro e frio, nem parecendo com o conforto de todos os outros locais do colégio; porém, continuamos seguindo até o final do trajeto e: nada. porra nenhuma de portal, sem viagem do tempo mágica, sem conhecer a história do homem em outros momentos, sem uso de clava e tampouco canivete, para nossa tristeza… alguma frustração, minutos de insatisfação e resolvemos voltar para o refeitório, mesmo com o espanto de finalmente acessar uma área tão pouco conhecida de nós mesmos, a tristeza de não ter o portal havia abatido todo mundo.
quando nos demos conta, já na volta, obviamente, já tinhamos sido descobertos: dois funcionários nos esperavam na porta, com bronca, desgosto e punição: por fim, ficamos sem recreio, sem o maldito portal, com um bilhete na agenda para os pais pela invasão e, talvez o mais importante, aprendemos a não confiar em colares mágicos vendidos por hippies!
ao menos alguma lição acabou sendo aprendida…

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