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Black Starman Bowie – ou: porque perdemos a maior estrela do século

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Eu demorei para escrever este texto por vários motivos e, dentre eles, alguns principais: o fato de estar, mais uma vez, postando simultaneamente em dois blogs – o que me levava a tratar sobre o mesmo tema com duas razões distintas – ou ainda que eu achava extremamente necessário desassociar a morte dele, David Bowie, à homenagem estritamente pessoal; digo isso porque sinto, vejo, observo um entrave quase lógico ao próprio artista, sobretudo neste momento ao efetivamente deixar de ser carne e ícone para virar apenas o ícone, ou em como as pessoas lidam com isso de um modo extremamente simples por tentar reverter a si – claro, entende-se o luto da figura – mas em tratar a ocasião como um símbolo familiar, que a perda se transforme em um momento de discussão sobre si mesmo. É óbvio que gente como Bowie construiu identidades, identificações sobrepondo em muitos aspectos a racionalidade mas, ao menos no que penso, a compensação da perda pelo ‘eu’ é algo desnecessário ou sobrecarregado: todo mundo vai ficar triste, afinal, então o que importa? Dizer que X ou Y identificaram um momento da própria vida, que determinada música marcou, nostalgia particular representa exatamente isso, que ela seja particular – e não pública. Portanto, pensei bastante em estabelecer pontos e motivos e tentar escapar do óbvio; eu não queria uma homenagem póstuma, mas uma discussão póstuma. Ainda mais se tratando da figura em questão que tenho para mim como a representação máxima do século – vê-lo morrer desde já se transforma em símbolo justamente por isso, como se finda nosso momento numa mudança de era, o antes e o depois de Bowie.

Em primeiro lugar, gostaria de iniciar pontuando a minha observação, estabelecer disso a partida para o resto: o porquê de David Bowie ser uma figura tão importante ao mundo, sobretudo para a cultura Ocidental, colocando-o no patamar que julgo necessário ao mesmo. Talvez seja esta partida, o começo, inclusive, mas também o fim do argumento: é complexo estabelecer em termos simples, num pequeno texto, onde e o que Bowie fez – e, ao meu ver, mais do que outras figuras as vezes mais reconhecidas dentro da música contemporânea. Eu coloco primordialmente a importância dele não como o resultado, o objeto artístico que tantos louvam, embora seja quase irreparável uma carreira de músico com tantos sucessos mas, ainda assim, isto é menor; no mesmo balaio estariam os filmes, as vezes curiosos, as vezes estranhos, mas sempre marcantes. O ponto é estritamente este: em toda sua vida artística, a ‘figura Bowie’ foi um caráter que e, a despeito de toda qualidade, o importante, o mais importante, era justamente em se reconhecer ‘a figura’, o objeto individual, para daí entender como tudo conseguiu ser irretocável como é; note que a postura da criação, ou até antes disso, uma visão artística hegeliana e de outros que escreveram sobre o assunto, numa síntese ideal da arte como um produto espiritual – que não natural – por vezes uma impressão dos significados compreensíveis no espírito da época e que ela, seus objetos artísticos, estabeleçam uma função ao compactar propósitos que representem aquelas sociedades que estão lá naquele período, no tempo em si; o resultado é muito mais uma compreensão de elementos históricos e sua função ao longo da passagem do que propriamente ‘uma obra isolada’, ou ‘obras’. Dito isso, somando a fragilidade da efemeridade disposta no mundo contemporâneo, que as mudanças se tornam mais profundas, rápidas e radicais, ainda mais com o advento da internet, é claro que isto se torna algo importante à arte também, sua expressão e seus meios, bem como os artistas envolvidos nisso. De certa forma, foram poucas – ou nenhuma – figura tão contundente nos últimos 50 anos como Bowie foi, não apenas exercendo influência direta nestes elementos, sintetizando todos nos seus estilos ao ressignificar a si em diferentes fases, personagens, mas também como um grande CRIADOR deste estilos que se pautaram através dos mesmos significados: foi ele muitas vezes a ‘língua do Ocidente’ – e daí que, diferente do camaleão, que se adapta ao ambiente, ele determinava o ambiente. David Bowie foi o pai mais proeminente, sobrevivente, diferente daquilo que veio a ser a ‘cultura pop’, não apenas como música ou gêneros dispersados orientados sobre este nome, mas um grande criador de tudo: tanto na sua sonoridade como também em estética, discursos, formas de trabalho.
Recorrendo novamente a Hegel, ao espírito da época, como e de onde se formariam os elementos que representariam tão bem um determinado período de tempo? No nosso caso, no Ocidente, nas últimas décadas, nada foi tão ou mais ‘boweiano’ que o próprio homem que surgiu a partir da visão do criador; ora como recurso de moda, música, cinema, artes no geral, de pensar, de ser, discussões de gênero, enfim, tudou ou todos passam essencialmente por uma figura unificada de um indivíduo que não apenas antecipou estas questões, como também criou muitas delas determinando nos seus personagens os significados simbólicos que pretendia, ou imaginava.

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Aqui, um ponto importante: Bowie foi um ‘homem da arte’ completo justamente ao explorar por ela o que pretendia como discurso; ele fazia de toda sua complexa colocação de motivos, indivíduos, um emaranhado de criações onde e poucos conseguiram de maneira tão genial aplicar uma linguagem sútil mas tão pungente – afinal, ele não precisava ser explícito longe da própria expressão artística (e isto se confirma na sua morte surpresa; o público não esperava), ele não exagerava ‘como Bowie’ (aos olhos da câmera, claro, daquilo que víamos), mas como ‘os personagens de Bowie’, de modo que tudo o que se criava era através dele, mas também independente dele – para o mundo, a independência da criação. Bowie DEU VIDA à arte, por assim dizer, explorando nas suas criações o que pretendia como linguagem, uma identidade através de seus personagens, de um jeito tão sublime onde seus personagens são, em si, aquilo que Bowie queria longe deles. Por isso sua estética visual, essencialmente ela, se torna algo tão marcante: é nas imagens que vemos a formação destas mensagens de maneira mais simples, aquelas figuras onde ele coloca toda sua ‘cara’ e consegue também o maior número de réplicas – o que Bowie via antecipadamente, por sua vez, passava a ser os olhos do Ocidente após suas visões – e, mais uma vez isso, agora na morte, com essa mistura sui-generis de ‘despedida’ e agradecimento em forma de cd / clipe. Ele magistralmente exclui de si mesmo a responsabilidade de um indivíduo pessoal, figura ou objeto – e aí porque eu critíco, também, estas homenagens póstumas pessoalistas – pois se coloca como uma figura da arte, que ele é o objeto ao lançar sobre o próprio luto um pretensioso (mas ótimo) funeral antecipado em despedida do ente no mundo físico. Um artista tão denso que tentou exercer influência, poder de linguagem, até naquilo que ele não poderia ver por não estar mais aqui.

O que vemos dele, por isso, é a generalidade em uma pessoa só de muitas coisas que queríamos ou tentamos ser, assim como outros artistas até mais famosos tentaram também: ele, inclusive, por suas constantes mudanças, subtrai a fórmula da ‘linguagem do artista’ ao se identificar com um devir ou ‘linguagens’, onde ele é um múltiplo, um emaranhado, um montante de construções onde nenhuma é melhor ou pior e, como a atualidade, na representação de elementos da história, se torna rápido, diferente, reconstruído, se transforma nas possibilidades que ‘podem ser’ e não as que ‘já são’. Bowie constantemente ‘destruiu a si mesmo’, desmoronando suas imagens, seus preceitos, justamente para se reinventar – daí sua importância antes da obra, mas como processo, ele é mais genial por ver o futuro, o amanhã, e transportar isso a si mesmo. Por mais que muitas vezes soasse talvez estranho, ou extremo, ele fez da sua figura este cenário de experimentações insanas e infinitas onde se refletiu de todo modo o pensamento Ocidental além de, claro, a estética visível no mesmo: Bowie foi um pai de todos, ou até o pai dos nossos tempos, aqui, numa dissociação do conceito hegeliano – por ser mais ao longo do processo ele não se constituiu como elemento da época, mas como o criador da época. Ele É o espírito da época.

Entre estes motivos e também por eles, enxergo não apenas a importância da figura nos seus elementos separados, mas como um todo, como ele influenciou e ainda vai influenciar o que conhecemos como a representação de mundo; há, por isso, um ponto importante: não basta a homenagem pessoalista, como disse, isso se torna irrelevante. O mais importante é a compreensão de como um homem se torna ‘O’ homem, para poder observar como todos nós por isso nos tornamos reflexo dele; há nesta retórica uma filosofia da mortalidade oculta no discurso: ele não era maior ou pior que nenhum de nós e, portanto, poderia ser qualquer um de nós. Como mea culpa, ou de todos, devemos pensar exatamente sobre isso… a maior homenagem à Bowie, ou outros bons mas inferiores artistas, não está na perpetuação diletante de um legado já constituído e óbvio, mas na execução de seus passos para o caminho de um novo legado; por que eu gosto tanto de Bowie, afinal? Nem tanto quando músico e tampouco artista, eu disse, sobrepõe à idéia elogiar obras como resultado; o objeto é significativamente uma constante de ações, de objetivos no qual este resultado é a única trilha possível. Daí que o que me importa nele é o misto de humildade nunca dita, pois todos somos iguais, ao mesmo tempo de anti-humildade, pois ele se forma como mito, ícone por não ser como nós; ou seja, TODOS poderíamos ser Bowie, ao mesmo tempo que ninguém foi, figura essencial feita por ser único – mas também compreendendo que a importância do processo é em si mais significativa, porque é nela que reside a grande figura, a ‘criação bowieana’; ele se constrói ao extrapolar os limites da humanidade, ao menos do homem médio, expondo-se na arte, ou em outras criações, como algo além do que é, muito mais que humano, ele é obra, a figura, o personagem, representando na própria vida neste momento através de entender que ela é exatamente isso: uma representação e nada mais.

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Bowie nunca escondeu sua capacidade em negar o único personagem no qual ele queria, que era ele mesmo. A maestria por trás de sua capacidade criativa, de sua força em consumir de maneira tão sublime que as coisas se comportam como ele queria estava justamente em notar o amanhã: ele nunca se contentou com a unidade ou a segurança disso, com ele como algo sólido, mas sim em ser um mutante através da possibilidade de fazer mais e melhor adiante, a capacidade de errar – por vezes ele errou, também, principalmente no cinema – mas tudo em um vislumbre de ‘nunca ser o mesmo’, ou ser igual; ele é o fruto de uma compreensão muito audaz na psicologia humana em que muitos de nós ainda não estamos preparados, principalmente na temporalidade do presente, ao lidar com a realidade que, ironicamente, não existe realidade – apenas representação da mesma. Portanto, se vivemos as custas de um Ocidente onde há um pai, uma figura, isto se dá por sua capacidade em utilizar ‘o mundo’, ao menos o nosso mundo, como material para sua criação: se ele sempre soube separar a vida da arte, também soube confundi-la, colocando em camadas uma à outra; ele era sua arte, mas ainda mais importante, ele REPRESENTOU sua arte no mundo porque e, como tal, apenas para isso estava ali, como um enorme material, um grande objeto como se o todo, esta bola gigante flutuando no espaço, fosse apenas um interminável palco; por isso, talvez, a sua maior genialidade: compreender a vida através dos diferentes olhos que ele se propôs a ser; como um extraterrestre em seu grande primeiro ato, isto o ajudou antes de todo mundo a se libertar de tal maneira que pudesse ‘olhar nos olhos humanos’ como se não fosse um. Ele viu o passado, o presente e o futuro de maneira que pode fazer as mais variadas escolhas ao ponto de condicionar a excentricidade do próprio extraterreste em realidade: a Terra, por fim, um ‘planeta boweiano’ e não mais nossa.

Digo aqui, novamente, que devemos saber louvar estes motivos e não como objetos pessoalistas egoístas; pouco importa que chorou ou quem chora, pouco importa quem se toca por determinada canção, mas sim a expansiva e absurda liberdade da figura: Bowie foi, para mim, o único super-homem de Niestzche contemporâneo e possível, justamente porque transvalorou qualquer significado à imagem do Homem, ainda mais da moral, confundindo vida e obra em um projeto extremamente delicado e inovador, mas ainda mais importante, um projeto de desconstrução; não sobrava ‘um Bowie em Bowie’, mas essencialmente a capacidade de jogar fora tudo e se reconstruir: eis aí o auge da inovação destruidora, como propõe Luc Ferry, um ensaio em vida de algo que nos leva para o futuro; na figura de Ziggy, ou dos anos em Berlin, ou do atual, ou dos personagens no cinema, Warhol, quem for, ele soube que, para delegar, criar, pautar a linguagem Ocidental, era preciso que ela fosse multidimensional, um emaranhado de novas e constantes mudanças; por isso o homem que se refez várias vezes, como o tempo, inclusive, ele não estava parado em suas bases, mas inserido na necessidade de um devir complexo em se renovar sempre que necessário. Aprendemos e então teremos absorvido o mais importante: o que fez de Bowie o mito? Que pouco importa exatamente isso, SER uno, ‘o’ Bowie, mas sim em ser uma passagem heraclitana, mudar, destituir, não parar nunca; o que fez o mito foi, sim, não querer ser um, mas vários, todos, uma constante potência ocupadora, uma ressignificação de personagens. Porque soube explorar a vida como ela haveria de ser, por trás das cortinas, um imenso palco infinito no meio do espaço… em pessoas finitas.

Um pensamento sobre “Black Starman Bowie – ou: porque perdemos a maior estrela do século

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