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chatô: um conto pelicular ufanista

coube a mim, no auge dos meus já anos de velhice,
careca e cansado de tantas e tantas
andanças.
alçado entre o amor & ódio de uma terra contraditória,
nutrindo tantos e tantos
momentos discrepantes,
a mensagem que veio a calhar, alguém havia de dizer,
ora, não poderia ser outro senão eu:

– cá estou & anuncio a vocês,
amigos e irmãos, ó sobreviventes brasileiros!

mas antes de começar, importante para o que tinha n’alma
era dizer a verdade.
não mais que ela e tão somente ela,
depois de tantos e tantos anos,
era importante a todos para nós, eu incluso,
compreender do que isto tratava;
um breve momento de honestidade
para com aqueles ouvintes:

– e vocês que aqui estão me vendo,
em cima dessa velha caixa de feira –
talvez a última lembrança do velho país –
vos digo algumas verdades!
alguns ou outros talvez não
queiram ouvir,
mas eis que me resta essa difícil missão.
coube ao último intelectual livre
esta difícil tarefa…

a idade me calejou entre tantas e tantas
coisas.
tantos e tantos momentos do país,
ou minutos passados, quantas vidas eu fui
em uma só,
tudo preparado para, por fim, culminar
em estar lá, aquela hora,
fazendo aquele discurso, talvez o mais importante
da nossa história recente.

eu não me julgava grande homem,
tampouco articulado para este tipo de coisa,
ou sequer bonito – e nestas horas
é importante ser assim.
mas, pela falta de motivos ou até de pessoas,
coube a mim mesmo, ninguém mais
poderia assumir a bomba
senão um dos últimos sobreviventes letrado:

– é por este microfone, por esta voz,
ó amigos & cidadãos, vocês poucos
que restaram e cá me olham,
cá observam e ouvem a minha também
abatidada & cansada voz,
que vos digo algumas coisas
no qual já deveriam ter sido ditas
há algum tempo…

importante, antes de continuar, claro,
situar como estava nosso país naquele momento
e porque precisou de tal discurso;
porque eu tão simples & tão pouco,
alguém como qualquer, um pouco melhor,
um velho acadêmico versado apenas
no mundo dos livros,
no auge da irrelevância dos anos em
uma escrivaninha empoeirada,
agora lá estava, sobre uma velha caixa
como num palanque real – se em outro momento
assim fosse – discursando para a massa;
nem tão massa assim, diga-se, poucos
e vencidos pela fome gatos pingados:
mas era o povo, afinal.
era aquilo ou nada, dentre tantos e tantos
anos, o que havia sobrado de tantos de nós:

– a primeira e talvez mais importante
coisa a se dizer,
é que, dada nossa situação, amigos & cidadãos,
que cá estamos na mesma situação,
há de se comemorar, por fim,
com breve felicidade: sobrevivemos ao pior!

[aplausos]
[gritos]
[euforia]

mas você, leitor, deve estar se perguntando,
afinal, do que se sobreviver neste país tão pacífico?
com tantos e tantos impostos, sim,
nossas triviais e costumeiras injustiças,
mas sempre querido e amável, por que
em algum momento não mais seríamos assim?
a resposta está em um filme:

Chatô, o rei do Brasil.

[aplausos seguem]

eu sigo:

– e sobreviver, dadas as condições
de fundo de poço em que nos me metemos,
e eu preciso falar assim, de modo grosso,
para vocês verem com olhos reais
o que fizeram; e mesmo quem sobreviveu
também foi parte – é bom lembrar –
de que, infelizmente, tudo foi
a mais nossa culpa!

[aplausos, porém diferentes;
reconhecendo os erros;
aplausos de culpa]

muitos que agora estão aí no passado, como você que lê,
e não tem capacidade de olhar o futuro,
dirão ironicamente que este filme
nunca saiu.
mentira.
não só isso & muito mais do que isso,
além de sair, seguiu-se da mais surreal
história carpenteriana possível:
cinemas & cinemas lotados de tantas e tantas
pessoas para ver. muitas pessoas viram,
talvez todos cidadãos, quem sabe, sim,
para mim passado e para você futuro:
o filme foi e vai ser um sucesso,
ao mesmo tempo.
enquanto isso eu volto ao público:

– e não só culpa nossa, caros companheiros
e cidadãos, vizinhos, amigos, quem for,
irresponsabilidade em não perceber,
os males quando eles tomaram
conta do corpo!

voltando a fita, digo eu agora, talvez
tenha sido inexplicável.
como aquilo foi lotar?
como tudo se sucedeu?

não importa, enfim, daqui o que sobra
foi o efeito catastrófico seguido;
todos viram, sim, 200 milhões de pessoas
que viram e piraram e sairam de si,
ensandecidas, sabe-se lá o porquê,
sabe-se como aquilo causou,
entre tantas e tantas películas
foi Chatô o motivo de quase extinção:
violência & revolução,
sem causa ou motivo, apenas a cabeça
que quem viu, não mais foi a mesma.

pessoas na rua correndo desorientadas
e agressivas, se batendo e se matando.
queimando, quebrando e consumindo
sabe-se lá que tipo de droga ou o que
aquela obra causava, mas deixou todo mundo
louco! todo mundo insano!

Chatô tentou matar o país!

esta terra que me ufano ficou maluca, insana, desorientada –
ninguém estava preparado para suportar
tantas coisas ou tão estranha projeção,
tal qual foi o efeito daquilo, não outro
possível senão a violência que se sucedeu.
e mortes e pessoas e saques, correrias,
noites sem dormir, minutos de gritos e horror,
a polícia que sucumbia e governantes –
vamos admitir, eles nunca foram eficientes –
porém ninguém estava preparado
para Chatô. e eu seguia, agora, no palanque ou caixa:

– fomos vítimas, mas também
nos deixamos levar!
aceitamos a doença, sim!
fomos nós que, ao final, fizemos
tudo que agora negamos,
ou tentamos reconstruir…
… oh, amigos e sobreviventes,
somos os filhos de algo que
não estávamos preparados
ou sequer imaginávamos.
mas fomos nós mesmos que
construímos o inesperado –
tantos e tantos atos
para chegar a este anúncio, que é
a segunda coisa que devo dizer!

talvez nem quem fez esperava, vai saber,
foram coisas tão loucas e momentos
tão intensos que ficaria difícil
experenciar tantos e tantos
motivos de maneira sensata.
o que eu posso dizer?
o filme abalou e destruiu;
renovou e reconciliou o tupi,
nós, bicolores do pé, conosco,
da maneira mais impensável possível.
destruiu amarras e constituiu uma nova
verdade:
o poder de Chatô, que pos fim ao velho
país,
e derrubou presidentes, instituições,
incendiou governos e matou ricos & pobres,
na mesma proporção – democraticamente,
finalmente haviamos visto uma democracia
plena:

– e assim que anuncio, já sei
que vocês esperam pela segunda coisa;
muitos já sabem ou desconfiam,
então não se trata de mistério!
não se trata, também, porque poucos
ou quase nenhuns sobraram para isso.
mas precisamos, mesmo assim,
caros amigos e cidadãos,
embora apenas eu, com minha velhice careca,
tenha aqui sobrado para falar,
o último escritor, pensador livre do país,
ainda assim, reconheço:
como nova democracia, precisamos
de um presidente.
e é por isso que, como esperado,
o segundo anúncio é isto mesmo,
nosso novo presidente!
claro, amigos, poucos deste solo
que agora sobra,
não mais em sangue ou loucura,
eram elegíveis!

[aplausos]
[gritos]
[festejos e algumas serpentinas]

– neste momento de nova paz
e da proibição da execução
do filme Chatô, após drática redução
de pessoas por morte ou violência
inexplicável,
sobra apenas a ele, o criador
da nova ordem, presidir esta bagunça!

[mais aplausos]

– e é por isto que anuncio, agora,
que nosso novo presidente, ou rei,
ou como quiserem chamar – haja vista
que não existirá mais quórum para nova eleição –
só poderia ser ele, com seiscentos votos
a favor e trinta contra,
Guilherme Fontes assume o país!

e foi assim que a crônica de um tempo
e de uma nação terminou, em ascendência
ou morte, ou como for, aonde quiser,
na inexplicável ansiedade de se estabelecer
como algo, como força, como momento renovador,
nosso querido solo tupiniquim, por fim,
se sabotou em guerra – por causa de filme –
por causa de arte, matamos e morremos,
fomos brutos e sanguinários, ceifamos os milhões
para sobrar poucos, porém, duros, calejados
e sobreviventes: a nova cara de um estranho conto,
onde todos morrem & poucos vivem.

e que resta ele, impávido, pálido,
colosso, subestimado & rejeitado mas, ao final,
rindo, enquanto toma a faixa,
assume como presidente, ou rei, sabe-se lá
como iria funcionar a coisa toda, e uma camisa escrito:

– vim, vi, venci.

fim.

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