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As 5 melhores músicas clássicas de todos os tempos e dois bônus

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Schopenhauer exercitou sua escrita comentando o poder inabalável da música, a relação com o Ser e a supressão da Vontade através da arte mas, em especial, da arte musical. em suas muitas divagações, talvez tenha sido o filósofo que trouxe mais poder à música; estruturalmente podemos discordar – principalmente quando Schopenhauer correlaciona aspectos sonoros aos exemplos da natureza humana, ora mais bruto ou biológico, ora mais distante e, portanto, sobrenatural – acima do homem, mas não neguemos o poder dessa arte aos seres e o que o filósofo em questão quis dar significado, principalmente sobre a música clássica.
vinda de uma época no qual a distância entre artes era aparente pela sua execução, talvez seja o primeiro sinal de ‘arte em movimento’ em grande escala, isso porque qualquer peça sonora necessita constantemente da passagem temporal como manejo de sua criação, não podendo existir em um momento, em uma estrutura rígida, mas apenas no decorrer daquilo que já foi e ainda está por vir: a música é um todo elencando no suspense, do que nos brinda no momento já executado… mas também daquilo que moldará os próximos momentos para, por eles, criarem a unidade, a composição completa e a obra final.
quando vemos solidificar a música clássica no período que surgiu, temos de entender que, antes de tudo, a expressão dos artistas transmite algo que não se poderia de outra forma naquela época; não se existia vídeo ou nada do tipo, como dito, talvez a primeira ‘arte em movimento’ por completo, ali, a música exercia um efeito sublime em compreender um espírito, uma série de significados moldados em sequências de momentos – não apenas um; talvez inclusive por isso, a música clássica tem um poder tão rico em construir cenários, situações, vivências, porque era essencialmente a maneira a se expressar dessa forma ao tentar constituir cenas completas através da sonoridade, no devir de suas mudanças, a maneira encontrada de se transmitir um homem que vive em constante ciclo.
na ficção criada em Laranja Mecânica, o personagem de Alex DeLarge por mais de uma vez mostra a sua paixão pela música; entre outras coisas, ele descreve que não consegue relaxar com a mesma, que uma boa música o deixa ‘afiado como uma navalha’; embora ficção, eu não poderia concordar mais com isso. há determinadas peças eruditas que misturam uma gama de sentimentos entre o prazer e um efeito catártico intenso, como se o compositor quase tocasse na alma de forma a separar o Ente do Ser, tornando o corpo algo supra-humano e capaz de tudo, ali, naqueles poucos – ou muitos – minutos de composição. e é por isso que eu resolvi escrever um post sobre as minhas 5 músicas clássicas preferidas, com dois bônus. sem mais delongas, segue:

1 – Cavalgada das Valquírias (ato III), de Richard Wagner

o sentimento expresso nesta música é resumido perfeitamente no número de vezes que ela foi utilizada no cinema com as mesmas funções; se alguém conseguiu extrair com exatidão uma construção tão bela na arte, foi Richard Wagner ao criar este movimento. não se precisa sequer conhecer o contexto mitológico e tampouco do trabalho como um todo da ópera, haja vista que o que ele pretende transmitir é tão evidente que a canção fala por si só.
a utilização dos momentos espaçados entre muitos e poucos instrumentos, a confusão inicial expressa na mistura de sonorização cíclica e cadenciada para um arranjo em quase crescendo de passagens iguais – mas incluindo novos ou mais efeitos ao passar na mesma melodia, ora com o silêncio pontuando início e fim – retrai toda ideia posterior do combate, o prazer brutal por trás da música que é dura, é um aviso da violência humana que nunca acaba; os sopros anunciam a exponencial força da ocupação, elas estão lá justamente para isso, para elucidar a chegada pomposa do que se espera – uma grandeza quase divina – enquanto o fundo do palco não nos deixa crer na calmaria por causa de seu grave intermitente; é na situação mais tensa dos instrumentos agudos ouvidos por trás dos metais que nós sabemos do que se trata, essa música NECESSITA movimento, um constante correr, seguir um percurso e, tão somente CAVALGAR. o sentimento da vitória emanado é o ápice da possibilidade nisso, do olhar superior diante de se encantar com uma cavalgada perfeita, por assim dizer, de seres não humanos, melhores, maiores, a serviço dos deuses – ou os próprios deuses. Richard Wagner praticamente criou seu mito próprio.

2 – Abertura da Sinfonia n.09 em E menor (Sinfonia do Novo Mundo), de Dvorak

a calmaria inicial é seguida por um chamado grave de cordas e percussão que, enfim, anuncia exatamente o contraste neste movimento e que, por sinal, explicaria todo o sentimento de Dvorak ao compor a “Sinfonia do Novo Mundo”; logo após o anúncio seguimos em um exalar de sentimentos equilibrados justamente nos extremos de sopros e metais transparecendo uma tranquilidade forçada, enquanto a percussão tem apenas a função de destruir e embolar qualquer continuidade ao lidar com essa calmaria. nada mais ‘Novo Mundo’ poderia ser senão o sentimento de choque, daquilo que não esperava por Dvorak no ‘Velho Mundo’ e, portanto, exatamente como expresso no seu primeiro ato, no equilíbrio em aceitar momentos belos, limpos, definidos por seus agudos arrastados e poéticos, quase como numa valsa, transitados pelo choque dos graves liderados pelas batidas da percussão fatídica e seus instrumentos de cordas mais carregados. na sua canção, aí está, sob a forma de sons e ritmos, tudo o que esperávamos ver de uma mudança de casa e de situação, expressa muito bem no decorrer de Dvorak ao interpretar através de contrastes como lidar com isso.

3 – Abertura do Concerto Para Piano e Orquestra No. 01, de Tchaikovsky

embora este movimento destoe do resto do concerto, é notável a ‘beleza isolada’ dele não como algo composto para um todo, mas como uma peça maravilhosamente perfeita em si. o anúncio inicial forçoso e extremamente grave sugere uma canção pesada, indelicada e com um viés quase militar como a apresentação a algo rude, bruto, transitando na ideia de que ouviremos um tema de guerra ou vitorioso. porém, o que se segue é a maestria de Tchaikovsky em construir uma bela passagem entre pianos e cordas extremamente doce, quase como numa canção de jazz moderna, numa mesa de bar, a tristeza evidente emanada do piano – seu principal elemento – é também poética demais para podermos ignorar: embora a infelicidade expressa no solo, ainda assim, uma infelicidade expressa de maneira bela, pura quase como se as notas estivessem clamando pelo choro de alguém.
o discurso disposto na peça nos mostra que, mesmo no que se segue de algo em si impositivo, uma infelicidade, o autor faz de toda forma a tradução na construção de que isso não seja propriamente triste, mas um momento de apreciação; daí o apoio tão glorioso das cordas, do agudo em parecer tudo tão intenso, gigante, enquanto o piano e os metais traduzem o lado depressivo e subjetivo dos movimentos, seguidos pela profundidade do palco em se perceber numa composição maior e mais detalhada do que apenas a solidão de um instrumento.

4 – Abertura de O Guarani, de Carlos Gomes

fosse Carlos Gomes gringo, esta obra não estaria imortalizada em um programa de rádio que ninguém gosta, mas sim em todos os livros sobre o assunto como ‘uma das maiores composições de todos os tempos’. é engraçado porque justamente a ideia da estranheza diante da história ao qual ela pretende contar, a versão indígena através de algo que até então era puramente europeu – a música clássica – a torna uma construção musical diferente em si.

a maneira como ele dispõe da abertura propõe uma volta entre elementos tão contrastantes e, por dizer, distribuídos de maneira tão sui-generis, como no caso dos sopros, metais e pratos logo de início como se estivesse finalizando um compasso, seguidos por um instrumento de sopro mais doce mas que não é propriamente agudo, de som amaciado, trabalhando uma sonoridade média, equilibrado com a intromissão insistente da chamada inicial dos sopros, metais e pratos, demonstra na colocação a ideia feita por olhos estrangeiros, o aspecto nacional em lidar com uma música diferente e, sendo assim, na própria sonoridade ao constatar a história de indivíduos – no caso, os índios – não acostumados a serem interpretados em tal tipo de música tão europeia. daí, segue-se a beleza posterior e calmaria na perpetuação sonora mais lenta, notas alargadas que logo são suprimidas pela instabilidade de arranjos estridentes e conturbados: novamente, a recriação da paz ao contato natural, a ideia utópica do índio idealizado, possível de ouvir no equilíbrio de sentimento dos instrumentos doces e arrastados, com o fim conturbado – e provável – proposto pela retumbante guerra das tribos e de tudo que ocorre disso ao contato com o moralismo derrapante do homem branco, como na história original de José de Alencar, base ficcional para a maravilhosa criação de Carlos Gomes.

5 – 9 Sinfonia – Segundo Movimento, de Beethoven

o que falar de Beethoven? no que se refere ao poder da música, nada poderia ser mais óbvio de que uma pessoa com problemas de audição ser um personagem tão profundo ao criar muitas das maiores obras da humanidade, como o caso deste movimento em sua aclamada nona sinfonia.

quando precisamos despertar tudo que há de mais profundo na alma, numa falta de significantes que descrevam um significado sozinho ao lidar com um prazer deste processo de despertar, do autoconhecer, da visão interna de si mesmo, para mim, nenhuma peça é mais propícia que essa; a distribuição em pequenas notas agudas, o doce dos sopros e violinos dispostos rapidamente com o fundo dos instrumentos graves de apoio, acabam por criar uma dinâmica indescritível que transmite – inclusive fisicamente – o efeito físico do êxtase no homem: ouvir este momento da nona sinfonia é quase um deleite tão maravilhoso mas ao mesmo tempo tão intenso, uma mistura de calmaria por presenciar algo tão perfeito… seguido por uma mistura de algo incômodo no corpo – mas não pela falta impositivamente de se sentir fraco ou atingido, uma impaciência boa ao estar de frente com algo tão nobre como a música de Beethoven, quase como se estivéssemos tocando a nossa própria vida e ela não pertencesse mais ao nosso corpo, fosse um elemento que nos assistisse de uma distância segura.

existe um equilíbrio sonoro nessa composição que é impossível de compreender em palavras, apenas ouvindo, mas é tão sublime e intenso como Beethoven faz o uso dos instrumentos de sopro com as cordas e percussão de modo tão vívido e belo, numa harmonia tão deliciosa que parece como se estivéssemos ouvindo uma canção extraída unicamente do céu bíblico, renascentista, uma pintura em forma de música.

Bonus 1:

Trilha* do Diabo, de Tartini

conheci essa música como tantos pela famosa lenda de que Tartini sonhou com um demônio tocando a melodia no pé de sua cama e era algo tão complexo e rico em detalhes, uma composição de um ser ‘inumano’ que, quando acordou, ele apenas conseguiu anotar alguns trechos; lenda ou verdade, o que Tartini fez nessa canção faz jus a essa história maluca: a composição é absolutamente inconstante, com algumas viradas melódicas e um violino extremamente carregado na emoção do agudo estridente – por vezes incômodo – numa tristeza que muitas vezes, realmente, não parece natural. a beleza na estranheza, porém, extrai o melhor do compositor: não haveria como uma composição de violino ser mais bela do que isso, ser tão complexa em lidar com sentimentos profundos e ao mesmo tempo parecer que, de fato, o instrumento ‘chora’ ao ser tocado; talvez a visita sobrenatural realmente tenha existido…

*PS: o nome da música, na verdade, se refere a “trill’ de tilintar, trinado, trêmulo; pela questão de uma tradução sem muito sentido, decidi adaptar para ‘trilha’ pela sonoridade da palavra e sentido semelhante.

Bonus 2:

Dança Macabra, de Camille Saint-Saëns

pessoalmente, neste caso eu prefiro a versão instrumental; a composição de Camille é outra que se traduz no nome: se o propósito era criar uma valsa, uma dança, ou qualquer tipo de música para os corpos bailarem, num ritmo no qual o significado era, em essência, a estranheza, o macabro da própria dança, o resultado foi sensacional; no que segue pelos segundos, um crescendo no qual parece nunca completar o caminho completo e faltar algumas notas no seu final, arrastado pela beleza aguda do violino suprimindo a impaciência dos outros elementos incompletos, a vontade e a visualização que nós fazemos, enquanto ouvintes, não é nada possível além daquilo mesmo que ele propõe, quase como se observássemos através dos sons um teatro de bonecos, ou sombras, ou toda sorte de criaturas estranhas – macabras! – dançando a luz de velas no qual o compositor quis criar.

e era isso, galera; ouçam música clássica, compartilhem suas experiências e apreciem! fui!

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