f

O dia que apedrejamos o fantasma da Igreja

f

uma das verdades da vida moderna é: fomos educados pela TV. ninguém nega isso. é, inclusive, contraproducente não admitir este fato. fomos, sim, uma geração educada pela tecnologia – e cada vez mais somos. em especial a tecnologia fácil dos programas que estavam lá, brilhando, entre um comercial e outro. quer prova disso? repare a nossa relação com os filmes de terror: mesmo depois de velhos continuamos acendendo as luzes da casa para circular pela madrugada; não porque temos medo de cair, pura mentira, mas porque acreditamos com força que um monstro horrível vai nos esperar na escuridão…coisa de TV. e essa história é justamente sobre isso, em especial, como nós, crianças modernas, fomos educados a acreditar em fantasmas da maneira mais óbvia possível. eles estão aí, afinal, nos cercam e nos amedrontam – só não vimos ainda.
tudo começou no nostálgico São Manoel e, como era de se esperar e como TODO colégio brasileiro, dizia a lenda, havia sido erguido em cima de um cemitério; posteriormente, fui descobrir que era uma pedreira, mas na minha infância e de todos os meus colegas, JURÁVAMOS que lá era um cemitério. pior ainda que alguns diziam ser um cemitério de índios locais, claro, baseados na mais sórdida educação da televisão. rapaz, não havia um moleque no colégio a duvidar disso, era fato insofismável: nós caminhávamos em cima de corpos milenares de índios, provavelmente alguns deles pajés e, claro, aquele terreno era rico em toda sorte de magia e sobrenatural. mas o pior de tudo ainda estava por vir…
como todo bom colégio católico brasileiro, ao lado do São Manoel, ficava uma igreja relativamente grande. e não estou me referindo ‘ao lado’ de maneira romântica, não, a igreja era COLADA no colégio, de maneira que o ‘muro’ que dividia o colégio era, na verdade, área do prédio da igreja. por isso, neste mesmo muro que não era muro, constavam umas janelinhas na base, no qual a gente conseguia ver no recreio as atividades da galera da igreja. era uma construção antiga, acho que ainda da época da pedreira, porque as edificações referentes ao clero eram todas muito cheias de pedra: muros altos, escadas, estrutura das paredes, todas feitas em blocões de pedra bem rústicos. nisso aí já dá pra ter uma ideia do visual, inclusive, em como isso recheava a cabeça da criança da escola; por ser de pedra, logicamente, a igreja tinha um ar lúgubre, pesado, era realmente fria por causa da temperatura, mas não só isso…escura, mal iluminada, por dentro parecia uma construção arruinada da idade média europeia, com muitos espaços fechados, sem luz solar, apenas paredes imensas de pedra e um ou outro lustre, fora as milhares de referências cristãs.
caros leitores, voltem um pouco a fita e imaginem: o São Manoel era supostamente construido EM CIMA DE UM CEMITÉRIO, alguns diziam ser UM CEMITÉRIO INDÍGENA, e, ao lado, colado, EXISTIA UMA PORRA DE IGREJA FEITA DE PEDRA, TODA ESCURA, TODA MACABRA. vocês conseguem imaginar o naipe das histórias que rolavam naquele colégio, né?
havia uma entrada lateral para a igreja, um escadão de pedra que dava direto para o salão principal e, inclusive, com vários vitrais. essa escada desembocava num canto do pátio do colégio, ficava sempre trancada, junto com uma porta de madeira encravada na pedra macabríssima, parecendo até a entrada de uma mina do Skyrim:

1

como era de se esperar, obviamente, ali do pátio do São Manoel, conseguíamos ver um pedaço dos vitrais, o caminho para o acesso principal da igreja.
num belo dia, na nossa turma, pululou um boato de que alguém tinha avistado um fantasma circulando ali pelos vitrais. claro, no recreio não deu outra, todos nós fomos para baixo da escada e passamos uma boa hora encarando aquela porra de vitral. mais claro ainda foi o fato de que TODOS nós vimos vultos, sim, era óbvio: o fantasma estava lá!
imaginem na imaginação fértil de uma criançada entupida de filmes de terror, um local criado em cima de um cemitério indígena e ao lado de uma igreja daquelas, sim, era o lar perfeito para toda sorte de fantasmas e criaturas bizarras do panteão gaúcho: estávamos CERCADOS pelo sobrenatural. nós, como bons moleques, ao avistar a criatura fantasmagórica, nos convencemos de que não poderíamos deixar a coisa assim. aquele era nosso espaço e as forças do homem em carne e osso, ou no nosso caso, das crianças desocupadas, deveria prevalecer. por isso, passamos uma boa semana bolando um plano mirabolante para combater o sobrenatural; com visitas periódicas no recreio àquela escada, elaboramos um plano perfeito, estudamos, reestudamos e montamos uma estrutura infalível para combater o maldito fantasma da igreja.
como dito em outros momentos, o São Manoel era turno integral, o dia todo, então era difícil – pra não dizer impossível – sair do colégio. logo, nossas armas eram limitadas ao que conseguíssemos arranjar no colégio. e, claro, isso se resumia a arma mais antiga da humanidade: um bando de pedras achadas aqui e acolá, espalhadas nos cascalhos do chão.
chegando o grande dia, não deu outra. revisitamos o complexo plano, esperamos o recreio e nos armamos. nossa missão estava a caminho, fomos para escadaria e lá esperamos avistar novamente a criatura maligna. alguém grita:
– eu vi!!!! eu vi!!! tá lá!!!!
voam as pedras de todos os tamanhos e formas, umas dez no mínimo, um monte de cascalhos, pedregulhos pesados, todos em combate ao mal, ao fantasma da igreja do colégio construído em cima do cemitério. um problema: ALI FICAVAM OS VITRAIS, PORRA, OS VITRAIS. não demorou muito para ouvirmos:

CLAAAASSSSHHHH!!!!!!

voamos dali mais rápido que a luz, sumimos, desaparecemos em meio a massa de alunos. nesse sentido, criança é viscosa, desaparece logo. nos separamos e não demos UM PIO sobre o assunto; cada um para um lado e foi isso, silêncio total, como se a gente tivesse matado um cara e não um suposto fantasma. silêncio incômodo, queríamos espalhar nosso feito, porém essencial para nossa sobrevivência era permanecer calado. amigos leitores, é difícil escrever em palavras como se sucederam aqueles minutos de recreio: cada momento não pego parecia durar uma hora, duas, três, eu olhava pros lados, via os coordenadores, via a movimentação, via os professores e não via ninguém conversando entre si, rapaz, era um alívio, ao mesmo tempo uma apreensão por cada movimento de todos. eu estava mais atento que vigia de prisão e, provavelmente, meus cúmplices agora sumidos também deveriam estar, cada um em seu canto.
coração na boca, momentos de tensão, passado aquela coisa toda, acabou o recreio e, supostamente, lá se ia o terror: ‘SOBREVIVEMOS!’, eu pensei…
muito cedo, lógico, fomos para aula e no meio da tarde não deu outra: sabe-se lá como ou daonde, algum caguete desgraçado tinha nos reconhecido correndo, bem no momento ouviu o estouro do vidro e nos denunciou. não é só no tráfico que X9 entrega todo mundo, até nesse universo infantil o mundo é cruel.
fomos para a direção, apreensivos, com medo, todo mundo com cara de bunda e, não podia faltar, aquela cara de enterro, o fim estava próximo, a suspensão era questão de detalhes. alguém aqui já teve de explicar uma suspensão pros pais? isso é a pior coisa do mundo, o gosto amargo da derrota; não pelos três maravilhosos dias de descanso que se ganha em casa, isso é até bom, mas por deixar claro que VOCÊ FEZ MERDA DAS GRANDES E TODO MUNDO DESCOBRIU. isso, amigo, era castigo desenhado na cara e um problema evidente. e lá nós íamos no nosso corredor da morte em direção à diretoria.
entramos na sala e nos demos de cara com a diretora e um padre, caraca, amigos, vocês não são capazes de conceber o tamanho do medo do cagaço em ENTRAR NA DIRETORIA COM UM PADRE. o sentimento, ao menos para mim, era quase como se a gente tivesse dado pedrada no próprio Deus. era sinal de bronca grande, bronca fatal, já começava a cogitar, inclusive, uma expulsão.
não lembro quantos éramos de certo, talvez uns quatro ou cinco, enfim, um número considerável de moleques fadados ao fim. sentamos nas cadeiras, encarando a diretora e o padre, silêncio…a diretora pede pra alguém contar o motivo…mais silêncio…ninguém abre a boca…todos mudos morrendo de medo, apavorados…silêncio abissal…ela insiste e nada…até que alguém começa, pelo que me lembro, inclusive, com aquele choro nos olhos, alguém desembucha entre lágrima e sentimento de pecado:

– a gente só queria matar o fantasma! a gente viu o fantasma ali na igreja! a gente atirou pedra pra derrubar o fantasma!

eu juro, JURO DE PÉS JUNTOS, que o pavor foi tão honesto, tanto do fantasma quanto da bronca, que até o padre, ali, pra dar bronca, deu uma leve sorrida e no auge do seu pensamento cristão perdoou todo mundo. diretora idem, ouvimos a bronca, claro, mas fomos aliviados pela situação sui generis: os caras sacaram que a gente destruiu um vitral caríssimo na melhor das intenções. no final, o medo foi embora: nada além de uma bronca, inacreditável, algo tão extremo e punido com o mínimo possível. algumas lições foram tiradas dali, muita coisa se refletiu e, principalmente sobre os fatos. o primeiro, que não deveríamos tentar matar fantasmas com pedradas. o segundo, sequer existiam fantasmas, ao menos ali. e o terceiro, nunca mais mexer em vitrais da igreja. lembro que após o ocorrido nos levaram para ver o estrago, ajudamos a catar os cacos como forma de ‘aprender a lição’ e vimos o rombo da pedrada. fantasma existindo ou não, amigos, naquele dia, fomos salvos pelo perdão de Deus. fizemos tudo para um bem maior, ele compreendeu nossa heresia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s