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o dia do fim do mundo

uma das coisas que mais povoou o cotidiano dos anos 90, foram histórias de fim do mundo. na falta de internet para entorpecer o tempo livre do ser humano, buscava-se contentamento em outras coisas não mais gloriosas como, por exemplo, a TV aberta. muitos foram os programas no qual, nada sensacionalistas, apresentavam teorias e mais teorias sobre um possível fim da Terra em uma data específica. o nome do pobre Nostradamus sempre aparecia; Fantástico, entre outros, eram recheados de causos e mais causos de gente que leu umas paradas, descobriu uns dados e alertava: o fim do mundo era questão de dias.
na maioria das vezes se acompanhava aquela coisa com um misto de vergonha alheia e um tiquinho de curiosidade, naquela vibe de ‘e se este maluco está certo?’…aí chegava a data para o fim e: nada, como era evidente e o vidente havia errado.
é difícil contar quantos ‘fim do mundo’ vivenciamos nos anos 90, mas foram vários. alguns, verdadeiros clássicos, como a virada de 99 para 2000, no qual todas máquinas surtariam e seria ‘o fim da civilização como conhecíamos’, no famoso ‘bug do milênio’. claro, merda nenhuma aconteceu, além de um episódio dos Simpsons sobre o tema.

dentre todas estas lendas bisonhas e gente doida, permanecia só o humor constante. porém, num caso específico, a coisa foi por outro lado; o suposto ‘fim do mundo’ me marcou, tamanha a precisão da evidência de catástrofe em um dos dias mais estranhos que eu já vivenciei em Porto Alegre; estava lá, ali em meados de 99, 98, por aí, era para o mundo acabar…e Porto Alegre me amanheceu com o clima MAIS SINISTRO QUE EU JÁ VI NA MINHA VIDA. esta foi a melhor descrição praquele dia cabuloso: sinistro demais. a cidade amanheceu com cara de temporal daqueles como a gente reviu semana passada, nuvens baixas do tipo que parece encostar nos prédios, trovões, um silêncio estranho, além de tudo nuvens pretas, parecia coisa de filme, talvez o Twister, um clima meio frio, umidade característica do inverno no Sul, mas o mais e mais estranho era a coloração do céu em contraste ao pandemônio, no qual nunca vou me esquecer: um tom meio esverdeado, sério, um estranho tom verde. O CÉU ESTAVA VERDE!
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rapaz, não havia como não dar um cagacinho; de tantos dias possíveis, o ‘dia do fim do mundo’ caiu bem no dia da porra de um temporal histórico, com o céu mais medonho que já se viu na vida, era óbvio que nisso havia um sinal, uma mensagem divina, sei lá.

lembro que fui para o São Manoel, o colégio de tantas histórias, e como o São Manoel tinha muito espaço aberto e sem toldo, em dia de chuva era uma merda: a criançada não podia ficar correndo em 2/3 do pátio e ficava todo mundo concentrado, todas as séries, em um pequeno espaço coberto. lá, a gente tinha que dividir tudo numa guerra constante contra os mais velhos, por isso, os mais novos sempre dançavam e perdiam as mesas de Fla-Flu (o famoso pebolim, totó, como quiser), de pingue-pongue, estas coisas, onde só sobrava ficar correndo pra lá e pra cá no saguão que nem zebra fugindo de leão, sem rumo, sem sentido, vendo o tempo passar.
chuva era e é uma merda sempre, ainda mais no inverno gaúcho, não basta o frio, mas também aquela umidade fodida, as paredes escorrendo, o chão idem, parece que até os objetos estão chorando de tristeza daquele clima medonho. no São Manoel, chuva era mais merda ainda justamente por isso: o pouco espaço, o montão de gente e, claro, aquele maldito saguão lotado de toda sorte de pessoas que você não queria conviver. num temporal daqueles, ficava ainda pior, ainda mais porque era o ‘dia do fim do mundo’, porra, o céu estava meio verde, caindo água pra caralho de todas as partes, as paredes molhadas, o chão molhado, mesmo se você estivesse seco…já estava molhado, nojento, triste, deprimente, era bem possível ser o fim mesmo.

talvez eu não tenha contado, mas o São Manoel era turno integral, ou seja, a criançada ficava lá de cedinho até o fim do dia; a gente fazia nossas refeições lá. depois do almoço, a gente tinha o maior recreio do dia, que durava uma hora e meia, por aí, antes de começar as aulas – ou atividades – do período da tarde. nesse momento, nos dias de chuva, era um lixo; uma hora e meia vagando pelo saguão sem ter nada pra se divertir, vendo o mundo desabar; naquele dia era pior, lógico, era o ‘fim do mundo’ e Porto Alegre literalmente parecia que ia acabar a qualquer momento. lembro da mistura de tédio e de curiosidade do medinho que dava em ver o aguaceiro caindo daquele céu colorido naquela cor verde bizarra, as nuvens todas baixas, eu tenho CERTEZA que ninguém, nem mesmo os mais velhos, os professores, diretores, ninguém estava confortável com aquele dia: todo mundo deve ter sentido um medo que, de fato, talvez fosse o fim mesmo.

e lá estava eu, naquele recreio que não acabava, lembro até hoje, do lado da mesa de pingue-pongue, que ficava quase no limite entra a área coberta do saguão e a chuva. lá estava eu e mais algumas pessoas vendo outros jogarem pingue-pongue e torcendo praquele dia de tédio acabar. foi nesse momento que rasga no céu um raio imenso, enorme, estrondoso, gigante, absurdo, o maior raio que o universo já viu. o desgraçado desceu…E CAIU BEM NO PARA-RAIOS DO COLÉGIO. quem já viu um raio caindo tão próximo assim sabe do que eu estou contando aqui, caraca, não deu nem tempo de pensar, tapar os ouvidos, veio aquele estouro absurdo na hora, questão de segundos, BAAAAAAAAAAAAM!!!!!!!!
ok, a chuva já é uma merda, pior no inverno, pior no inverno gaúcho, pior ainda quando se é criança e está no colégio, pior ainda quando é temporal, pior ainda quando é ‘o dia do fim do mundo’…mas pior de tudo é que resolve cair um raio estrondosamente violentamente estupidamente absurdo bem naquele dia premiado de céu verde e suspeita de fim da humanidade. eu lembro da sucessão dos acontecimentos, veio o raio cortando o céu de cor estranho, abrindo espaço naquelas nuvens densas de temporal, seguiu um estouro ensurdecedor e, claro, como você já deve estar imaginando, o caos se instaurou no colégio: criançada chorando, criançada correndo, gritaria, os mais novos da pré-escola berrando e alguns professores e coordenadores tentando acalmar, gente se abraçando, sério, ali, naquele momento, se havia algum cético incrédulo, jogou todos seus motivos pro alto e foi acreditar junto: era o fim do mundo, estava mais do que na cara. era Deus, a criatura que fosse, alguém zombava com nossos espíritos, naquele momento, naquele segundo pós-raio, tudo fez sentido.

com o passar dos minutos, claro, cometas não vieram, anjos não desceram com suas trombetas, nada. um ou dois dias depois a chuva passou, umas horas naquele mesmo dia o céu já não aparentava uma cor não tão estranha e tudo foi embora, minguou com o fim do ‘dia do fim do mundo’.

mas, juro, naquele segundo do raio, quando o clarão veio do céu, eu garanto: lá no São Manoel, todo mundo achou que era o fim dos tempos. que dia maluco, leitores. que dia doente.

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