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A louca história do álbum – um conto da época de figurinhas

essa é uma daquelas histórias vindas dos tempos de São Manoel, as coisas se perdem entre lembranças e nostalgia, mas alguns fatos são tão absurdos e verdadeiros que mais parecem ficção do que realidade. neste caso, foi um plano tão absolutamente perfeito que – pasmem! – deu certo no final. geralmente este tipo de ideia acabava de alguma maneira trágica, ou na diretoria tendo que explicar os porquês, ou com algum outro professor dando bronca e nos fazendo jurar nunca mais repetir este tipo de ato, como no caso das balas invisíveis, no qual contei muito tempo atrás. no caso dessa história do álbum, porém, o plano foi tão perfeito que não havia a menor probabilidade de acabar dando problema…

a coisa começa quando eu e um amigo – o mesmo da história das balas – estávamos vagando pelo pátio na hora do recreio. como boa criança sem nada pra fazer, a cabeça vazia era uma oficina cheia de ferramentas para o diabo. a sorte do acaso, também, nos ajudou neste dia; com o tédio tomando o tempo e sem querer brincar de nada específico, voilá, olhamos para um banco que ficava em um cantinho excluído do pátio e lá estava um álbum de figurinhas…esquecido, ABANDONADO. para evitar qualquer problema já de cara, claro, sentamos no banco e lá ficamos por um bom tempo. como ninguém apareceu pedindo o álbum, demos o caso por encerrado e seguimos com a ideia, que era apenas uma: pegar para nosso uso. um álbum de figurinhas, naquela época, novinho…e do Pokémon! aquela primeira leva, os 150 monstros originais, o primeiro de todos, quem bem lembra ou teve um pode imaginar a emoção em achar um treco desses, abandonado assim aos ventos. era quase como se uma criatura superior realmente tivesse nos dando ferramentas para fazer o mal, era uma tentação muito grande; não restou outra coisa pra gente, levamos embora.

no entanto, como nem tudo são flores, eis que pinta o problema: era UM álbum e eram DOIS de nós…o que fazer? além disso, nós dois já tínhamos, cada um o seu álbum, com a maioria das figurinhas; então não servia ter outro, era sem sentido, redundante. mas a nossa mente mirabolante era melhor que o problema avaliado e pensamos apenas nas possibilidades positivas; quando nos deparamos com aquilo, nos demos conta NA HORA que era uma oportunidade única para poder exercitar nossa mente juvenil. o pensamento se afunilou em apenas uma possível solução e ambos concordaram: era o que devia ser feito!

quem bem lembra do álbum do Pokémon, aquele original – porque eu não sei se teve outro depois, deve ter tido – algumas das figurinhas já vinham supostamente coladas. você comprava e alguns espaços já estavam preenchidos, claro, com uma impressão, mas imitando como se fosse uma ‘figurinha colada’ (como na foto abaixo). aquilo era uma mina de ouro para nossa mente criativa…

album de figurinhas pokemon anos 90

album de figurinhas pokemon anos 90 2

nos demos o trabalho de recortar todas estas figurinhas coladas que já vinham impressas e as ‘recolamos’ com cola bastão em qualquer parte traseira e velha de outras figurinhas já utilizadas. esta foi a primeira parte do plano, mais braçal e menos genial, artesanal e trabalhosíssima; ‘recolar’ as figurinhas com perfeição levou umas boas três horas. mas o que se sucedeu foi o pulo do gato da esperteza e o que tornou o todo sensacional. após recortar e colar, tínhamos em mãos um bolo de figurinhas ‘que ninguém mais tinha’ – quem sabe porque elas já vinham coladas – mas vá lá, isso era o de menos diante da surpresa das novas figurinhas inteiramente peculiares. com um bolo considerável delas, fomos colocar em prática nosso lado de ator.

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no outro dia, já num recreio diferente, a segunda parte tomou forma; era um plano de ensaio e muito bolamos para ficar perfeito. localizamos as crianças mais novas que nós, mais inocentes e confiáveis, aquelas sentadas no pátio sem ninguém em volta, totalmente sozinhas; estas eram nossas vítimas para o show. encerrada a localização, vinha a parte brilhante. primeiramente, um de nós (e apenas um) se aproximava da criança e falava que queria trocar uma ‘figurinha especial’:

– eaí, meu! to com umas figurinhas novas aqui…especiais…e eu vi as tuas figurinhas aí e queria trocar; vamos trocar?

a reação da criança era óbvia, a desconfiança com aquela figurinha ‘que não era pra ser colada’ fazia parte do primeiro contato. ninguém acreditava naquele papo imbecil e manjado, ainda mais de um cara estranho apresentando ali na frente daquele jeito, todo pimpão, chamando de ‘figurinha especial’:

– essa aí nem é figurinha! já vem no álbum! eu não quero trocar! – diziam a maioria absoluta das crianças. sempre iguais, não haviam muitas reações diferentes. enquanto a discussão acontecia, aquele de nós incumbido da troca seguia tentando ‘provar’ a veracidade da figurinha, enquanto a criança continuava negando e se recusando a concretizar o ato.

nisso, o outro aparecia ao fundo, como um observador do acaso, alguém curioso com a discussão, distraído, e entrava no papo como se fosse uma parte neutra da história:

– essas são ‘as figurinhas especiais’???!! puts, meu, eu demorei muito pra achar todas, elas são muito raras! quase ninguém tem!

aí a conversa mudava de plano. a inocente criança via seus olhos brilhando quando percebia o anunciado, que um suposto terceiro, neutro, novo, totalmente de fora…confirmava a história que parecia mentira! nisso, não restava nenhum impedimento; o receio da criança em trocar figurinhas boas por uma ‘figurinha falsa’ morria na hora; para nós, era o momento de aproveitar a situação, e a criança via também uma grande oportunidade. logo e rapidinho trocava várias figurinhas, VÁRIAS, por uma ‘figurinha especial’ – que na verdade era um trabalho de artesão e uma mentira muito bem elaborada.

com um projeto de equipe magistral, um peculiar anseio artístico em recortar e colar tudo com perfeição, uma atuação digna de Oscar, por fim, fomos reis por um dia. sem precisar competir em jogo do bafo, sem apelar para o maldito pastelão, sem ter que negociar durante horas, bolamos um plano sem vítimas que nos rendeu muitas e muitas figurinhas. sem vítimas porque nós, claro, aproveitamos a oportunidade. as outras crianças menores, também…numa época em que a internet ainda não estava em peso em lares, nas ruas, a TV a cabo ainda era limitada em poucos canais, é bem provável que aquelas crianças com as ‘novas figurinhas especiais’, todas, tivessem continuado por um bom tempo, felizes da vida, achando que tinham feito uma troca sensacional. a felicidade não deixava negar.

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