mão

a grande mão luminosa

mão

a mão branca e luminosa se aproximando de mim na penumbra anunciava a visão que eu não tinha,
dominado pelo escuro meus olhos não podiam entender a composição daquela situação; era impossível de captar os detalhes.
o que era, afinal, uma mão enorme, vindo em minha direção, aquela hora…sem rosto, sem corpo…apenas luz?

digamos que eu não poderia compreender, talvez, mas justificava em mim a sensação de medo,
de horror, coberto pela incerteza do acaso.

no escuro tudo fica mais denso, sim,
a falta de tato,
de profundidade,
de visão,
de toque,
o que evidencia para o corpo é a criação de um outro mundo complexo, um universo maior e mais incrível que o próprio mundo real.
vemos as coisas pelos sentidos limitados, tudo acontece com certezas por trás das percepções:
é o cérebro que vê no escuro, ele que guia e que garante todas as sensações que embasam a falta de possibilidades em
(não) existir longe dos sentidos.
o homem é um animal de sensações e sem elas o homem se mostra nu, apenas como é:
um amontoado de carne cheio de incertezas e medos.

ao ver aquela mão, vagarosa no ar, gigante, incompreensível, de algum aspecto o medo ao invés de aumentar…
se deteriorava aos poucos. quanto mais aquele estranho objeto se aproximava,
pouco restava das minhas apreensões. meu cérebro, meu guia, sim, ele transformava todo o pavor de estar ali em um conjunto de novidades, de novas possibilidades e, extasiado, via a mão vindo com certa surpresa.

– fui enganado, talvez, amigo cérebro.

pensava comigo mesmo, discutia, se o corpo pregava a emoção, por outro lado, o cérebro exacerbava uma tranquilidade estranha.

e a mão, aquela gigantesca mão, continuava vindo ao meu encontro.

estávamos em um enorme corredor escuro, engraçado, não era a minha casa nem um outro lugar conhecido.
era um estranho corredor, uma estrutura complexa, infindável, quase como se fosse um grande hospital.
a tranquilidade do meu cérebro era ainda mais injustificada, na medida em que eu estava…em um lugar completamente estranho!

– o que eu faço aqui, por deus…o que eu estou fazendo aqui?

das questões que surgiam nenhuma era menos absurda que a anterior, ora, como eu estava metido naquilo tudo?

uma mão luminosa vindo em minha direção;
um maldito corredor gigante em algum lugar desconhecido;
e meu cérebro, bizarramente, incompreensivelmente jogando contra mim mesmo;

enquanto a mão se aproximava, em velocidade considerável, surgindo, vindo, aumentando, chegando, aquele maldito e macabro corredor parecia se esticar ao além, ao infinito, comigo em uma ponta e a mão na outra. uma inexplicável mão branca, flutuando em um corredor aparentemente infinito.
comecei a reparar nos detalhes e, por fim, não sabia se estava no dia ou noite, era estranho,
aquela escuridão naquela localidade pouco dizia sobre o horário…
e o mais curioso, ainda me contorcia por dentro e eu simplesmente não conseguia responder:

– como eu havia parado ali?

em situações de nervosismo, absurdas como esta, o raciocínio fica debilitado,
curioso porque, naquele caso, meu cérebro interpretava tudo com uma tranquilidade quase divina;
a complexidade dos atos era distanciada por mim mesmo, talvez o extremo absurdo continuava a evocar uma situação irreal e que nem meus pensamentos pudessem traduzir em realidade.
era realidade, talvez?
toquei na lateral das paredes, sim, meu toque voltava a estar presente: ele existia e eu sentia.
não era meu cérebro, pelo contrário, nos sentidos eu conseguia confiar.
da visão debilitada ao toque concreto, os cheiros vazios e o gosto amargo do medo, todos estavam lá.
só me restava convencer apenas a ele, o cérebro, que aquilo não era normal.

– você não está assustado?

eu tentava convence-lo da necessidade de digerir aquilo tudo com o horror que necessitava.
porém, não havia forças que me colocassem em compreender como meu cérebro simplesmente não interpretava o que meu corpo sentia.
era estranho, estávamos falando do mesmo corpo – EU! – eu queria ter medo, porém
assim não podia, porque meu cérebro apenas o ignorava.

a mão que tentava se aproximar era impedida apenas pela irrealidade daquele corredor que se esticava como borracha.
talvez este corredor, ironicamente, representasse meu próprio cérebro: a falta de tensão de um era responsável pelo funcionamento do outro.
e quanto mais eu tentava atrair o medo para mim, ou a mão, enfim, meu cérebro estendia um imenso corredor na minha frente.
de que modo eu poderia tentar compreender aquele mundo, um mundo bizarro criado pelo escuro, pelo vazio, o real?

que realidade estranha me permitia dominar não os sentidos, longe deles…
mas o próprio mundo!
eu era o responsável por fisicamente dobrar, criar, aumentar e, claro, não sentir nada daquilo.
o corredor era eu, a mão, cérebro, todos estávamos conectados em uma ação de unificar um bizarro universo vazio, dominado pelo escuro e pela falta de elementos:

éramos o que éramos.

um corredor e uma mão, eu, meu cérebro…o medo. que medo? não existia longe da própria realidade, que, por si,
era um grande emaranhado de possibilidade infinitas. ali naquele corredor esticando sem fim eu via a complexidade do real:
ele era, afinal, o que eu queria que fosse. uma natureza criada pelas percepções minhas sobre as próprias necessidades aparentes.
e quando, feliz, percebi o poder de mim sobre as coisas, o corredor começou a diminuir, se aproximar,
comprimindo-se ao ponto daquela imensa mão luminosa, finalmente, tocar o meu corpo.
senti um alívio maravilhoso, uns poucos segundos de momento espetacular.

sonhos.

a vida montada através das imagens, deste universo que explodia em realidade.

estava contente,
estava pleno.
estava completo.

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