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premissas do bom povo

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é importante que tratemos isto com a precisão que se necessita; não podemos, já em sua origem, distorcer o ponto de partida em que desenrola todo o processo. desde já e principalmente, com a importância cirúrgica, é vital combater o cinismo cuzão por trás da mentira. este cinismo, por sua vez, é apresentado não só como a eventualidade do acaso possível (não aconteceu, afinal), mas como a permanência, a constância do erro (vai continuar não acontecendo), um método escroto de desarticular a verdade; o único fato é de que nada disso é exatamente como parece. estou falando de algo recente, fruto de um erro do passado: a crise hídrica do sudeste e, em especial, da região metropolitana de são paulo. sim caros, isto mesmo, a (talvez) maior crise de desabastecimento do país. e como isto está sendo articulado em uma virtualidade impossível, a saber, como o estado nega que é essencialmente culpa dos seus agentes (no caso, governadores, prefeitos e presidente) e trata tudo com um atmosferismo absurdo, buscando uma base meteorológica – a falta de chuva – que, de longe, já mostra uma falha de lógica em si.

premissa um:
do erro de linguagem

– há uma tratativa dos poderes em esconder um fato crucial. isto é visto na perpetuação e repetição de alguns vícios de linguagem, primeiramente, trazendo ao debate externalidades inexistentes. vemos o estado forçando o uso de termos como ‘a seca’ e sobre a importância de questões meteorológicas como ‘a falta de chuva’, tentando contextualizar a crise hídrica do sudeste em uma visão fora do alcance do mesmo. expor este debate com fenômenos inesperados diminui a negligência da falta de preparo (principalmente do poder executivo) em saber lidar com suas próprias obrigações, pondo sob a força do acaso (ora pode acontecer, chover; ora pode não acontecer, não chover) as necessidades da própria metrópole. inviabilizando a própria responsabilidade do executivo – supostamente por não poder controlar estes mesmos fenômenos – disto, o que é visto é um montante de retóricas autoexplicativas para justificar uma suposta não-culpa que, ironicamente, se não existe, também não precisaria se justificar. é o famoso caminho tomado agora para discutir a crise, mais ou menos como o exemplo:

‘tivemos uma baixa temporada de chuvas, o sistema não recebeu água; mas já estamos criando métodos para, no futuro, evitar isto’

há uma evidente confusão proposital na ordem cronológica das coisas, justamente porque, assim como a cronologia, a responsabilidade se inverte. não podemos negar de fato a baixa temporada de chuvas, claro, porém de modo algum podemos atribuir a mercê da sorte para explicar o caos atual do sudeste. este erro de discurso, criado e propagado pelo executivo, trata apenas de acobertar algumas realidades:

1) esta crise não tem como foco apenas a suposta seca, muito pelo contrário, só por observação constatamos que a própria cidade mais abalada pela falta de água, são paulo, ironicamente…tem água! são dois rios cortando a metrópole e uma represa poluída que mostram o primeiro problema originado pelo próprio poder público: a falta de planejamento em lidar com a reutilização dos mananciais possíveis (e atualmente poluídos), assim como a falta total de planejamento em ter a percepção de reutilizar outros recursos – como a água da chuva – numa das capitais com mais casos de temporal/alagamento do brasil.

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2) o estado também se cala sobre outro fator importante: a falta de chuva se deve muito a falta de retenção de água, originada pela preservação de regiões de mata. a falta total de planejamento brasileiro em dispor de maneira correta a agroindústria e a indústria (que devem existir, sim, não estou disposto a pregar o fim da iniciativa privada) tomou regiões completamente mal mapeadas do solo e da geografia, acabando com boa parte de importantes territórios verdes para o deslocamento da chuva. diminuiu a chuva, segundo alega a própria comunicação do estado, mas diminuiu – e muito – pela própria negligência do mesmo.

3) o último ponto se refere a mais absurda mentira e vazio existencial da perpetuação do governo brasileiro, baseado em um modelo propagandístico de sociedade onde só se põe a fazer qualquer tipo de obra como fim de garantir mais anos para a situação governamental, no mais vazio tipo de propaganda eleitoral. isto porque se importa em fazer obras hercúleas e de resultado duvidoso, como a transposição do são francisco, mas ignora o fato de que o solo brasileiro está acima de dois dos maiores aquíferos do mundo, sendo solo fértil de boa parte da água potável do planeta. porém, a utilização de água dos aquíferos muitas vezes demanda em projetos que pouco se pode fazer propaganda, então o que vemos é a disponibilidade de dinheiro e tempo para determinados projetos que já nascem mortos, ultrapassados e burros, como aquele citado anteriormente.

analisando em soma os três pontos, digo que é com caráter emergencial que passemos a ignorar toda e qualquer culpa em virtude “do clima”, de maneira genérica, como se o primeiro problema da crise remetesse exclusivamente a (falta da) chuva. no que fica claro, mais uma vez, é a força estatal em se eximir dos constantes erros e qualquer falta de planejamento, inventando um inimigo que não pode ser combatido (conta com o acaso) para não dizer a realidade das coisas: ignoraram os avisos por completo, inclusive, avisos que já existiam desde meados de 70 sobre as necessidades de reformas nos projetos hídricos da região sudeste.

premissa dois:
não assumir a culpa pelo que não fiz

– ao analisarmos a primeira premissa, encontramos uma contradição em termos: quando vemos as soluções apresentadas pelo estado – o maior culpado – pouco se percebe em soluções não-imediatistas, planejadas estruturalmente para acabar de vez com os problemas de seca por um bom tempo. são apresentados pequenos afazeres e obrigações cotidianas que influem estritamente e apenas no elo mais fraco da própria cidade, ou seja, o indivíduo, o cidadão. é bem verdade que a média de água gasta pelo cidadão brasileiro é acima do indicado, porém não se traduz em proporcionalidade para explicar ‘a seca’. isto porque, em números oficias (e eles são difíceis de se achar, quase impossíveis, haja vista que o governo não quer assumir sua incompetência) há uma variabilidade em explicar em quanto a água é gasta pelo cidadão. do pouco que se mostra, há a indicação de que a água para consumo residencial corresponde em cerca de 40% a 60% do consumo da cidade de são paulo. se observarmos no pior dos planos, com um consumo de 60%, ainda assim, há inexplicáveis 40% que ‘somem’; quase a metade. com esta perspectiva podemos perceber a inverdade por trás do racionamento forçado. o cidadão, mesmo na pior das hipóteses, enquanto gastão descontrolado é, ainda assim, enganado pelo sumiço dos outros 40%…que poderiam ajudar a conter a crise.
quando vemos o estado apontar os dedos, sob o tom de ameaça, medo, percebemos apenas medidas paliativas que pouco colaboram na solução da crise. trata-se de uma tentativa vil de transbordar um sentimento de segurança, de ações controladoras, além de, claro, dividir uma responsabilidade virtual com os culpados errados:

“vejam vocês, população. estamos comprometidos em conter a crise (que não é culpa nossa), mas vocês também tem de ajudar, gastar menos e nos dar mais receita”

das duas medidas principais tomadas nenhuma é exatamente eficaz.

1) a primeira, sobre o racionamento, se afeta tanto a vida da população ao ponto de tornar o cotidiano impossível. serão mudanças tão radicais na metrópole, uma das maiores do mundo, que este tipo de medida só acarreta exatamente aquilo que uma cidade deste porte não pode, ou seja, perder dinheiro, suas formas de renda. com a mudança de hábitos da população a tendência é a menor circulação tanto na rua como de capital, evitando não só o gasto excessivo de água mas tudo aquilo que influi também nos seus hábitos, como sair, conviver, etc.
são paulo perderá quantias consideráveis de circulação de dinheiro o que, por si, torna ainda mais irônico e descabido o segundo item.

2) a segunda medida, com efeito no aumento dos impostos para permitir a realização estrutural com o intuito de conter a crise, mostra-se ainda mais idiota justamente porque as medidas se contradizem em si. se na primeira o estado gera menos circulação de dinheiro, na segunda tenta corrigir seus próprios erros pedindo mais dinheiro. deste círculo infindável, com impostos maiores, mas com menos dinheiro na cidade, cria-se um oroboros da crise: provavelmente o dinheiro captado dos impostos servirá não para as obras de melhoria em infraestrutura, mas para corrigir a baixa do comércio necessária ao racionamento.

apontando a ineficácia das medidas, encerro esta questão verificando que o caráter emergencial do governo em corrigir as próprias falhas é um dos atos mais absurdos em discurso e em projeto que o brasil já fez; ataca exatamente o cidadão, aquele que até então era o menor culpado, justamente para eximir toda e qualquer culpa daquele que, por ineficiência, não soube administrar os recursos hídricos. se na primeira premissa o poder estatal tenta ocultar sua culpa com a atribuição do acaso – fenômenos incontroláveis – na segunda premissa ele parte para um ataque sútil e hipócrita, justificando não só com o clima o problema da crise no sudeste mas, também, com um suposto excessivo descontrole da sociedade.
tanto na primeira quanto na segunda premissa, podemos observar que, longe do que parece, as falhas estruturais do poder (principalmente executivo) trouxeram problemas maiores que os apresentados como causa, porém, na dificuldade do governo em assumir a própria responsabilidade, constrói um conto absurdo, quase teatral, para viabilizar proibições, racionamentos e mais dinheiro para suprir o próprio estado…que até agora, com cofres cheios, não resolveu problema nenhum. resolverá com cofres vazios? e mais: por que de fato o povo deve pagar por um problema que não infere em nada a ação do mesmo? da contribuição por impostos o cidadão já faz sua parte; se o estado não sabe administrar, não pode apelar para tirar mais renda do próprio trabalhador, contribuindo para que o mesmo fique mais endividado ainda.

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premissa três:
sem medo e o medo como arma, a culpa empurrada

– presumindo que o problema foi na execução do estado, errando, negligenciando problemas e assumindo-se, também, como não-agente do problema, a população não deve assumir a culpa; eis o método do governo brasileiro em promover um dever virtual à sociedade: com o medo da falta de água, medo justo, afinal, o governo cria um sentimento comum  de insegurança entre os indivíduos, desmembrando o próprio pertencimento ao processo de falta de água, colocando cidadãos contra cidadãos, numa tentativa clara de tensão, dividindo para conquistar, criando uma cisão errada, improvável, maluca, onde as pessoas se olham como inimigas em um sentimento falho, baseado em um desespero possível, porém sobre os culpados que não deveriam ser.
vimos nas últimas semanas o acúmulo de manchetes bizarras sobre o tema, onde por pouca ou nenhuma economia efetiva pessoas brigam, se ameaçam e acusam umas as outras de ‘tentar se favorecer’ por, inclusive, entrar com processo na justiça para garantir o abastecimento de água em casa. veja bem, pelo medo aparente, não percebemos que garantir o abastecimento de água não significa nenhum tipo de favorecimento, mas, ao menos o que a própria constituição previne, – em virtude da dignidade à vida dos seus cidadãos – de modo que o próprio documento que dá significado ao estado TAMBÉM garante que tenhamos direito aos princípios básicos da vida, inclusive, a água.
a tentativa do governo em criar o medo é, por ele, funcionar com o poder oculto do mesmo. num momento de desespero, de incerteza, o povo não se coloca a raciocinar em caminho da verdade, a saber, em coerência na busca de entender o processo de desabastecimento e, realmente, elencar os verdadeiros inimigos. com medo da falta de água e, sabendo da óbvia proteção do estado a si mesmo com as instituições que o auto-afirmam (polícia, forças armadas), a população tende a descontar sua insegurança naquilo que é palpável, ou seja, os seus entes mais próximos (semelhantes). o povo ataca o povo porque está em pânico e, na falta de soluções, encontra o conforto em poder, pela força, tentar amenizar os seus próprios fantasmas; vendo naqueles que ousam não se colocar submissamente frente ao racionamento como inimigos, quando na verdade é bem possível que atitudes contra o próprio racionamento sejam mais poderosas do que a aceitação em si.
entendendo isto, é importante compreender que o medo é a maior arma do estado, no momento, em esconder suas próprias falhas. com a população desesperada e dividida, a função do medo é autoexplicativa: o controle do estado é feito sem nenhum tipo de esforço, de modo que o próprio povo funciona como vigia do povo, se esforçando em perpetuar as falhas estatais como agentes espontâneos de propagação de mais medo e vigília. enquanto isso, o que vemos se reproduzir é a morosidade do poder executivo em determinar ações sérias para corrigir os problemas. além disso, claro, os próprios criadores das falhas são os menos afetados pela crise – o racionamento não se aplica na casa da presidente, tampouco do governador, nem do prefeito, muito menos de seus bairros próximos. evidentemente o racionamento atinge uma boa camada da classe média/baixa da cidade que, por sua vez, diante de outras mazelas, acompanha a falta de água num catálogo de negligências do governo.
o medo é funcionalmente tão poderoso que, no anseio de estabelecer a ordem, não condiz com a realidade social dos agentes do poder que o permitem; é plausível pensar que a maior parte dos policiais e membros do exército, moradores pobres, vivam nas áreas mais afetadas pelo racionamento…mas, ainda assim, defendem os membros do estado que foram os principais causadores de toda a crise.
a população não tem contato, nem forças, não está capacitada a confrontar aqueles responsáveis pelos seus problemas. a distância entre os três poderes do brasil e a maioria da população causa um tipo de governo tautológico, que só vive para explicar a si mesmo – não como um membro da sociedade, muito pelo contrário, mas como inimigo e maior causador de crises e empecilhos. neste sentido, o que vemos é a apreciação do próprio povo em tentar corrigir as falhas da cidade em frente ao povo; não deveria agir assim e, também, não deveria acreditar no medo. como o mito da linguagem proposto nas duas primeiras premissas, o medo é apenas outro mito. a força de proteção do estado é, muitas vezes, falha para seus agentes, mas se perpetuam no beneficie do povo: o povo bom, demais, muito pacífico, feliz, submisso, não encontra motivos para crer que pode ser forte, derrubar ou sabotar os próprios agentes do estado. este, só deve ser aceito quando legitimamente um agente de melhoria social, em favor da evolução sociedade e, claro, da própria cidade. não é o que acontece; não por falta de motivos, deveria ser cobrado, inclusive com métodos violentos, reprimido de qualquer tipo de segurança: governador e prefeito, pincipalmente, deveriam sentir na pele os problemas da negligência e hipocrisia. deveria ser exigido que, no mínimo, os primeiros a sofrer com o racionamento fossem ambos governador e prefeito, além de suas famílias, de modo a demonstrar a importância factível do seu argumento. não são. resguardados atrás de uma importância virtual hierárquica, jogam a bomba para o povo:

‘vocês que se fodam ai sem água, amigos. nós temos água pra caralho!’

é, por isto, dever maior da sociedade que se torne ativa, inteligente o suficiente para perceber os reais inimigos, os reais culpados, sem cometer injustiças em transmitir o pensamento dos próprios culpados para os semelhantes – que também sofrem com o racionamento – na medida em que aqueles que propagam o medo são, definitivamente, os únicos que se safam com ele. o medo é uma arma, mas deve ser usada do lado certo: do lado do povo e contra a soberania mentirosa de um estado negligente e absurdo. a mentira estatal, por sua vez, deve ser perseguida e derrubada, toda vez que se define como um demônio, acima do bem e do mal, intocável e absoluta. para salvarmos o país, é dever pensarmos e vislumbrarmos em quem devemos cobrar. e estes, não estão próximos da gente.

 

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