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da liberdade cultural; ou o produto que não existe

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apresentar a cultura livre é ainda um grande choque argumentativo; conceber uma proposta longe do retorno capital para um suposto produto é, para muitos, a realidade mais extrema possível: não deveria existir e ponto. pagar, ou seja, a devolução financeira pela aquisição de algo, é o definidor básico do desejo, o anseio em possuir e, quem quiser que assim faça forças para determinar sua posse. este processo basicamente constrói a relação mais repetitiva da nossa sociedade e que, talvez, tenha sido o principal responsável para nossa concepção estrutural contemporânea. no entanto há, aqui, um problema social pouco discutido, muito antes da ideia sobre o que é o produto e o que não deveria se nem se definir como tal. afinal, como a cultura assim pode ser?
é interessante perceber o processo histórico cultural ocidental, principalmente na sociedade pós-renascimento, onde a arte se recria não apenas como afirmação de linguagem, mas também como forma massiva do sustento de um mercado financeiro legitimado pela produção de peças artísticas produzidas em escalas cada vez mais industriais. neste universo passado e reforçado em gerações, culmina o tão repetido termo conhecido como ‘indústria-cultural’, definido muito bem por adorno em seus estudos sobre o tema. nele, basicamente, adorno nos monta uma visão realista da constituição do ‘mercado de cultura’ como a perpetuação de um processo onde a própria arte perde o seu valor enquanto expressão, passando a fomentar apenas um mecanismo de desejo ao capital, ou seja, a venda da obra passa a ser mais importante do que a concepção da obra em si. de certa maneira há a contradição entre a realidade do próprio processo – afinal, o artista deve e merece ter condições de se sustentar – porém, como lidar com isto alinhando a criação, sem que se afete o resultado? isto porque o universo criativo-artístico não envolve uma válvula sequencial industrial e, como resultado, há maneiras e tempos em que o artista não pode medir seu esforço pelo tempo presumido para criar algo. sem a previsão da arte em uma esquematização cronológica, a quem recorrer o capital investido? isto porque o mercado atende as próprias necessidades do mercado e, sendo ele o mediador do processo, poderíamos dizer que a arte efetivamente inovadora é de fato a com melhor retorno financeiro? os melhores artistas e as melhores obras são as mais bem pagas?
destas questões surgem os problemas da arte como produto, funcionando como engrenagem e, de maneira errada, numa visão exaustiva e complexa, rebaixada ao seu desdobramento enquanto rendimento em dinheiro a quem investiu. é pueril simplificar este propósito e fugir destas questões, porém, para compreender o meio, antes, devemos beber na fonte da própria terminologia da cultura, erroneamente utilizada como hierarquização de atributos (‘eu tenho mais cultura que você!’), mas sabiamente explicada por goodenough:

– (a cultura) consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade.

socie

é importante entender esta frase tão bem resumida justamente pela sua definição na concepção mais básica e, estruturada de forma tão exata, coloca um ponto crucial ao processo da ‘indústria-cultural’ que se segue posteriormente: a cultura é tudo aquilo que alguém tem de CONHECER ou ACREDITAR. note como a escolha dos termos nos apresenta uma questão muito além de possibilidades elencáveis. a cultura não é um objeto tátil, físico, nada, talvez do processo até se origine como tal (a peça), mas, antes de tudo, a cultura é um espírito representado por relações de uma época, visões, crenças, o montante de símbolos que buscam definir o indivíduo perceptível a um determinado grupo: a sociedade. por isto, quando a vemos não esperamos a sua representação através de algo único, a cultura é zeitgeist, um acúmulo de propriedades que culminam na junção e criação de algo maior. haja vista a interpretação da cultura, é sabido que não falamos de uma questão de escolha – para o indivíduo se enquadrar, “operar de maneira aceitável”, precisa compreender o espírito de sua época de modo que se sinta e faça parte do mesmo. é um processo em dois campos, a percepção e análise. se pudéssemos assim dizer, a cultura é o grande diálogo entre a nossa percepção para com a dos outros, criando um meio termo aceitável em todos os atributos individuais expostos no coletivo (oriundos da nossa análise sobre). por isto, não se trata de uma questão hierárquica, afinal, todos estão inseridos no processo cultural, quer gostem ou não.
quando entendemos isto já encontramos o primeiro ponto de questionamento no debate. não, a cultura é definida por um gosto específico – isto faz parte do processo onde ela mesma está inclusa – mas sim de uma ação maior e mais grandiosa, proposta dentro de uma realidade onde ninguém, NINGUÉM pode viver afastado; é, como a consciência, algo indissociável da condição humana: somos seremos que tem cultura. mas a cultura resulta de ser compreendida justamente através de suas formas de linguagem, os métodos utilizados para que possamos construir a sua própria estruturação e entender os meios as quais definimos suas características. é necessário que compreendamos estas características, a saber, uma das mais proeminentes interpretações para: a arte.
quando vemos o papel da arte na cultura, novamente, não apenas falamos dos objetos (os produtos em si; as peças criadas), mas da complexidade interpretativa que desenvolve o papel filosófico da coisa; estamos tratando de uma linguagem, pura e simples como qualquer outra mas, talvez, mais complexa e rica por dignificar de maneira ilustrativa a própria vida. a arte compreende o vislumbre mais básico do indivíduo em expor a sua percepção sobre os aspectos que circulam a realidade (ou a negação de realidade) e como isto influencia o próprio meio assumido por ela. a arte é, em suma, talvez a maior ferramenta de visão, escracho, diagnóstico, discussão, criação, fortalecimento da própria cultura. radicalmente, não há separação entre as duas – cultura gera arte e a arte fortalece todo e qualquer aspecto cultura; muitas vezes, inclusive, determinando o discurso de uma época ou grupo, se compreendemos a necessidade da cultura é, talvez em sua magnitude, porque temos a arte para explica-la. lembremos que nisto estamos apenas discutindo metalinguisticamente o universo das duas, longe do pragmatismo de seus resultados (objetos físicos; no caso, as obras criadas) ou coisas do gênero. e talvez este seja o maior mal pós-‘indústria cultural’.

adorno
quando nos damos conta das colocações de adorno, o que vislumbramos é uma ideia obscura oriunda da sociedade ocidental num momento pós-renascentista, onde o valor da arte se dá em uma complexidade de relações hierárquicas que definem a própria sociedade como agente de um mercado necessário para a propagação de um comportamento estranho: participar da compra da arte tornou-se algo atraente. neste sentido e, após a segunda revolução industrial e o aumento significativo do poder de compra da população, a coisa se torna mais escusa. com o enriquecimento das classes mais baixas e a popularização das mídias (de massa) sob a tutela de difundir o consumo, a arte (principalmente a de massa) ganha um novo prospecto ainda mais participativo no modelo do capital, funcionando como meio de afirmação cultural das próprias classes mais baixas: artistas pobres que surgem de diferentes cenários e fazem a vida interpretando a(s) sua(s) realidade(s) para o mundo. é, por isso, um mal e um bem. o bem, evidente, importante vislumbre de uma sociedade onde a arte se distancia de um universo apenas dos mais abastados e passa a corroborar um discurso daqueles que não tinham voz (os pobres), mas, também, um mal porque vira um bem exclusivo de consumo. a arte torna-se totalmente produto. e com isto um importante e enorme processo moralizante que advém da necessidade de lucrar cada vez mais com obras cada vez menos significantes, determinadas pelo protecionismo da lei.
é compreensível que enxerguemos a arte no nosso século pelo seu aspecto mais rentável: os artistas são vistos vendendo um produto (no caso, a arte) e consome aquele que quiser, não apenas como espectador ou apreciador, muito além, como grande consumidor. esta relação escalona seus propósitos negativos na medida em que, como mostrado anteriormente, a defesa da arte através da cultura nos mostra que, por definição, um indivíduo inserido num grupo, qualquer que seja, simplesmente não pode viver sem cultura e, claro, sem arte – talvez sua forma de linguagem mais espetacular. a concepção do homem moderno como conhecemos não torna tal opção argumentativa, a saber, o homem é sua cultura; sendo isso, inserido, responsável e responsabilizado, a arte é um catalizador do seu próprio comportamento: interpreta as relações do indivíduo com o meio para criar um objeto (a peça) responsável por compreender o espírito de uma época. e se a arte precisa dos homens, da mesma forma, os homens precisam da arte. entendendo este discurso é impossível imaginar onde o homem pode e consegue excluir-se da cultura. talvez não se perceba nela, mas seus traços mais peculiares demonstram que o mesmo faz parte do processo. por isso, a arte como produto exclui o fator mais fundamental da questão e, sendo o produto uma escolha do desejo, poder, do capital, a arte não pode ser considerada como tal. os homens não podem evitar a arte e, dentro disso, muito se fez legalmente para impedir algumas formas de proliferação de determinadas peças, principalmente com o surgimento da pirataria no universo da web, as redes de compartilhamento de arquivos em massa e o fim absoluto dos pagamentos por determinados produtos de arte (músicas, livros, filmes etc.).
é curioso o caso, justamente porque a visão ligada a produção cria um paradigma: se o resultado da arte (a peça) é ser exclusivamente um produto rentável, enfim, estabilizado e reforçado pelo seu valor comercial, como podemos delimitar a cultura através disso? todo produto artístico, se visto por interpretação de um espírito da época, como tal, deve sugar e interpretar informações deste meio. este meio, porém, não o cobra por isso. do outro lado, a arte como produto se enxerga com um valor comercial, estabelecida por uma cifra. é claro que se envolvem questões além da arte em si no valor agregado (funcionários, locais, material para produção), mas este não é o principal ponto no volume cobrado ao preço final. isto é gritante principalmente em uma relação muito peculiar: o preço dos e-books. se os e-books acabam com todos os trâmites físicos, por que de fato seus preços diminuem tão pouco frente ao próprio produto físico? isto porque os valores das obras condizem muito mais com relações apenas legais (‘podemos cobrar porque estamos protegidos pela lei autoral’) do que propriamente a um mecanismo de fácil entendimento. a arte cobra o que quiser sobre si, porém, não pode ser ignorada ao indivíduo que, com possibilidade financeira e possui-la ou não, procura meios para driblar este impasse.

o problema da vulnerabilidade do indivíduo nos mostra uma relação cruel; de fato, com a propagação do conteúdo artístico por meios anti-capitalizadores (a pirataria), quem mais sofreu com isso não foi tampouco o artista – que continua rico – e muito menos o próprio espectador, que agora pode ter acesso ao material sem pagar. o único indivíduo a sentir com a pirataria é exclusivamente o mediador, o terceiro participante inútil na relação, mas que em todos os casos é o detentor legal sobre a imagem/uso de determinado artista. isto, claro, o faz o responsável por disponibilizar conteúdo sob a tutela de receber por algo que ele sequer fez, apoiado no legalismo escuso definido apenas na óptica da lei: se ela diz que é assim, então é. curioso isto, o que vemos é um estranho relacionamento onde dois lados interessados podem ser beneficiados com uma ação e, aquele terceiro que pouco condiz com o resultado final – no caso, a própria arte – é o responsável por dirigir o argumento negacionista. porém, dentro desta realidade, o mais prejudicado acaba sendo o indivíduo consumidor, vulnerável com uma realidade que ele não pode escapar: a cultura. se e, precisando estar inserido na sociedade, acompanha de forma passiva o bombardeamento de informações/discursos/imagens que o colocam como um ser e com necessidades a serem supridas no complexo cultural, do qual ele faz parte e, por suas ações, precisa estar inserido para fazer parte da sociedade. desta forma, a arte como produto não é algo evitável, escolhida, mas precisa ser consumida – com ou sem o pagamento. no entanto sabemos sobre este caso e, se consumida sem pagamento, o indivíduo se torna além do que ele pode contornar; um criminoso.
vemos o problema na concepção da relação de dubiedade da ideia, onde aceitamos que se há uma escolha (‘ou você pode aceitar ou negar a cultura’). porém, colocar a arte como produto só a torna mais atraente justamente pelo seu contrário: o indivíduo a enxerga como objeto de desejo, mas não faz relação ao seu valor comercial. é por isto que ninguém parece se importar muito em consumir produtos pirata, mesmo sabendo estar longe da legalidade, aqui, isto não é importante – e ninguém se sente como um criminoso. suprir a necessidade cultural, inserir-se no grupo é ainda mais poderoso do que a representatividade de qualquer impedimento legalista. por isto, quando a vemos com esta lógica, entendemos que não se trata de uma questão de escolha.
mas na vertiginosa influência da ‘indústria-cultural’ no cotidiano há um outro problema ainda maior: a exposição de artistas na sociedade de espetáculo torna a imagem dos mesmos em indivíduos-herói/exemplo, difundida em diferentes produtos mais e mais distantes da própria arte em si (o objeto, a criação, a peça), mas não menos atrativos ao consumidor. é comum vermos cantores/escritores lançando tênis, marcas de roupa, entre outros, fazendo valer a riqueza de percepção sobre a imagem enquanto artista, colocando-os como identidade definidora do espírito, criando um problema ainda maior para o argumento inicial: afinal, estes produtos podem ou não ser evitados, na medida que, como forma de afirmação cultural, se definem na imagem do seu criador (no caso, o artista)? são uma extensão da obra original do artista ou apenas produto de massa? esta pergunta é extremamente difícil de responder e cria uma sociedade já moralmente perdida ainda mais confusa. o artista não é mais importante apenas pela obra alcançada, muito pelo contrário, mas pelo conjunto de discursos que o mesmo corresponde através imagem do seu ente espetacular.

bank

eis a arte do nosso século: um discurso. um grande e infindável discurso, programado e verificado sob a tutela do mercado. a ironia, como verificado por rudiger (baseado na obra de adorno), é, justamente, a confusão do processo. se a arte se propunha a ser o objeto, a peça, com o discurso agregado a interpretação do espectador naquele momento de sua observação, nisto, suprimimos a essencialidade da peça; ela vira recurso, apoio, apenas pela noção do que se pode ser gerado por isto e, mais importante, sobre o que pode ser comercializado através. a comum frase de “não julguemos um livro pela capa” se inverte e é, de fato, a capa que se torna o mais importante ao nosso tempo; verificando que se atribuí toda e qualquer representatividade do “eu” no produto, o consumidor não enxerga apenas como o objeto (a peça) ali exposto possa ser interessante em suas correlações entre arte x espectador, mas sim em uma estranha dimensão psicológica de percepções inerentes à imagem subjetiva gerada: a obra passa a ser tudo aquilo que o consumidor quer ver em si (não muito diferente vemos cada vez mais a identificação do espectador aos personagens fictícios; ‘este personagem é tão a minha cara!’). e, dentre o processo de personificação, vemos a identidade do indivíduo cada vez mais reforçada em produtos vendidos com o selo de ‘cultura’, reforçados pelo processo da ‘indústria cultural’ em um mecanismo inevitável – ele vai consumir, tendo dinheiro ou não, dará o seu jeito.
mas o que vemos deste processo e o porquê de seu lado moralmente deplorável? 1 – o primeiro ponto é justamente a inevitabilidade cultural; sabendo disso, aqueles que lucram com a ‘indústria-cultural’ bebem na fonte de serem inevitáveis ao homem. abusando desta visão, produzem e reforçam o desejo, levando pessoas a reforçarem o mecanismo financeiro justamente sem uma escolha propriamente direta: ninguém quer ficar fora da máquina cultural e, por isto, ‘estar na moda’/’estar por dentro das coisas’ é uma tendência em absoluto. 2 – paralelo a isto, vemos um discurso moralista apoiado em criminalização de ações que não condizem com o fato. é o caso da pirataria – alternativa viável para democratizar o processo do conteúdo quando ele se torna inviável de consumir por outros meios (ou seja, pagar por aquilo) – mas que não é exatamente um roubo, embora seja tratado como tal. na óptica mais simples, o roubo representa a subtração de um item de um indivíduo por outro, com a adição de (quase) sempre contar com um ato violento. no caso da pirataria, não há subtração, muito pelo contrário, mas a multiplicação de um item, além de nunca ser feito de forma violenta. note que, aqui, a multiplicação do item ganha um aspecto interessante: a democratização do conteúdo através da pirataria rebaixa os objetos no seu valor comercial (afinal, todo mundo compartilha de graça), mas não rebaixa no seu valor cultural. grandes obras continuam sendo grandes obras indiferente a pirataria e, por isto, grandes artistas conseguem suprir o valor da venda com outras formas de lucro – como no caso do iron maiden, que agora mapeia todas as regiões onde é mais pirateado para, desta forma, poder fazer shows exatamente onde percebe que o seu público está disposto a ouvir sua arte, mas não disposto a pagar pelo objeto físico da peça (no caso, o cd). a função da arte acaba por se perpetuar, encontrando o escape necessário para intervir de forma crível na interpretação da cultura e continuar relevante e, para o artista, o seu sustento continua existindo. a multiplicação não se torna um mal para o artista de forma alguma, que ainda vislumbra meios de capitalizar a ponto de tornar sua arte uma forma de viver. a pirataria se torna um problema apenas para o intermediário. este, no caso, as grandes corporações que vivem do direito autoral. numa visão explicativa da relação entre a arte, bastaria o espectador e o criador (artista) para que a arte existisse e fosse replicada, considerada e inserida no processo cultural, porém, por que nos preocupamos exatamente com o intermediador? seria cômico se não fosse triste, justamente porque qualquer tentativa de discussão sobre o tema remonta apenas ao mesmo fator: a lei. ‘a pirataria é ilegal’, sim, porque como todas outras, as leis são escritas em acordo com interpretações de determinadas visões que, as vezes, não executam nenhum tipo de plano dentro do âmbito moral. caso clássico era a escravidão, muito tempo protegida por lei e que, aos olhos normais, nunca determinou nenhum tipo de defesa moral – apenas a econômica. mas, no caso da pirataria, há um agravante distorcido, a comparação infundada com o roubo. esta, por sua vez, uma tentativa dos intermediadores – os grandes interessados na perpetuação da lei – em propagar um discurso crível ao homem médio que, moralmente condenando o roubo, se vê obrigado a ser contra a pirataria (mesmo muitas vezes sendo usuário da mesma). mas por qual razão a pirataria sequer estaria na mesma família do roubo? em nenhum aspecto os dois se relacionam e, longe do campo moral, apenas estão interpretados dentro da legalidade igualmente. tautologia, afinal: é errado porque está na lei; e se a lei diz, então é errado.

o que temos disso é a perpetuação do intermediário. apenas a ele e só por ele que há interesse em disseminar o discurso anti-liberdade cultural. de fato, nenhum artista antigo faliu em virtude de ter suas obras compartilhadas, assim como muito artistas novos puderam surgir através de espaços inteiramente de graça, apenas compartilhando suas criações. quem sentiu os efeitos da pirataria, então? sim, o intermediário. só. e a representação dele na produção da arte é absolutamente nula, zero, de modo que a própria sociedade, já vivendo em harmonia com a pirataria, conseguiu mostrar empiricamente que arte continua sendo produzida e artistas continuam ficando ricos. não há quebra de ciclo no processo, apenas a supressão do mais inútil tipo de ser humano do planeta: o intermediário. este, vampírico, vive apenas de sugar. é sabido e não é nem escondido, alguns dos intermediários sugavam tanto que, para seus artistas, a maior parte da criação ficava retida com o próprio intermediário. imagine a situação onde um escritor escreve sua peça e recebe, após a publicação, cerca de 5% do lucro? situação corriqueira. evidente que há custos na produção em massa da obra e eles são agregados ao intermediário (que os banca), mas a surrealidade de pensar que 95% do valor da obra é composta disso é, não só inocência ou burrice, mas cara de pau admitida. este tipo de relação apresentava contextos onde intermediário podiam arrecadar cerca de 40% de lucro; a ironia por trás é que a obra, a criação executada pelo processo criativo do artista, representada num lucro inferior ao próprio intermediário, realmente, demonstra o mecanismo de afirmação da ‘indústria-cultural’, afinal, a peça não valia absolutamente nada. no processo de produto acima de arte, a lucratividade fica retida exatamente em quem interpreta o discurso neste molde: a arte não tem valor. não a criação, não o artista, não o esforço de sua concepção, não a criatividade, nada, absolutamente nada disso vale. o maior valor de uma obra é a forma como ela pode ser rentável em si, como produto e, este, valor atribuído pelo intermediário da forma que bem entender necessária. é, portanto, o intermediário o grande mecanismo de cobrança; em muitos aspectos seria de interesse ao artista e ao apreciador da peça que o seu preço baixasse, ou em casos extremos nem houvesse cobrança, mas há, no meio do caminho, a imposição do intermediário, aquele que vive apenas e somente para o lucro. há, por isto, o confronto de ações: como traço cultural – necessário para a existência do mesmo – a arte é fundamental ao ser, mas não há em si uma métrica exata para o valor proposto; o apreciador só percebe a necessidade de se relacionar com a obra de forma simbiótica; ela completa a existência dele e ele é o fator motriz para que ela exista. do outro lado há a casta de grupos existentes com o único fim em qualificar a arte em forma de que ela se torne rentável e, sabendo das necessidades do indivíduo, valoriza o objeto de forma irreal, apenas para obter para si uma inevitabilidade de ação. o indivíduo precisa do que o intermediário tem (a peça), mas não concorda com o seu valor proposto.
o que podemos perceber nesta relação é o aspecto mais cruel da ‘indústria-cultural’, fomentando principalmente um mercado de produtos onde não há exatamente o produto. vende-se o prospecto do próprio discurso, a imagem do artista estampada em uma visão, onde o produto é apenas um apoio rentável para a exploração de algo muito maior. como podemos quantificar em cifras um discurso? uma percepção? do ponto de vista da própria ‘indústria-cultural’, estes aspectos são facilmente calculados em fórmulas duras e rasas, mas que não se pode afirmar cumprir um papel realmente condizente com a realidade da concepção da arte, ou a importância cultural da mesma. nisto, o que vemos é o surgimento de crimes atmosféricos, situações descabidas sendo punidas em um mar de acusações das mais genéricas possíveis – baseadas sempre na defesa do intermediário acima de qualquer conceito essencial: a cultura e suas linguagens na sociedade. o intermediário faz parte da perpetuação da econômica e, como tal, gerador de renda, é protegido sob a óptica da necessidade: precisamos ver o mercado girar para sustentar nossa sociedade. porém, quanto isso reflete em nossas vidas?
enquanto não pensarmos na independência dos aspectos culturais, dentre eles a arte, teremos a visão limitada e profundamente insana da ‘indústria-cultural’, a saber, todos os males que vem junto, como a padronização de recursos e resultados com artistas cada vez mais genéricos e inofensivos, criados pelo discurso do rendimento e apoiados na realidade da planilha financeira. vislumbrando o esquema de fora pra dentro (do dinheiro até o objeto, a peça), ao invés de perceber as relações internas, principalmente as mais complexas estruturas culturais enraizadas no meio social e como a arte se correlaciona com elas, o que teremos são produtos numa estante: ironicamente, produtos que não queremos pegar, mas acabamos cedendo porque fazemos parte do meio, estamos inseridos nele e necessitamos de sua existência para isto. cultura e produto estão em caminhos opostos e, toscamente comparados, geram um mundo onde a pirataria e a cultura-livre se tornam um mal muito maior do que um bem. isto acaba por ser contraditório: como ter acesso a mais informação e a mais interpretações dos nossos traços culturais pode ser exatamente algo ruim? enquanto não chegarmos na raíz da resposta para esta constatação, o que teremos é o grande emaranhado de acusações; estas, criações do intermediário para perpetuar única e exclusivamente o seu lado. o lado financeiro.

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