este texto é bom, mas é ruim

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da inevitabilidade de ser um cuzão moralista, o indivíduo se nega a aceitar o que é e, como crente em busca do que é sagrado ao seu grupo, se transforma exatamente naquilo antes criticado por uma noção simbólica de verdade; no caso, que existam preceitos absolutos, valores maiores que outros valores, uma escala moral de respeito indissociável em uma certeza: a vida é feita de escolhas para o caminho certo. mas este caminho é apenas percepção, não existe na realidade. não se trata de ver o problema, o pensar e a implicação lógica disto, a construção do argumento é um mero detalhe formal, afinal, é preciso comunicar a merda toda de alguma forma; escrita, falada, desenhada, como for. e esta merda fede em direção oposta mas, não diferente, fede igual as outras anteriores.
a briga é ideológica, não factual. moldamos a liberdade como uma qualia incompreensível de conjunto inexistente, pois não se define longe daquilo que queremos que seja como coisa em si. no final, claro, não brigamos – embora falemos que sim – pela tão almejada liberdade dentro de um contexto, mas apenas para transpor nosso pensamento sobre o dos outros. a liberdade é uma figuração egoísta exatamente daquilo que queríamos imaginar sobre ela, ironicamente, não funcionando como conjunto, não se trata de uma universalidade compreensível. a liberdade não existe, não, fingimos perpetua-la para justificar o nosso anseio. a saber, o anseio de sermos completamente individuais, intocáveis no mundo. o nosso mundo.
neste mundo, como dito, definimos símbolos, santos, ritos, linguagens, aqueles objetos e atos que perpetuam em conjunto as necessidades que buscamos expressar para construir a nossa imagem sobre nós mesmos: somos a base de dados definida por este ato. o objeto não é santificado por ele, mas por aquilo que acreditamos ser sobre ele. maomé, desenho, liberdade de expressão, esquerda, como linguagem são apenas significantes inúteis, letrinhas soltas atreladas aos significados que podem ou não ter valor por si. e este valor apenas condiz com a necessidade do indivíduo em atribuir a própria força em algo exterior – o santo é a imagem do seu criador mundano, o próprio homem.
não há valor no moralismo além daquele valor que imaginamos que exista. o moralismo, ah, ele, esta condição que não morre. a moral do homem é a eterna busca em exteriorizar suas premissas de necessidade; ela não tem valor enquanto unidade, muito pelo contrário, cresce como ideologia de massa, uma visão acumulativa de que determinada interpretação condiz com um universo de pessoas. e nós podemos imaginar que aqui eu estou falando de religião, claro, talvez a instituição mais óbvia para falar sobre moral. talvez seja, porém, muito melhor compreender a esquerda, em especial, a esquerda brasileira nos seus últimos acontecimentos, definhando na falta de bom senso.
quando vemos a redoma de comentários ruins ao redor do caso de charb e das mortes, antes de tudo, vemos um ode a burrice umbilical que se expressa na falta de tino da esquerda brasileira em compreender suas relações mais subjetivas enquanto agente social, ativando um mecanismo de contrariedade ridículo e que, inclusive, foi condenado no passado pela mesma: o famoso “mas”. proliferam-se textos onde a opinião bunda basicamente define como determinados grupos não querem as coisas, mas elas se justificam por si. longe da esquerda imaginar mortes e torcer por elas, mas bem que as vítimas poderiam evita-las, ou, no mínimo, deveríamos apelar para a falta de sensibilidade e ignorar tudo que aconteceu; uma justiça moral. no caso, os mortos não eram vítimas puras, santificadas e, por isto, devem ser questionados inclusive sob o aspecto de sua morte: afinal, “deveríamos chorar por eles?”, questionam. e o “mas” permite esta riqueza estrutural maravilhosa, magnânima, porque pesa exatamente pelo seu oposto, combate o anterior apresentado como forma de introdução. tudo o que foi dito é apenas o polimento para o que esta po vir, vislumbrando a contrariedade da coisa – eu quero falar X, MAS antes eu falo Y. não há necessidade em Y, apenas formal, para validar todo resto, por fim, pouco importa se ele de fato existe. como as mortes ocorridas.

aqui, presos a dois pontos absurdos, responsáveis pela confusão irracional por trás da interpretação maluca ou mal intencionada desta situação, vimos a seguinte óptica: 1) aquilo que eu chamo de “cânone da esquerda brasileira” e 2) passado e futuro, o que não foi feito e o que poderá ocorrer (mas ainda não ocorre), como se imaginativamente e hierarquicamente existisse mais valor em qualificar o caso em situações possíveis longe da realidade, esquecendo do presente, o ato em si, aquela galera que foi fuzilada no jornal.

1) do “cânone da esquerda brasileira” é importante compreender a ignorância que ele é percebido, justamente porque reforça teoricamente o combate às coisas que a própria esquerda propõe derrubar: a moral em si. deveria, porém não faz, discutir as formas de onde o indivíduo acha exatamente estas formas para relativizar o diálogo moral em favor próprio. a pergunta que fica é: como pode alguém combater exatamente da mesma maneira daquilo que condena?
isto é muito aparente no momento em que vemos a esquiva retórica na aceitabilidade de determinados símbolos que não escapam longe da religião e tampouco dos grupos oprimidos sob a tutela cultural, não questionados e ignorados, mas sendo criados e perpetuados tal qual todo discurso por trás da moral oriunda dos grupos opressores, justamente porque são fortalecidos na ideia de uma pseudo-importância a estes próprios símbolos de maneira tautológica: eles só tem valor porque determinado grupo quer que eles tenham. e, aqui, no caso, o valor que o “cânone da esquerda brasileira” atribui. mentira e, mentira maior, a ideia de qualificar diferentes subjeções com um viés objetivo, principalmente numa retórica bostinha de fraqueza social – aceitamos que em determinados casos os símbolos sejam questionados, outros porém devem ser aceitos pelo simples fato de pertencerem a conjuntos essencialmente vistos por uma suposta submissão e funcionam como forma de afirmação inquestionável (quando todos os símbolos, de fato, estariam nessa categoria: todos são inquestionáveis aquele que o atribui importância).
mas, afinal, como teríamos noção deste valor? quais e quais os símbolos a serem aceitos ou não? defender esta ideia é absurda pelo simples fato de representar uma qualia na própria compreensão, afinal, como poderíamos fazer esta relação de maneira diferente as interpretações que subjetivamente vislumbramos do mundo? não existe pluralidade na percepção e, por mais que assim tentemos compreender, o mundo é uma construção individual da consciência.
no entanto, neste caso, a esquerda brasileira aceita que determinados objetos sejam passíveis de encaixe na relativização moral, claro, desde que a moral defenda aquilo que ela crê. o poder do “cânone da esquerda brasileira” faz a exclusão e, tudo aquilo que pretende, embala ritualisticamente na bola da bosta, atribui uma importância sacra em comparação a tudo aquilo que simplesmente não quer aceitar. eis aí que não importa a destruição total da moral, mas apenas a moral que se quer destruir. toda aquela que lhe é boa, é perpetuada através do manto do discurso escuso, o clássico “mas veja bem…”, o triunfo dos bobos, é a porta dos fundos do apelão: no jogo da vida, entra quem conhece as pessoas certas. todo o resto é otário. ou opressor maligno.

2) mas, não só isto, há um problema temporal nas principais relativizações deste caso. não há correlação entre eventos do passado que se justifiquem na previsibilidade de uma suposta sucessão de futuros engessados em um ato. primeiramente baseada no “se”… (“se a justiça tivesse impedido o jornal”, “se a imigração muçulmana fosse melhor concebida na frança”), a ideia de que a culpa do presente – as mortes – é baseada na escolha de “passados errados” gira em torno de uma temporalidade insanamente inconsistente, principalmente porque a cronologia dos eventos não permite viabilidade longe daquilo que já ocorreu. de certa forma, o “se” não pode ser mudado no futuro e, como passado consumado, ser justificativa para o ato é tão efetivo quanto nada, um zero bem grande; ilustrativamente funciona como o famoso “capitão retrospectiva”, personagem irônico do desenho south park que ajuda a esclarecer este tipo de situação. o mundo não é retroativo e o presente não pode ser justificado pelo passado. veja muito bem a linguagem: não pode ser JUSTIFICADO, diferente de compreendido. sim, os fatos ocorridos compreendem a relação histórica do racismo francês e o mau tratamento dos imigrantes muçulmanos e esta é uma verdade insofismável, porém, ainda assim, não conferem justificativa as mortes. não há o “mas…” nos assassinato.
no outro extremo de análise temporal, o mundo também não pode ser bola de cristal; atrelar a culpa das vítimas a um futuro virtual, ainda que previsível mas inexistente na consumação do ato, é cagada cega da retórica maluca. tentar relativizar o peso das mortes em comparação ao surgimento de uma islamofobia possível e previsível é apenas especulação bobinha. a narrativa do tempo e do espaço não permite que compactuemos com a ideia de que um ato cometido por terceiros no futuro (no caso, o racismo contra muçulmanos) possa efetivamente pesar na responsabilidade de um ato independente causado por outros indivíduos no passado (aqueles que morreram no atentado/aqueles que mataram no atentado), adjuntos em um mesmo universo temporal. quem responde pelos atos do futuro são os agentes do futuro, assim como quem responde pelos atos do presente são os seus agentes…não o contrário. alegar que devemos fazer o contrário – pensar como as mortes trarão islamofobia – é o processo inverso ao possível e não há silogismo: as mortes trouxeram mortes; a islamofobia traz islamofobia. a permissividade desta conclusão cronologicamente errada, inclusive, anularia qualquer função social de luta ao longo da história: se, de fato, a preocupação fosse com o ódio possível na repercussão futura, por exemplo, nenhum grupo deveria escrachar ninguém, temendo pela resposta que viria acontecer; a reação seria óbvia, afinal. mas não é o que imaginamos e muito menos o que queremos, ainda mais se determinado grupo estiver significativamente atrelado a imagem do oprimido, pensamos ser dever o escracho. as coisas não podem ser relativizadas em corda bamba moral, devendo valer como unidade: a igualdade de vontade do ato para todos.

e esta corda bamba nos apresenta um jogo perigoso; subindo e jogando como se quer, o que vemos disto é o malabarismo necessário para perpetuação da merda; ao invés de evitarmos construir mais merda, é exatamente o que fazemos. a única conclusão moral ao caso de charb não é apenas a imagem horrível da morte cruel mas, como disse zizek, uma hora crucial para pensar. pelo contrário, poucos usam o fato para isto. se há ato político em mortes assim, o que esperamos é a introspecção de relações para medir o acontecido de forma que ele não aconteça novamente, estruturando principalmente o COMO pensar e não exatamente o O QUE pensar (que é a tentativa que estão fazendo). o que já foi pensado mil vezes todos já sabemos, vemos e ouvimos, multiplicam-se os textos e falas iguais, exatamente iguais, imaginando que repetir à exaustão tudo o que já deu errado possa não dar errado se repetido na enésima vez. um peão gira sempre da mesma forma quando jogado; assim como uma ideia medíocre sempre será medíocre, não importa quantas vezes seja reaproveitada. me assusta o misto de inocência e burrice, principalmente em momentos onde a esquerda e direita concordam: não devemos atacar o sagrado? permitimos que ele exista e mate, em nome do símbolo tautológico de poder, de sentimento, de inserção social, simplesmente porque aceitamos que o sagrado é intocável? eis a única ideia que deve permanecer intocável e imutável e esta é a certeza que tudo, tudo deve ser desconstruído e discutido. principalmente a moral, ou seus filhos fortes, como religião, o costume e a aceitação: todos devem ouvir e ruir. ou então aceitamos que somos o que já fomos e este é o fim: o ciclo eterno.

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