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O velho e o tempo

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Aquele momento você só percebe quando passa o tempo;

você é jovem, rebelde, reclama.

Não sabe exatamente o que quer, mas sabe o que reclamar.

Reclama todos os dias, todas as horas.

É a sua função de jovem: o reclamão!

Sabe tudo, sabe além, sabe os culpados, sabe o que tem de errado;

conhece os erros e sabe como evita-los, todos deveriam ouvi-lo.

Sua opinião não é linguagem, é um fato: você pode mudar tudo.

E se garante nesta certeza, nunca está errado. Condena o velho.

Diz que o velho passou, foi superado, está acabado;

vê nele a imagem do passado a ser superado,

vê nele a imagem do passado a ser esquecido.

O velho, coitado, nunca reage; não quer reagir, o silêncio é sábio,

as vezes, quase sempre, deixa que o tempo vai dar a resposta.

E você reclama do velho, bate sem cansar.

Bate garantindo que vai ganhar.

E num certo momento você ganha, claro, enquanto você bate

só recebe silêncio. E o silêncio do velho é a sua vitória.

Você acha.

Mas o tempo passa e vêm a resposta.

E aí você contempla, olha, observa. Olha o passado. Olha adiante.

E vê que você também já não é mais o jovem, passou e é passado;

e o velho, no seu silêncio, tinha alguma razão.

Você errou?

Sim.

O velho, ainda quieto, agora ri, mesmo que sem som.

E não precisa emitir nenhum ruído para presenciar esta derrota,

seu grande erro, que fatalidade!

Está claro, agora, você vê e percebe, adiante, ele sempre esteve certo,

não adiantava você bater, gritar, a rebeldia passou. E o velho ficou;

está lá, duro, observando a vitória moral, sem precisar de palavras,

sua expressão deixa claro o que você descobriu após tudo.

E a idade aumenta, os anos se passam, a experiência vem e fica,

mostra pra nós que os gritos, os reclames, os berros e os xingos,

de nada valeram. Sucumbiram ao tempo, à vitória da história;

e o velho que tanto apanhou provou seu argumento,

ainda que nunca tivesse precisado argumentar.

É estrutural, sua presença, estar ali é o seu discurso.

E você muda de ideia, o velho outrora odioso passa a ser um exemplo,

um motivo, uma homenagem.

E você entende que a duração é pertinente, é uma razão,

se ele existiu tantos anos já basta, já garante, ainda que imperfeito,

alguma coisa tem. Não são todos que aguentam, aguentar é um símbolo.

A persistência é significado, estar ali todos anos,

para os outros, para você, o tempo lhe abraçou.

E você percebe que ele lhe abraçou deste de sempre;

o velho, aquele velho, é um filho do tempo…como você.

Vencido pela lógica, você não é mais o mesmo, admite suas falhas,

admite que o velho também tem as suas, mas quem não tem?

E as falhas de todos completam, na mistura do mundo, faz sentido tudo isso.

O tempo é a palavra final. A palavra de quem ficou e continuou existindo.

E o velho existe ainda, odiado, adorado, enfim, contemplado.

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