45

Reginaldo

45

 

– Que porra é essa, Reginaldo?!

– O que?

– Isso aí, Reginaldo, que história é essa?

– O que tem?

– Como assim, porra, como assim “o que tem” ? Você vem com esta história, fala que trouxe um braço…aqui pro bar, agora finge que tá louco?

– Sim, um braço, ué.

– Sim, Reginaldo, um braço, a porra de um braço, numa mochila…no meio de um bar lotado!

– Sim, um braço, na minha mochila, o que tem?

– “O que tem” é que ninguém carrega um braço na mochila. Ninguém carrega, porra, é um braço! Um braço amputado! O que você tem na cabeça?

– Quem disse que é amputado, cara, é um braço. Só isso.

– Sim, porra, você já disse, um braço dentro de uma mochila é o que?

– Um braço dentro da mochila, ué, ninguém disse nada mais.

– Sim, Reginaldo, claro, claro, um braço na mochila, perfeitamente normal, perfeitamente plausível, super natural. Você tá maluco, cara!

– Não to não.

– Tá sim. Carrega um braço amputado por aí e quer que todo mundo ache normal.

– Já disse: não é amputado.

– Como não, caralho? Como não tá amputado? Então como tá dentro da mochila?

– Estando.

– Você tá maluco, cara, você tá completamente doido. Que merda é essa? Que braço é esse?

– É o meu braço.

– O que?!

– É o meu braço. Meu braço!

– Sim, porra, eu entendi, mas como assim? “O seu braço”…eu to te olhando daqui, to vendo seus dois braços aí, como assim “é o meu braço”? Se tá na mochila não pode ser seu!

– Que mochila?

– Deus meu, hoje tá difícil, Reginaldo, você pirou, tá fora de si, o que você tem? A porra da mochila que você trouxe, caralho, a mesma porra de mochila que você disse que tinha um braço dentro, caralho. A mesma porra de mochila que você disse que tinha o seu braço dentro, Reginaldo, a mesma porra de mochila!

– Você tá louco, cara.

– Caralho, não to aguentando mais; no começo achei que fosse brincadeira, mas acho que você saiu de si.

– Não sai não, cara, quem está gritando é você mesmo, quem tá maluco é você, inventando um monte de histórias.

– Que porra de história, Reginaldo? Você que veio com esta mentirada.

– Não é mentirada, eu não disse nada.

– Disse sim, porra, disse um monte de coisas, agora tá dizendo que não disse, tá dizendo que não tem mochila.

– Não to dizendo nada. To afirmando: que mochila?

– Essa porra de mochi…quer saber, foda-se, vai se foder, tomar no cu, caralho, eu tive um dia de merda, vim aqui beber nessa merda desse bar, convidei você pra essa porra e agora você vem cheio de caô pra cima de mim, caralho, inventa história, depois diz que não inventou, vem com essa de mochila, depois diz que não tem nada, quer saber, foda-se, vou ligar pro hospital, Reginaldo, você tá fora de si, enlouqueceu, tá maluco.

– Viu, cara, você fica inventando essas coisas, dizendo umas paradas, braço, mochila, agora vem com essa. Quem é Reginaldo?

– Você caralho, Reginaldo é você.

– Aham, sim, eu mesmo, agora eu nem sei meu nome, “Reginaldo”, claro, que nome é esse?

– O seu, caralho, Reginaldo é o seu nome, você se chamou Reginaldo pela porra da sua vida inteira, Reginaldo. Você é a merda do Reginaldo, Reginaldo!

– Ih, cara, não se altera, não precisa ficar irritadinho e não precisa inventar coisas.

– To dizendo, Reginaldo, hoje tá foda. Não tá dando pra aguentar essa brincadeirinha.

– Eu não sou Reginaldo!

– É sim, Reginaldo!

– Não!

– Sim, você é a porra do Reginaldo!

– Quer saber, foda-se, eu não sou, não adianta, você não acredita, ce tá maluco com essa história.

– Maluco tá você!

– Não to não, cara, eu sou o mais normal daqui.

– Ah é, há há, faça-me rir, Reginaldo, você…normal.

– Sim.

– Então tá, Reginaldo, caralho, cansei desa merda, cansei de dar trela pra essa maluquice, se você não é Reginaldo…quem é Reginaldo?

– Ué, você é o Reginaldo.

– Mas…que? Que merda é essa?

– Sim, você é o Reginaldo, ué, você, com sua história do braço, sua mochila, você é o Reginaldo.

– Caralho, Reginaldo, você já era mesmo, pirou.

– Sim, Reginaldo, eu pirei, tá bom, Reginaldo, fui EU que pirei?

– Sim, Reginaldo, você mesmo, porra, você inventando essa história, falando merda, Reginaldo, tem que se internar.

– Tá bom, Reginaldo, agora você diz que eu sou você, inventa essas historinhas e depois não admite que é o Reginaldo.

– Sim, caralho, porque eu não sou a porra do Reginaldo, caralho!

– Tá bom, Reginaldo, você não é Reginaldo. Mais alguma ordem?

– A, foda-se, cansei mesmo, já era, Reginaldo, não vou dar trela…quer saber? Vou ligar pra um hospital, pronto, Reginaldo, satisfeito?

– Sim, to sim, assim a gente vai provar que Reginaldo é você.

– Tá bom, Reginaldo, tá bom, agora quieto, vou ligar aqui, to ligando, cala essa boca maluca.

– Vai lá, cara, vai lá, Reginaldo, liga aí.

– Pera, cala a bo…pera, alô? Oi…pera, não to ouvindo, oi, que…alô? Sim, sim, agora sim. Então, Bianca, tudo bom? Não, comigo não, eu tava aqui no bar, com meu amigo, o Reginaldo, sim, isto mesmo, Reginaldo, chegou aqui, contou uma história maluca, acho que ele enlouqueceu, talvez seja esquizofrênico, inventou umas paradas, inventou uma história, agora ele não acredita que é ele mesmo…

– Porque Reginaldo é você, ué.

– Cala a boca…to falando aqui….Sim, Bianca, isso mesmo, isso, então, ele tá aqui e negando tudo, maluco total, o que eu faço, vocês podem mandar uma ambulância, uma equipe médica, qualquer coisa? Sim, sim, a gente vai continuar aqui. Sim, sim, neste local mesmo. Sim, aqui. Tá, brigado, valeu.

– Que foi?

– Vão ligar daqui a pouquinho pra confirmar os dados, Reginaldo, ai você tá fodido, vão ligar e confirmar tudo, mandar uma ambulância pra cá, Reginaldo, você vai ser internado.

– Se forem internar o Reginaldo, vão internar você!

– Vai rindo, Reginaldo, continua assim!

– Só falo a verdade, Reginaldo.

– Continua ai falando, então.

– Continuo mesmo.

– Pera, para, tá tocando…fica quieto…sim, alo, sim, oi, Bianca, tudo bom? Sim, sim, sou eu mesmo, meu amigo continua aqui e continua acreditando que não é ele. Sim, ainda estamos aqui e vamos ficar, ótimo, pode mandar. O endereço é Avenida dos Leões, número quatro, cinco, dois, bar do Leão Imperial. Isto mesmo, Bianca, quase na esquina, estamos numa mesa aqui dentro, ele não parece agressivo, tá calmo, não tá entendendo a situação…

– Até porque não tem nada pra entender…

– Cala a boc…sim, não, to falando com ele aqui, Bianca, sim, isto mesmo. Ah, quando vocês chegarem, tratar com quem? Sim, comigo, eu mesmo. Neste número mesmo, eu atendo pelo nome de Reginal…não, porra! O que? Pera, não, caralho, é, sim, não, pera, não desliga; venham pra cá e falem comigo, euzinho, nome de Reginal…QUE PORRA É ESSA???!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s