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Acabaleando

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É difícil acabar alguma coisa; qualquer coisa que seja, é difícil, bem difícil acabar.

Começar todo mundo começa, é só empurrar, sair da inércia, foi! Você começou. Mas e acabar?

É difícil, gente, chegar ao fim. Pior ainda quando você não consegue ver o fim; quando está longe, falta motivação para acabar. Você olha, vê nada, que coisa, como chegar a um fim se talvez ele nem exista?

Aí você não acaba.

E tampouco começa.

Não acaba nada, porque tudo passa a ser a busca pelo fim; começar vira um dilema de só ter um sentido quando você consegue acabar. E, quando não vê como vai acabar esta coisa, não começa nenhuma coisa. Senta no sofá, faz nada, deixa passar tudo, é melhor nem começar pra não se cansar com pouca coisa.

E aí vem o conforto, o sentimento do dever cumprido, será? Sem busca, qual dever? Cumpriu a função de sentar no sofá e nem começar nem acabar nada.

Porque é difícil acabar alguma coisa.

Passa por fim em si próprio, o sofá e sentar: nele, você só tem esta função mesmo. Você senta e pronto. Acabou o que começou. Vitória! Mais que finalidade, vira objetivo de vida, de conforto. A segurança do fim que se encontrou ali mesmo naquele momento. Acabou.

Mas e daí?

Se fosse pela dificuldade ninguém iniciaria nada. Não exitiria o sofá, não existiria a língua, não existiria o meu texto.

Ninguém poderia sentar para ser feliz com nada e eu não poderia escrever para falar disso. Sem sofá e sem palavra, só podemos comemorar porque alguém quis acabar alguma coisa. E um acabou fazendo o sofá, o outro acabou fazendo o alfabeto. E eu posso falar do sofá, enquanto tem gente que senta e não quer falar de mais nada. Nem saber de mais nada. Muito menos do que eu escrevi.

Mas eu continuo escrevendo, e daí?

Escrevo por nada, falando de nada, faço isso porque é só começar. Comecei a escrever e gostei, não preciso procurar um fim. O fim é a escritra, isto mesmo, finalidade em si.

E posso escrever no sofá, pensando em nada, sem querer falar nada, no sofá aquele mesmo que serve pra fazer nada, mas alguém criou. Como o alfabeto, no sofá, pouco importa, ele surge onde eu quiser que surja, alguém fez assim e eu posso usar quando eu quiser. Pra criar um texto, que seja, pra falar como é difícil escrever ser ter um motivo pra acabar.

Se acaso eu fizesse um livro seria assim mesmo: sem nada. Pra prestigiar o fato de escrever duzentas páginas pra isto mesmo, só porque eu comecei na primeira e fui adiante durante o tempo que eu quis. Claro, sentado no sofá.

E posso prestigiar o conforto do sofá e o conforto de escrever no sofá, de usar o sofá que todo mundo usa pra nada e que eu uso pra alguma coisa: escrever sobre quem não quer nada.

E meu livro acabaria assim mesmo, como bem inicio. Como este texto pretende acabar assim também, como bem começou. Se é difícil acabar alguma coisa, ironia, vou acabar o texto sem mais nem menos.

Só pra provar que é difícil acabar alguma coisa.

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