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Grande Comédia do Inferno Brasileiro – Um conto de todos nós

Este é um pequeno ensaio que escrevi baseado na Divina Comédia, de Dante, relacionando a ideia dos acontecimentos ao cenário brasileiro atual. Sem muita introdução, segue:

A-Divina-Comédia-Paraiso-01

Grande Comédia do Inferno Brasileiro –

Um conto de todos nós

Maldição de 13 casas, 13 andares em descida,

neste significado maldito,

eis em número o que nos acompanha.

Não rima porque não é poema,

não tem alegria: esta é a realidade

do povo brasileiro.

Se engana quem pensa que subiu,

ou se ilude e acredita querer estar onde chegou.

Não chega, não vai e não sai do lugar,

só afunda no conto

e no mistério do Inferno Brasileiro.

Aqui não tem céu,

não tem amanhã, nem salvação;

o país pode ser do futuro,

mas o além-vida é eternamente presente.

E que presentão nós ganhamos dos deuses!

Pro Brasil, infelizmente, só existe um longo e infinito

Inferno!

Maior e mais fundo que Dante,

se enche em problema;

imita o país e segue com ele,

nos 13 andares, não se importa,

porque aqui, como sempre em vida,

hierarquia ninguém respeita:

quem vem antes ou depois, tanto faz,

primeiro ou último,

quem sabe qual é o mais sofredor?

Virgílio ri de longe, do nosso martírio:

orgulho, neste lado,

só resta em ser brasileiro!

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1 –

Blogueiros, Vlogueiros e Revistas;

Veja: os perseguidos famosos da Ditadura Malvadista.

Do Círculo Olavista

Na Primeira estadia ficam os incautos,

inúteis, tadinhos, tão irrelevantes,

logo que desce se vê porque estão no começo:

ninguém quer compania, permanecem ali, longe de tudo e todos

até no Inferno.

Acreditam que n’outra vida o Brasil continua contrário:

bandido é herói,

menor infrator é criança abandonada,

professor é vagabundo

e vagabundo ganha passagem direto pro Céu.

Afirmam, estes do Primeiro andar,

que no Brasil ninguém crê nas coisas certas,

inclusive no Inferno que – pasmem! –

é virado ao inverso.

E neste Brasil do avesso, dizem eles, quem viveu de auxílio

também está no Inferno a sustento:

deram o peixe mas não ensinaram a velejar

no nosso Aqueronte brasileiro.

Pra não conviver com os outros, ficar longe de todos,

permaneceram, aqui, na Primeira descida,

acima de toda gentalha deste país,

os amigos que viram as coisas melhor.

Em colunas, revistas, vlogando aos montes,

poderosos, todos eles, não só mas também:

stand-uppers e músicos roqueiros.

Neste andar deste Inferno ao contrário, sim,

alma condenada também julga com superioridade:

afirmam que não foram pro Céu, porque, afinal,

são guerreiros destinados a acabar

com esta Ditadura deste mundo em vermelho!

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2 –

Comentarista de Notícia;

Os perseguidos anônimos da Ditadura Malvadista.

Do Círculo Geum-Ista

 E passamos direto, através da Segunda escada, mais abaixo,

quem lambe a baba de cima:

se o andar Primeiro caga, este engole.

Aqui, assim funcionam as coisas,

Primeiro e Segundo Círculo se complementam,

como a soma, duas bolas, dois zeros,

em gigante forma de órgão escrotal.

Por falta do que puxar, neste andar ninguém se cansa,

muito saco,

muita gente,

muito texto,

muito Caps Lock.

Este Círculo abriga aqueles que escrevem assim:

NOSSOS COMENTARISTAS DA VIDA,

DAS COISAS E DOS OUTROS!!!

SÓ IRA, SÓ GRITO, SÓ BRIGA,

A TUDO QUERENDO VINGAR, SEMPRE,

NO INFERNO CONTINUAM QUERENDO A MORTE,

APENAS DAQUELES QUE SÃO VAGABUNDOS.

E GRITAM TÃO ALTO QUE TODOS ANDARES

CONSEGUEM OUVIR:

– VOCÊS TEM MAIS É QUE MORRER!

– VOCÊS MERECEM MESMO ESTAR AQUI EMBAIXO!!!!

E esquecem que n’outro plano todo mundo já está,

inclusive os próprios.

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3 – A Nova Arte Hipster;

Aqueles só se importam com a vida e o amor das coisas leves.

Do Círculo Camelista

Passa logo, não olha, vai rápido,

desce avante ao Terceiro.

A doença da ira dos dois Primeiros,

aqui se reverte.

Neste andar, pra equilibrar, aliviar nossa cabeça,

demais até se alivia.

Vivem aqueles sem problemas, de paz e amor,

de camisa xadrez, de bermuda e frescor,

aplaudindo o calor e até o Inferno,

louvando tudo, inclusive a chibata no lombo.

Não encaram sua sina,

e duvidam se o Círculo não é, na verdade,

um enorme bambolê.

Toda tristeza se aplaude, aplaude mas chora;

porque chora sempre, chora e sorri,

sorri chorando, faz música, compõe qualquer coisa e a ninguém ofende;

 imaginam um só Deus encarnado neles mesmos:

é o artista maior que a barriga, egocêntrico,

vê em si o salvador deste pobre mundo corrompido.

Pinta, canta, pula de alegria,

ama o vento quente daqui,

ama a vida que não é está mais presente

e continua guardando o coração em algum lugar

que nunca vai achar.

Se os de cima ofendem, no Terceiro ninguém gosta disso.

Felicidade e equilíbrio, aqui é o lar dos novos artistas,

que até no Inferno acreditam em lição de vida.

Se veio parar aqui, canta e procura no fundo d’alma,

embalado na trilha sonora de ukelele infinita.

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4 – Esquerda Revoltx;

Aqueles que combatem tudo, todos e estão juntos na luta do Inferno sem gênerx.

Do Círculo Lattufista

 A gente segue a jornada

e o Quarto andar bem queria ser o Terceiro,

mas se o Inferno já é nosso,

imaginamos que Deus também é brasileiro

e soube a todos separar.

Inimigos longe de inimigos, Segundo grita pro Quarto,

que grita de volta, sem vergonha,

sem pudor, sem medo, sem generx,

sxm palavrxs, brxgx sxm fxm!

Aqui, meus amigos, meus caros amigos,

mora o contrário do começo,

o avesso da incrível jornada.

O Inferno, nesta ocasião, é um grande debate.

Um interminável debate, de megafone, no palanque,

combatente e gritando, de barba, com todos

ou todxs falando – ao mesmo tempo – sem chegar em consenso:

afinal, devem repudiar os moradores de cima,

ou comemorar o Inferno Brasileiro?

Este está a favor da causa do Quarto Círculo,

pois como brada o Primeiro,

é um grande salão de vermelho!

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5 – O Andar dos Convalescentes;

O local onde todos aceitam que “Brasil já é um lugar muito melhor”.

Do Círculo Governaliano

 Até o momento você só ouviu de todo mundo eu me queixar,

mas no Quinto andar, ninguém fala contra ninguém,

nem eu, inclusive, permaneço de boca fechada.

Este é o andar dos convalescentes:

tudo que dão, aceitam.

Somam-se dados, positivismo e pesquisa neste local.

E isto o diabo sabe, um pouco acima do meio,

como as médias nacionais: bem na metade de tudo,

convence que é o ideal,

convence que estamos todos 50% felizes

e 50% é o novo 100%!

No Quinto andar todo mundo é satisfeito, mesmo sabendo

que aqui é o Inferno Brasileiro, não importa,

neste Círculo se alguém diz que é pra sorrir,

vamos todos fingir grande felicidade,

somos todos parte importante,

neste projeto da continuidade!

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6 – A Nova Velha Política;

O Círculo dos iludidos com mudanças inexistentes.

Do Círculo Marinalista

Segue e sai da miragem, vai pr’um Círculo mais novo,

que é mais velho e por isto está mais no fundo,

renovou, como bom brasileiro, fazendo tudo ao contrário.

Desceu ao invés de subir,

ficou pior do que já era

e enganou todo povo, que pensa

olhando de cabeça pra baixo.

Abraça um pouco, aqui todo mundo abraça

e diz que isto é um gesto novo. No Sexto, alias, tudo é novo.

Todos querem te convencer que existe um sorriso melhor.

Até tentam plantar novas coisas, claro,

no Inferno que nada floresce, tem gente pra acreditar

nos frutos de uma nova esperança frustrada.

Sempre tem como renovar

a mentira, lógico.

E no Sexto andar, bem na metade,

em cima de um grande muro

é morada da Nova Política.

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7 – Movimento #Cansei;

Aqueles que desistiram do Brasil, diretamente do Leblon – que não é Inferno.

Do Círculo Reginista

 Vai pro sétimo, mais fundo

porém nem tão profundo.

Aqui todo mundo cansou das coisas.

Todos cansam, afinal, o Inferno Brasileiro

é quente como o Leblon,

mas para grande infelicidade coletiva,

não há nenhuma grande praia.

Embora conturbado e cheio de problemas,

do Inferno e do Brasil, adoravam em vida passear

nos grandes calçadões do Rio de Janeiro,

só que agora não aguentam mais nada,

nesta imortalidade que é um martírio sem glamour.

No entanto, se envolver também cansa,

então, pra compensar, ninguém faz muito.

Não reclama, não fala, não aflige,

se indigna silenciosamente,

enquanto veste a camisa e grita:

#cansei deste Inferno maldito.

Esta feito o protesto do Sétimo Circulo.

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8 – Geração Ironia;

Criticam tudo, todos, a resposta do mundo é uma grande piada.

Do Círculo Memetista

 Já quase no fundo, dos piores o primeiro mais baixo,

moram aqueles que sabem de tudo;

fazem graça e por graça aqui estão,

quase no fim absoluto, quase encostam

no fundo do Inferno e do poço.

Piadinha era um hino, até n’outra vida,

rir de tudo é seu lema – inlusive da própria desgraça.

Fazem descaso da situação e

disfarçam que não estão chorando, enganam tudo:

das mentiras virtuais quando sadios

ao fracasso retumbante também em morte.

Este é o Círculo sem nenhuma vida social.

No interno d’alma tentam transformar a situação

em um grande meme,

que, como sempre em vida e para além dela,

ninguém nunca ligou.

Nem eles,

nem os outros,

triste fim mais sem-graça,

daqueles que vivem para forçar coisas que não são.

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9 – A Crença como Força;

Aqueles que usam religião para semear o ódio.

Do Círculo Felicianista

Se nos dois acima ninguém crê em mais nada,

neste local todo mundo acredita.

Aqui e em todos próximos, são reservados

para aqueles com muita fé.

Fé demais, distorcida, só se sobra a imagem:

daquilo que acreditam não pregam a semelhança,

só palavras soltas, diluidas entre ódio e intolerância.

De tanto que leram apenas Um livro, nada absorveram.

Esquecem o amor das palavras de Cristo

e acreditam que o ódio é seu Deus, que moveu as montanhas.

Moveu, de fato, todos para baixo, quase no fundo,

onde podem vociferar sozinhos pelos seus erros.

Porém, já n’outra vida, continuam cegos,

de fé, das coisas, olham pro Inferno

e fingem que não fazem parte:

acreditam que estão em missão

de salvar as outras almas brasileiras,

deste destino para todos eterno.

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10 – A Crença como Dinheiro;

Quem usou do dinheiro para fazer as pessoas acreditarem em absurdos surreais.

Do Círculo Lucianista

 E no Décimo também não falta fé.

Tampouco dinheiro; reservando este andar,

pr’aqueles que fizeram disto sua única crença.

Venderam espaço na TV, apostaram em petróleo,

corromperam Crianças sem Esperança,

tudo para fazer brotar doce árvore mágica

dos frutos verdes.

De tanto que acumularam, vieram logo pra cá;

nota 10 em multiplicar mentiras,

vaga no Décimo Círculo.

Desde o setor financeiro, passando entre vários famosos,

porém, dos sorrisos falsos em vida, só restou o rancor,

entre um e outro, todos tristes, não há mais alegria longe do carrão.

Aqui não há desgraça gerando milhão, nem publicidade forçada;

a única pobreza é a de espírito – sobrando aos montes sem poder

se esconder em nenhuma mansão.

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11 – O Dinheiro Sem Crença;

Aqueles que roubaram, usaram e abusaram do poder em vida.

Do Círculo Malufálico

Como era de se esperar,

soma os dois Círculos de cima

e o resultado é este, pior ainda.

Na mesma fé dos frutos verdes,

aqui, adiciona o Poder, a Ordem

e multiplica-se quem rouba mas não fez.

Só o que se agiu em vida foi por abuso;

usou da inocência, corrompeu o Estado,

no Décimo Primeiro andar,

praticamente abriga-se toda Lei do Inferno Brasileiro.

O que não faltou foi motivo:

peculato, desvio, fraude,

de terno e de pasta.

Todo mundo se enganava que com gravata,

a bravata não existia.

Ergueram impérios, negociatas, falsidade sem fim,

pra garantir estadia eterna tão longe

do que era concreto,

bem perto do pior lugar:

a eternidade em falência moral.

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12 – Aquele que Tudo-Construiu;

Quem financia toda eternidade no Inferno Brasileiro é, também, quem financia em vida.

Do Círculo Oasiliano-Itaulístico

 E quase no último vem quem bancou tudo isto,

sabemos, com pura ironia, por pouco

também não lotearam o Inferno.

Não faltou oportunidade e, aqui, esta palavra é mantra,

todo mundo que foi inoportuno,

neste lugar se engana que contribuiu para tudo.

Talvez sim, com o juros, aluguel, com o fim da vida

das almas nos outros Círculos,

venderam ilusões;

lote seguro e direto assegurando uma morte feliz:

foi só o que faltou nesta grande mentira.

Corroeram suportados no investimento,

construiram e apoiaram as bases das camadas de cima.

Se o Inferno Brasileiro tivesse de ser financiado,

o Décimo Segundo seria o grande caixa.

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13 – O Metacírculo e o Demônio Metalínguas;

O Inferno Brasileiro só existe por nós;

Do Círculo Significado: O Círculo Numeral, o Grande 13

N’último vem o que tudo já foi,

criação de todos nós, mais abaixo do mundo,

eis o que sobra: nossa gente mesmo.

O Inferno Brasileiro não tem diabo,

todos somos assim.

Não tem mal,

todos somos um pouco.

No último dos últimos, reina um Demônio,

o Demônio Metalinguas,

que deste Inferno

somos todos Pai.

E como bom Filho, também, a casa tornamos.

Giramos em Círculo Eterno, dos 13, é no final que

vemos um grande significado.

Somo brasileiros e assim aprendemos,

depois da merda feita, viemos todos pra cá.

E, querendo compensar,

neste nosso Inferno,

só fizemos um único aprendizado:

seja o que for feito,

seja o que acontecer,

seja onde formos parar,

botamos a culpa sempre no próximo!

Boa noite e fui!

 

 

 

 

 

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