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O menino dançante

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Solidão, este é o problema de todo homem; acompanhados dela, fazemos o que nem imaginamos. O pior: imaginamos o que ninguém imagina. E não sabemos se é. Talvez seja, imaginação, quem sabe, real? Quem sabe. Não há o que negar, solidão é um inimigo silencioso por isto, sua mente é a única a confirmar ou negar o presente. Solidão, voz invisível que está lá para enganar, distorcer e te convencer que, de fato, você não está louco…quando talvez você esteja. Espirituosa como é, eis o truque – te faz enxergar na maior naturalidade a sua loucura, como se ela fosse real.

– Comigo não foi diferente.

Aquele belo sobrado no sítio começou como uma grande diversão, na busca de solidão seletiva, eu saia da cidade para lá, me escondia longe de tudo e todos, no mato, no meio do nada, fingindo ser ermitão, o sábio profundo em busca do conhecimento e da vida. Era meu momento de reflexão, de sabedoria, eu fingia que sabia o que estava fazendo; todo mundo que mora na cidade quer ir para o campo, é o bucolismo ensaiado, crescemos com a ideia de voltar as raízes e, sempre que podemos, tentamos voltar de algum jeito, nem que seja fazendo uma horta na janela de casa.

– Comigo não foi diferente.

Avistei aquela casa barata, sobrado de madeira perfeitamente bolado, uma hora e meia da cidade de carro, ora, não tinha como dar errado. Meu emprego me pagava e eu tinha dinheiro para gastar com aquele sítio, podia comprar aquela casa sem problemas, sem dívidas, sem males, felicidade em poder, finalmente, no sonho bucólico do cara da cidade, ter reencontro com o campo. O campo limite, claro, nunca totalmente no mato, naquele sobrado, lá, que era perto da cidade, como eu disse, uma horinha de carro.

Mas havia o problema, coisa não calculada que você nem percebe na hora e na emoção dos olhos, no afã de comprar logo e fechar o negócio, não perder o encanto da casa, você aceita tudo sem questionar.

– Comigo não foi diferente.

Queria logo comprar, segurar a chave e o contrato, garantir na certeza, grande coisa, eu não liguei os pontos: aquele não era mato controlado, por pouco, talvez 100 ou 200 metros, erro mínimo e quase imperceptível, aquele maldito sobrado ficava longe demais da cidade; já era campo profundo, bucólico verdadeiro, não sonho, sem controle, sem cidade, aquela casa era longe demais.

Mas eu comprei, tinha dinheiro, tinha tudo, tinha o porquê e comprei. Gastei, feliz consciente e inconsequente, fiz a escolha e fechei a venda. Assina contrato, papel, cartório, dinheiro, tudo na cidade você faz para garantir um pedaço de mato lá longe dela. E eu fiz tudo certinho. Tudo meu, agora, o campo era meu!

Comprado e assinado, fui lá; costume de sempre, todo final de semana eu subia pro mato, abandonava a cidade e ia, ainda nesta época, acreditando que era o campo limite, dentro da cidade, não tinha me dado conta daqueles 200 metros, talvez 100, que deixavam a casa no mato profundo.

E você sabe o que é o mato profundo, amigo? Garanto que não.

Ninguém da cidade sabe e eu também não sabia. Há um limite, quiçá magia, quase magnético, uma coisa obscura, inexplicável, um sentimento onde a natureza é livre e incontrolável – o mato profundo – onde nossas leis não valem nada. Nós construimos nossas casas uma em volta da outra, perto de tudo não pelo conforto, mas porque a cidade, inconscientemente, tem regras. Regras de fato. No mato, não. Quanto mais você entra mais você vê, lá, meus caros, o que vale é o que o mato quer. E ele, com certeza, não quer a gente por perto.

Mas é um processo devagar, devagarinho, quem não é experiente não nota isso de cara, vai se envolvendo pra depois não ter mais volta.

– Comigo não foi diferente.

E continuei na minha rotina, final de semana eu fora da cidade, subia pra lá, no meu sobrado planejado, me excluia das coisas, da TV, do carro, do barulho, do trânsito, da fumaça, do cinza, do crime, das luzes, tudo era diferente. Era o conforto que eu procurava, o silêncio, a paz, a solidão.

8

– Solidão.

E nem percebi que era exatamente isto, solidão, que o mato queria.

No começo, retornava a cidade renovado, feliz com o final de semana de solidão, de redescobrimento, de felicidade e autoconhecimento, era quase sempre o mesmo pensamento: agora eu estou completo. E era isso que o mato queria. Me convencia disso, aos poucos. Eu sempre voltava e sempre queria ficar mais, naquele sobrado que eu jurava ter magia de me transformar.

Aos poucos, mais rico, mais confortável, mudei as rotinas e realmente comecei a ficar mais. Não era um final de semana, eram 3, 4 dias, cada vez mais eu ia para lá ficar sozinho, apreciando minha solidão.

No calmo sereno do cheiro do campo, da madeira, do frio da noite e da comida que eu mesmo fazia no forno à lenha, eu amava aquela solidão. Cada vez mais solidão me completava, minha parceira inseparável. E lá eu ia, pro campo de novo, praquele sobrado mágico.

E aos poucos fui consumido pela coisa, pelo sentimento do campo, sentimento do mato e já não voltava mais para a cidade, odiava a civilização, odiava tudo que não fosse o meu grande retiro espiritual, que agora era rotina espiritual. Lá eu ficava, o dia inteiro com o som dos grilos e do do riacho próximo, feilz com minha nova vida.

Dormia cedo quando o sol baixava, a luz elétrica era uma porcaria e sempre falhava, me restavam velas e a solidão da noite, a pior de todas as solidões, a noite do campo, onde só se ouvem os sapos coachando e os grilos ao fundo e outros sons que você imagina, mas não sabe o que é. E isto era relaxante, eu achava, sem perceber o efeito do mato em mim.

Foi no sono, na cama que a solidão me ganhou, vitória, aqueles 200 metros finalmente fizeram a diferença.

Deitado na cama, olhando a janela do quarto eu via um breve caminho de terra, que conduzia a entrada do sítio; naquele escuro, pouco se via além de um pedaço da trilha e a porteira distante – a única que continuava iluminada por um velho poste de luz, sé ele que sempre funcionava. Do lado direito, um pequeno lago que quase encostava na casa e ajudava a refletir a luz da lua para iluminar um pouco mais o breu do lado de fora da janela. Eu sempre olhava a janela. Antes de dormir, já deitado, encarava o caminho de barro e imaginava o que talvez eu poderia ver depois da porteira, mas nunca conseguia ver nada de novo.

Não até aquele dia.

Deitado, cansado, a solidão me venceu com o tempo. O efeito do campo, o mato profundo finalmente havia cobrado seu preço. Eu, achando que estava ganhando, cada vez mais lá do que cá, feliz como nunca e feliz como sempre cheio de pretensão, suposto autoconhecimento, fui vencido em silêncio.

Deitado, cansado, numa bela noite, encarando a janela e o caminho eu via…eu via! Não acreditei no que via! Será que eu via? Sim, tenho certeza que via!

Olhando o caminho eu via, ao fundo, na porteira distante embaixo do único poste, em meio ao breu, eu conseguia ver uma figura estranha, um menino talvez, só se via a silhueta. Ele me enxergava, com certeza e isto me dava calafrios, um medo horrível de ser observado, sozinho lá, no meio do mato, com medo da distância de tudo que eu tanto cultivei e agora me traia. Aquele menino que eu só via a maldita silhueta, parado na porteira me observando, que coisa horrível!

O pior de tudo é que ele não parecia se mexer, tampouco se importava de estar sozinho, a noite, no meio do mato! Ele ficava, lá, parado e me encarando, me olhando – mesmo eu não podendo ve-lo me olhar, eu sabia!

Vi uma noite e o medo me consumiu por inteiro, esperando passar quando eu acordasse já no outro dia. E o medo só piorou, quando ele voltou a aparecer, noite após noite, seguidas, no mesmo lugar. Olhava a janela e, agora, não mais sozinho, minha solidão ia embora, se esvaia pela privação da liberdade, me sentia invadido, usado, revirado, tudo por causa daquele menino ali na porteira parado. Era o meu espaço! Era a minha hora de olhar a janela antes de dormir e imaginar o infinito naquele caminho que eu não conseguia ver nada, agora, aquele menino me roubava tudo aquilo. E o pior:

Ele começou a dançar!

Audácia, mas não era isto que me incomodava, muito pior, inexplicável era o medo que toda noite ficava mais insano. Por que? Por que ele ficava lá? Porque ele ficava lá e, agora, por que ele dançava?!

Fazia nada, não andava para frente, não saia de lá, eu não o via aparecer, simplesmente aparecia! E dançava, sabia que eu o olhava e dançava, não como pessoas normais, mas de um jeito estranho, o tronco duro, mexia os braços e mal tirava as pernas do chão. Uma dança esquisita que me corroia por dentro, por que?

Eu morria de medo daquilo tudo. Não questionava e muito menos ousava sair pra perguntar, eu não queria chegar perto daquela coisa. Aquela sombra já era assustadora o suficiente do conforto da distância, imagina de perto?

Quando acordava, no dia seguinte, ele não estava mais lá. Esta era a minha maior segurança: ele sumia e eu podia lidar com isso.

– Solidão.

Que ironia, o mato é irônico e me cobrou com isso. Tudo que eu sempre quis lá longe da cidade, naquele sobrado, era estar sozinho, me descobrindo sem as interferências do mundo moderno. E lá estava eu, sozinho, com medo, morrendo de medo, sem saber o que fazer, como fugir, como sair daquela situação. Grande solidão que eu queria, depois não queria, depois não sabia como fugir. A solidão destrói por dentro, estraçalha o interior e faz você viver por ela, mesmo sem querer mais ela. E a solidão não me deixava ir embora, noite a noite, acompanhando aquele menino dançante.

Eu observava tudo como se estivesse magnetizado, morria um pouco, mas seguia por lá, sem fugir e sem nem ao menos querer fugir. O menino dançante era o meu maior medo, mas a maior contradição: tudo que eu buscava no campo eu via dilacerado, noite após noite, naquela silhueta estranha e assustadora, mexendo os braços e me encarando como se soubesse que eu estava vencido pelo medo. Aquele menino dançante conhecia os meus pavores, conhecia minha solidão e usava isto para me vencer, consumir minha alma e me desgastar com sua presença.

E o mato já não tinha graça. Nem o cheiro, nem a plenitude, nem a calma, nada, o mato era minha desgraça.

Aquele sobrado planejado que eu comprei com tanta felicidade, tanta velocidade, agora, me via morrer ali dentro, na solidão.

– Solidão.

Esta palavra resume tudo. Quem tanto busca solidão já é muito sozinho em si. Eu era assim, agora eu via, meu dilema com a cidade era pura balela, não tinha problema com ela, mas comigo, eu era o problema. E agora ficava claro, horrivelmente claro como a solidão é um monstro criado e alimentado pelo nosso vazio. Buscar a solidão no mato cobrou o meu preço, eu estava exausto, já não aguentava mais aquele medo, me consumia e eu não dormia, não comia direito, não descansava, não fazia nada, a solidão me vencia todo dia. Que brilhante ironia, eu era vencido por tudo aquilo que eu sempre quis! Aquele menino dançante parecia ardilosamente conversar com minha alma, destroçando ela aos poucos e me deixando vazio no vazio que eu sempre quis para mim.

– Solidão.

Se não havia música, nem trilha, nem nada além da noite e do mato e do meu medo, a sinfonia para aquele menino dançante dançar era a minha solidão. Ele dançava naquela porteira no ritmo que vinha de mim, ritmo de nada, vazio incontrolável. Ele dançava e possivelmente ria daquilo, diabólico, mastigava o meu interior neste ritual horrível que me deixava mais e mais paranoico.

Eu já não dormia nem acordava, vivia num estado que não entendia. Eu era um constante vir-a-ser de algo que eu não sabia, não sei, todos os males da vida da cidade agora me pegavam no campo, naquele mato traiçoeiro: a insônia, a fome, a depressão, a ansiedade e a solidão.

– Solidão.

Era este o grande problema. O horrível menino dançante seguia dançando, sabia de tudo, ele me enchia de medo mas era eu, era um só, eramos aquilo, a relação macabra que construímos: eu desfalecendo a cada noite mal dormida e ele dançando com seus braços no silêncio e no escuro, ao longe, naquela porteira.

Maldita porteira, maldito menino, maldita dança, maldita cidade, maldito sobrado, maldito mato! Maldita solidão!

– Solidão.

Me vencia, me venceu, estou vencido, finalmente, posso reconhecer, eu não sabia os perigos do mato, do mato profundo, daqueles 200 metros de diferença. Aquele menino dançante que vinha porque sabia que ninguém mais apareceria, porque sabia que meu sobrado era longe demais, já havia cruzado o limite do mato, aquele menino era produto do mato, das regras dele, o menino dançante era fruto da crueldade do campo. Fui vencido pela natureza, pelos meus desejos, pelos meus anseios e pela mentira de achar que deveria superar a cidade, o sonho do bucolismo era mentira vivida. Mentira toda. O menino dançante me provava aquilo com um sabor amargo.

Paranóia era o que me restava, o medo, os dias sem dormir e o pior de tudo: eu nem sabia quem era aquele menino.

Existia? Ou era solidão?

– Solidão.

Este menino dançante me torturava, a solidão também, a falta de tudo, o conhecimento do nada, nada absoluto, nada de vazio, vazio da vida, das coisas, do medo, da rotina, das pessoas, só me sobrava a solidão; solidão do menino dançante, solidão era meu medo. Solidão! Meu medo não era o menino, não era a dança, mas tudo que eu sempre quis: solidão. Eu tinha medo dela, tinha medo do que queria e minha expressão indicava isso.

Aquele menino sabia e abusava disso, abusava do medo, dos meus medos, me usando para sua missão sabe-se lá qual fosse, dançando ironicamente, toda noite, para me reforçar no meu medo de solidão.

Parabéns, mato. Parabéns, menino. Mato menino, menino mato, o que for, você não é real. Eu sei. Pode ser real. Pode ser, talvez, tanto faz, parabéns para os dois, que são um. O mato venceu. A solidão venceu, vocês venceram, todos estão convencidos. Parabéns, novamente! A dança me levou, não se trata mais de mim, ou do que eu sou, ou do que eu acredito ser. A solidão é maior, a trilha da solidão é mais forte, mais cruel, a natureza do mato não permite os fracos – e eu fui. Fui fraco desde o início, objetivos fracos, vazios, motivos idiotas, tudo fraco, como eu, suando, paranoico, morrendo, sumindo, fui vencido pelo mato profundo. De fato, profundo só ele. Mato, você foi melhor que eu, com este seu menino dançante, você me convenceu com solidão. Eu não sou nada nem ninguém, nunca fui, não tenho motivos para continuar.

Pouco importa quem é, se existe, pouco importa o que existe, a mim, pouco importa qualquer coisa agora. Vou seguir o meu caminho e fazer o que eu deveria ter feito desde o começo. O menino dançante estava certo, parabéns!

Agora não me importo mais.

– Solidão.

E agora sigo a música, vou com o menino dançante dançar no escuro, no medo, na solidão. E cada dia que eu danço, eu sumo, eu desapareço cada vez mais. Supero o medo do menino, da sombra, do escuro, desta silhueta que mesmo de perto ainda é silhueta, não existe, não tem forma, é nada. Mato profundo, eu danço, agora, na solidão da noite.

Agora eu sou o menino dançante. E sigo dançando, toda noite, até desaparecer finalmente na minha solidão.

– Solidão nunca mais.

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