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Nossos limites, nosso mundo. Ou mundo?

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1.

A lógica não se trata de realidade. Ambas, embora falsamente confundidas, não se referem ao mesmo campo. Enquanto a realidade trata estritamente sobre a concepção do real em si, a lógica é o emprego sistematizado de uma forma de raciocínio que possa ser verificada. Por que a diferença? Isto porque é fácil perceber o processo na verificação de algo lógico ou ilógico, na medida em que a comprovação do próprio raciocínio ao que se refere o uso do termo deve ser algo que garanta a certeza sobre isto; algo lógico, ora, tem de ser comprovado como tal. Por outro lado, a realidade é a forma de afirmação sobre a visão da nossa interpretação da própria definição do que é o real em si. Em um comparação, poderíamos dizer que usamos da lógica para, deste modo, tentar compreender/comprovar a realidade das coisas. Mas que esta realidade precisa, por isto, estar em coerência com o sistema que entendemos pela lógica dedicada a prova-la.

É importante observarmos a diferença entre lógica e realidade, principalmente quando vamos discutir os conceitos de Wittgeinstein, porque podemos, através disso, concordar com um dos pontos cruciais de seu discurso: se um pensamento é realidade, ou seja, no ato que exercemos ao pensar sobre ele como figura do significado de algo, logo, este algo uma figuração do real, deve também ser lógico. Observamos que, aqui, estamos falando da proposição do pensamento como objeto de figuração sobre algo, ou seja, dele em si como um objeto (“o pensamento”) e, por isto, como algo real. As figurações (ou significados) criadas a partir dos símbolos ligados ao pensamento (suas imagens, cores, formas) podem, sim, fazer a referência à elementos, situações etc. irreais mas, mesmo com isto, a formação do pensamento em si continua como um objeto real, que existe, indiferente à, no caso, criação dentro da criação (ou ao que se refere o pensamento). Por isto, pensamento enquanto objeto dentro da realidade e, sendo a realidade uma noção sistematizada dentro lógica, claro, deve compreender algo lógico. Como Wittgeinstein afirma, para o pensamento ser algo ilógico, deveria estar compreendido dentro de uma noção ilógica, o que é algo inviável porque, antes dele mesmo, é impossível na própria ideia de realidade que pensemos ilogicamente. Se é pensamento, é lógico.

É importante a verificação feita pelo filósofo não por este argumento sozinho, mas pelo ponto em que o próprio vai mais além e entra no campo da linguagem, discutindo que a linguagem, como algo lógico e, dentro da realidade, é má interpretada por nós e, principalmente pela filosofia. Por que? Isto porque há um problema reflexivo na própria linguagem: se ela está compreendida dentro da realidade e, como dito no começo, a realidade é uma concepção, ou seja, uma interpretação, a linguagem é, por isto, limitada à concepção (no caso, interpretação) que dela é feita. Desta forma, a linguagem sobre o aspecto da famosa frase “os limites da minha linguagem são os limites do mundo” também se torna algo plausível. Mesmo num sistema lógico, ou seja, que possa ser verificado dentro da formação de um raciocínio comprovável, a linguagem ainda assim entra em confronto com a realidade e, esta, concepção interpretativa, limitada ao indivíduo em que nela verifica seu sistema de comprovação (ou, “o que é real”). É por isto que compreendemos a ideia dos significantes e sua correlação com determinados significados observados num sistema lógico mas, muitas vezes, limitamos o significado a realidade em que os inserimos. Ótimo exemplo para isto é a palavra “manga”, utilizada sob o mesmo significante com dois significados, podendo ser interpretada de dois modos por dois indivíduos diferentes, um que correlacione-a com a fruta, outro com a parte destacada da camisa.

Porém, o pensamento vai mais longe. Se possuímos esta limitação verificável em situações simples – como o caso de “manga” e seus dois significados, que fazem ligação com a realidade de quem determina o significante em sua forma de poder expressar o objeto em si, através da exclusão de um significado para pode acolher o outro – a coisa fica ainda pior quando o sistema de linguagem fica mais complexo. Isto porque, mesmo sob a relação do significante com o seu significado sendo possível sobre uma lógica, ainda assim, significante pode ser compreendido como uma realidade (ele, o objeto em si sem correlações posteriores) e significado outra realidade (também ele, objeto em si sem correlações posteriores). E, assim, mesmo que analiticamente pelo nosso sistema lógico consigamos relacionar a ideia do significante ao seu significado, enunciamos um problema ainda maior onde verificamos que o significante, de fato e existente como algo real, não corresponde a realidade do objeto em si.

Voltando a frase dos limites do mundo, entendemos este processo melhor; podemos analisar que quando lemos a palavra “manga”, mesmo compreendendo o seu (possível) significado, estamos nos referindo a três coisas distintas: 1) A forma do significante interpretando o significado, ou seja, aquilo que correlacionamos ao ouvir ou escrever “manga” e vislumbramos como objeto em si no pensamento 2) O significado como uma realidade que, mesmo sem significante, ainda é real (o objeto, afinal, precisa ser real e lógico para podermos elaborar o pensamento sobre ele, crendo que, se não existisse a manga como objeto não poderíamos pensar sobre ela) e 3) O significante que, mesmo se não correlacionássemos com seu significado, ainda assim, existiria enquanto forma, símbolos organizados (m+a+n+g+a).
Por isto e, principalmente por causa do item 3, compreendemos que, mesmo se não possuíssemos um sistema lógico – a linguagem – ainda assim seria real. Deste jeito, poderíamos escrever ou falar “manga” sem atribuí-la um significado, o que mesmo assim não impediria que o significante, ainda que não fosse um significante reconhecido, continuasse existindo, sendo real.

Mais curioso disto é o que o contrário deste pensamento gera. Se o significante pode ser real sem significado, concordaríamos ainda mais com a afirmação de que  “os limites da minha linguagem são os limites do mundo“; isto porque, sob a forma de análise, o significado dos objetos fica correlacionado à realidade dos seus significantes, mesmo que estes não sejam o objeto em si. Voltando à “manga”, quando escrevemos ou falamos sobre a própria, claro, não estamos na realidade exercendo qualquer influência sobre o objeto em si, mas aquilo que imaginamos sobre ele na forma de um significante e o pensamento que fazemos com esta relação. A “manga real” é “presa”, por assim dizer, a “manga significante” no universo da linguagem. Isto poderia não ser um problema em situações fáceis, como o exemplo dado, mas, como Wittgeinstein também se refere, gera um problema poderoso à filosofia.

Como a filosofia lida com a linguagem diretamente (afinal, a base do argumento filosófico é a discussão por meio da utilização de um sistema lógico de afirmações, embasados no uso da compreensão sobre a forma da língua) e, se a linguagem esta compreendida dentro dos limites da realidade, temos aqui um problema, principalmente em situações onde o significante não exerce um significado exato sobre aquilo que denota. O que seria “justiça”, por exemplo? No sentido mais literal, temos algo que, mesmo dentro da realidade da existência – afinal, acreditamos na justiça como algo real – ainda assim, não correlacionaríamos com um objeto em si. Quando falamos ou escrevemos sobre justiça, o seu significante se refere a um significado que exatamente não denota a nada físico, nem em algum campo espacial, geométrico, nada, absolutamente nada; a justiça em significado, mesmo dentro da realidade, ainda assim, não existe como objeto em si, mas apenas enquanto o aspecto que o próprio indivíduo faz da relação entre o significante na sua forma (j+u+s+t+i+ç+a) e aquilo que ele atribui para o significado disto (o que é o “ser” justiça).

A complexidade disto gera um problema ainda maior, na medida em que, como dito por mim, se a linguagem naturalmente não existe, sendo um produto de si mesma e, por isto, metalinguagem antes de ser a própria linguagem, reforço a minha afirmação através do argumento de Wittgeinstein, alegando que ela só existe dentro dela mesmo e, por isto, nesta relação difícil, geramos um problema muito bem verificado pelo filósofo: como processo autocomplementar (quiçá tautológico), a linguagem só é possível dentro dos limites da realidade e esta, por sua vez, sob o meio de concepção do indivíduo, a verificação que ele mesmo faz sobre ela. Como também afirma Wittgeinstein, este problema é uma grande pedra no sapato para a filosofia, antes de tudo, sendo esta um discurso também metafilosófico essencialmente – primeiramente deveríamos corroborar os limites da linguagem e a necessidade disto para os próprios limites da filosofia, afinal, a segunda depende da primeira; porém os limites da linguagem são, no caso, os limites da realidade que ficam relacionados a concepção do indivíduo… e estas discussões só existem quando já estamos, de fato, assumindo o campo filosófico.

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2.

Voltando a frase, ainda podemos ir adiante. O que seria “o mundo”? Se os limites da linguagem são os limites do mundo, temos aqui dois principais problemas: 1) O primeiro é a ironia da própria frase que, analisada como qualquer outra, é a figuração de algo, no caso, daquilo que fazemos de relação sobre o(s) significante(s) dela e os seus significado(s) e, por isto, o próprio uso de “mundo” sob o significante de m+u+n+d+o, escrito ou falado, apresenta um limite lógico: ao usarmos determinado significante não estamos constituindo um mundo como objeto em si, aqui, mas apenas o significante que, como qualquer outro, é a representação da forma (através de símbolos ordenados) de algo que pretendemos figurar (no caso, o próprio objeto). Então, na frase, o que seria “mundo”? Significante? Aquilo que ele pretende figurar (significado)? Objeto em si? Ou tudo junto e, a respeito disso, sabemos exatamente se o significado representado é, de fato, o mesmo para diferentes indivíduos ou a realidade na concepção de cada um apresenta um “mundo” diferente? Nesta óptica a própria frase do autor pode ser contestada porque, em uma análise profunda, os limites da linguagem trazem limites para a linguagem (este seria o “mundo da linguagem”, talvez?). Porém há um outro ponto; 2) Imaginemos a desconstrução deste argumento e, sob a óptica de que apresentamos um limite óbvio de palavras (representadas por significantes já criados anteriormente e admitidos como verdadeiros por um determinado grupo social que os utiliza) e, analisando a proposição de que o objeto em si pode e não pode ser representado por um significante, podendo ter valor pelo seu significado ao mesmo tempo que não apresenta a realidade do que pretende (ele não é o objeto, mas o pensamento sobre o objeto, sendo isto um novo objeto – “o pensamento”), nosso mundo estaria limitado ao que a linguagem é capaz de expressar? Ou seja, “o mundo” (que, aqui, já é fixado ao significante m+u+n+d+o) enquanto objeto e não a figuração das coisas (os significados através da língua que representamos de maneira verbal ou escrita) estaria limitado a esta própria necessidade de representação? Afinal, a linguagem é limitada pelo que representa e, desta forma, não pode abrigar a concepção do mundo enquanto realidade, apenas aquilo enquanto figuração de significados correlacionado aos próprios significantes e, por isto, sem ser a realidade do objeto em si, abrigando uma nova realidade dualista (“o pensamento” sobre isto e o que seria o “isto em si”).

Quando vislumbramos este campo de análise e que, talvez, todo discurso seja necessariamente uma representação metafilosófica sobre uma formatação metalinguística, temos um problema para a própria realidade: esta, por sua vez, apenas é (existe) e, discutida num sistema lógico, como a linguagem, vê-se limitada por não compreender de fato a sua totalidade enquanto existência, mas apenas aquilo que conseguimos verificar pela representação corroborada de maneira lógica pelos grupos sociais que a entendem.

Triste, talvez, a realidade é confusa. E nosso mundo, talvez não seja tão mundo assim

(E este texto ainda vai continuar).

Boa noite!

 

 

 

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