A guerra do pão de queijo

pao-de-queijo

Começou como se esperava.

Era tudo o que tinha pra acontecer naquela cidade.

Montaram a fábrica e deu certo.

Tinha como não dar?

Genial: criar pãos de queijo por cores.

Não importa o sabor, sim a cor.

Só cores.

Cada pão, uma cor.

Pão de queijo colorido.

Quem não gosta?

É pão de queijo.

Tem em várias cores.

Todo mundo comia.

Todo mundo queria.

E logo saiu daquela cidade, cresceu.

Expandiu e foi embora.

Pão de queijo colorido, agora nacional.

Todo mundo comia.

Todo mundo queria.

No Brasil.

No mundo todo.

Vender pão de queijo, que facilidade!

Que felicidade!

O sabor?

Não importa, é por cor.

E foi, abrindo por aí.

Crescendo, como a massa do pão.

Cresceu demais.

Todo mundo comia.

Todo mundo queria.

Pão de queijo é bom e todo mundo gosta.

Eu também gosto.

Mas tudo que é bom dura pouco.

Neste caso, durou demais.

Muito pão e muito queijo, muita cor, sabe como é.

Muitos movitos para brigar.

No começo foram discussões bobas, pequenas.

Pequena como a antiga fábrica, que agora não era mais naquela cidade.

– Qual cor você gosta?

– Eu prefiro o azul.

– Você está sendo idiota!

– Idiota… por que?

– Amarelo é melhor, óbvio!

– Você que não sabe nada, seu burro.

– Burro, eu?

– É, você.

– Burro é quem gosta do azul.

– E quem gosta do amarelo?

– Inteligente!

– Há-há!

Piada, sempre.

Sempre começa com piada.

Mas nunca é só isso.

É brincando que se dizem as verdades.

E, neste caso, muita verdade: o mundo gosta de brigar.

E todo mundo comia.

E todo mundo queria.

E todo mundo começou a brigar.

A cor é importante, aqui.

Cor de pele e de pão de queijo.

Se você gosta de um, não pode gostar do outro.

E a fábrica expandiu.

E as brigas também.

Agora já não tinha mais graça.

Ninguém ria, cada um para o seu lado.

Os azuis, com os azuis.

Os amarelos, com os amarelos.

Os verdes, com os verdes.

E assim por diante.

E todo mundo comia.

E todo mundo queria.

E todo mundo brigava.

E guerreava.

Por um pão de queijo.

Ou vários.

Não faltavam motivos.

Nem cores.

Muito menos armas.

Ou pão de queijo.

E dividiram o país.

Cada qual com a sua cor.

Cada um defendia um pão de queijo.

Cada um defendia a sua bandeira.

Cada um defendia o que tinha que defender.

A sua cor, a sua verdade.

E trocaram as fábricas.

As do pão de queijo, restaram poucas.

As de armas, surgiram aos montes.

Porque nem todo mundo comia.

Mas todo mundo gostava de guerra.

E não podia faltar.

A guerra, não podia.

O pão de queijo, talvez.

Começava a faltar aos montes.

Aos poucos sumia.

Sobravam bem poucos.

Porque nem todo mundo comia.

Mas todo mundo ainda queria.

E defendia sua cor preferida.

Azul.

Amarelo.

Verde.

Vermelho.

Preto.

Roxo.

O que tivesse que ser, seria.

No país divido, assim como tinha que ser.

E agora ninguém mais ria.

Não tinha a piada.

Só sobrou a verdade.

Que verdade?

A única: guerra não tem graça.

Nunca tem.

Ainda mais quando é infâme.

Infâme?

Além da conta.

Mortes e fome.

Tragédia.

Seca.

Choro.

Pobreza.

Mais fome.

Pessoas morriam aos montes.

Morriam por suas besteiras.

Por cores.

Por causa de um pão de queijo.

Infâme?

Mas todo mundo queria o tal pão de queijo.

Sim, infâme.

Brigavam por cor de um pão de queijo.

Coisa infâme!

Não para o sábio, naquela cidade.

Que sempre afirmava a mesma coisa.

Sem piada.

Sem riso.

Só a verdade.

O sábio só dizia a verdade.

– Uai, só acha bobo quem nunca provou o tal pão de queijo!

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