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E agora, Hermes & Renato?

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Este é um post exclusivo e duplicado – vou postar ao mesmo tempo e exatamente a mesma coisa nos dois blogs, justamente por se tratar de um caso onde o artigo é importante tanto para o universo audiovisual (Próxima Sessão), como para meu lado pessoal (AlistadeLucas). O movito: a morte bizarra de Fausto Fanti, um dos principais humoristas do épico programa conhecido como Hermes & Renato. É bem provável que, de agora em diante, o próprio Hermes & Renato em si tome rumos completamente diferentes do que planejava, muito pelo fato de Fausto Fanti ser o cara mais participativo, com mais papéis – alguns deles entre os mais marcantes, além de ser um dos principais organizadores de tudo. Até agora, pelo que se sabe, Fausto cometeu suicídio, muitas especulações do motivo mas ninguém sabe a realidade. E eu nem quero focar o meu post sobre isto, também, mas sobre a genialidade de um dos melhores programas de humor no cenário nacional, que deste momento em diante nunca mais será o mesmo, para a desgraça de todos que eram fãs, como eu.

 

Por que Hermes & Renato foi tão genial?

 

A importância deste programa talvez não seja compreendida, até subestimada quando falamos de maneira séria, tendo em vista o grande teor nonsense que o mesmo adotou durante toda sua trajetória, muitas vezes sendo alocado como uma aposta caótica sem muitas obrigações pelos canais que passava, aquela coisa de “bota estes malucos aí, não tem mais o que passar nesse horário mesmo”. Curioso é que, em função desta óptica, o primeiro fato que comprova a genialidade de Hermes & Renato seja exatamente por isto: ele era absurdo, hiperbólico até o talo. E isto não deve ser visto como ponto negativo.

Quando surgiu, eu me lembro e quem se lembra vai concordar, Hermes & Renato era 100% insano; pouco se entendia, mesmo para MTV – que na época apoiava este tipo de experimentalismo doido, como algo tão ridiculamente simples e desconexo de qualidade técnica, roteiro, lógica, pudesse ir ao ar. Baseado em um monte de mini esquetes mal gravadas, altamente toscas e com produção baixíssima em um custo quase zero, Hermes & Renato surge sobre esta fórmula maluca, o “do it yourself” onde um grupo de amigos simplesmente pegava uma câmera, gravava qualquer coisa com um roteirinho improvisado e ia ao ar…e dava certo. Acho que este talvez seja o sentimento do primeiro contato, onde todo mundo descobriu o programa e expressava exatamente o mesmo pensamento: eu não sei que coisa é essa, não sei o porquê, mas isto é engraçado demais! E o espectador ria, muito, com todo absurdo que via em cada episódio de Hermes & Renato. E, neste primeiro momento, foi essencial por isto mesmo, o programa foi genial por quebrar qualquer tipo de estereótipo dentro da TV, principalmente a TV aberta, colocando no ar algo tosco e sem nenhuma produção, reunindo um grande público sabe-se lá como. A fenomenologia, aqui, é algo surpreendente; entender o sucesso do começo de Hermes & Renato explica, principalmente, uma “quebra de barreira” nos canais abertos. As pessoas viam, ali, o completo contrário de todo que se tinha na TV até então, com muita produção e o foco em pesquisas de mercado para saber o que passar, com a mercantilização da comunicação e grades de horário pensadas em cada tipo de público, Hermes & Renato não fazia NADA disso e dava certo, incrivelmente certo, talvez até sem perceber este motivo. O início do show funcionou como uma pequena micro revolução no que os espectadores estavam costumeiramente esperando de um programa de TV, viam algo inovador e sem barreiras estéticas, morais, de qualquer coisa. Era a total liberdade em forma de comédia nonsense.

Mas os caras foram inteligentes, o que se pensava a seguir era um óbvio fim para o programa, algo tão maluco não teria condições de durar muito, logo ficaria repetitivo. Doce erro. Se num primeiro momento a genialidade vinha do caos, depois, tudo que sucedeu foi um maravilhoso trabalho humorístico, mantendo algumas características do início – como a produção barata, cenários mal feitos, a indumentária horrivelmente tosca e os discursos exagerados, embasados em personagens sem escrúpulos nenhum – com um toque singular de humor pensado, inteligente e elaborado nos diálogos e improvisos de fala. Aqui, claro, há a polêmica: muitos dos espectadores talvez nem vissem o show esperando uma suposta “inteligência humorística”, mas sim pelas constantes piadas de palavrão e pelo nonsense que sempre seguiu forte, o que pode levar a pergunta, afinal “como Hermes & Renato pode ser humor inteligente se o público nem ligava pra isso?” e, de fato, é uma dúvida pertinente. Repito: como Hermes & Renato pode ser humor inteligente?

No primeiro momento, lembramos sempre da tosqueira gigante, talvez nos melhores exemplos de Merda Acontece com Lagreca (interpretado por Fausto), ou com Bingo da Amizade, ou com Jogo da Violência, Pedreiros da Puta que o Pariu, ou qualquer coisa deste nível, pouco roteiro e muito palavrão, escatologia e violência; já era engraçado mesmo assim, mas não foi só isso. Nunca foi só isso.

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A liberdade angariada com o primeiro momento de caos alucinante permitiu que Hermes & Renato explorasse o humor brasileiro fazendo uma das mesclas mais geniais que já vimos, a mistura de elementos puramente nacionais com ótimas referências estrangeiras, tanto de filmes, como shows, como escolas humorísticas ultra específicas. O próprio formato de pequenas esquetes, sem que muitos percebam, foi herança clara de Monty Python que, talvez, tenha sido um dos grandes influenciadores por trás de Hermes & Renato; vemos isto além da forma de pequenos quadros, mas também na montagem de cenas, optando por poucos ou nenhum personagem feminino, utilizando de homens vestidos para fazer as esquetes com mulheres – o que ajudou muito neste sentimento nonsense, além da criação de um universo fictício que girava apenas e para meia dúzia de atores iguais, se reciclando minimamente na mistura de perucas, roupas extravagantes, sotaques e nada além disso. Mas, não só os ingleses de Monty Python, claro, havia muita referência a dois outros universos principais, os filmes/seriados de ação americanos (como no caso de Linhares e sua Turma e Escola de Atores Sylvester Stallone, por exemplo), além dos filmes e programas de TV nacionais, principalmente as Pornochanchadas dos anos 70, que ajudaram muito a dar o ar extremamente fake às produções como um todo, seguindo na narrativa exagerada que era comum aos filmes desta época. No fim, mesmo não parecendo, víamos ali um trabalho fantástico de um grupo de humoristas que se dedicava a pesquisar ótimas referências, mesclando-as com uma legítima cara brasileira.

E a cara brasileira foi outro fator importante para o programa; um dos maiores méritos, talvez o maior, era o fato de que Hermes & Renato não aparentava ser “um programa de gringo traduzido para nós” – como muitos comediantes brasileiros tentam fazer – mas sim “um programa brasileiro apoiado em referências externas“; Hermes & Renato ganhava valiosos pontos porque soube usar e abusar da brasilidade de maneira inteligente, significativa e dignificando uma comédia inovadora, até então não criada na TV. Víamos isto principalmente na forma de gírias ou neologismos – muitos deles, inclusive, sendo incorporados ao vocabulário do cotidiano das pessoas que as vezes nem viam o show – além de vários quadros e personagens explorando o estereótipo de diferentes nichos brasileiros, como o grande Boça, o inesquecível Charlinho, Eu também sou Hype, Eu não gosto de Samba e outros, numa ótima dinâmica de perceber as características daqui para fazer graça sobre isso, utilizando o microcosmo tupiniquim como forma de fazer piada de e para nós, coisas que só quem mora no Brasil ou conhece a realidade dos grupos locais pode, talvez, compreender com exatidão. Mas a coisa não para só aí.

Se não bastasse tudo já citado, Hermes & Renato ainda tinha muito espaço para ser grande. E foi. De uma maneira muito peculiar, bem na cara Hermes & Renato de ser, utilizando dos já falados nonsense e da mescla de diferentes referências internacionais com uma brasilidade inegável, o programa também foi um dos maiores críticos de muitos grupos caricatos, situações ridículas do nosso cotidiano e que muitas vezes também não percebíamos, mas estavam lá para serem escrachadas pelo humor. Caso clássico de esquetes como Show do Terceiro Batalhão, criticando veementemente a atitude da PM em abordagens, ou de Stand Up com Dudu Marchiori, criticando o cenário lamentável do humor nacional de palco – cópia pobre do humor americano, além dos incontáveis quadros que sacaneavam tudo que a TV aberta, principalmente a Globo, costuma produzir, como Documento Trololó (ironizando Globo Repórter), ou o próprio Palhaço Gozo (ironizando programas infantis que não são tão infantis assim), além do épico Jornal Jornal (ironizando o jornalismo mainstream como um todo). No geral, Hermes & Renato foi extremamente crítico e, de maneira grandiosa, não batia nas vítimas da forma clichê esperada, sabia explorar roteiros diferentes para ironizar situações corriqueiras, escolhendo esquetes muito bem boladas para, sutilmente, sair alfinetando quem deveria ser alfinetado, sem que isso fugisse das principais características do programa, o nonsense, as referências e a produção barata, adicionadas ao improviso de cada um dos comediantes, que criavam diálogos na hora.

Ainda dava tempo para mais. Em determinado ponto, Hermes & Renato foi tão aclamado e gigante que abriu espaço para todo tipo de experimentalismo insano, era como se fosse um Rei Midas da comédia nacional, tudo que eles tocavam virava ouro – não à toa conseguiram salvar muito o Ibope da MTV e posteriormente do Legendários, além de promover muita gente que seguiu carreira solo, como Gil Brother (que, infelizmente, saiu brigado com o grupo). O experimentalismo do programa permitiu que eles pudessem fazer incursões na música, como o memorável caso de Massacration (que, além de tudo, era uma óbvia crítica ao estereótipo do headbanger padrão), gravando cds e fazendo shows, além do também memorável Tela Class, onde os caras redublavam filmes de classe B com histórias completamente novas e absurdas, a exemplo de Tretas em Hong Kong e Black Soul Foda. Toda esta ideia de experimentar novos meios, evidente, fruto da carreira construída anteriormente, atolada de absurdos e falta de senso, abrindo cenário para que os comediantes pudessem surgir em novos universos de humor sem parecer exageradamente forçados, ou repetitivos. Inovadores, afinal, isto era permitido para o grupo.

É muito estranho ver o caminho traçado pelo show, de todas as fases, começando pela maluquice inicial que tomou forma, se firmou e, sabe-se lá como, conseguiu se tornar um dos grupos mais importantes (para mim é o mais importante, passando até mesmo a também grandiosa TV Pirata) do humor nacional, criando algo absolutamente novo, sem igual e original. Da brincadeira do grupo de amigos que filmava besteiras e jogava no ar, como Padre Quemedo, para o salto de, por exemplo, chegar a pensar em uma grande produção como Repórter Boato, é um processo fantástico, incrível como eles conseguiram se manter em mais de 10 anos sempre atuais e sempre com novidades, explorando novos personagens, novas realidades, novas maneiras de seguir adiante com todos empecilhos do caminho, se adequando as várias fases do humor mas sem perder uma identidade marcante. Agora, a perda é maior do que das outras vezes; a morte de Fausto Fanti, um dos principais nomes do programa, é um inferno sem precedentes. Ninguém esperava e, confesso, mesmo que eles tenham diminuído consideravelmente o número de aparições nos últimos anos, ninguém queria ver tão cedo o fim do programa. Ele nunca mais será o mesmo, infelizmente, mesmo que continue existindo. No entanto, é importante dizer e sempre lembrar: Hermes & Renato é foda demais! Sempre será!

hermeserenato1

Boa noite e fui!

3 pensamentos sobre “E agora, Hermes & Renato?

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