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A língua sobre a língua

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No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

Imagine o seguinte: você está realizando a forma mais básica de comunicação, tentando se expressar por intermédio da fala e você consegue este feito; você sabe falar, não é difícil, aprendeu as palavras e, mesmo que não saiba a representatividade gramatical de nenhuma delas, ainda assim, consegue se expressar porque não é mudo; sabe o que é “caminho e “pedra e entende “acontecimentos e tudo que cerca a ideia de montar este conglomerado de sons para criar uma ordem lógica e compreensível. Aí você fala: no meio do caminho tinha uma pedra.

Perfeito!

Você conseguiu!

E este feito é regado de um universo rico que, sem você perceber, lhe faz um ser privilegiado. No campo estrito da explicação formal, a metalinguagem é o reconhecimento dos organismos que compõe a língua através da própria língua, ou seja, aquilo que fala da e para a língua; a famosa gramática, por exemplo, encarna este papel. Advérbios, verbos, substantivos, ao compreender o poder da “língua que fala da língua“, enfim, sabemos o que é metalinguagem – mesmo e, talvez, não percebendo que temos este conhecimento; a compreensão deste lado da conversa, o lado interno da coisa, o lado que fala do lado, é a abertura para uma infinidade de discussões, inclusive, sobre a formatação da nossa própria língua: montamos ela sobre um esquema definido, enfim, ordenamos logicamente nossa fala/escrita porque assim nossa sociedade faz há muito tempo e somos filhos dela. Na necessidade da comunicação, aceitamos o esquema, queremos o direito da poder nos expressar e, principalmente, que os outros compreendam nossa expressão, então encabeçamos a ideia de que a língua esta aí e assim que é. Aprendemos nosso idioma ainda pequenos e levamos para toda a vida.

De um certo ponto, isto faz sentido; na proposta de que uma linguagem só recebe validação conforme consegue a legitimação por determinado grupo (e é reconhecida por diferentes indivíduos), claro, questionar isto é contraproducente, afinal, até para expressarmos uma oposição teremos que, de fato, usar alguma forma de linguagem e comunicar nossa reclamação por um meio anteriormente criado. No final, nossa necessidade de comunicação e de se fazer entender nos prende ao processo: precisamos de uma língua!

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No entanto, há um fator que eu considero e que, necessariamente, transforma a língua na própria língua, ou seja, ela não existe além do termo em si: a língua já é metalinguagem.

Se analisarmos a disposição do entendimento de qualquer tipo de expressão, escrita, falada, como for, um indivíduo com compreensão das necessidades que formem uma sentença lógica para exercer uma forma comunicação plausível, percebemos que o objeto, no caso, o que é criado pela língua, só pode ser compreendido enquanto ambos os envolvidos no ato – emissor e receptor – compreendem a própria forma da língua.

Como assim?

Se a minha interpretação de “pedra”, ou “caminho”, ou “acontecimentos” não existisse, se eu – individuo – não fosse capaz de associar o significante do termo a seu objeto de origem (o significado), para mim, nenhum deles teria o menor valor. É neste sentido que não nascemos poliglotas, também, porque em diferentes idiomas, significado e significante do mesmo termo são compreendidos por diferentes formas; não fosse isto, compreender o significado bastaria para falarmos todas as línguas do mundo sem aprende-las. Mas não é assim, óbvio. Podemos até entender o significante (se nossos sentidos funcionam normalmente), mas não damos significado àquele termo enquanto não entendemos a correlação entre ambos. Para mim, a “pedra” falada/escrita só ganha o sentido de “pedra” objeto porque eu, mesmo sem perceber, ou talvez sem estudar, consigo compreender a harmonia entre significado e significante da língua portuguesa – também e talvez, sem estudar a necessidade acadêmica ou as terminologias deste processo. Somos necessariamente capacitados em dois pontos para, de fato, exercermos qualquer tipo de comunicação em uma determinada língua.

Neste sentido, a “pedra, o “caminho ou o “acontecimento, falado ou escrito, é um objeto duplo ao mesmo tempo:

1 – A forma do significante e;

2 – O significado que atribuímos a um determinado significante.

A linguagem é a correlação, a soma do item 1 com o item 2 deste universo de junção onde fazemos a compreensão que falar ou escrever “pedra” não necessariamente a cria enquanto objeto real, mas é apenas a interpretação esquematizada de algo que queremos expressar de um modo virtual: a própria pedra em si. Comunicar sobre é, entre outras palavras, a compreensão de significados que não estão ali presentes de forma física, mas que pretendem da mesma forma demonstrar algo através de um enunciado compreensível e lógico (o significante), que faça sentido para emissor e receptor.

A língua nunca é apenas língua, a realidade da proposição solta, um objeto em si; a língua é sempre o que ela pode falar sobre ela, de forma que os outros a entendam. O poema ilustrado no começo da postagem pretende, justamente, demonstrar isso. Sabidamente, se podemos ler o que esta escrito e compreender o poder de significante e significado dos termos, não criamos uma realidade, não criamos um caminho, uma pedra, nada, apenas correlacionamos a escrita com as imagens que conhecemos sobre estas palavras e que – por isto – fazem com que na nossa interpretação possamos dar significado ao próprio poema. Este significado, por sua vez, apenas existe como forma de compreensão, no sentido de vislumbrarmos os significantes ali expostos e determinarmos valores (no caso, interpretações) para eles, que façam o mesmo sentido a quem escreveu e a quem leu; no final, a “pedra” pode não existir fisicamente ao lermos o poema, mas tanto poeta quanto leitor conseguem compreender que “pedra” não é uma disposição de símbolos aleatórios, mas um conjunto de letras, um alfabeto que visa descrever o que o próprio termo pretende: a pedra em si.

pedra

Desta forma, questiono: ao vislumbrar a realidade de que a língua não é a finalidade em si, mas tudo o que ela quer representar de significados das coisas e, estes sim, se entendidos, representações que dão sentido à própria língua, podemos dizer que a língua fala sobre a própria língua? Nesta compreensão, a língua nunca é o fim, mas o meio que precisa existir em uma correlação de fatores que a dignifiquem dando-a um sentido esperado. Saber se comunicar e fazer uso da linguagem não é só um ato isolado, nunca, mas um esforço complexo e velado de metalinguagem. Exemplo mais pungente seja possivelmente o próprio significante “língua“, que existe justamente para conseguirmos através de um termo perceber que, ao usa-la, estamos nos referindo ao significado de algo, o objeto que queríamos exemplificar com determinada necessidade de compreensão entre emissor e receptor de uma mensagem, que tenha o mesmo valor em comum para ambos e valide o processo de comunicação – a “língua” que se refere à língua.

Neste ponto, mora a minha dúvida: se estamos ligados sobre a compreensão mesmo antes de entender o porquê, ainda que de maneira subjetiva e sem a percepção do próprio indivíduo, sem o conhecimento das terminologias, o exercício da linguagem não seria um exercício de metalinguagem? Falar, escrever, transpor um significado através de um significantes não é, automaticamente, a noção de que estamos no universo dentro do universo da linguagem? Curioso o caso porque podemos debater os limites da própria linguagem, afinal, se a língua de fato não existe, ou se é metalinguagem, o significante pode existir enquanto objeto em si ou apenas existe para compor um significado? Se “pedra” (significante) não apresentasse correlação com o significado pretendido, ela seria apenas uma disposição de símbolos aleatórios ou a existência deste significante, mesmo que apenas por forma e ainda que sem significado, justifica sua própria existência?

Este maravilhoso mundo da linguagem!

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