Todas as análises estão erradas!

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No calor do momento, em menos de 24 horas, aconteceu a coisa mais bizarra do mundo. A surrealidade foi tanta que nem rolou aquela tristeza coletiva, foi um misto de revolta passiva/agressiva engraçadinha, gente aplaudindo a Alemanha e postando meme e rindo amarelo, porque este era o sintoma mais lógico pra isto tudo. A gente não tira lição de derrota, não assim de cara, o rebuliço arrebatador dos sentimentos faz a gente ficar burro, cego e imbecil e é perfeitamente normal. Quando acabou o jogo eu estava bebaço e xinguei todos que mereciam ser xingados, este é o tipo de reação que a gente tem, bebe, xinga e faz merda. O que você aprende de algo assim já vinha de antes, ou vai vir bem depois de muita reflexão, a real é que pensar como uma derrota destas “educa” é pura ilusão de moralista querendo sair da inércia através da tragédia anunciada. Teve gente que foi tão The Flash postando e analisando por aí que, visivelmente, era discurso pronto há semanas, já tava tudo engavetadinho esperando o momento certo. De todo tipo de gritaria e loucura, a gente só extrai a justiça cósmica mesmo, aquela lição quase fatídica de que a bola pune, puniu bonito o ser mais arrogante de todos – conhecido como Parreira – que em 93 enxotou Barbosa por “dar azar” e, brilhante, agora ele é um dos principais responsáveis pelo maior vexame brasileiro, maior do que vexame de Barbosa, aquele que “dava azar”. Sugiro a gente mudar o uso da linguagem coloquial de “vamos criar outro Barbosa” pra “vamos criar outro Parreira” e esta é a maior lição que eu vou tentar aprender deste 7×1. E só isto, tudo que eu sucedo, aqui, eu já disse antes e vou continuar dizendo muito provavelmente no futuro. Inclusive, já havia citado timidamente no próprio blog nas antigas, quando falei sobre o Odone e sua (burra, idiota e pretensiosa) relação com o Gauchão, ou quando indiquei o grandioso texto de Marcos Alvito da Piauí – O esporte que vendeu sua alma – ou em qualquer outra vez que eu falei mal ou bem sobre o futebol: todas as análises estão erradas. E, isto, inclusive, justifica o meu post anterior xingando jornalista esportivo porque, principalmente eles, teoricamente esclarecidos, a mídia, fodelões, são os primeiros a escrever pilhas de bosta monumental, como eu disse lá, falar sobre árvore de Natal. Alguns até publicaram mea culpa depois da derrota, mas a maioria continua sem entender nada. A visão cínica que quase beira a infantilidade não é tolice, não, muito longe disto, se justifica no fato de que o jornalismo esportivo TEM de ser burro, tem de ser folgado justamente para reforçar o meio, enfim, o problema de fato faz parte de um processo onde eles estão inseridos e, claro, como parte ativa na geração de conteúdo, apontam para o lugar errado porque só assim podem continuar existindo nesta forma imbecilizante. Não fosse isto, não restaria um terço do jornalismo esportivo, não ao menos como conhecemos, e nenhum dos envolvidos é suicida o suficiente para acabar com o próprio emprego.

Por que as análises estão erradas?

Primeiro porque elas são simples e fatalistas, um mix de suposta intelectualidade didática com um pouco de tragédia grega, aquela combinação de termos e soluções mágicas com um temperinho de choradeira, coisa de reclamão mesmo. Apontei isto no meu texto anterior onde disse que um cidadão afirmou que “não importava a vitória na Copa, mas sim a seleção agradar ao próprio jornalista”, ora, provando que a base do argumento é defendida com RECALQUE mesmo, a casquinha de terminologias e frases complexas misturada com os mapas térmicos elegantes é só pra disfarçar uma coisa, que eles não sabem o que falam.
Dito isto, temos que analisar a questão do futebol brasileiro, principalmente a seleção, sobre uma óptica muito superior ao amarguinho de “eu não gosto de fulano” e, primeiramente, devem-se responder perguntas cruciais como: vamos crucificar todo mundo? Levanto esta dúvida porque abertamente eu não gosto, odeio e acho mesmo que alguns indivíduos deveriam morrer, como nosso amigão Havelange (que está quase, soltem fogos!), Teixeira, Marin, o próprio Parreira, entre outros. Porém, a morte deles é completamente indiferente ao processo e remonta ao que eu disse anteriormente sobre recalque, porque no fim não muda nada – eles vão embora e entram outros piores. Mas por que eu estou discutindo isto? Por um fator relevamente chamado Felipão. Este é o nome, a bola da vez e figura sublime em toda discussão, justamente porque divide opiniões. Eu sou fã do Felipão e admito, não sou jornalista esportivo e não tenho medo de descer do muro; gosto dele, pronto, mas isto é indiferente ao debate. Primeiro porque, mesmo sendo fã dele, também admito, Felipão NÃO DEVERIA estar no comando da seleção. Nem agora e nem antes da Copa, não deveria ter assumido e ponto final; o estilo tático dele simplesmente não tem nada a ver com o futebol internacional atual e muito menos com esta seleção, não à toa que ele não soube lidar com o time, situação visível pro vexame contra a Alemanha. Neste primeiro ponto concordamos e, desconfio, exista quase uma unanimidade: a escolha do Felipão foi errada, quer se goste dele ou não. Mas a concordância para aí. Disso em diante eu vou para um lado, o lado correto, enquanto as análises e, maioria, análise de jornalista esportivo, vão para outro. Isto porque eu vejo uma trolha gigante enfiada no rabo do torcedor muito maior do que o jornalismo quer ver, ou deseja ver, porque, como eu disse, eles foram parte ativa na criação e alimentação do monstro. Não os únicos, evidente, mas é facilmente elencável onde o futebol brasileiro desaguou nisso aí e eles, supostamente, poderiam ter combatido mas não o fizeram. No que escrevo abaixo, eu vou tentar fazer isto, dar um parecer fora de crucificações injustas sobre os erros reais do futebol brasileiro. Muito maiores, chagas muito mais difíceis de curar. E vou fazer isto com itens, só porque fica mais fácil de ver mesmo.

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1 – Sem culpados; ou: os culpados errados

Concordamos que Felipão não deveria estar ali já no outro parágrafo, talvez também concordemos em mais alguma coisa adiante, que Parreira é um otário, Fred é um inútil, Paulinho cagou tudo, Murtosa só está ali de passeio, gente errada nesta seleção é o que não falta, mas e daí? Evidenciar culpados no elenco, mesmo antes da eliminação, é um trabalho completamente idiota; minha maior crítica com o jornalismo começa aí – a tentativa (fracassada) de querer ser neo-treinador de microfone e dando de mãe Diná sobre qual rodada o Brasil seria eliminado. E erraram todas, apostavam antes do Chile e calaram a boca. Mas, ao que interessa, porque discutir esquema é idiota e apenas encheção de linguiça? Isto porque é visível, é chover no molhado, alegar que a seleção foi mal montada e mal treinada é algo como dizer que a alface é verde. Mesmo assim e, antes de tudo, devemos discutir um problema mais profundo sobre estes culpados. O primeiro problema nos próprios jogadores que, claro, chegaram a Copa por escalação, ou seja, não foram eles que se colocaram ali. Todo mundo sabe que o Fred é lento e ruim, enfim, o que isto muda? Nada além do fato de que ele chegou ali porque foi escalado e, ironicamente, eu também não culpo quem o escalou. Claro, motivos é o que não faltam para condenar Parreira e Felipão, principalmente Parreira pela participação medíocre na entrevista mais medíocre da história mas, mesmo assim, esquecemos de um glorioso detalhe – e, neste ponto, já começo a me distanciar do resto das críticas: por que esta gente chegou aí?

Vale lembrar que podemos consultar nosso dicionário de palavrões sobre todas as besteiras que a comissão técnica fez, mas isto não responde a dúvida crucial sobre o fato, que é exatamente como Felipão e Parreira foram parar ali na casamata e, não só isto, um ano e meio antes da Copa, tempo relativamente curto para um técnico de seleção treinar. Isto porque qualquer tipo de resposta nos remete a um outro fato anterior a escolha dos dois que é ainda pior, o fato de que NENHUM TREINADOR BRASILEIRO QUIS ACEITAR A BOMBA. Sim, isto mesmo, quem bem se lembra, ao quase apedrejarem Mano em praça pública, tanto mídia como CBF DAVAM COMO CERTO o fato de que Muricy assumiria e, na dúvida, não fosse ele seria Tite. Pois é, nenhum dos dois quis o pepino e a solução da CBF foi embora, ficou a ver navios e apelou para um misto de tática (supostamente na mão de Parreira), com um misto de talismã (supostamente na mão de Felipão). A construção da mitologia desta dupla foi ainda mais reforçada com a vitória na Copa das Confederações, dando o ar de milagre que precisava pra fechar tudo, afinal, o trabalho foi “recompensado” com um título que misturava a boa apresentação da seleção com o tiquinho de “time copeiro”, garantindo que a escolha na cagada dos dois técnicos era uma coisa planejada com muita antecedência. Mas isto pouco importa, também, porque isto é história corrida e o que eu quero, aqui, é apenas levantar dúvidas. E, nisto, volto a questionar: como chegamos ao ponto em que NENHUM técnico quer assumir a seleção? Como o trabalho que supostamente era pra ser o top maximus do currículo de qualquer treinador brasileiro virou uma cruz que ninguém quer carregar?
Silêncio, a resposta evidentemente não virá da maneira convencional. Você vê alguém comentando isto, principalmente quem deveria comentar? Não, a lógica é uma: achamos os culpados, vamos extermina-los. Realmente, devemos tirar quem fodeu com a Copa do seu cargo e nem quero negar isto, mas a minha dúvida não será respondida com isto e, prova cabal de que o erro se perpetuará; tanto se perpetua que é a terceira Copa seguida que estamos “elencando culpados” e, inclusive, já escalamos Parreira em duas edições, o que também prova um aspecto curioso sobre a análise de tirar todo mundo pra Judas: treinar a seleção se tornou pior do que tirar dente sem anestesia. Desde 2002, desde o título, absolutamente ninguém mais aguenta esta merda. E, esta razão, eu boto na conta principalmente do meio criado. O universo que envolve a seleção é um circo tão medíocre que cansa, abate e não dignifica. De certa forma, para os treinadores atuais, é mais fácil e proveitoso treinar clube, que paga bem e mesmo com ameaça de TO, ainda assim, é um trabalho mais tranquilo. O circo da seleção envolve uma mistura fina de tantas coisas ruins que não dá nem pra começar. De um lado, uma pressão absurda dos patrocinadores, querendo fazer do futebol um cabide financeiro e de marketing de felicidade. Patrocinar a seleção não é só dar dinheirinho pra ajudar no futebol, mas garantir que os atletas e treinador sejam cobaias, peças bizarras de qualquer tipo de publicidade medíocre; alguns vão argumentar que “eles recebem pra isto”, ok, e eu concordo que todos são bem pagos pelos patrocinadores, mas até que ponto a invasão de responsabilidades é benéfica? Caso emblemático o da Sadia depois da lesão de Neymar, enfim, a marca programou toda uma campanha imbecil e e bizarra sobre a micro-crise do time sem seu craque e você vai me dizer que isto não atrapalha psicologicamente no jogo? Tudo isto só pra reforçar o slogan inútil que eles queriam vender. No final, a seleção não jogou para ninguém, nem pra eles nem pra mim.
Mas, além dos patrocinadores há a mídia dividida, a Globo que apoia o circo porque é uma das que mais faz papel de palhaça, invade treino, aborda jogador até cagando, invade concentração, invade tudo e do outro lado todo mundo que não é Globo, mas gera receita com a seleção, e se preocupa exatamente sobre o contrário sem nenhum critério analítico: foder o projeto da Globo; ou seja, o time. É o caso das ESPNs – que era um canal sério e se perdeu pra aparecer – que adoram polemiquinha chula, adoram parecer Ratinho dos esportes porque sabem que tem gente querendo ver a desgraça mesmo, ver derrota, choro e festa estragada. Foi da ESPN, alias, que pintou um mea culpa cagadinho de um certo jornalista, passou a Copa batendo no Felipão e depois de perdermos admitiu timidamente que pagou pau pro mesmo técnico na Copa das Confederações, com uma espécie de auto-crítica alegando algo como “também era culpa da mídia o Felipão ter chegado onde chegou“; decidam-se! Quantos treinadores não foram apedrejados, enxotados por uma série de suposto “jornalismo” numa clara visão de recalque chorão? Situação absurda máxima foi o caso de Mano, corrido por todos (realmente, TODOS) veículos de mídia, que pediram sua cabeça e só faltavam querer matar o cidadão…mas imagina? Nesta Copa, na mesma mídia que o criticava, alguns foram capazes de afirmar coisas mais ou menos assim: Felipão deixou as mesmas peças que Mano, se é pra fazer isto, por que não colocar Mano?
Ora, não “tiraram” Mano, mas ele foi tirado por uma pressão tão grande que só sobrou a CBF isto mesmo, picar a mula do cidadão – como ocorreu agora também com Felipão. Pressão esta, claro, construída e fortalecida pelos mesmos malandrinhos que hoje querem Mano de volta, que queriam a cabeça de Dunga ou que pediram Dunga ao mesmo tempo, que querem a cabeça de todo mundo sem exatamente se decidir sobre quando e onde parar de elencar culpado. A mídia esportiva é um carrasco de chicote que só faz isto: bate. E bate sem responsabilidade, se exime de tudo e qualquer coisa porque tem liberdade pra isto, o legítimo cagão do prédio. Bate e esconde a mão, neste microcosmo já zoado pelos patrocinadores invasores e pela alegre Rede Globo, surge também o resto da imprensa que é o carrasco, só sobrando pra CBF andar na corda bamba deixando todo mundo contente, que lá do alto do troninho joga pão pra todo mundo se digladiar. E a seleção, comissão ou jogadores, ficam como baratas tontas ali no meio, recebendo bem pra isto, óbvio, mas sem saber exatamente o que fazer: afinal, são atletas ou bonequinhos de luxo? No final, o que formamos é uma geração de Pinóquios buscando ser menino de verdade, compensando as frustrações de um meio totalmente vampiro, o universo da seleção brasileira, em alguma postura de moralidade: choram no hino, batem no peito e buscam “alegrar as crianças”, porque não se trata mais de futebol, mas de como sobreviver à guerra social da concentração brasileira – criada por um meio completamente insano, onde todos são culpados e acham que não. Já neste ponto, vemos que ninguém comenta, afinal, tirar com a cara de Fred e Felipão é mais rápido e não toca num detalhe crucial: para mudar a seleção, principalmente, temos que mudar todos envolvidos neste microcosmo e isto envolve outros fatores, não só os culpados de praxe, mas, sim, a relação com patrocinadores, a relação da mídia e a omissão da CBF quanto a toda esta gente. Ou coloca o pau na mesa logo ou na Rússia será igual, porque o problema não está em peças pontuais, os famosos “culpados pela derrota”, mas sim na filosofia de como a coisa é feita.

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2 – A filosofia do futebol brasileiro; trocando peças sem resultado

Defendendo que o problema principal não são só (friso isto porque também são, mas em menor escala) “os culpados” e, por isto, não resolveremos ABSOLUTAMENTE NADA afastando X ou Y, agora passo a questionar o segundo ponto: o que fazer?

Este talvez seja o fator mais complicado de todos porque justamente toca em um argumento meio atmosférico, inexato, algumas pessoas até questionam sobre “filosofia” mas de maneira que eu considero errada. Afirmo isto porque se trata de uma questão profunda, enfim, um debate sério e que nem eu nem ninguém sabe as respostas atualmente; mas, quando se fala em filosofia eu quero novamente frisar que não se trata de algo leviano, isto porque na maioria dos casos, para supostos especialistas, a filosofia se resume ao que eu já disse no item 1: trocar técnico. O famoso “mudar a filosofia de jogo”, “mudar a filosofia tática” e estas coisas. Obviamente, balela. Simples assim. Trocar técnico não é milagre e não é certeza de nada, muito pelo contrário, a possibilidade de dar merda é gigante; fazer isto é tipo a velha máxima de tratar o sintoma e não a doença; O Felipão é uma dor de cabeça numa doença gravíssima e, se dermos alguns comprimidos para acabar com ela, podemos momentaneamente acabar com a dor – mas e o futuro? Vamos morrer da mesma maneira. Vejo muita gente falando sobre “trazer técnico estrangeiro” e que “técnico brasileiro está obsoleto”; é importante perceber que, aqui, estão misturando tudo numa macarronada de idéias pretensiosas pra trazer um Guardiola da vida sob a tutela de que só gringos podem nos salvar de nós mesmos. Mas e daí? O que muda trazer um cara destes? É totalmente circular, tautologia barata (“traz o técnico novo porque vai dar certo; e se vai dar certo, traz técnico novo“) pensar que isto funcionaria porque, mais uma vez, voltaríamos a meu item 1 onde todo e qualquer técnico novo é tão criticado, tão pressionado, recebe um título tão messiâncio – e não importa quem seja, sério, QUALQUER UM – que não há tranquilidade para nenhum tipo de trabalho. Afirmo com certeza que, enquanto não mudar a filosofia brasileira no microcosmo do futebol, ninguém salva a seleção. Nem Simeone, nem Pep, nem quem for. Vem e se afunda, naufraga neste barco furado que é ser técnico neste inferno pessoal. Isto porque o treinador é um comandante tático, uma visão inteligente sobre o que ocorre dentro das quatro linhas…mas e fora? Durante boa parte do período que consta do que conhecemos como “seleção brasileira” não ocorre em campo e é este o grande problema. Podemos contratar psicólogos, blindar o elenco mas, mesmo assim, há o contato, todos sabem quam estão pressionados, todos sabem o que se passa no meio externo à concentração.

Mas então como mudamos a tal “filosofia”?

Complexo porque, admito, nem eu sei exatamente o que quero dizer com isto. Uma coisa é certa e não é só o treinador que é burro, longe disso. Falo como gremista que, ironicamente, viu o time decair juntamente com a seleção, no mesmo período e há quase 10 anos faz sempre a mesma merda, troca técnico todo ano, já usou técnico de todos os estilos possíveis e não ganhou NADA, MERDA NENHUMA, justamente porque continuamos dando soco em ponta de faca, elencando culpados e apontando soluções mágicas enquanto nossos problemas são profundos. O que fazer, então? Admitir. Este é o primeiro e mais importante passo; admitir tudo que erramos desde 2002, incluindo nosso campeonato bosta, incluindo nosso público que já perde até pra Liga Americana, incluindo nossos estádios capengas (mesmo as Arenas que, convenhamos, foi uma das coisas mais idiotas que fizemos ao futebol), os times falidos, os jogadores em fim de carreira superfaturados, admitir que tudo isto é coordenado por uma gente que não sabe o que faz, quem é Marin e quem é Del Nero? Admitir que estamos fazendo política e não futebol. O futebol brasileiro é uma ferramenta política nociva, uma arma absurda e que vem mostrando isto, afinal, serve mais para cobrir uma mistura de interesse econômico e de Estado do que propriamente jogar bola. A seleção, atualmente, é muito mais representativa imagéticamente do que funcional; o importante é o que ela aparente ser e não o que ela produz e, novamente, isto inclui a questão do item 1: precisamos de jogadores felizes, alegres, ligados ao hino, fortes, bravos, representantes da imagem de uma geração, mas não discutimos algo que deveria ser crucial, que é o futebol jogado em campo – não ao menos como deveriamos discutir. O discurso do atleta é maior do que ele representa enquanto atleta. E isto, em grande parte, uma relação forçosa estabelecida pelos próprios patrocinadores, ou em resposta a cobrança da mídia, coisas que a CBF vê, mas finge que não vê. Joga o time aos leões e espera que eles sobrevivam; se sobreviverem, lógico, se consagram como heróis.

Notem a diferença para os dois times que todo mundo paga/pagava um pau, Espanha na última Copa e Alemanha agora e reparem em uma diferença de organização com o nosso futebol, além de uma semelhança crucial entre eles mesmos: 1) Ambos tem/tinham o mesmo técnico há um bom tempo e 2) Contavam com a mesma base do elenco há muitas Copas. Ou seja, exatamente o oposto do que fazemos e pretendemos fazer. Exatamente o oposto do que discutimos, porque quem coordena nossa seleção só sabe falar em mudar tudo, no fracasso E ATÉ MESMO quando ganhamos, a lógica é sempre a reposição descabida de peças.
Curioso nisto, principalmente no projeto alemão e nem tanto no espanhol – porque, no caso espanhol, poucos times do país fazem isto – quando falamos da força de suas seleções, ambas se apegam em um fato em comum: as categorias de base fortes. CATEGORIAS DE BASE. Este é o calcanhar de Aquiles do que falamos e uma matemática infalível até aqui, porque ao invés de trocarmos de cima pra baixo, como fazemos atualmente derrubando técnicos e jogadores já formados, ainda não discutimos SÉRIO sobre o aspecto real, a mudança real de trocar de baixo pra cima, fortalecer a base do futebol que, como o nome já diz, é a estrutura de tudo que se segue; friso: CATEGORIA DE BASE. DE BASE. B-A-S-E. Em qualquer coisa do universo a base é o que dá fundamento, construções, organizações, países, relações. Base, como no futebol, garante bons resultados.

Mas antes de falar especificamente dela, gostaria de colocar outros dois subitens sobre os jogadores:

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2b – O cabelo do jogador não importa; o amor nostálgico muito menos

Falo aqui especialmente de um fenômeno bem escroto e chato, a pessoalidade de situações. Pouco importa se você gosta de moicano descolorido ou de selfie, chuteira com um pé de cada cor, isto não faz um jogador bom ou ruim. Triste realidade. Atrelar o comportamento externo do atleta ao seu rendimento em campo é uma noção egomaníaca de projetar neste mesmo atleta uma personalidade que você deseja para si, achar que ele se comportar como a gente quer o mundo não vai mudar a habilidade dele. Eu também prefiro chuteiras pretas, mas e daí? Não sou eu que estou jogando. O que quero dizer com isto é bem simples, enfim, pouco importa se o Neymar é um moleque marrento e zoado, um monte de gente não gosta disso e não é condenável não gostar disso; mas, não podemos atrelar isto a habilidade ou não dele e dos outros jogadores. Entra em campo quem for melhor e ponto, não quem tem o melhor penteado. E não adianta chorar sobre “brasilidade” e achar que isto é um fenômeno local, porque praticamente todas as seleções enfrentam a mesma síndrome de boleirismo, ou seja, não foi isto que fez a gente perder. Evidente, se o jogador é um bosta ruim, ele também não deve jogar apenas porque é descolado, a recíproca é verdadeira: queremos um time com os melhores em campo, independente da pressão de patrocinadores para escalar X ou Y e da estética do atleta. Se for bom e tiver cabelo de caturrita, entra. Se for ruim e tiver cabelo de caturrita, sai.
Digo isto porque vejo muita gente projetando as frustrações do time brasileiro especificamente no Neymar que, de fato, é um dos poucos jogadores com diferencial no time. Além disso, vão além e batem em outra ferida idiota, o clássico “os jogadores brasileiros não jogam mais por amor” e realmente não jogam, não nego isto, mas também não é isto que está fazendo a gente perder. A própria seleção alemã, campeã, comprometida, educada, tática e inovadora, sim, meus caros, recebe rios de dinheiro. Os jogadores de lá receberam bicho por rodada, cada fase da Copa que passavam recebiam uma quantia da federação…e nem por isto deixaram de jogar muito. Não romantize o amor com a falta de futebol. Eu também sou fã de Nelson Rodrigues, sou fã de jogador com identidade ao clube, mas isto não influencia em nada. Craque brilha mesmo jogando sem amor, só pelos milhões. Olha o Götze aí, acusado de traidor, fazendo o gol da Copa.

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2c – Devemos estudar, não copiar

Outro ponto importante é a pagação de pau sublime sobre modelos gringos. Eu realmente acho interessante que possamos falar sobre o futebol alemão, sobre clubes que deram certo, países que fizeram milagres e isto tudo é muito bom ENQUANTO ESTUDO. No entanto, não devemos copia-los; a inovação é a mãe dos vencedores e devemos apenas perceber uma coisa: ficamos pra trás, tem gente melhor que a gente, o que eles fazem e o que nós podemos fazer de melhor? Em nenhum momento devemos olhar para eles e copiar, isto é tão baixo como não fazer nada, além de ser contraproducente porque a cópia nunca sai como o original. Repito: NÃO DEVEMOS COPIAR OS GRINGOS, principalmente no que tange ao nosso campeonato, parar com esta frescura de plagiar pontos corridos porque na Europa dá certo, plagiar calendário porque na Europa é assim, plagiar sistema tático porque lá fizeram e é legal. Não, isto é burro e vazio, não se deve fazer isto, até porque o Brasil joga muita bola há tempos, tem material humano sobrando – só faz tudo ao contrário. O estudo é uma ferramenta e é mister que analisemos os motivos de dar certo lá, claro, ainda mais no que tange ao universo administrativo do esporte, mas não podemos ser eles. Tudo, TUDO que tentamos copiar fizemos pior e isto inclui nossas Arenas horríveis, destruímos uma das mais fantásticas características do futebol nacional, os estádios em forma de Monumental, para darmos espaço a Arenas gringas estranhas e que, por motivos óbvios, não são como as originais. Grande merda.
Neste ponto já ganho um grande cara que concorda com isto e este cara é Valdir Espinosa, um dos maiores estudiosos do futebol nacional. Podem ver os vídeos táticos dele no facebook, podem ver as entrevistas dele, o cara manjar pra carai e diz o mesmo, sem cópias.

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3 – Categorias de Base

Mas, voltando onde a fita onde havia parado, vamos manter a discussão de onde ela estava com: 1) sem culpados 2) mudar filosofias e 3), agora, algo ainda mais importante. Dentre toda esta maravilhosa Copa das Copas, um momento se destacou além dos outros e quem manjou ele já manjou sobre a vida inteira. A entrevista do Neymar depois da derrota e, mais especialmente uma frase, algo como:

– As categorias de base daqui (Brasil) são ruins, eu aprendi muito mais com meu pai (ex-jogador, Neymar pai) no quintal de casa do que nelas.

Pronto, se você sacou que esta frase é a mais importante do Brasil na Copa, você já sacou tudo. Fecha o texto e nem continua. Neymar foi pungente no principal e real problema; antes dos nossos culpados de praxe, elencar técnicos, jogadores ruins, eles existem, sim, mas são sintomas da doença, como eu disse, uma pequena dor de cabeça. A doença que desola o Brasil é a falta de categorias de base e isto é que está destruindo nosso futebol. Mas, veja bem, ressalvo aqui um detalhe importante, como dito no item 2 e que vejo muitos inocentes comentando, para este caso também há de se ter mudança de filosofia. Isto porque não é uma lógica simplista “ai ai, abram mil categorias de base e escolinhas espalhadas por aí e está resolvido”, como muitos sugeriram – inclusive, dizendo que era isto que tinha sido feito da Alemanha (olha os idiotas querendo imitar gringo sem entender o processo inteiro, novamente) – mas aqui há o mesmo problema do resto todo: falta de uma nova filosofia. Quantidade não é qualidade e, neste caso, não é o fato de termos poucas ou muitas categorias de base, mas sim que elas são RUINS DEMAIS. Ruins porque estão contaminadas, tal qual a seleção, a categoria de base também tem seus males, especificamente dois. O primeiro e mais notório, aquele tumor conhecido como empresário; estes animais, agiotas travestidos que pululam nos times pra comprar e vender jogador como saco de carne, a possibilidade de dar e tirar dinheiro aos clubes tornou nossas categorias de base um antro de nada muito útil, além de vitrine de gente. Só atendem aos milagres econômicos de saciar a punhetinha financeira dos empresários e, de rebote, os gordos dirigentes que ganham os 10% de passe, além do silêncio notório – novamente – da mídia, que não fala nada sobre isto porque recebe bola preta destes caras também. Aqui é o prato cheio pros conspiradores, aqui que o futebol é sugado em sua essência e todo mundo é conivente, dorme quieto e não fala merda nenhuma. Você vê que volta e meia surge em programas esportivos o clássico “nossas categorias de base não formam mais craques” e é verdade, mas nunca rola a coragem de nenhum dos âncoras em jogar a merda no ventilador, isto porque há um caso de eterno amor entre o jornal e os investidores, que misterio$amente $e atraem mutuamente. Sim, afirmo categoricamente que tem muito empresário dos grandes aí que dá mesadinha pra jornalista e é assim que evita ter seu nome citado, evita que falem do real problema. O método da mesadinha pra jornalista já é comum, não é novidade, como o famoso jabá na música, ou as próprias construtoras (OAS, AG etc.) que também pagam pra falarem bem no jornal, empresário de futebol banca mídia, banca que este processo vampiro exista como ele é.
Mas não é este o único erro, os empresários são maus mas não estão sozinhos e os clubes poderiam ainda assim formar atletas bons, mas não formam porque também são acomodados. Se gostam de falar sobre a velhice acadêmica dos nossos técnicos, enfim, o que sobra pros comandantes das categorias de base? Nossa categoria de base, como bem disse Neymar, ERRA, AFUNDA, ACABA com futuros profissionais, não contente em ser apenas defasada, não, não, cria jogadores com vícios errados, fundamentos mais errados e nenhum destaque para um futebol de excelência. Somos um país onde virtualmente existem 200 milhões de Neymares, todo mundo quer jogar bola, mulheres, bebês, todo mundo aqui quer rolar a pelota e absolutamente nenhuma categoria presta, estamos falando de um jogador habilidoso surgindo a cada 6, 7 anos, quando deveríamos ter 1 a cada semestre, no mínimo. Muito disto se garante no papo do talento inato, aquela mentira combatida por estudiosos de que pessoas “nascem com um dom”, não, não, o próprio Neymar disse isto, foi ensinado pelo pai, muitos poderiam ter sido ensinados, mas nossas categorias são ruins demais, treinamentos mal elaborados e acomodados pelo agrado de um troféu vazio destas Copas de base que não valem nada, valorizam a força física e não ensinam técnica, não consideram a diferença de idade e os diferentes treinamentos por faixa-etária, não se educam fundamentos, cobrança de falta, passes, posicionamento, nada é atualizado, mal sabem fazer algo além do famoso coletivo, o rachão tosco que não leva mais a lugar nenhum. Desde os moleques de 10 anos até os nossos profissionais, o treino é sempre a mesma porcaria: corre, rachão, academia, descansa, corre. Treinamento de 1960. E, assim, claro, temos dificuldades absurdas em formar um coletivo bom. Por isto que a seleção não apresenta ataque convincente, conta com zagueiros sem banco e com meias mais ou menos. O time é reflexo da base: correria pra lá e pra cá e pouco futebol jogado.
Aqui, retornamos ao item 1: exatamente onde Fred é culpado? Ele é ruim, sim, mas por que culpado? Ele é um jogador viciado, cheio de manias de um processo cagado, desde categoria de base aprendeu aquilo e, óbvio, reproduz aquilo na vida adulta. O técnico, no caso, Felipão, idem. Poderia ter mudado a tática, sim, poderia ter feito melhor, mas ganharíamos? Não. Somos limitados, terrivelmente limitados e não temos peças para reposição. A não ser que você acredite em algum tipo de mágica transcendental, como Felipão teria algum tipo de poder sobre o processo coletivo do futebol nacional? Evidente que poderíamos perder mesmo com um time tecnicamente superior, mas é uma perspectiva muito mais confiável imaginarmos que, com uma proporção de atletas melhores, este risco diminuiria. Assim como poderíamos ganhar com este time limitado aí, fomos até as semi-finais eliminando os queridinhos da mídia e se não pegassemos Alemanha, provavelmente tinhamos chances de chegar à final. Aprofundando o problema, surge a grande pergunta: se somos assim, não é por acaso? Não. E aí que mora o monstro de sete cabeças. Como resolver o meio, não elencar os culpados, manter um trabalho centrado e de longa data, como ter muitos atletas bons, como mudar a filosofia disto tudo? Quem atrapalha esta evolução de conceitos? A CBF!

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4 – A culpa diluída da CBF; vamos focar no inimigo certo

Este é o mal e apenas este. Eventualmente você vai ver alguém criticar a CBF, sim, mas a coisa afunila tanto e por vários motivos que, no final, este que é o maior problema de todos é esquecido, ou acaba numa nebulosa meio encoberta de divagações vazias. Quem dos grandes que critica eles? A Globo, lógico, não. Amigos de longa data, inclusive, o site da CBF é descaradamente colocado no provedor do G1. Os patrocinadores, querendo fechar contrato de exclusividade? também não. A própria mídia que não é Globo, um que outro critica e só; talvez por medo, ou por burrice mesmo, preferem focar no fácil; mesmo quem critica, as vezes, faz de forma errada: pega-se a argumentar exatamente sobre a suposição do meu item 1, pedindo a “saída de Marin” como se isto fosse resolver um problema gigante, enfim, a clássica substituição de peças que não leva a nada como, mais uma vez, deixa evidente a questão de falta de novas filosofias no futebol nacional (item 2). Pouco importa a saída de Marin desta maneira, como pouco importou a saída de Teixeira anteriormente, isto é apenas representação política/ideológica, a derrocada de um líder nefasto que sai pela porta dos fundos; mas, de fato, nada aconteceu. Não vai mudar, como Del Nero entrando não muda coisa nenhuma também e assim ad eternum; o escopo da CBF é o mesmo e isto é um problema maior. Justamente porque a polítia filosófica de entidade não prevê casos complexos, o que mais eles querem é que gritemos o coro “sai Felipão, enta outro!” porque assim mantém o establishment zoado do futebol nacional. O desvio de foco na conduta, ou seja, na mudança providencial, é peça chave para a continuidade do erro: enquanto acreditamos que desmoronados castelos de cartas derrubando líderes antigos, pelo contrário, fortalecemos a estrutura ao jogar o jogo deles; rebater o discurso burro da CBF com discurso burro, também, a ideia da substituição constante de peças, enfraquece o outro lado da conversa, justamente porque fica fácil para a CBF atender a massa quando ela pede algo imbecil. Vai todo mundo bradar agora por um novo técnico, e aí? Só isto? Pelo visto, pra maioria sim, a crença no poder quase sobrenatural da substituição mágica de treinador é o caminho mais sensato, mesmo que isto já tenha sido feito trocentas vezes e não tenha dado resultado algum. Pouco será feito no âmbito organizacional – e se, de fato, queremos copiar alguma coisa dos gringos, vamos nos basear na administração proposta por eles, os alemães – mas obviamente nunca receberemos isto. No máximo um híbrido bobinho com algumas medidas políticas emergenciais, como tentar segurar novos jogadores no clube ou aumentar salários de promessas, ou rever algumas clausulas mais inefetivas da Lei Pelé. Volta a dizer, devemos, sim, cobrar a saída das coisas que deram errado – e isto inclui o técnico e sua comissão; mas não devemos acreditar no jogo do consolo, porque esta substituição pontual de treinadores funcionará como carta coringa da própria CBF, mostrando que está atendendo aos pedidos da opinião pública, empurrando com a barriga as necessidades reais.
A CBF é uma instituição perdida num mar de nada, assume o futebol brasileiro e diz que “só responde pela seleção”, como se, sim, o futebol fosse só isto, não percebe que faz parte de um processo gigante onde ela é a grande coordenadora, ou também não faz questão de perceber porque é bem paga pra esta cegueira coletiva. O futebol nacional recebe um caminhão de dinheiro e vê todo este dinheiro entrando pela CBF, que vê verdinha com ou sem bom futebol e percebeu que trabalhar cansa, logo, pode não fazer nada e ganhar o mesmo dinheiro igual; é a máxima malandra que vive a entidade, se declarando “propriedade privada”, não recebe nenhum tipo de cobrança de nenhuma autoridade para prestar qualquer tipo de conta, alega que não deve nada a ninguém porque não é uma instituição pública. Aí a coisa complica, na falta de efetividade da CBF, ficamos dependentes das feredações regionais que são a mais perfeita representação da mãezona, só que num âmbito menorzinho e mais mafioso e pimba! Eis o caos. Como vamos confiar em algum processo de mudança se o próprio vice da CBF, Delfim, presidente da Federação de Santa Catarina, já mostrou todo seu destempero mental discutindo com Felipão via Twitter? Esta ação deixa tudo bem claro, quando o cidadão que está há quase 30 anos por trás do futebol catarinense e acha que fez alguma coisa pelo mesmo futebol catarinense mostra toda sua burrice, a ideia de “troca as peças que resolve!”, começamos a nos questionar que quem está abaixo na hierarquia de comando da maior instituição futebolística do país deve ser ainda mais estúpido.
Não podemos nos abster também dos comandantes dos clubes, que pelos gordos contratos televisivos e dinheiro das federações, calam as boquinhas e amargam este futebol ridículo brasileiro. Já percebeu como tudo é mágico, por aqui? Ignora-se o fato dos salários atrasados frequentes, dos estádios vazios, dos campeonatos horrorosos, dos jogadores ruins, das proibições de torcida que nada mudaram no panorama da violência, ignora-se tudo isto e o foco vira em apenas um fator: a seleção fracassou não porque a organização do futebol brasileiro fracassou, mas sim porque Felipão errou, porque Fred não é jogador. Será?
A análise da situação nos mostra que o que esperamos é um circo completo em todos os sentidos, como sempre, escolher o boneco de Judas é o caminho viável para resolver o problema. É totalmente circular pensar sobre o fato de Felipão ser obsoleto porque, analisando a situação e, se imaginamos que a CBF preza pelo nosso futebol – que é mentira, mas vá – como a instituição acabou escolhendo um técnico obsoleto pra comandar a equipe numa Copa? Não há análise. Voltamos ao início, onde das duas uma: a escolha de Felipão evidencia que 1) A Confederação é cínica ou 2) A Confederação não tem planejamento. Neste sentido, a falta de posicionamento de David Luiz nos dois últimos jogos é bem mais amena do que a falta de lógica no discurso da entidade; ele é parte de um meio que gerou exatamente tudo isso. Rir da seleção, elencar culpados entre eles, ou situações aleatórias como a cor da chuteira, não leva nada a ponto algum. Como vamos ganhar com isto? Como vamos melhorar? No final, nos resta o mesmo mal de sempre; você abre hoje  a página do maior portal de notícias do país, a Globo.com e o que tem de capa? “Quem deve ser o novo técnico?“, “Seja você o novo técnico!“, “novo”, “novidade”, “recomeçar”, “inovar”, há uma obsessão incrível por termos que remetem a mudança mas o que fica bem claro é que estamos pintando a casquinha do ovo, mas o ovo continua igual. Realmente, pintar a casquinha, como mudar de peças pontualmente, pode até dar um novo ar para a coisa, uma sensação de que inventamos algo que não existe, mas lá no fundo, lá no fundinho, é tudo igual.
Dou forças a todo mundo que está falando disso, que são poucos, pouquíssimos, até agora eu ouvi alguns e vou elenca-los:

1 – Valdir Espinosa (treinador, professor e estudioso), sobre a parte tática

2 – Juca Kfouri (jornalista de fato), algumas vezes sobre a CBF e outras sobre a filosifa (mas as vezes falando muita merda também)

3 – Tostão (ex-jogador e colunista), sobre a falta de utilidade em trocar de peças sem filosofia

4 – Flávio Gomes (jornalista), nas poucas vezes que ainda fala de futebol, fala bem, dá boas porradas na CBF

5 – Paulo André (jogador), dando porrada na CBF

6 – Romário (ex-jogador e deputado), dando porrada na CBF

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O resto tudo é poodle de circo, ou não fala o que se deve porque é burro, ou não fala porque tem interesses mesmo; preferem girar na tautologia de sempre. Tomamos 10 gols em 2 jogos, numa das atuações mais estranhamente bizarras da história e quem ainda quer dar de adivinho, principalmente na mídia esportiva – a voz da comunicação – tem de ir pra casa se masturbar olhando foto do Teixeira. É inadmissível que ainda em 2014 se fale sobre “peças”, que o maior canal de comunicação do país, o SporTV, que passa futebol quase dois terços do seu dia, ainda assim, na maior cara de pau, receba pautas genéricas da Globo pra não tocar no problema; hoje passaram o dia falando de David Luiz, mas e do Marin? Enquanto eles se enganam conscientemente, já elencaram os culpados, ninguém chuta o balde com o amigo presidente da Confederação. Paulo André, que foi encostado na China num vísivel golpe de dirigentes para ele parar de falar, o Bom Senso, a FNT, quem seja, com muito menos poder de mídia, muito menos poder de repercussão, conseguem comprar brigas que o maior canal de televisão do país se omite. Qual é a destes manés? E os patrocinadores, também? Ainda vão se encoleirar? É melhor roubar a seleção pra lançar uma marca inútil com slogan de merda, ou vão deixar os moleques treinar em paz? Muito fácil escrever que é pra seleção jogar pra alguém, então não encham o saco e deixem eles treinarem. A responsabilidade não cai só no erro do zagueiro, não sejamos estes caras; o meio sabota a seleção e vem como bola de neve, cada vez pior desde 2006. Absurdo demais o fato de que paramos treino porque tem de gravar Esquenta, vai tomar no cu com Esquenta. Malandramente, a ESPN já publicou sua notinha; achei louvável, admito, mesmo discordando de vários pontos e achando medíocre a transmissão da ESPN durante a Copa, a nota foi um ótimo gesto de humildade e reconhecimento, principalmente vinda do Mauro Cezar Pereira, que foi um dos caras que eu mais critiquei nesta Copa. Matou no peito a responsabilidade, disse mesmo que evitando: somos todos culpados. Até agora, foi um dos poucos lugares que reconheceu; em nenhum momento Marin apareceu pra dizer que fez cagada, muito pelo contrário, teve a ousadia de publicar isso:

A cara do cidadão de moletom da GAP diz tudo.
A cara do cidadão de moletom da GAP diz tudo.

Não só ele, ninguém deu as caras; os oportunistas já largaram. Na derrota da seleção, a primeira coisa que sumiu foram os patrocinadores, a galera do dinheiro, apoiando na boa e na ruim – tá bom! Quem mais encheu o saco com campanha idiota, sim, sumiu, não vai a público dizer nada, não presta pra porra nenhuma, é o pior tipo de sanguessuga do planeta, o palhaço que quer só aparecer no picadeiro pra dar espetáculo: usa a imagem favorável do time quando convém, quando não convém dá no pé. Na mídia, só a EPSN admitiu mea culpa. Um ou outro perdidos também, mas em grande peso, o jornalista continua o maior cínico. A CBF, além desta foto majestosa, não disse nada; passou a bomba pra coletiva horrível de Felipão e Parreira e contou com a sorte iluminada da entrevista mais sensata até agora, quando Neymar falou bem pra caralho e sozinho – situação sublime exemplo desta Copa, botaram o cara de 10 dentro e fora de campo, mais um pouco podem colocar ele de presidente da CBF que é capaz de fazer mais que o atual. É engraçado, o choro avaliado do Thiago Silva foi fator de quase duas semanas de debate, mas este silêncio posterior das cobranças nos pontos certos reflete bem a situação: é melhor discutir frivolidade do que o que interessa, aí esperam o comportamento mais maduro de uma molecada de 20 poucos anos, são homens, tem que ser, mas todo o meio que os cerca pode agir da maneira mais infâme possível, só eles que não – eles tem de ser duros e inatingíveis! O silêncio abissal de qualquer cobrança às figuras odiosas da CBF é mais infantil que quebrar enfeite da mãe e ficar quieto, eis aí o perfil de quem cobra os jogadores de futebol sobre “maturidade” e que obviamente nem sabe o que quer dizer isto. São todos crianças mimadas: a Confederação, a mídia, os patrocinadores, mimadinhos chupando o pirulito, no caso, o próprio dinheiro ou o ego ferido, ou os dois ao mesmo tempo.

Todo mundo quer ver o Brasil campeão, lógico, e tem futebol pra fazer isto mesmo quando está na merda – como foi o caso desta Copa. Tem material humano pra caralho, na várzea, nos campinhos, o que não falta é guri jogando bola. Eu sou duro crítico à exaltação da Seleção de 82, principalmente porque cometem a injustiça de desmerecer a Itália, mas também reconheço que, de um ponto, temos muito além do futebol a aprender ali; falamos sobre a grandiosidade que foi tudo aquilo, enfim, um grande resumo de tudo que disse; reunia a filosofia, era democracia pura (não existiam culpados, todos foram e nenhum foi), muita técnica, muita tática, muita inovação e tudo produto nosso, nenhum gringo tocou o dedo naquele espetáculo. Jogadores maduros, futebol intelectual dentro e fora de campo, aquele time foi fantástico demais por muitos motivos, inclusive por futebol… que ali parecia algo menor. E Albert Camus muito bem disse:

– De tudo que sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.

Estamos falando da maior invenção da Terra e onde somos os caras e, sem dúvidas, precisamos compreender quem está do nosso lado e quem está contra. Temos muito babão de terno e gravata querendo nos foder, não acreditam na gente, torcem contra e não viajam até o Méier. O que não falta é velhote que não sabe nada e ta aí apitando sobre bola…e não são só os velhotes que querem a cabeça agora, não, antes fosse fácil enforcar Felipão ou Parreira, como enforcaram Dunga, Felipe Melo, Julio Cesar duas vezes, até Roberto Carlos, campeão do mundo, tentaram pendurar pelo pescoço; a tática de encabeçar culpados já era, a tática de discutir peças pontuais também, caiu a casa depois do 7×1; quem faz isso que realmente está obsoleto e acabado. Temos, agora, que concentrar em uma coisa e apenas uma: vamos ser este meio egoísta dos amiguinhos da CBF ou está na hora de colher as frutas podres e pisar em cima? Se já cantava o Corinthians, ganhar ou perder, sempre com democracia, é exatamente o que não temos, nos falta o direito de correr os babacas de sempre, os mongolóides que construiram o caminho mais cabuloso possível, o improvável de afundar o maior futebol do mundo numa época de desgraça. Vamos acabar com estes caras  ou será que estamos satisfeitos com isto?

Boa noite e fui!

*PS: é óbvio que há análises muito boas por aí, não sejam amargos, o título foi simples provocação. 

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