E que bom que nós temos a Copa

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Estes dias eu escrevi um texto no Facebook e geral achou ótimo. Eu explicava os motivos desta ser a Copa das Copas. E está realmente incrível este efeito da Copa, porque ninguém acreditou; nem eu, confesso, botava muita fé. Quem acreditaria? De todas as situações possíveis, absolutamente nenhuma indicava pra um acerto tão sublime que vem sendo. A única coisa que eu afirmava – e sempre disse – é que nós sabíamos fazer uma festa; e como sabemos! E com isto construímos nossa Copa assim do jeito que a gente sabe, compensando o erro com festa em dobro. Fala a real, ninguém pensaria. Ok, os problemas existem e continuarão existindo e a Copa não salvou merda nenhuma; não vamos ficar mais ricos e não vamos ter hospitais, né, Ronaldo? Mas, ainda assim, é uma façanha a facilidade, a aura quase angelical que temos pra converter tudo, TUDO em algo com “cara de Brasil”, deste jeito inexplicável que nós fazemos. Chegamos em outros países e somos facilmente reconhecidos; nós, “os brasileiros”, mudamos os bairros e os costumes, gritamos, dançamos, abraçamos. Chegamos na internet e instauramos um domínio toscamente tão surreal que ficamos conhecidos como os BRHUE, os zoeiros. E na Copa não poderia ser diferente.

Desde que a FIFA começou a organizar a Copa do Mundo neste molde ultracomercial, a coisa só degringolou. Desde 94 – mas principalmente depois de 2002, naquela bizarra Copa de Duas Sedes – cada evento que passava se tornava um jogo mais corporativo e menos anárquico. O futebol em campo continua o mesmo, eu sei, e nas quatro linhas pouca coisa mudou; inseriram aquele spray de chantilly e só, tudo continua igual: quem faz mais gol ganha. Mas, no espírito do estádio, no universo da torcida, o que vimos nas últimas Copas foram eventos despedaçados, festas com cara de empresa, muitos crachás e direito autoral mas pouquíssima autonomia; todo mundo sentado e feliz, com aqueles balões de amarrar no braço tal qual a NFL ou qualquer outro evento (sem graça) do universo americano. Completamente inofensiva a festa em si, ninguém mais ligava para o que ocorria fora do campo. Mas nós colocamos o pé na porta e vimos que isto precisava mudar.

Ganhando da FIFA no cansaço, nós tornamos a montagem da Copa um dos maiores absurdos logísticos do mundo, com tudo, TUDO errado, naquela legítima cara de política brasileira que nós conhecemos. E desde o início de tudo nós já eramos vitoriosos; surrupiamos qualquer moral e padrão FIFA e esta merda toda, fizemos o nosso evento, como nós queríamos, e isto se tornou absolutamente fascinante! Das obras não concluídas até a desordem das cidades-sede, tudo ficou com aquela cara que eu disse lá no começo, a “cara de Brasil”. E isto não foi exatamente ruim, muito pelo contrário, conseguimos dar grande identidade a um evento que carecia deste tipo de coisa faz tempos; dos jogadores alemães encachaçadíssimos cantando o hino do Bahia ao jogador de Gana distribuindo dinheiro, da invasão do torcedor da Colômbia com faca, Andressa Urach mostrando as tetas na rua, dos índios no aniversário do Klose, da passagem de Mondragom ou da torcida inglesa se recusando a ir embora do estádio, tudo, TUDO tornou esta Copa um evento completamente mágico.

E que bom que uma certa marca aí citou Nelson Rodrigues, porque trazer ele de volta foi providencial. Ninguém faria mais sentido do que ele pra descrever isto, afinal, que bom que trouxeram a Copa que ninguém queria, que bom! O absurdo do improvável que montamos fora do campo se reverteu ainda mais em campo, com uma das Copas com maior número de gols da história, com eliminações malucas e ascensões épicas, de Costa Rica à Espanha, com torcidas cantando e participando, alguns atletas brilhando e alguns ficando no caminho, vimos mais futebol de verdade. Ainda não saímos nem na fase dos grupos, é verdade, mas que Copa! E que bom que os craques brilharam, também, depois de duas edições com destaque aos zagueiros, goleiros e pouquíssimos gols, afinal, é um alento ver atacantes e meias consistentes, e muitas goleadas, dribles e times ofensivos. Nelson Rodrigues bradaria a felicidade da mágica, do futebol que é surpresa, da nossa Copa que tantos cantam como “a melhor de todas”, turistas e brasileiros, convencidos, afinal, de que fizemos certo. Que bom que a Copa voltou para o Brasil!

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