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Lapadas do Povo – MekAurio

 

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Eu nunca fui no MekAurio porque o MekAurio é um bar de colorado e eu sou gremista. Aqui é assim: ou você é, ou não é. E eu não sou colorado. O Mekaurio não é o meu lugar; nunca fui, não pretendo ir. Não sei o que vende lá dentro, mas sei que o bar é mais velho que eu. Está lá desde 1985, num dos períodos mais negros da história do Internacional. O Grêmio massacrava, ganhava e se consolidava; o Inter, não fazia muita coisa. E neste mundo conturbado nasceu o MekAurio, que sobreviveu a década de 90, provavelmente a pior para o Inter, fazendo história nestes 29 anos de existência. 29 anos são quase 30, que são 3 décadas de vida. E o MekAurio permaneceu lá, aos trancos e barrancos, na lama, na chuva, com o Beira-Rio fechado, ele esteve sempre presente. Eu não sou colorado, mas o MekAurio é um ponto famoso na cidade. Todo mundo já viu, já passou na frente, já gostou ou odiou. Mentira, eu já fui lá sim; em algum Grenal no Beira-Rio, naquela coisa de tomar cerveja provocando a torcida do Inter, sim, você colava na camufla no MekAurio à paisana, sem nada que te identificasse como gremista e descolava umas bebidas enquanto ficava mofando na grama do Marinha, pra Brigada poder dar o show de sempre e reter a torcida visitante 2 horas, como sempre fazem, não fazendo nada.

A FIFA chegou este ano. Na verdade, uns 4 anos atrás, mas apenas em 2014 veio fisicamente para cá; antes, ela só aparecia por e-mail e discurso. E vai ficar umas duas semanas, três no máximo. Vai embora e ninguém vai lembrar. Mal chegou e todo mundo já odeia, ninguém aguenta mais. Talvez esta seja a única coisa aqui no Rio Grande do Sul que não seja “ou você é, ou não é”. Nisto, todos são: odiamos a FIFA. Mais que o Fortunati, talvez, mais que o Tarso, mais que a EPTC, mais que a Brigada, mais que a chuva, que o Trensurb, que os ônibus, que a Assis Brasil no meio do rush, qualquer coisa. Nunca em tão pouco tempo algo se destacou tanto e tão negativamente. A FIFA, ridícula FIFA, que é mais velha que eu e o MekAurio; existe desde 1904. Não era muito de aparecer até chegar João Havelange, presente do Brasil para o mundo. E veio como uma bola de neve de bosta, um cometa de merda que se afundou em escândalos, propinas, compras de voto e dinheiro de cunho duvidoso. Desde João Havelange, cada um que passa só piora tudo. E ninguém gosta da FIFA e muito menos do Blatter ou dos seus amiguinhos; por onde passaram, são persona non grata. Aqui, não dava pra ser diferente.

Esta é a mágica do futebol, que é mágico dentro e fora do campo, claro, por motivos diferentes. Dentro de campo “o futebol é o ballet para as massas”, como alguém disse em algum lugar, espetáculo soberbo, indiscutível, a alegoria da vida – vencer ou perder, desde que seja com democracia (será?). Ou, como alertou Bill Shankly: “o futebol não é uma questão de vida ou morte, ele é muito mais importante do que isso”. Eu tenho uma tatuagem sobre futebol, para não negar a importância dele para mim:

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E mágico como é, também, a FIFA faz mágica em administrar o esporte. Não a mesma que rola no campo, um pouquinho diferente, esta mágica envolve um lado sombrio quase de magia negra. Se Jesus Cristo voltasse à Terra agora, hoje mesmo, ele não multiplicaria pão e peixe, mas sim futebóis, pra gente poder ter um futebol sem FIFA e ela ficar com o dela lá. Porque a FIFA também é multiplicadora, mas pelo motivo errado; multiplica milhões e multiplica ditaduras e, tudo isto, óbvio, para multiplicar dinheiro. Dinheiro que ninguém vê, além de Blatter, Valcke, Havelange, uns e outros e os patrocinadores, pimpões, que bancam o “milagre da Copa do Mundo”. Como poderíamos esquecer dela? Nunca em nenhum lugar choveu tanto dinheiro assim. A diferença de Jesus e da FIFA, lógico, é que Jesus compartilhou. Aqui, chove dinheiro e não pinga na gente. Não pinga nada! Pingou pra OAS, pingou pra Odebrecht, pingou pra AG, pingou pro McDonalds, pro Itaú, pro VISA, pros partidos políticos e, claro, pra FIFA. Dinheiro, este que está chovendo agora, veio da nossa terra; a minha e a sua, choveu hoje porque foi plantado 4 anos atrás, como alertou Romário desde o início. Romário que não foi Pelé nem Ronaldo e nos fez acreditar na mágica do bem que ainda existe no futebol, a mágica da bola, de confiar nos nossos ídolos de sempre. Alertou muito antes: esta Copa vai ser uma vergonha. E todo mundo sorriu e fingiu que o Romário era voz ausente no meio do nada. Mas nunca foi. Agora, mais do que nunca, Romário tinha razão. Ele é o cara, não é?

Uma das coisas que a FIFA mais fez chover foi trator. Porto Alegre, hoje, parece Sarajevo na sua pior época; é uma cidade revirada, caótica, um Madmax com 1 milhão e meio de pessoas circulando na lama e no concreto caído. De cima a baixo, a cidade é um grande canteirão de obras, como a maioria das cidades-sede da Copa dos milagres. Obras que nunca foram feitas – milagre! – resolveram fazer todas…ao mesmo tempo. Nenhuma cidade aguenta, nem multiplicando dinheiro, nem superfaturando o que for. A cidade não anda. Ou anda pra trás, se você pensar bem. Os felizes, ricos, estão rindo com a algazarra; porém, onde o trator passa não tem graça nenhuma. Ninguém ri, principalmente quando é removido. Pior ainda quando esta remoção não respeita nenhum tipo de planejamento, ou sequer legalidade. Esta é outra novidade que a FIFA trouxe: a mágica de não respeitar lei. Pra FIFA, não vale nada. Taca cerveja no estádio, fecha rua, desaloja quem tiver que desalojar, foda-se, a Copa tem que acontecer. E, neste circo de cagadas, querem desalojar o MekAurio. Por que? Porque o McDonalds é patrocinador oficial da Copa dos milagres. E para a FIFA, mágica como é, não existe concorrência. Para a FIFA, ou é, ou não é. E o MekAurio não é e nunca será importante, como eu também não sou, como a cidade também não é. Bota tudo abaixo, grandes coisa, a gente fica e a FIFA passa, só leva o dinheiro e a nossa dignidade; no momento, leva mais dignidade do que dinheiro. Esta é a bíblia sagrada da administração da Copa, em mais um milagre, agora, querendo sumir com o MekAurio. Querem desalojar o bar que está lá há quase 30 anos, sob a mais patética tautologia de discurso e com alguma brecha ridícula, porque o que não falta é furo nesta cidade e nesta legislação cheia de buracos.

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Eu nunca fui no MekAurio, além daquela vez que eu contei, então nem sei o que vende lá. Já vi fotos, tem xis, tem bebida, tem mesa, tem gente, tem chapa, o que tiver. Não importa muito o que servem, até porque eu nunca vou consumir mesmo. O que me importa é que o MekAurio tem quase 30 anos, como eu, quase 30 anos de Porto Alegre. E a FIFA chegou ontem. Não me interessa pra quê, por quê, como, a FIFA é convidada; só isso. Mas é o único convidado do mundo que dá ordens. Não deveria; quem quer a FIFA aqui, afinal? Eu sei, conheço, aposto que mais pessoas querem o MekAurio. Para os colorados, ele é história. Está lá do lado do estádio, mais próximo do que qualquer outra pessoa ou estabelecimento. Para nós gremistas, indiretamente também é; eu já bebi lá, não é? Nunca bebi por causa da FIFA, nem vou beber. Bebo pelo futebol que, com ou sem organização, sem Blatter e Havelange, sem CBF, sem tudo isto, ainda existiria. E já bebi no MekAurio por futebol, por causa de clássico, nem lembro o resultado, foda-se, futebol é assim mesmo: a gente bebe, torce, ganha ou perde e bebe mais pra comemorar ou esquecer tudo isso. Alegoria da vida. E antes da FIFA já existia futebol. E antes da FIFA chegar em Porto Alegre já existia MekAurio. Quem liga pra Copa? Eu ligo pro MekAurio. É um bar, lancheria, boteco, o que você quiser chamar, mas está lá, há anos resistindo numa cidade que cada vez mais mata seus botecos; o MekAurio é mais um ameaçado pelo motivo mais besta possível: a FIFA quer. Quer preservar seus patrocínios, quer preservar a comida cara e ruim de quem paga esta festa de descaso, acabando com um xis honesto como este, que não importa o gosto, já é melhor que o McDonalds:

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MekAurio

 

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McDonalds

Milagre da FIFA é assim, você paga mais por menos, come menos em um negócio mais caro…sem opção de escolher. Milagre da remoção, que tantos vimos, eu já comentei aqui várias vezes, novamente, bate na porta. O coitado da vez é o MekAurio: tira os caras dali para a Copa e depois, mi$terio$amente, ele não volta mais. Que louco, não? Antes já foi a Vila Tronco, também, logo logo será a Vila Autódromo lá no Rio – para outro evento, lógico, o que não falta é evento pra remover gente. Isto, alias, é a única coisa que a gente vê todo dia no Brasil da Copa e dos eventos e milagres: remoção. E, por mágica, a legislação tem valor especial. Para a FIFA, claro, apegada as leis, ao governo, que remove mas não cumpre, tudo tem uma “justificativa legal“. Para o pobre brasileiro, mais uma mágica: a sua lei não vale nada. Nem que esteja escrito naquele papelzinho de 1948 e que supostamente o Brasil respeita, nem que se fale sobre como “todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive, alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis; e o direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle“, isto é tudo embuste. O convidado está chegando e a gente joga a sujeira pra baixo do tapete. Ou empurra com o trator e um inciso novinho, criado só pra isso.

E neste mundo novo, Brasil progresso – exemplo da Copa das Copas, a Copa dos milagres – me surgem muitas dúvidas. Elas nunca serão totalmente respondidas. Eu tenho quase 30 anos de idade e o MekAurio também. E no momento a minha maior dúvida, acho eu, é a mesma que a deles: pra onde vão empurrar o MekAurio? Eu não gosto quando fecham botecos, é sempre uma derrota moral pra cidade; fecha um boteco, levanta um prédio, estacionamento, o que for, prova que a gente se preocupa menos em interagir e beber e mais em se excluir num quadrado de aço de 90 m² com ar-condicionado. Ocupar um espaço pra carros, talvez, hoje é mais importante do que socializar. É o preço do progresso. Eu nunca fui no MekAurio, nem quero ir. Mas tem gente, muita gente, que ia quase toda semana. E esta gente viveu lá por 29 anos, bebendo e comendo, vivendo no MekAurio, vivendo por futebol. A FIFA chegou aqui ontem e decretou: mata aqui, mata ali, tira tudo e faz o que eu quero. E a FIFA é convidada e vai embora. E o MekAurio está ameaçado de ir embora por causa da FIFA. Não fosse ela, ele ficava. Poderia existir mais 30 anos, ou mais e mais, ou menos até, tanto faz, por escolha deles e como eles quisessem decidir. É importante você poder decidir, principalmente no que diz respeito a sua vida, a sua cidade. E nós não podemos pensar nisso, imagina, a meta do momento é agradar! Esperamos o convidado de luxo, forçados, claro, agora temos que agradar. Mesmo que ele não nos agrade. Mesmo que queira remover a gente, gente como eu e você. E ele vai embora, depois, sem nem dar tchau. Remove, usa e sai, abanando da janelinha do avião e rindo dos trouxas. Nós, os trouxas, ficamos com a cidade destruída e modificada, juntando os cacos da moral. E nisto, o que não falta é gente em cacos, casas, estabelecimentos como o MekAurio, obrigados a sair porque alguém que não nos interessa mandou na nossa cidade.

Eu não sou colorado e eu não frequento o MekAurio, mas me sinto roubado igual. Do direito de (não poder) decidir dos caras, de cumprir a obrigação que lhes foi dita, obrigação sem sentido, eu me sinto atingido também. É mais um lugar que briga por coisas que não deveria brigar, por um evento que não deveríamos sediar, por obras que, muitas vezes, mal e mal tiveram tempo de ser projetadas ou discutidas de verdade; veja bem, não estou falando daquelas festinhas cuzonas com salgadinhos e bebida que volta e meia promoviam – transmissão da RBS, lógico – alegando estar todo mundo conversando e discutindo coisas importantes, nem pensar, estou falando discussão séria, com todo mundo, com os envolvidos e afetados, com as pessoas da cidade…isto nunca existiu. Assinaram o contrato do evento e segue o baile, depois pensaram como seria o que deveria ser pensado antes: na cidade mora gente e, talvez, essa gente esteja cagando pra Copa. E neste sentimento de nos trocar por Copa, alegoria política, fica o significado obscuro de que nunca fomos consultados, não existimos para o Estado, somos quase 2 milhões de pessoas que não importam. Para o milagre da Copa, que é mais importante do que a gente, o que mais fizeram foi apressar as obras sem as considerações morais sobre o impacto disso. E agora o MekAurio se tornou um intruso onde sempre esteve, durante quase 30 anos. Porque a FIFA, que chegou ontem, é a dona do lugar, dona das nossas decisões e o que é importante ou não para nossa cidade. Ela decide sobre estruturas, trajetos, casas, remoções, o que for, mas não pode mudar o fato de que nós não a queremos aqui. E também não pode mudar o fato de que, aqui, ou você é, ou não é. E se a gente é assim, sem dúvidas, neste caso eu também sou MekAurio:

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Nome: MekAurio Xis Burguer

Endereço: Avenida Padre Cacique, 552 – Praia de Belas

Média de preço: pergunte aos colorados!

 

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