Você é enquanto existe – o caixão biodegradável

Será? A gente existe só enquanto é vivo? Isto é muito complexo e eu não estou nem me referindo à religião ou papos de imortalidade, alma e coisas assim. Não quero abranger a polêmica da instituição teológica e de outras vidas, mas o que exatamente nos faz existir? Se considerarmos apenas a matéria, alias, continuamos a existir mesmo depois de mortos; o corpo está lá, afinal, mesmo que apodrecendo, mesmo que sumindo…mas lá, presente de alguma forma. Ele existe e, se o corpo é você, você continua existindo? Difícil esta visão, não é?

Isto porque, geralmente, quando pensamos em existência, de fato, estamos pensando na consciência. E se considerarmos a existência como um ato de consciência, ai fodeu de vez. Voltamos ao embate de Descartes em “cogito ergo sum“. Só a percepção do conhecimento, da inteligência, da racionalização do “eu sou” faz de você algo que existe? E os minerais, animais irracionais, o resto todo? Evidente, numa lógica de linguagem, a “existência“, o sentido de se perceber como algo só se faz presente quando compreendemos a ideia da própria semântica, a compreensão de que, para nós – seres vivos – a palavra “existir” apresenta uma determinada denotação, além de sua conotação. Desta maneira, só poderia “existir” quem sabe o que “existir” significa. Claro, podemos levantar a dicotomia entre o argumento de “saber que existe” e “existir per se“, mas para isso precisaríamos considerar que a discussão É sobre isto.

Frans_Hals_-_Portret_van_René_Descartes

 

No entanto, se ficarmos girando sobre a diferença de visões e suas respectivas implicações apenas pelo ato de se perceber como indivíduo, levantamos uma dúvida secular. Quem está certo, enfim? Há certeza sobre isto? A nossa existência é um produto da linguagem ou física pura? E, se física, o conhecimento físico também não é um tipo de linguagem? Eis o mistério de existir.

O tema é complexo e interessante, ainda mais se considerarmos uma outra figura histórica famosa: Lavoisier. Aquele amiguinho que nos disse a seguinte frase:

“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”

Sem adentrar no complexo mundo da química, que eu não entendo porra nenhuma, Lavoisier quis dizer, resumidamente, que as coisas estão aí, elas não surgem (embora algumas descobertas recentes comecem a meio que contradizer esta frase, vá lá, ela ainda é verdade). Um elemento se uniu com outro, que se uniu com outro, que se uniu com outro e se criaram moléculas, organismos complexos e assim por diante, até se originar NÓS! Aquele ser que quer discutir se existe, mas não importa, como já tinha dito o próprio Lavoisier, a gente não se criou do nada, não surgiu do barro e, mais que isso, não vamos “nos perder” após a nossa morte; apenas vamos virar outra coisa. E nesta óptica de transformação, mudança, continuidade, entramos com tudo na discussão sobre o que somos de fato. Somos uma consciência? Somos o que pensamos? Somos o que realizamos? Somos momentos? Somo a linguagem, que nos permite perceber tudo isso? Ou somos átomos? Um amontoado gigantesco de átomos. Isto não podemos negar, afinal, que somos todos átomos. E, assim como chegamos a esta vida, vamos deixar ela e continuar por aí, existindo – ao menos de algum jeito – na forma de átomos. Seu cadáver será consumido por bichos, pelo tempo, pelo que for; mas pequenos pedaços de você passarão adiante, na barriga de um verme nojento, que irá digeri-lo e transforma-lo em mais matéria – átomos – para virar outra coisa. Você é o que você é. Átomos ou consciência? Ou um não anula o outro?

IMAGEM 0768  - RETRATO DE LAVOISIER

Se deixarmos Descartes de lado, voltarmos ao lado físico/químico da discussão, nos consideraremos como objetos, organismos e, após a morte, mudaremos a forma mas continuaremos por aí, vagando numa infinitude de mundos e situações. Nossa existência é eterna mesmo sem a existência de um Deus, afinal, nossa matéria nunca sumirá. A transformação é processo, devir de um corpo mas, ainda assim, estaremos por aí, no espaço-tempo…existindo. Existindo para sempre, ainda que não como nós imaginamos.

E na lógica da eterna existência, um carinha aí resolveu inventar: criou um caixão biodegradável, você coloca suas cinzas da cremação com umas sementes e pimba! O que restou de você, após cremado, vira árvore! Você, sim, você mesmo, depois de morrer, depois de “deixar de existir“…continua existindo e, não só isso, como árvore. E você lá, ou o que sobrou de você, enfim, átomos e mais átomos, que ficariam para apodrecer, virar comida de minhoca, ressurgem, assim, forte, novo, incrível, como uma árvore fênix da imortalidade. E se você é um organismo, uma vida, imagina, morre e vira outro organismo, outra vida; e sua existência volta a ser sob o mesmo aspecto do que o seu “corpo anterior”. Existir é um ato de consciência, a inteligência importa no final de tudo? Ou você ser eternizado em forma de árvore já adianta, a existência dela não é sua existência? Foram suas cinzas, afinal, os seus pedaços que viraram uma árvore de “você”. Você em uma árvore, perpetuando o ciclo da vida, do mundo, das coisas e provando que, por mais complexo que tudo possa ser, vá lá, há mais entre o céu e a terra do que pressupõe nossa vã filosofia:

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