Christian-Hosoi-anos-80

O eterno retorno das coisas – da Kombi aos Raimundos

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Um dos conceitos mais famosos e discutidos de Nietzsche é o que ficou conhecido como Eterno Retorno, uma de suas divagações inacabadas; o filósofo poeta começou a escreve-la pouco antes de sua morte e, de fato, nunca concluiu o pensamento; muito se debate sobre o que ele queria dizer, muito se especula e ele mesmo chegou a comentar sobre o tal mas, para o bem da verdade, pouco se tem escrito sobre. De um modo ou de outro, o que mais se aceita dentro do conceito de Eterno Retorno é a ideia de que nós, enquanto humanos, estariamos fadados a uma série de situações, fatos ciclícos e, através disto, nossa vida – e tudo o que o conceito de vida abrange, como nossas experiências – não passaria de um ciclo, uma não-novidade de coisas que já foram e serão repetidas, ao infinito e, para nós, bastaria esta percepção de acontecimentos para aceitar (ou não) nossa condição. Nietzsche apresenta a óptica do Eterno Retorno em uma famosa passagem:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

Peculiar, não?

É engraçado, trouxe isto para o post de hoje justamente com os acontecimentos que vieram da semana passada, já de cara assim, inundando esta nova semana que nem tinha chegado ainda. Como vocês já perceberam, eles envolvem duas coisas que eu já falei por aqui várias vezes: Raimundos (leia aqui, aqui e aqui) e Kombi (leia aqui)! Destas coisas, ambas são, entre si e por si, um grande exemplo da teoria de Nietzsche. Mesmo incompleta, vá lá, mas ainda assim, compreensível.

Começando pela Kombi, claro, que finalmente se vai embora – de vez – do mundo dos automóveis brasileiros; sai triunfalmente, em um vídeo de despedida épico e sem igual, uma das melhores produções de audiovisual que eu já pude ver em uma propaganda, sincera, original e muito bem feita. A saída da Kombi deste modo que se deu, nostálgica assim, é a prova de um mito –  o mito dela mesma – que, antes de tudo, não importa se é boa ou ruim enquanto veículo, ninguém liga pra isso, mas o fato de que, para nós brasileiros, a Kombi é quase uma pessoa, uma entidade acima do bem e do mal. E merecia sair por cima:

Mas nem só de despedida veio esta semana; e, como eu já tinha postado no artigo anterior, foi nesta semana, também, que eu ouvi o novo cd dos Raimundos, lançado no começo deste ano e que, por méritos, sério, é de longe um dos melhores álbuns da banda; toda a dedicação dos caras em fazer algo memorável e ao mesmo tempo inovador, a contribuição da galera do Bio Hazard e do Cypress Hill, tudo convergiu para um som único. Eu não vou repostar porque, sinceramente, deixem de ser vagabundos e olhem o post anterior para conferir o cd completo, que já está disponível na web em vários links e também no canal do Youtube dos caras, totalmente de grátis.

Raimundos e Kombi, Kombi e Raimundos, eu posso decidir o que foi mais marcante? De fato, como eu mesmo já tinha dito, inclusive, os caminhos dos dois se cruzam, lá no começo da banda, quando uma das melhores músicas do Raimundos foi gravada em homenagem a este singelo veículo:

Kombão, Kombi, Raimundos, todos já sabiam que, dentro da lógica – Eterno Retorno, afinal – eles iriam se reencontrar, aqui, no meu post. É engraçado como exatamente tudo reclama o caminho de ir, vir, de se viver em uma existência cíclica. A despedida da Kombi não é exatamente uma despedida, não é? No final, justiça seja feita, ela não esta nos deixando órfãos, mas retornando para sua casa; o vídeo mostra que no fim não há exatamente um fim, mas o recomeço de um ciclo, onde ela nasceu e agora renasce, sem morte, numa despedida que não é muito bem um final dos tempos e muito menos o fim da Kombi. Eterno Retorno, como era de se esperar – e já previa Nietzsche – nunca nos despedimos, mas completamos um clico. E foi-se o ciclo da Kombi, do Kombão, como você preferir, ele agora está completo. Ciclo, este, que dará lugar a novos ciclos, novos mitos, novos carros e futuras Kombis, que nos marcarão (ou não), como a tal, para terminar sua vida do mesmo jeito, num futuro distante, reforçando a nossa vida circular, a nossa passagem de ir e voltar para onde tudo começou. E nada melhor do que esta metáfora surgir com a Kombi, não é? Kombão que carregou muita gente, todo mundo foi passageiro dela, todo mundo já viveu algum ciclo ali dentro. Inclusive o Raimundos, que pitou muito por ela…

E ai vem Raimundão, como a Kombi, histórico, presente no nosso imaginário e talvez esquecido, odiado por alguns, amado por outros, ai, assim, permear a gente de esperança; Raimundos e Kombi, não era pra ser diferente, marcaram nosso mente, nossas ideias e conceitos, em especial, nossos anos 90. Quem esperaria, po? Quem acharia que as coisas ressurgiriam assim, como ciclo, provando que nada acabou de fato e que nunca acabará? Ou que uns se despediriam de maneira eterna? No começo do ano passado, se eu lhe perguntasse, você diria que a produção da Kombi duraria pra sempre e que Raimundos nunca mais seria a mesma coisa…mas você estaria completamente errado já em 2014. E hoje, Eterno Retorno, volta completa, você vê Raimundos lançando um baita cd enquanto a Kombi sai de linha.

Num post antigo, sobre a morte do Chorão, eu já tinha feito uma prévia sobre a importância que estas bandas tiveram para a galera que cresceu nos anos 90/00; era engraçado porque o próprio Raimundos, vá lá, não falava absolutamente nada que não fosse sobre mulher, maconha, carros e afins…mas ao mesmo tempo nos dizia tudo que se precisava dizer, tudo que a gente queria ouvir. Porque eles entenderam na perspectiva do que era a nossa geração, a geração sem nada a se preocupar e que se preocupava com o nada. A despretensão do Raimundos ao gravar músicas de mulher, de carro, da querida Kombi, de pitar, de xingar, de acidente, das lapadas do povo, era o nosso manifesto, nossa visão de mundo. Quando Rodolfo chegava doidão cheio de dreads no palco falando merda, ou o Digão de bermudão destruindo algum riff, Canisso gritando no refrão, Fred debulhando na bateria, quem for, quando subiam ali, eles representavam a gente, mesmo que não acrescentassem absolutamente nada em uma discussão estilística intelectual da música; ainda assim, este “nada” era o NOSSO nada e, por isto, Nega Jurema era capaz de exemplificar a gente muito mais que, sei lá, alguma versão super elaborada de um concerto feito por Vivaldi. Raimundos foi e é, até hoje, a galera do bermudão e do skate dos anos 90.

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E da noite pro dia veio a paulada, o final moral, a saída do Rodolfo que deixou todo mundo sem teto. É engraçado, é um tema conturbado e que todos esperam superar, assim, sem discutir como se “não fosse algo a se discutir“. O Rodolfo saiu e foi, sim, um fato inesperado para fãs, banda, para todo mundo. E nesta métrica o Raimundos foi fadado a morrer, não foi? Os caras fizeram trabalhos competentíssimos depois da saída do Rodolfo, como o grandioso Kavookavala – que é um BAITA cd, um dos melhores – mas todo mundo (menos os fãs mais hardcore, claro) virou as costas. O papo era sempre a mesma pieguice, “sem Rodolfo não é Raimundos“, não importando se o que estava sendo feito era bom ou ruim, ninguém ouvia mesmo. E foram tempos perdidos, 5 ou 6 anos que o Digão continuava tentando tocar o projeto mas efetivamente ninguém de peso dava apoio algum; era na garra e na raça, com problema e com pouco icentivo, galera cagando bonito. Mas se tem uma coisa que eles mesmos sempre disseram, já cantando no primeiro álbum, foi:

“E é por isso que os Raimundos nunca vai se acabar”

E não se acaba, né, é ciclo; e ciclo vai e volta; se a galera antes queimava, falava mal, não acreditava num retorno, como um soco na cara, inesperado assim, apareceu o single de Jaws pra deixar todo mundo desnorteado de vez. E veio o Roda Viva, com as músicas que nós já conheciamos tocadas ao vivo, dando outro soco na cara de todo mundo. Raimundos mais pesado, mais cruel, mais vil, hardcore pegado, pedal duplo e muita disposição. Mas faltava, ainda restava a dúvida: era tudo um pequeno revival ou a gente estava falando de uma volta por cima, completa?

Vieram os rumores do novo cd, do crowdfunding e, sinceramente, mesmo eu que sempre fui fã fiquei receoso; depois de todo mundo dar porrada atrás de porrada em todos os lançamentos do Raimundos pós-Rodolfo, o que seria deste novo álbum? Até hoje a galera pega no pé do coitado do Kavookavala, que é um puta discão. Receio é o que não faltava, mas vamos considerar os méritos principalmente do Digão em não deixar o projeto morrer, mesmo com todo mundo a duvidar, foi levando adiante; foi atrás, tocou com os manos do Biohazard, Cypress Hill, imersão no projeto e BUM!…se Roda Viva e Jaws foram socos, Cantigas de Roda chegou como um tiro, uma marretada na cabeça, desfalecendo mundos e, como disseram em comentários pro aí, “é pra exorcizar o demônio!“. E exorciza total, marca uma volta emblemática, uma produção inesquecível, foda, foda, mil vezes foda. Se este álbum não é o álbum do ano, meu amigo, fecha a música e acaba o mundo, porque tem que fazer algo muito melhor pra superar o novo cd dos Raimundos.

Raimundos-00-Cantigas-De-Roda

E voltou, velho Raimundos, exorcizado, voltou por cima, voltou como ciclo, ciclo não termina, recomeça e por que não o próprio Raimundos? Se antes ainda havia o peso dos chorões do “Raimundos não é Raimundos sem Rodolfo“, o que dizer depois do Cantigas de Roda? Eterno Retorno, voltou, veio pra ficar e Nietzsche já cantava a pedra lá atrás, anos antes e mesmo sem conhecer a banda. Se meu post sobre a morte do Chorão era todo negativo, uma visão pessimista sobre nós mesmos e nossa geração com um final melancólico, com o Raimundos, este Raimundos aí atual – que todo mundo duvidava – é um post cheio de momentos positivos, de boas intenções; uma visão positiva de nós mesmos, do futuro da banda e da tal “geração do nada” dos anos 90. Foi o clico completo, Raimundos foi a nossa fênix, rebaixou no mais profundo dos desgostos e botou o pau na mesa, mostrando que quem é foda…é foda. Simples assim.

É engraçado porque no tão subestimado Kavookavala já havia sido cantado sobre isto tudo, mesmo que ninguém tenha ouvido; não é só no Eterno Retorno do filósofo poeta que falávamos sobre voltas, sobre ir e vir. Nesta semana deixamos a Kombi ir embora, encontrar seu caminho de volta pra casa e não vamos mais pitar nela, talvez nunca mais pitaremos num veículo tão emblemático como aquele. Mas, ao menos, ganhamos um Raimundos ressurgido, renovado, botando álbum em pré-lançamento no topo das listas, tocando na rádio e garantindo o refrão que já era cantando há muito tempo, na música Mas Vó:

“Se algo deu errado, não é tão ruim assim
Se ainda não deu certo
É por que não chegou no fim”

Haha, ironia da vida, não é não?

 

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