O ano do Carnaval

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O Carnaval vale um ano a parte, vale uma vida, porque se prova a vida de novo todo ano em época de Carnaval. É ano a parte porque tudo é especial e, como tal, é a semana que nos prepara para o ano todo que ainda virá; ninguém esquece e ninguém faz questão de esquecer. Ecoa a cidade em festa, desce do morro e vai pra rua, ocupa, grita, canta a bateria nos ladrilhos e na avenida. Tudo faz sentido na labuta de um ano pra se acabar em um dia: o dia que vale o esforço do resto inteiro. Dia que nunca terminará, é eterno nele mesmo – e, pra sempre, na imagem de quem participa, de quem viu, quem sentiu, quem cantou ou dançou e, sem querer, quem passou por ali. Suor, confecção e música. Festa de um momento imortal; da ilusão de que, naquele dia, o ano todo vai ser diferente, daqui pra frente, porque chegou dia de Carnaval.

Carnaval dura pra sempre, entre um ano e outro, entra e sai, ali no meio de tudo e mudando tudo; e muda a gente pra sempre, também, fazendo lembrar que no ano do Carnaval, sem ligar muito pro resto do ano convencional, vale tudo, todo mundo e eu e você. A cidade tem a chance de ser o que não é, o que nunca será: feliz em essência, pela simplicidade de apenas existir, ali, naquele momento. Ilusão passageira, afinal. E, diferente do ano que é ano corrido, Carnaval que é mais curto não tem pressa…chega de mansinho, na marchinha, pra se fazer eterno. E dura e fica, não quer sair nunca; quando sai se arrasta, esquece de ir embora e tenta sempre voltar, fazendo o povo seguir em festa no último Bloco que seja, esperando que aquilo não tenha fim, pro ano de verdade e que vem adiante nunca começar. Carnaval mata a gente no cansaço e não cansa, recupera por dentro, pro ano inteiro sem ele, na esperança de imaginar como será o próximo Carnaval. E cansa esperar.

O Carnaval é o ano dentro do ano, diferente mas é coisa séria; serve pra gente provar que vale a pena acordar cedo – sem trabalhar, sem emprego, sem carro e sem escritório. Talvez até sem dinheiro – mas com o compromisso de folia. O compromisso de não ter compromisso e, mesmo assim, saber que é dia de sair pra aproveitar. Bota o terno branco, o sapato, pega o chapéu e segue a velha-guarda que, há anos, prova que todo ano vale mais quando chega o Carnaval. E se alguém afirma que folia não é compromisso, é mentira, porque a massa segue o passo da bateria, ensaiando todo resto de ano para aquele breve momento, mais importante que tudo e que faz o tempo retumbar em festa, em música e alegria. Sai baiana, o passista, mestre-sala e a porta bandeira, carregando o brasão pra provar que Carnaval é coisa séria, compromisso de um ano e de uma vida, de fazer diferente dentro do tempo que para e que mostra que tudo é relativo. Inclusive ele mesmo, que se guarda em 3 dias e vence o marasmo dos outros 362 sem Carnaval.

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E o Carnaval é o ano mais relativo de todos. É o ano do pobre que vira rei, que desce do morro pra ensinar a todos que, uma vez no ano e mesmo que por um segundo, tudo aquilo vale igual, não importa quem for. Pra mostrar que Carnaval não permite tristeza, só pureza – e na rua a festa quem faz e quem sabe é a realeza. Realeza do Carnaval, ano relativo que, como tal, homem se veste de mulher, mulher se veste de homem e ninguém liga pra isso. Relativo porque a cidade para e, mesmo tendo o que reclamar (e sempre tem!), tudo se converge em esquecer de reclamar. Nem a cerveja quente, nem o chão sujo, nem o pé machucado, nem o ônibus parado, nem a rua fechada, nem o confete e a serpentina sujando a roupa…nada, ninguém pode reclamar. Tudo se esquece pra seguir no repique do ano que é relativo, no tempo e no humor de nós, felizes, embalados no refrão do Bloco. Relativo porque não existe, afinal, todo ano muda. Muda data, muda a forma, mudam as músicas mas, mesmo assim, se repete e ignora que, no auge do que é Carnaval, todos nós não ligamos pra isso. Mostra ao mundo a evolução da liberdade, sempre um gostinho de mundo melhor. Esquece tudo e abre a cidade com o Momo, o rei da festa, com a chave que carrega as portas da felicidade; como se todo ano ficássemos longe dela e esperando, lá, o Momo chegar e transformar tudo em Saturnália, a visão da alegria. E depois a gente também vê tudo passar, acabar e se escorrer pelos dedos; efêmero como é Carnaval. Mas também garante que fica eterno na memória, mais importante que o resto do ano e, relativo como era pra ser, assim a gente não esquece o ano de Carnaval nunca; mesmo pequeno como ele é.

Relativizar, esquecer, afinal, o que é carnaval? Ninguém sabe e, de fato, qual a utilidade? Todas elas juntas. Transforma, modifica, vai pra longe mas fica presente. Faz a gente lembrar que, por um tantinho de tempo – mesmo que este tempo dure pra sempre – dá pra gente ser outra coisa, outra vida na mesma. Faz Iemanjá desfilar de vermelho na bateria do Salgueiro, que antes de todo mundo já dizia: não é melhor nem pior, apenas diferente. Faz o pobre crer no sonho da vida, alegria do mundo, ser o rei da avenida, inverter os papéis e botar o dinheiro de lado do mundo; ninguém precisa ser rico pra ser feliz, não é? Este é o sonho do Carnaval. O discurso do ano dentro do ano; o discurso de acreditar, se iludir, ver o fim próximo e tudo se acabar na Quarta-Feira mas, mesmo assim, torcer pra nunca ter fim. Herói da liberdade, época de Carnaval é a utilidade de um povo, de fazer história, de ser história, de saber que aqui a bandeira não traz guerra, que aqui a terra é samba e cachaça – e neste caso, sem a desgraça. E, se a escola não ganha, ninguém perde também. Carnaval, não importa, é desfile de igualdade: a avenida e o bloco tem o mesmo valor; ali, todos temos o mesmo valor. E prova que, de uma vez por todas, não há ilusão em festejar, nem descaso e nem falta de vontade – podemos, sim, ser um ano de Carnaval o ano inteiro. E se não é assim e depois vem o trabalho, o caos, o trânsito, a cidade e tudo volta como era antes no auge de jurar que isto é normalidade, paciência, por que ninguém pensou em fazer da ilusão a nossa realidade?

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