Kombi, Kombi, Kombi

Existem coisas no imaginário popular tupiniquim que geram eternas disputas de amor e ódio. Dividimos aquele sentimento de que, ao mesmo tempo, devemos defender e criticar determinados objetos. Tal qual, como se tivéssemos um poder especial além das outras nações, algumas habilidades únicas desenvolvidas pela terra mãe Brasil, isto nos dá o direito de definir que, em alguns assuntos, só nós brasileiros podemos opinar com certa propriedade. Somos os escolhidos para falar de alguns temas e, por isto, sabemos sobre eles como ninguém.

Nesta dicotomia eterna, mesmo com toda desgraça e com toda cachaça, a gente vai levando e levando; discute, briga, sabe tudo e não sabe de porra nenhuma. O que seria da seleção de 82, afinal, se não fosse a nossa própria opinião de brasileiro? Amamos ou odiamos? Foram vencedores ou eternos perdedores? Ninguém sabe e todo mundo sabe, ao mesmo tempo. E o governo do Lula, então? Alguns amam, outros odeiam, alguns amam odiar e outros odeiam amar. Tem maluquinho que fala mal e vota escondido, tem maluquinho que defende, tem gente que briga pelo Lula, gente que quer matar o Lula, tem de tudo. Faz parte do processo defender ou odiar a figura. E a Globo? Falamos mal, criticamos, cagamos na cabeça, mas no final do dia – para ironia – ficou provado que 99,9% da população assistiu The Voice e comentou em algum lugar; assim como faz com final de novela, também. E os protestos violentos? Certos ou errados? Vândalos ou justiceiros? Tanto faz, não importa, todo mundo vai dizer alguma coisa diferente e isto é um fato insofismável. Gostamos de brigar pelos mais variados temas, adotar posições esdrúxulas e agir como crianças discutindo pra montar o time do campinho.

Mas e a Kombi? O que a Kombi tem com isto? Porque ela é um produto legitimamente brasileiro, ela faz parte deste nosso eterno amor e ódio local. Ok, ela não surgiu aqui, rodou o globo, foi um dos ícones da contracultura americana, mas foda-se toda esta gente. Ninguém NO MUNDO entendeu tão bem o espírito da Kombi como nós, brasileiros. Não à toa, durante 56 anos foi um dos veículos mais vendidos do país; não só isto, quando outros lugares já haviam desistido de produzi-la (como a própria Alemanha, criadora do projeto), nós aqui ainda reverenciávamos este treco bizarro, que mais parece uma caixa de sapato com rodas. E reverenciávamos do nosso jeito de reverenciar. Odiamos com força, mas ao mesmo tempo defendemos (de alguma forma) de qualquer crítica. A Kombi era nossa, afinal, produto do nosso meio – tal qual Havaianas – algo que faz parte do nosso imaginário de uma maneira tão forte que, muitas vezes, nem percebemos as nuances do nosso amor ou ódio. Inclusive, em músicas que muito cantamos, na letra da melhor banda brasileira dos anos 90, lá estava a lendária Kombi cheia de causos. Estávamos nós, sem perceber, protegendo a nossa história. A história da Kombi:

Kombi, Kombi, Kombi. Esta coisa já funcionou como serviço de entregas, como utilitário, como escolar, como carro da polícia e do Exército, como escola técnica, como restaurante, como ambulância, como veículo oficial do governo, como serviço de assistência social; a Kombi já girou mais este país do que todos nós giraremos juntos. Já andou nas pocilgas mais sinistras, já virou música, esteve presente nos momentos mais intensos da história recente do Brasil e sempre acompanhou o nosso cotidiano, de maneira positiva ou negativa, tanto faz, ela esteve lá. Provavelmente você já brigou ou brigará com alguém dirigindo uma Kombi no trânsito e é certeza absoluta que você já andou em uma, ou em duas, ou até tem uma em casa:

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Isto ai, meu amigo, é exatamente o que você está pensando: uma corrida de Kombis. Celebrada no Brasil, claro.
Isto ai, meu amigo, é exatamente o que você está pensando: uma corrida de Kombis. Celebrada no Brasil, claro.

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Tem gente que viu a Kombi chegar e já foi pelo caminho. 56 anos é uma vida, uma vida de Kombi. E, como toda vida, chega ao fim. Depois de 56 anos no nosso solo, a Kombi chega ao fim de sua produção. Aparentemente o Cotran decidiu que era hora de encerrar as atividades da Kombi por não cumprir – e não poder se adaptar – a uma série de exigências das novas leis para veículos de trânsito (como a inclusão de airbags, por exemplo). Este veículo mítico, por fim, deixará de ser produzido para nós. E, com isto, chega ao fim capítulo de nossa história, o final de um ciclo do imaginário nacional; Kombi, o transporte que tinha a nossa cara e, talvez, uma imagem mais forte na nossa vida que o próprio Fusca, também da Volkswagem e também ícone de todo brasileiro que se preze. Só nós entendemos O REAL sentido dela e, como tal, nos demos a liberdade de produzi-la e andar a exaustão. Nos apropriamos da Kombi e fizemos ela um produto nosso.

Há mortes e “mortes” e, neste caso, havia de se fazer um “enterro” digno. Temos que admitir: a Volkswagen mandou muito bem. A campanha feita para o fim da Kombi no Brasil é, sem dúvida, uma das coisas mais fantásticas que já foram produzidas em todos os tempos, tratando de publicidade. Aliás, não se trata apenas de uma “peça publicitária” ou meramente uma despedida formal, mas um grande e emaranhado adjunto de sentimentos e informações, onde há relatos de usuários, histórias e também um testamento, com entrega de objetos simbólicos para vários fãs de Kombi espalhados pelo país:

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Você pode entrar no site e acompanhar tudo ali, com vídeos, fotos, relatos e mais. Pode mandar seu depoimento, pode fazer o que quiser. São anos e anos de história, de amor e ódio e, claro, uma despedida que fala por si só para muita gente. Os depoimentos deixam claro o tamanho e a importância da Kombi no nosso cotidiano e não poderia ser diferente, ela esteve conosco por 56 anos, praticamente uma avó de todos nós. Teve gente que desenvolveu vidas dentro dela, gente que cresceu nela, gente que reuniu família, gente que conheceu o mundo, gente que nasceu, gente que morreu, gente que viu a Seleção, gente que abriu negócio, que viu o país passar, sempre com ao lado e com uma Kombi.

Com méritos, com deméritos, a despedida da Kombi é um daqueles momentos épicos para nossa história; uma mistura de nostalgia e melancolia. Alguns agradecerão, muitos ficarão tristes, enfim, ela nos marcou para sempre. Mas, como o próprio site diz, depois de 56 anos, chegou a hora de finalmente voltar para casa. E o que será do Brasil sem ela? Com certeza, ninguém substituirá.

3 pensamentos sobre “Kombi, Kombi, Kombi

  1. Our VW Combi Clipper 1983, be a part of our little family life. Me, my wife, and my daughter have a wish, someday we can own the last production VW bus 2003 *pray*

    *brem*brem*breeeeemmmmmmm*

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