O fairplay hooligan russo

Ali por 1910, Chico Guanabara, famoso torcedor do Fluminense, era o terror de quem pisava em Laranjeiras. Quem falasse mal do Fluminense, lá estava Chico Guanabara para puxar sua navalha e brigar (fonte). Em 1918, um Grenal no antigo estádio gremista, a Baixada que hoje é uma avenida, o jogo terminou em confusão com mais de 100 feridos; dentre eles o atacante colorado Ribas, esfaqueado por um gremista (fonte). O primeiro clássico entre Flamengo e Vasco, na década de 20, terminou em baixaria; briga, violência, enfim, a porrada comeu solta (fonte). Em 1942, os torcedores do Palmeiras se armaram para a guerra; tudo isto para não entregar seu estádio para o Estado, em uma manobra do então rival São Paulo, que acusava o Palmeiras de fazer apologia ao fascismo, sendo, por isto, inimigo do governo brasileiro e, consequentemente, obrigado a fechar as portas. Para não perder seu estádio (e clube), os palmeirenses passaram madrugadas fazendo vigília nas portas do então Palestra Itália, intimando para a guerra quem quer que tentasse cruzar os limites da região. Estavam preparados para, inclusive, em caso de derrota, explodir tudo (fonte e fonte). Na década de 60, Heleno de Freitas, jogador do Botafogo, ameaçou um treinador do clube com uma arma. Este mesmo Heleno, inclusive, era conhecido por ter agredido torcedores rivais na arquibancada (fonte e fonte). Jogador agredir torcedor, aliás, é uma prática que já aconteceu muito ao redor do mundo, como no famoso caso que acabou com a carreira de Eric Cantona, uma das maiores promessas do futebol francês:

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Já no Brasil, ali pela década de 70 ou final da década de 60, começam a surgir as Torcidas Jovem. Seu intuito: protestar. Ou contra os times, ou contra a situação política do país, a moral de criar estas torcidas era apenas a cobrança. Cobrança de forma intensa, muitas vezes beirando – ou virando – atos de violência, articulando uma força importante dentro dos clubes (fonte). Daí em diante, o futebol se consolidou como o esporte mais popular do mundo, a mídia entrou pesado nas transmissões de partidas e eventos futebolísticos e, claro, não só o esporte ganhou seu destaque, mas toda violência por trás do campo. Na década de 90, no auge das Torcidas Organizadas no Brasil, tivemos casos de violência histórica, como o confronto entre Palmeiras e São Paulo, em 1995 (fonte). Além deste caso, tivemos torcidas banidas dos estádios, alegadamente por constantes brigas e confusões. Na virada do milênio, tivemos ainda mais episódios de confrontos entre torcidas brasileiras. Poderia citar o caso do botafoguense degolado com uma foice (fonte), ou do torcedor flamenguista espancado até a morte no meio da rua (fonte), assim como o torcedor do Cruzeiro também agredido até a morte (fonte). Violência e mais violência. Desde 1910, a porradaria já era citada no que acompanhava o futebol. Sempre. E este pequeno emaranhado de casos descritos acima provam este fato. E, além disso, até agora, descrevi apenas casos “famosos” do histórico de confrontos futebolísticos que quase todo mundo lembra, em sua maioria, do futebol nacional. Poderia ainda citar o time do Grêmio na Libertadores de 83, que foi ameaçado de morte em campo (fonte). Ou poderia citar os casos de violência policial, também, que vitimaram torcedores como César do São Paulo (fonte), ou o caso que parou a Italia – e toda a Europa – com a morte de Gabriele Sandri (fonte). Isto mesmo, caros leitores, a violência no futebol não é um problema exclusivo do Brasil, como muitos (inclusive a mídia) querem pensar. Sandri morreu na Itália, como as 39 pessoas que morreram na final de Juventus e Liverpool em 1985 (fonte), como a também tragédia de 1989, que vitimou 96 torcedores do Liverpool (fonte). O Brasil, aliás, segundo estudos, não é nem tão solitário assim; embora o alto número de mortes de torcedores por aqui, ainda assim, integramos números bem parecidos com outras nações, como Argentina e Itália (fonte). Argentina que, por sinal, é um dos casos mais conturbados sobre violência de torcidas, inclusive com torcedores comemorando a morte de adversários como se fossem gols (fonte).

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É histórico. A violência e o futebol dividem uma estreita relação de amizade e irmandade. Não são fatos recentes e, muito antes do surgimento das próprias Torcidas Organizadas, quem acompanhava futebol já gostava de sair na porrada por aí. Bem antes do esporte ser efetivamente oficializado, a violência já cobria um aspecto cultural do que viria a ser chamado de “futebol”. Era comum na Inglaterra, após a vitória de algo que era parecido com o futebol – mas ainda não era chamado assim – torcedores comemorarem quebrando tudo na cidade, saqueando e ameaçando as pessoas pela rua. Como nos mostra este ótimo texto (clique aqui para ler), inclusive, ser associado ao futebol era um aspecto negativo. Era feio ser jogador, torcedor, o que fosse: futebol era pra marginalia, gente sem escrúpulos que gostava de brigar e vagabundear. O famoso hooliganismo, termo cunhado muito tempo depois, já era um comportamento padrão entre os torcedores. Acompanhar o time, beber, gritar, brigar; esta é a química que acompanha o esporte bretão desde seu nascimento. Futebol, seja pelo motivo que for, antes de tudo, foi educado sob uma filosofia de apaixonados e violentos torcedores, que brigam e decidem suas divergências com socos e chutes. A imagem do hooligan é tão forte e presente no imaginário do esporte, que isto foi motivo para dar vida a uma caralhada de filmes (aquiaqui e aqui), livros (aqui), além de um ótimo documentário aclamado pela crítica, conhecido como The Real Football Factories:

Fonte rica de informações, não há o que falte sobre o hooliganismo por aí. Seja site, internet, vídeos, textos, imagens, tudo que você procure sobre futebol está recheado de violência. Inclusive, devido aos fatos recentes de confronto entre a torcida do Atlético Paranaense e a torcida do Vasco, a torcida corinthiana Gaviões da Fiel publicou uma nota oficial interessantíssima (que você pode ler aqui) sobre os aspectos das brigas e confusões no futebol nacional, citando uma passagem que eu reproduzo aqui:

Ora! Mas o que é a violência?

Violência é um problema complexo. Alguns defendem que mantemos nossos conceitos e atitudes primitivas até hoje. Sendo essa uma atitude primitiva ou não, é fato que ao longo dos milênios aconteceram diversas barbáries, seja em guerras travadas entre povos, luta pela supremacia das religiões ou indivíduo versus indivíduo. Somos tão competitivos e violentos quanto eles foram, prova disso é que pouca coisa mudou, ainda existindo preconceito, hostilidade entre povos, brigas religiosas e as cruéis e sangrentas guerras urbanas do nosso cotidiano.

Em uma passagem no livro, Leviatã, 1651, Thomas Hobbes, traça uma perfeita análise sobre a violência que não deixa nada a dever aos dias atuais.

“Assim, na natureza do homem, encontramos três causas principais de contenda. Primeiro, a competição; segundo, a difidência; terceiro, a glória. A primeira leva o homem a invadir pelo ganho; a segunda, pela segurança; a terceira, pela reputação. O primeiro usa a violência para se assenhorear da pessoa de outros homens, de esposas, filhos e rebanhos; o segundo, para defendê-los; o terceiro, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de desapreço, ou à sua pessoa diretamente, ou, por reflexo, a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.”

Algumas formas de violência transformaram-se em ESPORTE, alguns ainda agressivos, mas com regras, e, outros que, não tem vínculo histórico com a agressividade, entretanto, carrega a virilidade, como o FUTEBOL.

Nos mais variados esportes, principalmente no futebol, se ouve muita mensagem de cunho agressivo antes das partidas pela tevê, como: “vai começar a batalha”, “o duelo está para começar”, “agora é guerra de gigantes” “a arena está preparada, é onze contra onze”. Vejam, todas as falas sugerem violência. Se não soubéssemos que se trata de uma partida de futebol, logo pensaríamos que poderia se tratar de gladiadores em uma arena prontos para matar um ao outro.

A hoje chamada ARENA, antes chamado de ESTÁDIO DE FUTEBOL, nos remete aos antigos campos de batalha. Segundo o dicionário, a palavra Arena vem do latim, que significa “areia” e, na época do Império Romano, os gladiadores lutavam em uma superfície coberta por elas, no intuito de absorver o sangue. Em espanhol, a palavra carrega dois significados. A tourada é realizada em uma arena (ou plaza de toros, literalmente “praça de touros”) e seu piso também é coberto com a mesma.”

Como muito bem colocado, a violência é um aspecto amplo. E, no caso específico do futebol, um termo muito mal empregado. Quando digo que a violência e o futebol andam lado a lado, realmente, não estou mentido. Mas, como a própria Gaviões da Fiel cita, a violência não é apenas física. E, dentre uma cultura criada por e para isto, diferentes aspectos são usados para reforça-la. Aspectos que nem percebemos no nosso cotidiano, que não refletimos mas, de fato, são a pólvora necessária em uma relação de brigas e mortes muito complicada, onde o futebol vive desde os seus primórdios. Como as próprias terminologias de batalha ligadas ao jogo; ou ao nome dos estádios referidos como “arenas”; ou os cânticos das torcidas; tudo que cerca o futebol, afinal, é um grande chamado ao confronto. Futebol é violência em sua essência, do ponto primordial e toda sua estrutura de desenvolvimento histórica, em mil e um aspectos, foi pautado sobre uma óptica secular de culturalizar a briga, o confronto físico, de modo a ser aceitável e, inclusive, algo legal e romantizado; desde o clube, com seu hino proclamando a guerra, as batalhas campais, assim como jornalistas incentivando – e provocando – passando pelas torcidas se matando, mas também pelos próprios jogadores “brigando” ou “dando sangue” em campo. Tudo, tudo mesmo, no que se trata de futebol, quando pensamos, perpetua um discurso fortemente vinculado a batalhas.

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No entanto, de todas as formas de violência, claro, há a violência física, das brigas de torcida, que ocorrem ao longo de todo o globo terrestre – basicamente em todos os lugares onde há futebol – e absolutamente ninguém no mundo conseguiu coibir. Até tentaram, como nossa Bruxa Má do Leste Margareth Thatcher que, dentre suas ideias mais geniais, visava PROIBIR pessoas assistindo jogos. Vocês já imaginaram? Sim, futebol sem torcida, esta foi a ideia mais abjeta e inconclusiva sobre como resolver a violência. Mas pegou. O que vemos, desde a escrota Dama de Ferro e seus métodos de “modernizar o esporte bretão”, foram inúmeras criações de regras para tentar implantar um conceito de civilidade entre aqueles que acompanham o futebol. Ela não conseguiu tirar todos os espectadores do estádio, como pretendia, mas conseguiu acabar com as torcidas, implementando em quase todo planeta o que ficou conhecido como “modelo inglês” de administração do futebol. Aqueles estádios assépticos, bobos, neutros, com turistinhas, com ingressos a 300 reais, com pipoca custando 12 reais, com cheerleader dançando no intervalo, com megafone, com tudo ensaiado para parecer um show de música Pop, enfim, toda a modernização atual do futebol nasceu como fruto da argumentação criada pela Bruxa Má, tentando “higienizar” os estádios para diminuir o grau de violência…e nada, absolutamente NENHUMA destas medidas conseguiu resolver o problema. A violência ligada as torcidas ainda existe e acontece. Nem aqui no Brasil e tampouco na Inglaterra, em nenhum lugar onde o “modelo inglês” arenizado foi aplicado, o problema das violência foi resolvido.

Não se engane, meu caro, pois o fato de você não ver a violência noticiada não quer dizer que ela não exista. A única coisa que o “modelo inglês” fez, antes de tudo, foi esconder a violência dos estádios. Sabe quando você varre a poeira da sala pra debaixo do tapete? Pois é. Agora não se briga mais na arquibancada, mas sim no pub, bar, na rua, no bairro, onde for. Aqui ou na Inglaterra, as torcidas se encontram e caem na porrada. Há milhões de vídeos sobre isto, é só jogar no Youtube e escolher seu favorito. E, as vezes, a coisa ainda acontece no estádio; como no nosso caso brasuca mais recente, onde as torcidas do Vasco e do Atlético Paranaense saíram no tapa, pisaram na cabeça duns caras e quase se mataram com todo o mundo vendo na TV. Não, não foi assustador; apenas trivial, banal e acontece sempre. Já acontecia desde 1910 e vai voltar a acontecer, sempre. Isto porque o poder público, privado, quem for, não exerce influência nenhuma sobre um fato: quando duas pessoas querem brigar, elas vão brigar; vai fazer o que? O que fazem sempre: proibir a entrada da torcida. Aí, brigam na rua. Proibir a entrada de uniformizados. Ai, brigam vestidos como qualquer pessoa comum. Proibir a venda de cerveja. Aí, brigam sóbrios. Proibir a entrada de bandeiras. Aí, brigam na mão. Brigam, brigam e brigam. Só. Porque violência e futebol, andam lado a lado.

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Mas eu não sou pessimista, nem profeta do acontecido. Não venho aqui culpabilizar a polícia, tampouco o Estado, porra nenhuma, não aponto o dedo da violência em ninguém; não sou dessa turminha amarga que vem e diz “mimimi…a culpa da violência nos estádios é dos governantes…mimimi“, porque não é. Quem quer brigar, briga. E é destes a responsabilidade, cada um faz os seus atos. Do Estado, ou da polícia, resta um outro tipo de culpa: a omissão. Pecam pela omissão de tentar contornar o problema com medidas bobinhas, que é o que a mídia gosta de ver, sem ir direto ao ponto que originou este post e que eu quero falar: O FAIRPLAY HOOLIGAN.

Simples assim. Briga organizada e institucionalizada.

Parece piada, mas não é. Também não é novidade. Isto já existe há anos no Leste Europeu, em vários países e, de certa forma, foi a maneira mais inteligente de acabar com a violência gigantesca que os Ultras (nome dado ao relativo das Torcidas Organizadas na Europa) causavam. Os próprios torcedores resolveram acabar com a covardia da briga e viram que, claro, se eles gostavam de violência, teriam que no mínimo se organizar. E fizeram. E criaram regras. E as brigas de torcida ficaram algo mais ou menos assim:

Isto mesmo, algo como um esporte não legalizado, um “encontro” de caras que querem se bater e resolvem as coisas se batendo. Acabou com a violência nos estádios? Não. Mas reduziu drasticamente; de fato, foi melhor que qualquer outra medida no mundo. A organização dos hooligans, principalmente os russos, conseguiu amenizar um problema secular com uma solução um tanto quanto peculiar. Agora, eles se encontram por aí, se batem e fica por isto mesmo; isto porque a percepção deles chegou num nível tão inteligente que eles conseguiram dimensionar a necessidade de separar as brigas dos estádios. Afinal, os estádios eram áreas coletivas, onde eles se viam em um monte de gente que, talvez, não quisesse brigar. E, não só isto, claro, brigar no estádio chamava atenção pra caralho.

Os hooligans russos gostam de brigar por futebol, como qualquer hooligan do mundo. E, se brigar por futebol é uma filosofia de vida, eles perceberam que deveriam tornar isto algo mais formal, com algumas restrições, regras e afins. Sem covardias, sem bater em quem está desacordado, sem armas, em números iguais, é isto que eles fazem: uma batalha medieval, no mundo atual, por um esporte que não tem nada a ver com sair dando socos. E perpetuam um dos comportamentos mais controversos do mundo, sem incomodar ninguém. Não envolvem pessoas que não querem participar, não atrapalham a partida, não dá em nada. Quem quer decidir qual torcida é melhor na base da violência, vai lá e faz, com suas regras pré-estabelecidas, num terreno qualquer e longe dos olhares que chamam atenção. E isto é um passo a frente, embora muita gente discorde. Passo a frente porque, acima de todas ideias mirabolantes, é uma visão prática para acabar (ou ao menos reduzir consideravelmente) com os dois pontos que tanto incomodam na violência nos estádios:

1) Atrapalhar o jogo e;

2) Covardia – Seja envolvendo inocentes, ou com a morte de gente apanhando desacordada;

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Quando os hooligans russos perceberam que poderiam ser melhores que a violência covarde, voilá, restringiram da maneira mais prática possível um dos grandes problemas do futebol. A violência das torcidas, de fato, passou a ser quase como um esporte a parte, onde só se envolve quem quer praticar e, para isto, deve seguir um manual de conduta exemplar. Sem falsas hipocrisias proibindo coisas aleatórias – como cervejas e bandeiras – aí está um método que funcionou. Os hooligans russos são melhores do que todos teóricos mirabolantes.

Mas por que você não vê isto ao longo do planeta? Porque ninguém divulga? Eu aposto tudo no argumento do falso moralismo. As pessoas, de um modo geral, preferem a utopia de métodos escalafobéticos que, de alguma forma, consigam coibir TODOS arruaceiros de brigar, do que aceitar que estes caras vão brigar com ou sem a gente impedir. Preferem acreditar em uma ponte mágica de amor, uma resolução fantasiosa que irá surgir e conseguir prender e/ou exterminar exatamente todos torcedores violentos, sem perceber que isto é quase impossível. Mágica e mágica, enfim, nunca chegou a ponto nenhum. As brigas continuam aqui, continuam na Argentina e, inclusive, na Inglaterra, onde a Bruxa Má se revira no túmulo por criar um plano de merda que nunca deu certo e, de fato, nunca conseguiu impedir a força do comportamento hooligan. Mas, não só o falso moralismo, há também um outro fator importantíssimo para a não-aceitação e/ou popularização do fairplay hooligan russo: a grande mídia.

A grande mídia vive de tragédia. E a grande mídia é o forte capitalizador financeiro do futebol, gerando lucros e mais lucros para os clubes. Embora eles neguem, façam campanhas contra, para o bem da verdade, o que a mídia mais gosta é um caos no futebol; e, se este caos envolver briga de torcida, é melhor ainda. Isto porque violência gera uma demanda de matérias e reportagens e vende e todo mundo quer ver. Sangue na capa do jornal, justiça com as próprias mãos, os vilões e os mocinhos, não a toa programas como os do Datena são líderes de audiência. Reinventando o futebol, como sempre, a imprensa ainda é medieval; mais medieval que as próprias brigas. E vender gente morrendo, sim – embora condenável – dá mais dinheiro do que soluções. Soluções, estas, somem com as manchetes, somem com as fotos de gente desacordada tendo cabeça pisada, somem com as manchetes sobre brigas de Torcida Organizada…e de que o jornalismo esportivo iria viver, não fosse esta merda toda?

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O fairplay hooligan nunca aparecerá como proposta em NENHUM veículo do país, porque representa um perigo real monetário; o fim da dependência da violência caótica é, para algumas pessoas, algo impensável. Dinheiro é poder, o poder da miséria, perpetuação dos problemas e a falta de significado; faltam soluções para não seguir o ciclo de tragédias que todos nós conhecemos. Como bem colocado pela nota da Gaviões da Fiel, a mídia – uma das patrocinadoras da violência no futebol – é o braço mais forte a instigar picuinhas e desavenças, gerando um enorme desconforto nos bastidores da bola: alfineta clubes, torcidas, jogadores, quem for, pra depois subir no muro e dizer “eu não tenho nada a vez com isso”, pular fora da barca e ver a galera se digladiar por um time, até alguém apanhar até a morte e virar notícia de cinco minutos no Jornal Nacional.

E isto não são nem palavras minhas, mas também de jogadores que pensam e percebem o problema, como o caso de Seedorf, que culpou a imprensa, também, pela propagação do ódio ocorrido na partida de Atlético Paranaense e Vasco (fonte).

A violência e o futebol andam lado a lado, sim, e dificilmente veremos o fim de um sem o fim do outro. Mas podemos contorna-la, canaliza-la e criar meios de organiza-la. O fairplay hooligan russo é um exemplo de como se pode fazer. Talvez não o ideal mas, ainda assim, são medidas reais e que agradam todos os lados. Não são com medidas idiotas e aleatórias que se resolve um problema tão pontual. As pessoas não irão parar de brigar porque o Ministério Público quer, ou porque a polícia vai prender todo mundo. Não, este tipo de solução nunca apresentou resultado nenhum. Nem aqui, nem ao redor do mundo. Mas a solução plausível dos hooligans, sim, trouxe uma intervenção real e considerável; basta encará-la sem o preconceito da visão moralista. Porque, no final, o jeito russo de ser foi o suficiente para agradar a todos os interessados no futebol, sejam eles violentos ou não. Torcedores podem torcer, espectadores podem assistir, bebedores podem beber, turista pode tirar foto, jogadores podem jogar e brigões podem brigar. Não é muito melhor?

Você pode ler mais aqui:

In Russia the majority of firms have signed up to a code of honour called fair play. The time and location for the fight is pre arranged, no weapons are used and the numbers taking part in each side are agreed in advance. The Russian hooligans say the fair play agreement shows respect for each other, your opponent, the enemy. These firms treat hooliganism like a sport with rules to be obeyed.

Boa noite e fui!
Nota:
No texto que fiz, acabei não colocando a viabilidade do fairplay hooligan russo perante as torcidas. Isto porque achei que havia ficado claro a participação das próprias Organizadas em debater a legitimação da briga institucionalizada. No entanto, reparei posteriormente que a minha colocação havia ficado meio obscura, parecendo que eu afirmava que as próprias torcidas não tinham “culpa” em suas relações com a a violência no futebol, eram apenas vítimas do Estado e da mídia. No entanto, as torcidas TAMBÉM são parte envolvida e DEVERIAM discutir com mais seriedade a aplicação do fairpaly hooligan russo, mesmo que controverso, de maneira aberta e ampla. A covardia e a situação dos confrontos atuais É TAMBÉM culpa das Torcidas Organizadas que, sim, brigam até se matar e não percebem que isto poderia ser feito de uma maneira muito melhor, mais legítima e, inclusive, aprovada pela opinião pública. Claro, a mídia e Estado não dão espaço para discussão desta forma – ambos tem interesses em não dar, como disse no texto – mas as Organizadas por livre e espontânea vontade DEVERIAM aprimorar e tomar a dianteira sobre o tema, evitande que mais medidas idiotas sejam tomadas e punam todos os frequentadores do estádio, como ingressos caros e proibição de bebida alcoólica.
Na Rússia, os hooligans não esperaram por ninguém; a percepção deles se deu pelo fato de que precisavam mudar o contexto das brigas entre torcidas e resolveram, de comum acordo, várias das principais torcidas, debater e regularizar o tema, criando um mecanismo que tornasse a violência do futebol algo mais adequado para todos os envolvidos.   
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