Lapadas do Povo – Casa do Cachorro

Fala, galerinha. Tudo certo com vocês? Aqui está tudo na paz. Por motivos de força maior (trabalho e curso), eu acabei tendo que adiantar este post e optei por deixar o outro que estou finalizando para o final desta semana, já que ele é mais comprido e trabalhoso de escrever, tendo que conferir alguns detalhes e informações antes de publicar. No entanto, esta troca de artigos veio a calhar porque deu espaço a este post logo agora, citando um bar que eu já queria citar faz algum tempo mas nunca tinha me atinado em escrever. E este bar não poderia ser outro:

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Sim, ele mesmo, o todo poderoso Casa do Cachorro (Ciriaco), aí no meio da imagem e que quase não se vê o letreiro. Ostentando toda sua humildade padrão, o boteco engana os mais nobres e virtuosos corações. Cravado em uma região de muito movimento, abaixo de uma antiga marquise, você pode passar mil vezes ali sem perceber que aí mora um dos bares mais místicos e interessantes da história recente da nossa capital gaúcha. Quem vê assim de longe – ou até de perto – como qualquer pessoa normal no mundo, não repara na imponência deste local. Ficando em um velho conglomerado de prédios, na esquina de uma das ruas mais famosas do Centro Histórico de Porto Alegre (José do Partocínio), disputando espaço com uma empresa que entrega garrafões de água, umas feirinhas e outras lancherias, paira ali, dentro de uma pequena porta de correr – daquelas de metal, comum em lojas do próprio Centro da cidade – este sublime e subestimado estabelecimento. Não a toa é capaz de você passar por ali e nem dar muita bola, afinal, o que você verá é algo mais ou menos assim:

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Parecendo um belo boteco daqueles que só morador de bairro frequenta, emulando perfeitamente o sentimento da zona mais nostálgica e histórica do Rio de Janeiro, a eterna Tijuca, a Casa do Cachorro é o legítimo contraste que adorna o ritual de qualquer botequim classudo que se preze e, claro, da cultura ébria popular brasileira, onde a própria Tijuca é, talvez, o maior expoente nacional da imagem do bar pé-sujo tradicional. Contraste porque o letreiro te engana: parece uma pet shop, mas é um bar e só vende bebida; nada de banho ou tosa e muito menos de animais. Contraste porque não é imponente, mas é imponente assim mesmo: no semblante humilde de sua aparência, há a mais honesta moradia de música popular da capital, adormecendo o melhor do samba clássico na cidade. Contraste porque não precisa ser caro para ser bom: é bom e ponto, melhor do que grande parte dos outros bares de Porto Alegre e, não só isto, não cobra couvert artístico para tocar música boa. Contraste porque não precisa de nada mirabolante para ser completo: se tem uma esquina, uma mesa de plástico e uma cerveja, pronto, o resto acontece e se faz samba. Contraste de informações, mas não de qualidade. Todo mundo que vai, acaba gostando. Simples assim. E isto é atestado não apenas por mim, mas também por uma das figuras mais expoentes da boemia moderna do nosso país; um dos maiores conhecedores de bares e biroscas na nossa amada terra tupiniquim diz a mesma coisa:

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Sim, ele mesmo, em corpo presente, o famoso e único Zeca Pagodinho, o meste do alcool, das cervejarias e bares, em uma de suas passadas por POA esteve na Casa do Cachorro, gostou, elogiou e, claro, deixou sua marca no local. Para não gerar dúvidas, como consta, aí na parede do estabelecimento agora paira toda poderosa a indumentária de um dos músicos mais populares do Brasil: cavaco, camisa, chapéu e tamborim. E, por motivos óbvios, agora o local detém o selo de aprovação de um dos maiores sambistas atuais… quem aqui seria capaz de discordar da qualidade? Se não for Zeca Pagodinho o maior connoisseur do assunto, que outra pessoa poderia poderia apadrinhar botecos pelo Brasil? Se Zeca disse, está dito. E a Casa do Cachorro merece este post.

Não a toa o atestado dele advém de uma justificativa muito sólida e que, inclusive, explica toda mística da Casa do Cachorro. Longe do que parece – e engana – ali, naquela esquina que todo mundo passa corrido sem dar muita atenção, reunem-se figuras clássicas da capital, toda semana, para fazer uma roda de samba e tocar, assim, pra quem quiser chegar. Sem compromissos além da própria música, a Casa do Cachorro é exatamente isto: uma grande reunião do samba. Transformando o pequeno bar em música, eis que surgem as mais belas interpretações de clássicos nacionais, na voz de muita gente diferente, disposta aos improvisos e a cantoria. Reinterpretando o próprio Zeca, Cartola, Chico, assim como músicas da Portela, Império Serrano, entre tantas, a Casa do Cachorro se transforma em um ícone de boa referência aos nos brindar com clássicos e mais clássicos; como no dia em que eu pude ouvir a roda de samba puxar a música Sampa, de Caetano Veloso, toda instrumental em violão e bateria. Mas, se eu posso escrever, vocês podem ouvir. Muito mais fácil é mostrar para vocês, caros leitores, o que a Casa proporciona toda semana:

Sob a chancela da música boa e da variedade de sambas tradicionais, assim, a Casa do Cachorro – como eu disse lá no começo – bar humilde, acaba se transformando em um imponente ponto de referência musical e de grandes pessoas. Porque se a música é fruto das pessoas, sim, não há de se discordar que onde há boa música, por consequência, há boas pessoas. Ora público, ora os próprios músicos, ora o dono do bar, a mística da Casa do Cachorro se reproduz além da sua produção artística, sim, e vai muito além. Não é apenas um bom boteco para sentar e ouvir música, no final das contas, mas também para conversar, trocar idéias, descolar os mais bizarros “causos” da galera e, antes de tudo, aprender alguma coisa. Exemplo disso foi o fato de que aí mesmo na rua, sentado numa mesa de plástico tomando uma Brahma já morninha pelo calor do verão, pude aprender uma tática para poder “retirar” um pouco do alcool da cerveja, fazendo com que bêbados pudessem beber mais. Conhecimento popular puro, coisas que a gente só aprende onde o bar é bom, a cerveja é barata e os frequentadores manjam das táticas de botequim.

E, no final, a despretensão da Casa do Cachorro impera, pois conflita com sua importância – que ninguém ali percebe, ou tenta criar intencionalmente – e desenvolve um ambiente agradabilíssimo. Seja pela música, pelos frequentadores, ou pelo próprio dono, sempre atendendo no balcão e muito gente boa, a idéia do lugar é exatamente esta: há coisas que o dinheiro não compra. E, uma delas, é um bom boteco. Porque um bom boteco não se faz de nada além de quem o frequenta. E, se o Casa do Cachorro é um grande ícone da capital, grande parte disto é justamente por ser assim mesmo. Antes de ser caro, antes de ser complexo, antes de ser qualquer coisa, é bom, barato e de qualidade. Apenas isso.

Sem mais, encerro com uma foto do Por do Sol, tirada num final de sábado lá, demonstrando toda incoerência da metrópole – que só um bar e cerveja podem descrever. A vista do céu se confunde em prédio, posto, pessoa, carro, Igreja, sujeira, cinza e verde, fios e mais fios e, no final, tudo vira música:

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Boa noite e até a próxima, amigos!

Nome: Casa do Cachorro (Ciriaco)

Endereço: Rua José do Patrocínio, 137 – Cidade Baixa

Média de preço: 9 reais o litrão

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