A memória que não se vai; a Enciclopédia que fica

A história é poesia. A valsa dos fatos e atos que dançam na nossa memória. Se perpetuam, passam e voltam, ou nenhum dos dois. Nunca passam porque nunca foram; nunca voltam, mas sempre se vão. É a música que marca o passado; o passado de todos nós. A história é poesia e não pode ser nada além disso. Vive de nostalgia, da lembrança das coisas, daquilo que nunca foi de verdade mas sempre tenta ser; daquilo, claro, que aconteceu de um jeito que não foi assim que aconteceu. Há fatos e atos, coisas e mais coisas que passam e nunca querem, de fato, passar. Voltam sempre e nos lembram que a valsa dos próprios fatos é o que faz da história a poesia mais concreta para entender a nós mesmos. O que seria de nós sem ela, afinal? E o que seria daqueles que não a tem? Existe vida sem algum tipo de história? A história é o antes, o depois, o presente. E que presente maior do que poder se lembrar do passado? Mesmo o que não é exatamente aquilo que foi, enquanto história, vive igual. E se vive, é porque nós vivemos e fazemos história, como poesia, assim como queremos que ela seja. O que seria maior do que nós, não fosse a história de todos nós? A alegoria nostálgica da história segue, vai e passa, no seu percurso mais do que natural; a vida acaba, mas ficam os fatos. Memória de uma história, que passa para eternizar, para nunca mais ter que passar.

Existe time mais nostálgico no futebol do que o Botafogo? É o time da história eterna, nunca acaba, nunca está presente porque, sempre – e como sempre – vive da história. Precede os seus atos de agora no que já aconteceu; é a sina do time que sempre esteve no passado. O eterno time de hoje que é ontem, carregado de contos, fatos, causos e que, na valsa dos atos, se tornou grande por ser nostalgia antes de ser um clube. “Tem coisas que só acontecem com o Botafogo“, diriam, concretizando de fato que há atos que só o Glorioso entende. Só este clube consegue existir assim. E na alegoria nostálgica, do time que é história, claro, não poderia faltar tragédia. Tragédia de sempre, presente, constante nas memórias de General Severiano que, como tal, poderia ser muito bem tragédia grega. E por que não? Se na falta de mais fatos exatos, concretos, não nos falta poesia para deixar na história, do dia que o Rio se pintou novamente em vermelho e preto, ou o estádio ruiu para o maior time paulista, ainda assim, alegria e tristeza, no conflito da tragédia grega, quem mais vivia de história era o próprio Botafogo. Que perdia Nilton Santos, falecia aos oitenta e tantos, na sina do próprio clube – o único que Nilton vestiu a camisa – se foi solitário, passado, como a própria estrela alvinegra sempre fez questão de cantar.

Da alegria e da tristeza, todas na mesma quarta de futebol, enfim, tragédia grega ninguém entende melhor que o Botafogo. Tem coisas que só acontecem com eles, não é? É. E foi mais uma vez para a história, a poesia dos tempos, Nilton Santos, abatido pela doença que tenta apagar a memória, saindo da vida para ele mesmo virar uma grande memória. Poesia da história, afinal. E quantas ele tem? Enciclopédia do Futebol, quer apelido mais imponente? Enciclopédia que, por si só, é um apanhado de fatos, atos passados, para guardar na história, na memória dos futuros e que, pela ironia do tempo, não puderam viver os fatos no ato. Nome e homem se confundem porque, entre tantos jogadores, só um é Enciclopédia. Só um é e foi capaz de conhecer tudo e ser tudo, e como diria Armando, que parecia tantos e foi só um; quem mais poderia então, para tanto encanto, ser homem e memória num só? Do gosto de ser o melhor lateral, da lembrança do homem que revolucionou toda tática com apenas um gol, e quebrou estruturas com um passo, ou dois pra frente que, entre tantos, foi apenas mais um ato de vários que viram memória. Da Enciclopédia que, confundindo homem e alcunha, trouxe ao esporte o Anjo das Pernas Tortas, como um bom sabe tudo. Porque entre tantos, só um com encanto enxergou futebol onde ninguém mais via. À alegria do povo, futebol, Garrincha, Botafogo, Brasil, há alguém que deva mais respeito a ele? Presente da história, em vida e agora, além dela, vira memória de gente que não vai esquecer quem ele foi. Nilton Santos, abençoado desde o nome, protegido – quem sabe – pela música do passado que, nunca, nunca mais, vai deixar de passar. Agora repousa em lembrança, a memória que fica, eterna.

Enciclopédia que deixa a alegria em meio a tristeza, choro de uns e felicidade dos outros. Alegoria das coisas que só acontecem com o Botafogo. Perdeu seu craque, ícone maior, claro, no dia que Flamengo acabou tricampeão. E a cidade se pinta de vermelho e preto, o Rio de Janeiro não dorme para festejar que, entre tantos flamenguistas novamente campeões, da nova taça e da velha história, agora gritam pela Copa, há quem hoje não esteja sorrindo na Cidade Maravilhosa. O homem que viveu apenas para um clube e ao mesmo tempo viveu para todo futebol; foi memória para todos, para pintar nossa aquarela de fatos, dançar no ritmo dos atos, da tragédia grega, ironicamente, vira memória no dia de alegria do rival. E entre tantos, por que hoje foi Nilton Santos? Se vai em meio a festa, não dos alvinegros que, clube que é história, novamente, se apega a nostalgia do passado. A recordação do craque, lateral, gênio maior, que sabia de tudo, claro, só poderia ser contemplada com morte poética, na tragédia do clube que é pura memória, deixa a vida para virar história, falecendo no bairro de mesmo nome, imortalizando a estrela solitária, solitário em Botafogo. Mais uma história típica que só acontece em General Severiano, outra história eternizada no futebol que, como sempre, é esporte nostálgico, de lembranças nem sempre contentes. Da nostalgia, mais uma vez, vem a memória que fica e não passa. Em meio a tristeza e alegria, na ironia, mesmo que sem querer, Nilton Santos que tudo sabia, deixa o mundo neste dia, sem saber como ele terminaria. E vira o que sempre foi, afinal, eterna história, agora encerra seu último capítulo como própria poesia de um indivíduo que, entre tantos, para nosso encanto, era um só. E era tudo, Enciclopédia do Futebol, história da vida e do esporte, se vai Nilton Santos, para ser eternamente memória!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s