Ironias de Carnaval

2

E o dia é incerto. Surpresa. Novidade que surge e vem, vai e renova, todo dia, como se fosse eternamente amanhã. E o dia é contraste. Vem de Sol e se vai de Lua, claro e escuro, quente ou frio, na eterna certeza de não nos dar certeza alguma. O que foi hoje, não é mais amanhã, nem ontem e tampouco o que vai ser agora, nestas linhas que eu escrevo. O dia se vai, mas volta – e sempre – todo novo pra ser dia de novo. E se é incerteza, eis que o dia é dia porque somos assim, como ele, incertos, repetindo Edgar e Daniela que, por ocasião do dia – e como ele – só se complementavam no mesmo nascer de dia.

Ah, a contradição! É a ironia do nosso universo, que ri da gente e de todos, a todo momento, mostrando que não sabemos de nada e sempre seremos aquilo que negamos ser. Na certeza de ser diferente, que assim, sim, foram eles dois – Edgar e Daniela – desde o nascimento. Um pragmático, a outra incerta; um sempre certo, a outra nem tanto; o eterno metódico, a outra apenas agia pela intuição. E por que não? Se eu conto a vocês este causo, não faço questão de poupar-lhes estes detalhes de comparação. Já aviso que neste dia, como tantos outros, a garantia de não ser assim tão especial foi também uma grande enganação. A folia, alegria e a labuta contrastavam desde o começo das ruas porque, afinal, tudo se passou num Rio de Janeiro no meio de mais um carnaval. E que carnaval!

E já passava do meio dia quando ele, naquele grande dia, veio como vinha, sempre, seguindo pelas ruas do Centro, como se não houvesse a possibilidade de um amanhã. Afinal, quem acha que algum dia, este presente momento foi também amanhã? Edgar seguia o serviço, evitando as emoções e, por ironia, não conseguiu desta vez escapar daquilo que sempre tentou. Nem o melhor de seus métodos foi eficaz para evitar o que o dia, ou o universo – na sua ironia, quem sabe? – havia lhe preparado. Sair, assim sem querer e ver que não poderia escapar, afinal era dia de bloco nas ruas: como ele conseguiria desviar deste caos? Foi naquela rua errada e, se era pra acontecer, não sei se podemos dizer que a rua era errada, ou certa, o que importa afinal é que aconteceu como tinha que ser. Edgar, apressado, emburrado, enraivecido pela bagunça da festa e do povo, dobrou a esquina correndo e querendo fugir da muvuca que naquele dia já vinha descendo a rua certa – ou errada, tanto faz – diante de sua alegria em cantar carnaval. Não percebeu no buraco, defeito das ruas gastas pelo tempo e pelo pé do povo, aquele mesmo que agora vinha seguindo a rua em bloco, gritando e cantando e bebendo e comemorando, ignorando até mesmo o tempo, os buracos e os problemas; inclusive os de Edgar! Esbarrou na moça errada, na rua certa, ou o contrário, na moça certa e na rua errada, logo logo o universo, em sua ironia, soube se explicar.

Era Daniela, aquela, na falta de certeza, acreditando em poder viver o dia, nas ironias da vida, na incerteza de tudo, vindo animada, como o resto do povo, descendo a calçada, aquela mesma…esburacada, sem reclamar. Existem problemas maiores que possam parar um carnaval? De folga, da vida e do serviço, porque esta moça sabia que o serviço não era sua vida, descia na rua sem muito se importar, nem com os problemas da vida, muito menos do serviço e menos ainda com os buracos da calçada. Pudera, também, quem trancou o pé de solavanco naquele problema de calçada com o seu calçado importado e bem cuidado não foi ela, mas sim Egdar que, agora, por ironia do dia, em contraste com o que ele queria, na rua errada, esbarrava na moça certa. Ou poderia ser exatamente tudo ao contrário, enfim, aqui tudo serve mesmo, afinal é carnaval.

– Você não olha pra rua,não? – Dispara Daniela que, animada pela festa e cerveja, ia para o lado errado da rua, seguindo o resto do povo no bloco distante e que vinha animado, pronto para colorir aquele dia que, por ironia, ainda tinha muito de dia por vir.

– Olho sim…a culpa não é minha desta rua cheia de buracos! – Garantia Edgar, agora com o pé assolado pela dor e a cabeça assolada pela moça errada, na rua errada, garantindo que seu dia, como a situação já mostrava, estava mesmo atrasado e errado por natureza dos fatos que já seguiam e mais os fatos que ainda viriam a seguir. E veio a emendar – A culpa é de vocês mesmos, ficam aqui incomodando, no meio da Cidade, todo mundo querendo trabalhar e essa gente atrapalhando tudo!

Curioso, afinal era o caso – como eu garanti no começo – no meio da cidade e no Centro dela mesma, Edgar era o único disposto a trabalhar. E se a gente trabalha pra manter gente, que ironia (!) quando esta mesma gente não quer trabalhar! Para que serve o trabalho, se não for pela gente que faz mais trabalho e garante que a gente sempre possa trabalhar? Curiosa também ficou Daniela, depois de mais um gole na cerveja quase quente e sempre cara – mas quem se importa com isto no carnaval? – dando sequência a discussão e somando a resposta atravessada de Edgar:

– Olha aqui, meu filho, você é o único infeliz preocupado em trabalhar aqui perto! Está todo mundo aproveitando o carnaval e você todo arrumadinho aí, querendo serviço a esta hora? Não tem nada melhor pra fazer, não?

E logo logo, com a pressa de Edgar, envolto na confusão mas sempre na mesma velocidade, como se fosse o seu último dia, querendo seguir sua vida depressa e sem razão – claro, além do primeiro milhão – correndo como se não houvesse amanhã, não tardou em replicar:

– “Meu filho”, nada! Eu não sou filho de ninguém! – E neste ponto, eis de concordar que, aqui, por mais uma ironia, ele tinha razão. Se afinal o dia em que os dois nasceram era o mesmo dia, como alguém poderia ser filho de alguém nesta discussão? Ainda irritado e com pressa de sair desta situação errada, na rua errada, com esta moça errada, Edgar continuou – Alguém tem que trabalhar nesta cidade, pra manter estes vagabundos na rua a esta hora incomodando e sujando tudo! É por isto que este país é esta zona toda, ninguém faz nada aqui!

1

E se a contradição é ironia de todo universo, neste conto que conto, no meio de um dia de carnaval, nada poderia ser mais contraditório do que dois seres tão diferentes, discutindo como iguais, no meio do dia no centro do Centro, esperando que alguém da cidade fosse entender aquele enorme imbróglio. E mais ironia ainda foi ver, ao longe, do bloco que agora se vinha pra perto, uma figura tão conhecida por um dos dois no meio da multidão. Mas antes de eu conseguir dizer quem era a figura, Daniela sem querer perder o seu argumento, no contraste daquele dia de alegria e discussão que, como o dia que sempre muda, logo tratou de antecipar mais um gole na cerveja quente, antes de responder sem muito tempo ou educação. Explosiva, efusiva, sempre foi:

– Olha a grosseria, rapaz! Eu trabalho, estudo e estou aqui aproveitando. Qual o problema disso? É carnaval! Todo mundo gosta e ninguém é vagabundo. Se tem alguma vagabunda, aqui, só pode ser sua mãe, que criou alguém tão infeliz assim!

Já não bastava o verão e o calor e o suor natural do Centro do Rio que, como de costume, no contraste do dia, os ânimos se afloraram como a própria festa de carnaval e, aquela pequena discussão de dia a dia, agora neste dia em especial, tomava contornos colossais. E na rua errada, com as pessoas erradas, aconteceu o que não deveria; era certo que isto chegaria onde chegou, afinal, por ironia de personalidades tão diferentes, ambos eram muito iguais. Edgar que na pressa do seu dia, queria logo acabar com tudo e ver aquele momento ir embora, agora empenhava em crer que, na batalha dos argumentos, da discussão errada, na rua errada, com a moça errada, ele estava certo! E tratou de responder:

– Olha o respeito, olha o respeito! Minha mãe não é vagabunda porra nenhuma e eu não dou o direito de ninguém falar assim dela! Ainda mais alguém como você! Vai se foder você…e você é uma vagabunda mesmo! Fosse alguém de respeito, não estaria aqui a esta hora, vestida assim no meio dessa zona!

A coisa ficou boa. E quem diria que, neste dia, um pequeno esbarrão fosse desandar em algo tão especial? Não sei quanto a você, meu querido leitor, mas no auge do metodismo lógico de Edgar ou da loucura do carnaval e cerveja de Daniela, o contraste entre os dois ficaria ainda mais evidente em uma situação que tinha tudo pra dar errado. Mas se aconteceu, então, o que há de errado nisto? Como é dito no carnaval, vamos aproveitar! Vamos aproveitar a ironia do dia e ver onde isto pode chegar. Mas antes querendo lembrar que, embora a saia curta e a blusa branca, como aqui o contraditório não falta, Edgar estava visivelmente errado. Se tinha alguma coisa de errada com a roupa de Daniela, talvez, quem sabe, só a peruca de festa e a cara pintada. Mas repetindo a mim mesmo: o que há de errado nisto? É carnaval e vamos aproveitar!

– Vai se foder, seu otário! – respondia Daniela, sem sua cerveja mas ainda assim embebida em muito ódio do seu adversário.

– Vai você, escrota! – respondia Edgar, espelhando o jeito explosivo de sua companheira, ao menos de confusão.

– Você é muito babaca, aposto que até corno deve ser! – respondia Daniela, já com o dedo enriste, aos berros, esquecendo da alegria do dia de carnaval, agora, empenhada em garantir que só ela era a certa na discussão. Sob efeito do sol, do momento e destes argumentos, haveria de existir alguém totalmente certo neste meu conto?

– Babaca é você e abaixa este dedo para falar comigo! – respondia Edgar, no mesmo tom, naquela sinfonia de palavrões que não era música, mas tocava no carnaval daquele dia, substituindo o barulho dos foliões pelo som nem tão musical das ofensas e trocas de acusações, ali, no meio da rua do Centro que agora, com certeza, era o centro deste grande dia com briga de contradições. Se de um lado tínhamos Edgar, antes lógico e metódico perdendo a compostura, perdendo o tempo e perdendo seu jeito calmo e racional, do outro lado tínhamos Daniela, perdendo o carnaval, perdendo sua alegria e garantindo que, no meio de tanta incerteza da vida, ela era a única certa de tudo.

Que bonito! De tanto os ânimos ali aflorarem na rua errada, por motivos errados, ambos certos discutindo com muita certeza que aquilo era realmente o melhor a se fazer, nenhum dos dois percebia, ao fundo, que já não era tão fundo assim, o bloco de gente que vinha com o barulho e festa carregando consigo o carnaval. Nem Edgar, querendo fugir da festa e do povo, agora parecia não perceber que já quase fazia parte dele; muito menos Daniela, que naquele dia saiu pra aproveitar, agora  – como Edgar – amargava o dia que vinha querendo voltar para casa e esquecer tudo, inclusive da festa. A ironia do universo, oportuna, colocou cada um em lugar diferente. Tão iguais, eu disse, mas tão diferentes.

Desviando dos buracos, esquecendo o cansaço do sol e do Centro, ignorando a cerveja quente, vinha a frente de toda aquela gente alguém muito peculiar. Se lembra que eu disse que na multidão da folia se destacava um rosto conhecido para um dos dois? Não bastasse a amarga situação e o indigesto momento de emoção onde estavam, ali, Edgar e Daniela, discutindo ambos certos mas sem ter muita razão, perdendo o dia (e que dia!) provando que o contraste de situação pode ser igual nas diferentes pessoas, tudo iria se embaralhar ainda mais, por pura ironia, como é como neste universo brincalhão, aproveitando a folia do carnaval. Nenhum deles observou se aproximar abanando e gritando, gesticulando fantasiada a senhora que logo ao longe correu e abraçou Edgar. Que surpresa, afinal! Adivinhem quem vinha naquele bloco que agora não estava mais ao longe, mas sim colado nos dois? Pois é, amigos, a senhora era a mãe de Edgar!

– Ma-ma-mãe? – gaguejou e tentou prosseguir – o que você faz aqui? – indagava, agora, Edgar, sempre certo o sujeito, com muita certeza de que agora estava a duvidar daquilo que via. Sua mãe, no auge da mais tenra idade, cerveja na mão e vestida como Mulher Maravilha, vinha, naquele dia, esboçar um sorriso e ignorar suas mais plenas convicções. Daniela riu. Muito. Riu da situação. Daniela agora aproveitava para retrucar:

– Quem diria, eim? Aqui estão os vagabundos! – e ria e continuava – Mais vagabunda que toda esta gente, não existe! Ha-ha, olha o bloco! Só vagabundos!

Edgar, agora incrédulo, não sabia muito bem o que falar. Neste dia de hoje, de trabalho e de pressa e tarefas, na ironia de participar da discussão errada, na rua errada, por motivos errados com a moça errada agora tinha de aturar, no momento mais errado possível, que a única senhora que ele tinha certeza de não ser vagabunda aparecia ali, no meio deles e, diante dele, com os outros vagabundos que ele mesmo tinha criado, na sua cabeça de muita certeza e razão. Daniela continuava rindo. A mãe de Edgar, sem muito entender e sem nem se importar, também ria. Edgar não. E o bloco vinha, com todos rindo, em direção aos buracos, em direção a eles, ignorando a climão do momento que se passava naquele dia. Que ironia. Ao som da bateria, das canções e dos gritos, a mãe de Edgar perguntou:

– Quem é esta moça risonha que você tanto conversa, Edgar?

– Meu nome é Daniela – respondeu a própria, aproveitando para se apresentar. E logo disse, sem perder a graça de tudo, na ironia do dia (eu disse que era especial) – E é um prazer saber seu nome, Edgar. Quer saber? Esquece tudo, eu vou embora porque isto aqui está tudo muito errado. Eu vou aproveitar meu carnaval e você deveria fazer o mesmo, com os vagabundos! – E, ainda rindo, Daniela foi embora, sem antes se despedir da Mulher Maravilha mãe de Edgar e do próprio que, encabulado com tudo, despediu-se também, com um um breve sorriso de uma derrota justa. Dolorida, porém justa. Felicidade, afinal, naquele dia que começou como qualquer dia, que veio de contradição e iroinia e, por ser assim, da raiva virou alegria de carnaval. Piada, afinal, piada do dia, história de folia e nada mais. Sumindo com o povo ao som da bateria.

Edgar, que agora ria, não poderia fazer mais nada. Perdeu, admitiu sem querer que, naquele dia, sua mãe que com muita ironia, teria de aparecer no momento errado, na hora errada, na rua errada, para provar que ele também estava errado. E Edgar desistiu de trabalhar para aproveitar o dia, como a gente ali, no carnaval, com calor e cerveja, com sol e com samba e torcendo pra que, no final, o dia não fosse terminar. E não viu mais Daniela, também, que no meio do povo e da festa foi embora por entre a multidão. Sumiu, talvez não, naquele dia, deixou de existir, junto com todo este causo. Ou será que sempre existiu?

E foi a festa, foi o carnaval, passou a folia e passou o bloco, como sempre, pelas ruas esburacadas do Centro. E Edgar tentou procura-la, outros dias, no misto de desculpas e admiração, querendo reencontrar quem, naquele dia, fez o dia dele mudar. Retornou na rua outras vezes, recriou os seus passos mas, em contraste com aquele dia, agora, não havia mais ironia do universo para, como naquele grande dia, faze-los se reencontrar. Talvez, quem sabe, por ironia, assim, como tudo começou, Daniela apareça no próximo carnaval. E aí não será mais no momento errado, muito menos a moça errada. Que dia, afinal! Que dia de carnaval!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s