A mentira do PS4 e o que eu acredito sobre a Sony

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Eu comecei a escrever um post sobre as 7 coisas que você poderia comprar se não gastasse 4 mil reais no novo PS4, mas acabei percebendo que absolutamente todo mundo no universo estava fazendo isto, então seria apenas repetitivo. Aí, para não perder o embalo, passei a analisar outro ponto desta atitude ridícula da Sony: a questão do próprio preço em si. E é por isto que eu resolvi fazer este pequeno post, aqui, comentando o que eu acredito que a empresa tenha tentado fazer para cobrar tanto num console e que, talvez, não dê nenhum sucesso em termos de venda.

Se alguém vive em outro universo e ainda não sabe de nada, esta semana a Sony anunciou os preços do seu novo console, o PS4, onde aqui no Brasil ficaria em torno de 4 MIL REAIS. Sim, isto mesmo e sem nenhum erro. A empresa anunciou na cara de pau, sem rodeios, que lançaria aqui no nosso solo brahmeiro um vídeo game que custa o mesmo preço de uma viagem para a Europa. Não bastasse isso, a Sony ainda deu uma justificativa meio estranha e confusa sobre o fato de que terá de pagar muita grana pela importação do produto e, por isto, há um custo elevado no console quando ele entra em território brasileiro. Sabe quando a emenda sai pior que o soneto? Pois é, foi o caso da Sony. Em meio a muitas “meias verdades”, a empresa se aproveitou de uma reclamação quase unânime do brasileiro – a carga tributária – para justificar o preço mais abjeto possível para um vídeo game. No entanto, pelo que eu acabei percebendo nas redes sociais, o tiro meio que saiu pela culatra e ninguém engoliu a história rocambolesca.

É uma coisa que geral concorda, afinal, todo brasileiro sofre – e muito – na mão da tributação maluca. Todos nós somos vítimas do imposto ridículo nacional que, para o bem da verdade, não vemos aplicação prática nenhuma. Pagamos, na teoria, para o Estado prestar uma série de serviços à população, mas o Estado brasileiro glutão arrecada uma caralhada e não presta os serviços que deveria. Aí vamos lá e pagamos de novo a iniciativa privada para compensar os furos estatais e, como de costume, acabamos desembolsando duas vezes pelo mesmo serviço; não só isto, ainda assim, sofremos também na mão de uma legislação cagada e um judiciário inerte, onde a iniciativa privada por muitas vezes se apoia em muitas “brechas legais” para foder com o consumidor e fazer as maiores estripulias do mundo nas margens de lucro exorbitantes, além de cartéis e/ou monopólios (como no caso da aviação) que dificultam a vida da população. Estamos fodidos de qualquer maneira e esta é a real. Aí, por causa desta situação, vemos empresas espertinhas tipo a Sony, usando isto para lançar um vídeo game de 4 mil reais e parecer inocente quando, na verdade, ela é uma cúmplice – junto com o Estado – criminosos morais programados para lesar o brasileiro, no mundo público e privado, criando uma das sociedades que mais paga caro e menos recebe serviços e produtos condizentes com os seus valores. Quer um exemplo? Então leia aqui aqui.

Quando a Sony diz que a culpa do valor é APENAS dos impostos, isto é uma meia verdade. É sabido, sim, que há impostos ridiculamente inexplicáveis em qualquer operação exercida no Brasil (ainda mais de importação) e que isto dificulta a vinda de produtos de fora com valores competitivos. Mas ainda assim, NADA justifica o aumento da Sony perante outras regiões do mundo. Um vídeo game que vai custar cerca de 400 dólares nos EUA (o que daria mais ou menos uns 900 reais aqui no Brasil) NUNCA, com NENHUM IMPOSTO DO MUNDO conseguiria pular para um valor quase QUATRO vezes superior ao de seu país de origem. Ou seja, se o produto custa 900 reais nos EUA e vem importado de lá, com MUITA força de cálculo, considerando todos PIS, CONFINS e INS e ISOS e ISSMCEs e ICMS e qualquer sigla que você quiser digitar aqui e TUDO, absolutamente TUDO que o governo brasileiro cobra, ainda assim, inflaria o preço em  mais ou menos uns 120%. Ou seja, dos 900 reais iniciais, teríamos um vídeo game que, importado e tributado, custaria em torno dos 1.800 ou 2.000 reais, extrapolando muito. Preço caro, sim, mas inteiramente “justo” para um lançamento como este. Mas e aí? E aí que ainda faltam nada mais nada menos do que DOIS MIL REAIS que a Sony simplesmente não explicou:

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E a mentira não para por aí. Quando a Sony no auge do seu coitadismo falou sobre este cálculo de tributação e jogou a batata pro governo brasileiro, alegou que era ridiculamente caro importar produtos de fora para dentro do Brasil. Mas pera aí, cara pálida, por que importar? Caso vocês não saibam, o PS3 JÁ É FABRICADO NO BRASIL faz um tempinho (Duvida? Leia aqui). Ou seja, se a linha anterior já é fabricada aqui, diminuindo os custos de produção e tributação, por que a linha nova TEM DE SER IMPORTADA? Se a Sony alega que o problema de tudo são os impostos, afinal, por que não produzir aqui, se eles JÁ produzem vídeo games no Brasil? Mal contadíssima esta história da Sony, né não?

Eu trabalhei alguns anos com informática e digo, em determinados casos é muito comum a empresa subsidiar um produto para lucrar em outro. Ou seja, uma empresa de impressoras, por exemplo, pode acabar trabalhando com o lucro da impressora em margem negativa, justamente para esta mesma impressora chegar ao consumidor final com um preço ridiculamente baixo para, assim, o cliente comprar o produto e depois torrar a grana em cartuchos. E são nestes cartuchos que a empresa faz a festa, vendendo aos montes e pagando o preju da impressora e tirando MUITA grana na venda; não a toa que – você pode perceber – há campanhas fortíssimas das próprias empresas pelo uso de cartuchos originais; isto porque, não fosse aquele tubinho de tinta de 2ml custando 65 reais, a empresa não teria lucro algum. É uma atitude comum e interessante porque, no final, os dois saem beneficiados, tanto empresa que vende mais e consumidor que fica feliz e (acha que) paga menos. Mas isto acontece quando todo ciclo dá certo. Como no caso das impressoras, o que aconteceria se os clientes comprassem apenas cartuchos compatíveis? Pois é, isto mesmo, a empresa tomaria no cu e passaria a cobrar uma fortuna pela venda da impressora, para lucrar diretamente com o hardware.

Todo mundo sabe que (mesmo que a Sony negue e diga que foi tudo dentro do previsto) o PS3 deu um cambalacho tremendo para a empresa. Ele era um vídeo game maravilhoso em termos de tecnologia, mas tinha um custo de produção caríssimo. Isto fez com que a Sony acabasse, basicamente, fazendo o mesmo do que o caso das impressoras: ela colocava o preço do console abaixo do custo – para sair barato para o consumidor geral – mas pagava uma grana cobrindo esta diferença, que ela esperava ser recompensada de outras formas, como a venda de jogos exclusivos, uso da PSOnline e afins. Só que as vendas do PS3 complicaram em alguns pontos. O primeiro que, justamente por ser caro, ficou anos atrás do seu concorrente, o Xbox, que visivelmente tinha uma qualidade gráfica mais limitada, era um video game cheio de problemas de tecnologia, mas era absurdamente mais econômico e conquistou alguns mercados fortemente, principalmente nos EUA (um dos mercados de games mais fortes do mundo), na América Latina e os piratões; as vendas do PS3 só foram passar o Xbox quando a Sony conseguiu baixar os custos de produção do console e, desta forma, vende-lo AINDA mais barato para o consumidor final, com um preço muito mais agressivo e, provavelmente, muito mais nocivo para a própria empresa (dúvidas, leia aqui, aqui e aqui). O segundo ponto era a própria compensação de cálculo; partindo do pressuposto que o console do PS3 trabalhava em valores negativos, a empresa deveria fazer algum tipo de meta para compensar o prejuízo da própria venda do vídeo game; ou seja, após cada comprador do PS3 possuir X jogos originais, desta forma, o vídeo game passaria a ser “compensável” para a empresa, saindo do valor de -Y para +Y.  Mas isto pode ter sido um erro estratégico e que, inclusive, ajuda a demonstrar porque o setor de games da Sony trabalhou durante muitos anos no negativo, dando preju para a empresa (leia aqui e aqui).

O que eu quero dizer com isto é que, por toda esta bananice que rolou no PS3, MUITO PROVAVELMENTE a Sony resolveu não se foder com o lançamento do PS4 – alias, como diz uma das reportagens que eu postei, o próprio setor de games da Sony “…considera não sofrer o mesmo prejuízo inicial que sofreu com o PS3 para o PS4…”. E, desta forma, tentará ganhar mercado da concorrência sem trabalhar com a margem negativa, tentando não subsidiar o vídeo game. Mas, julgando que a produção do PS4 não deve ser barata, baseado no fato de que a produção do PS3 demorou anos para baratear, eu acredito que, para conseguir fazer o preço acessível para mercados que a Sony tenta disparar, como nos EUA (onde o Xbox ainda é muito forte), ela tenha colocado o preço abaixo do lucro novamente mas, evitando o prejuízo, esteja tentando compensar gerando um lucro ABSURDO nos países latinos, para cobrir o prejuízo dos outros mercados. Afinal, não é só no Brasil que está caro este vídeo game; na Argentina, um país em crise eterna, o console custará cerca de 3 mil reais, que também é completamente ridículo e abusivo, julgando que o poder de compra dos argentinos é menor do que os brasileiros. Não só nestes dois países, enfim, o PS4 chegou uma fortuna em quase toda América Latina (comparando com o poder de compra de cada população, claro), tirando um ou outros casos. É visível a tentativa da Sony em nos foder, de um modo geral, sendo possivelmente a América Latina o local onde a empresa vai trabalhar com a maior margem de lucro do mundo. Se o video game chega a cerca de 900 reais nos EUA – 300 e poucos dólares para o consumidor de lá – por que na Argentina chegará a quase 3 mil reais, na Colômbia e Peru quase 2 mil reais e no Brasil no ridículo valor de 4 MIL REAIS? Sim, há a defesa da “tributação local”, como eu disse, mas ainda assim, é uma diferença que sai dos olhos de qualquer cálculo.

Pode acreditar, eles vão lucrar pra caralho.
Pode acreditar, eles vão lucrar pra caralho.

Como eu disse, as empresas são escrotas, o governo também é escroto e todo mundo sabe disso; não é novidade para ninguém com mais de 10 anos. Mas por que as empresas AINDA ASSIM tomam este tipo de atitude, mesmo sabendo que, de uma forma ou de outra, a imagem delas possa ser prejudicada? Talvez isto seja reflexo dos anos de vira-latice dos latinos que, pra pagar pau de gringo, compram qualquer coisa importada caríssima para se achar. Não a toa as Apples da vida e marcas de carros populares joguem o preço lá em cima quando vem para cá. Culpa do imposto? Sim, encarece muito as coisas. Mas, mesmo assim, absolutamente TODAS empresas gringas vem para cá e trabalham com margens de lucro completamente despropositadas, que não se aplicam EM NENHUM OUTRO LUGAR DO MUNDO (Ainda duvida? Leia aqui e aqui, então). Porque sabem que aqui tem otário pra pagar qualquer preço, se prostituir e se matar por um perrengue tecnológico que custa mais que um rim, só para, em um ato de puro status, dizer para os amiguinhos que possuí o objeto, que gastou rios de dinheiro por isto e que, além de tudo, é o “malandro dos malandros” por poder gastar tanto em algo superficial e superfaturado. Você sabe aquele conceito de Lovemark que as empresas não criam um simples símbolo, mas algo que desenvolva um sentimento emocional nos seus consumidores? Pois é, somos assim. Tudo que é merda de marca vem para o Brasil, o país dos eternos apaixonados, faz meia dúzia de campanhas e convence os otários locais que brigar por marcas e definir sua personalidade por um logo feito por uma equipe de design que nunca vai te conhecer na vida é algo completamente natural. Por isto que vemos malucos defendendo a ferro e fogo determinadas lojas – os famosos fanboys – ou fazendo maluquices extremas, como se, no final de tudo, não estivessemos falando de um produto, mas de um amiguinho animado que te custou uma fortuna e que você comprou para te dar amor:

Fila do Iphone em Sydney. Teve brasileiro viajando 30 horas pra comprar um celular lá, antes de todo mundo.
Fila do Iphone em Sydney. Teve brasileiro viajando 30 horas pra comprar um celular lá, antes de todo mundo.

São estas atitudes lamentáveis que fazem com que nós, brasileiros babacas, sejamos explorados por qualquer empresa. Seja Nike, Starbucks, enfim, o que for de outro lugar e vier para o nosso solo, pode enfiar o dedo no cu de todo mundo e cobrar o preço que quiser e, ainda assim, vai ter gente pagando um pau tremendo e se matando horas na fila, achando fantástico e edificante. Quando eu vi o preço do novo PS4, torci com forças para que tudo isso fosse um completo fracasso aqui e a Sony voltasse com o rabo entre as pernas. Mas duvido muito; provavelmente terá filas e filas de pessoas se matando para desembolsar 4 mil reais e comprar o console ainda na semana de lançamento. Mais ainda, provavelmente terá gente SE EXIBINDO de pagar 4 mil reais – o preço mais caro DO MUNDO – e achando que isto é sinônimo de esperteza e malandragem. É triste mas é realidade; e a Sony sabe. E por isto tomou esta alternativa. Fim de papo. Marketing e estratégia. E nós engolimos que nem pato.

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2 pensamentos sobre “A mentira do PS4 e o que eu acredito sobre a Sony

  1. Cara, parabéns pelo texto!
    Bom mesmo é se todo mundo que fica reclamando nas redes sociais parasse pra ler seu texto e refletir um pouco sobre como a coisa é beeeeem mais profunda do que parece! Ao menos usar todo o burburinho pra entender um pouco mais sobre o funcionamento do sistema que alimentamos diariamente.

    abraço

    1. Obrigado, Olivia!

      Pelo menos, no caso do PS4, ao que parece, a coisa não vai ficar assim. Parece que a Sony vai se pronunciar sobre o preço, na próxima semana, porque muita gente reclamou.
      Desta vez ninguém engoliu a história!

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