Rio90

[Atenção: este post não visa discutir política, história ou tampouco se aproveitar de uma situação para realizar alguma análise social filosófica. Trata-se apenas de uma constatação cabal: games se utilizam das situações mais adversas para bolarem roteiros para seus jogos, passando por conflitos históricos ou temas complexos e muitas vezes polêmicos. Assim como o que será escrito nas linhas abaixo.]

Este é um post e nem eu sei bem o que quero com ele. Se é uma ideia, se é algo concreto ou se é pura viagem bizarra de ácido. Enfim, foi uma coisa que se discutiu brevemente em uma comunidade no qual eu participo (créditos no final ao autor da ideia original*) e, obviamente, foi algo genial demais para definhar e morrer, assim, num fórum online. Então, no mínimo dos mínimos, eu resolvi fazer o registro virtual sobre esta ideia porque é, antes de tudo, brilhante pra caralho. Ideia de gênio mesmo, coisa de magnata do pensamento que bola altas parada mirabolantes, Einstein moderno. Provavelmente alguém já deve ter pensado algo parecido no mundo, sei lá, foda-se, isto precisa ser replicado e enviado para todas nações, até que alguém adote e possa efetivamente bancar o “projeto” (já dá para chama-lo assim, sim) e venha a tirar a ideia do papel.

Primeiramente, claro, é importante demonstrar o motivo da inspiração mais básica para isto:

Sim, amigos leitores, ele mesmo. O jogo que ganhou status de filme, que custou e arrecadou mais do que muita produção de Hollywood, uma das franquias mais engenhosas e fodas do mundo dos vídeo games, ele mesmo: GTA. E, em especial, seu mais novo lançamento, conhecido como GTA 5 (ou V).

Mas, não só ele como inspiração, toda indústria de jogos e vídeo games, principalmente os famosos jogos de “mapa aberto” (como Skyrim, Fallout etc.), esta ideia que surgiu no fórum corre na mesma esfera: vislumbrar que há um mercado enorme para diferentes jogos, muitas novidades muito boas por aí mas, mesmo assim, a indústria dos games ainda não se “arrisca” ao ponto de bancar um projeto ou inspiração tão foda quanto o que a gente pensou, discutindo virtualmente sobre games e situações mirabolantes do país que vai ser sede da Copa.

Veja bem, o que estou dizendo é muito óbvio e fácil de entender. Há um mundo enorme de jogos cada vez mais lucrativo e com melhores condições mas, ainda assim, a indústria aposta nas mesmas propostas, os “portos seguros” de sempre. Olhe os grandes nomes dos games (principalmente o mercado americano/europeu) e compare, 99% deles contam com algum tipo de clichê clássico dos filmes de outrora: ou possuem histórias de ação mastigadas, ou exploram alguma correlação meio estranha com universos sobrenaturais, ou falam de lutas épicas, entre outros, há sempre a construção de um estereótipo bem padrão do cinema. E, não só isto, ainda recorrem a algumas outras manobras de segurança que não ajudam a desenvolver o mercado de uma maneira mais heterogênea. Digo isto porque é quase que inevitável que TODOS os jogos possuem o mesmo universo, com personagens e/ou cidades americanas. Tirando algumas apostas de novos cenários, como Max Payne 3 e um que outro, ainda assim, o universo do game é americanizado, ou baseado em filmes e séries americanos. Isto que, mesmo no exemplo de Max Payne, mesmo o game se passando longe do solo yankee, ainda assim, o personagem principal é estereotipadamente de lá.

Isto, por um lado, apresenta algo bom, evidentemente, jogos com cara de filme, no final das contas; games deixaram de ser um mercadinho infantil e passaram a ser uma indústria do entretenimento para jovens e adultos. Mas, da mesma forma, limitaram o conceito criativo de muitos games. Você já parou para pensar que uma franquia enorme como o próprio GTA sempre se passou em cidades que recriam o universo americano? Ora lembrando Los Angeles, ora lembrando Nova Iorque, ora lembrando uma mistura de diferentes cidades, enfim, sempre o mesmo universo dos States. É maneiro? Sim, maneiríssimo. Mas, você não se sente em um constante looping? Uma repetição dos mesmos atos em busca dos mesmos significados com as mesmas realidades…sempre? Você já imaginou se algum dos GTAs acompanhasse uma cidade fictícia que imitasse uma cidade brasileira, ou até mesmo uma cidade latina? E é justamente sobre isto que estávamos pensando no fórum:


Pode parecer piada, mas é genial demais para ser ignorado. Você já reparou como a situação caótica do Rio de Janeiro, principalmente nos anos 90, não é o cenário ideal para um jogo de “mapa aberto” fantástico? Ligue as pontas e verá que está tudo lá desde sempre, apenas esperando um investidor maluco. A indústria do cinema já fez isto, alias, e gerou uma das franquias brasileiras mais lucrativas da história:

Sim, Tropa de Elite, meus caros. Vá lá, a história se passa ali em meados de 2000 mas, ainda assim, é a apropriação máxima de uma situação PURAMENTE brasileira pra provar que, sim, nós podemos gerar muito cenário mainstream FODA com a nossa realidade urbana caótica. Se Tropa de Elite despontou nos filmes utilizando esta realidade, o que você imaginaria de um game estilo GTA se passando no Rio de Janeiro, ainda mais nos anos 90, o auge da “guerra dos morros” carioca? Você já parou pra pensar no cenário fértil e inteiramente criativo que isto demanda?

A história de TODOS os GTAS, basicamente, sempre se desenvolveu através de gangues, conspirações, corrupção, roubos, mortes, enfim, uma série de crimes todos interpretados pela(s) realidade(s) da(s) cidade(s) americana(s), enquanto nós, aqui, com este cenário fértil e cheio de possibilidades, ainda não arrancamos absolutamente nada na área? Como assim, cara pálida?

Tente fazer uma imagem mental do que nós imaginamos na discussão do fórum:

– O Rio de Janeiro dos anos 90 tinha N facções brigando em N morros diferentes, possibilitando UMA INFINIDADE de histórias paralelas de diferentes personagens em diferentes localidades e com diferentes realidades, todas convergindo no mesmo game épico.

– O Rio de Janeiro dos anos 90 tinha um problema sério com a violência das torcidas organizadas, podendo incluir histórias paralelas sobre o assunto facilmente e explorando ligações de roteiro entre o morro e o asfalto.

– O Rio de Janeiro dos anos 90 tinha N bicheiros dominando uma infinidade de serviços da cidade, podendo facilmente gerar um número ímpar de histórias sobre o tema e explorando o cenário de corrupção do governo para gerar um roteiro cheio de viradas e situações mirabolantes.

– O Rio de Janeiro poderia retratar, além dos itens citados acima, casos de corrupção policial, casos de sequestro, casos de brigas, casos de mortes, casos de protestos, colarinho branco, enfim, MUITA coisa; muita coisa MESMO.

A situação distópica que se encontrava o Rio de Janeiro nos anos 90 é, sim, um terreno de sem-fins de idéias para um jogo fantástico. Você já imaginou entrar na pele de um bicheiro psicopata tentando garantir que o seu bairro continue seguro para que você possa cometer seus crimes sem ser incomodado por rivais ainda mais psicopatas que você? Ou entrar na pele de um policial corrupto que comete uma série de crimes para ficar mais rico e subir na carreira da corporação de maneira ilícita? Ou ser o dono de um morro e entrar em guerra com traficantes rivais, trocando tiros no meio da cidade? Isto, sem contar na possibilidade infinita de histórias paralelas “menores” mas também muito criativas. Imagine o personagem participando de uma Torcida Organizada com a missão de instaurar o caos na cidade em dia de clássico? Ou uma missão de aprender a pilotar helicópteros da polícia pelos morros cariocas? Ou dirigir que nem um alucinado em uma pista da Linha Vermelha, em uma perseguição épica de entre traficantes vs policiais? Meu amigo, o Rio de Janeiro dos anos 90 é O MELHOR CENÁRIO DO MUNDO para um jogo fodástico. E tenho dito.

Não à toa já tentaram recriar:

Sim, isto mesmo, o polêmico CS foi o precursor desta ideia genial. Todo o bafafá gerado pelo jogo e, em especial pela fase no Santa Marta, tinha um motivo: JOGAR NUMA FASE DO RIO DE JANEIRO ERA FORA PRA CARALHO! Pode anotar aí, pode ter certeza absoluta, não haveria polêmica ALGUMA por esta fase em questão, não fosse o fato de que, claro, ela era um dos melhores cenários do CS em TODOS os sentidos. Misturava conflito urbano com natureza, a favela, as músicas, os pontos para se esconder, os espaços abertos, tudo ali era uma sintonia perfeita pra uma fase foda de vídeo game. E convergia tudo para uma batalha sangrenta entre Terroristas e Contra-Terroristas, recriando a violência que já era comum nos morros, ilustrada em um game que, embora polêmico, não mostrava nada de diferente da realidade.

E isto nos leva ao ponto crucial do debate: o Brasil nos anos 90 era um caos geral em diferentes cidades, como São Paulo com o PCC, ou a Indústria da Seca no Nordeste. Por que escolher o Rio, então?

Esta escolha se ilustra, principalmente, em dois pontos:

– Primeiramente pela geografia completamente peculiar da Cidade Maravilhosa. Como a gente já conseguia ver ali no CS de 2000 e poucos, o fato de juntar morros, mato, cidade, planos com subida, descida, planos retos, curvos, enfim, possibilitam uma gama ENORME de cenários incríveis para um jogo pica das galáxias que proporcione horas e horas de diversão em vários lugares diferentes dentro da mesma cidade. Imagina o player amarradão fazendo um parapente costeando a Pedra da Gávea? Ou o cara alucinado descendo a Vista Chinesa de bike e metralhando a galera? Ou fazendo isso numa perseguição frenética contra rivais:

– O segundo ponto, a escolha dos anos 90, foi feita justamente para explorar o auge da violência urbana carioca. Os conflitos entre traficantes nos morros, a PMERJ no auge de casos de corrupção, as brigas entre Torcidas Organizadas, os Bailes Funk, os arrastões, as blitz falsas. Muita, MUITA coisa foi sinistra naquela época e, no mundo real, isto era uma merda completa. Mas no mundo virtual do vídeo game, fala sério, isto é um campo fértil para um game incrível. Não à toa existem mil jogos da Segunda Guerra, porque os players adoram trocar tirinho na tela. Você imagina que com aquelas ganguezinhas singelas americanas os caras já foram capaz de criar games monstros como GTA, agora imagina se eles resolvessem recriar a realidade de um morro carioca, com os malucos dando tiro antiaéreo em helicóptero? Ai sim, amiguinho, teríamos um cenário de conflito urbano sem precedentes. E é neste clima nostálgico, do que foi bom e o que foi ruim no Rio dos anos 90, que embasamos nossa ideia criativa de recriar aquele cenário em um game de “mundo aberto”.

Se CS teve a criatividade de inovar, tinha a impossibilidade da tecnologia da época, como a própria imagem acima deixa aparente as limitações gráficas. Mas e agora? A nova geração de games que já traz umas surpresas sinistras, como o novo Assassin’s Creed, desenvolvido num cenário rico em detalhes e mais detalhes e do tamanho de um gigante interminável; as novas engines vão ser o terreno fértil para explorar jogos com uma ideia fantástica, como nossa proposta do Rio90. Se em outras épocas havia a impossibilidade lógica de fazer um game destes, hoje não existe mais. Caro leitor, até EU SOZINHO consigo fazer um jogo de ponta hoje em dia. Dúvida? Clica aqui, então. Se eu, com um software gratuito e totalmente sozinho consigo modelar e criar um cenário e um projeto complexo, imaginem a capacidade destas empresas ridiculamente grandes, tipo a Rockstar ou Bethesda? Imaginem as possibilidades ABSURDAS de games fantásticos para a próxima geração de consoles…e eles sequer pensaram uma ideia como a nossa!

Explorar um cenário tão rico como o Rio de Janeiro não é nem uma questão de aproveitar o momento, já que geral atualmente fala do Rio – que virou os olhos do mundo – mas uma questão estratégica. Uma questão de uma empresa com colhões vir e colocar a ideia em prática, bancar e falar “eu vou sair do cenário tradicional americano e fazer um jogo FODA no Brasil“. E há plenas condições de ser positivo, em uma cidade geograficamente infinita para se criar mil e um padrões de coisas, de missões, de histórias, todas explorando este cenário belíssimo. Imagina um game como GTA passando por lugares deste naipe:

Não existe um motivo plausível para avaliar que este não é o melhor cenário do mundo para um jogo de ação em “mundo aberto”. Se há um estudo enorme em cada lançamento para fazer todo um levantamento de área e bolar um universo condizente e cheio de vida, para o player perder horas e horas navegando nas mais diferentes e realistas ruas do game, rapazinho, o Rio de Janeiro já bolou um mapa incrivelmente complexo para dar inveja em qualquer desenvolvedor. São anos e anos de vielas, becos, ruazinhas, grandes avenidas, pequenas praças, pontes, casarões, subidas, morros, descidas, casebres, cenários diferentes, edifícios monstruosos, regiões antigas, regiões modernas, enfim, um mapa natural tão imenso e inacreditável que é praticamente IMPOSSÍVEL compreender porque ninguém nunca fez um “mapa aberto” sinistro daqui. São 5 versões de GTA e até hoje nenhuma possibilidade de sair das mesmas cidades americanas; cadê o feeling, cara pálida? Cadê um diretor para jogar geral pra baixo e falar que foda-se tudo, o próximo GTA vai ser no Rio de Janeiro e pronto?

E é por isso que, mais uma vez, eu início uma campanha imbecil e megalomaníaca para tentar colocar algo em prática que é tão mirabolante e gigantesco que está fora da minha alçada. Desta vez, vou convencer a Rockstar a produzir esta ideia, porque Rio90 tem TUDO para dar certo. Basta a grana que eles gastam para produzir um jogo destes, milhares de pessoas trabalhando no projeto e muita, muita criatividade. Mas isto não é um problema, porque a Cidade Maravilhosa já ajuda com sua singularidade heterogênea.

E aqui que nós encerramos este artigo. Comigo tentando ser ouvido pela Rockstar, ou qualquer outra gigante dos games, tendo a CERTEZA de que se alguém abraçar minimente esta ideia, há a possibilidade de bolar o maior jogo do mundo. Papo sério. Fui!

*Os créditos da ideia original onde se desenvolveu o post vão para Bernardo Kaiser, por ter esta brilhante visão sobre um game no Rio de Janeiro dos anos 90

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