Isto não é um cachimbo

Pois é galera, eu venho postando relativamente menos do que o comum nestas últimas semanas. Isto, entre outras coisas, pelo fato de estar fazendo dois cursos EAD – um de desenho e outro de filosofia e sua relação com a arte – além de estar fazendo, também, alguns bicos para sobreviver. Como as coisas me consomem tempo, obviamente, o(s) blog(s) acabam ficando de lado. Mas, mesmo assim, não pretendo abandonar ninguém e, inclusive por isto, resolvi colocar uma questão que acabou surgindo no meu curso sobre filosofia e arte mas que, coincidentemente, já havia me atormentado anteriormente nas últimas semanas: qual a diferença na existência do real e do imaginário? O imaginário existe ou não, afinal?

Isto não é nada novo, Foucault e outros filósofos já debateram em campos parecidos, a imagem acima de René Magritte também se propõe a questionar isto mas, de maneira mais enfática e prática, quem melhor colocou este exemplo foi o cineasta Haneke, no(s) seu(s) filme(s) Funny Games (que eu escrevi um pouco a respeito aqui). Em um dado ponto da obra [ATENÇÃO PARA O SPOILER] um dos personagens, um dos assassinos, após longo diálogo metafísico, acaba questionando o outro assassino:

– Qual a diferença do real para a ficção? A ficção não existe?

[FIM DO SPOILER]

É simples, mas não é. No primeiro momento, o indivíduo pode armar a resposta que lhe pareça mais coerente e prática, alegando algo como “é claro que a ficção não existe, ela não é tátil, ela fica reclusa a uma obra
universo
exclusivo e não sai dele!“, ou qualquer argumento do gênero. E, em partes, este indivíduo e esta afirmação não estão enganados. Você não pode tocar nos personagens de Haneke, por exemplo, não é? Eles são assassinos apenas no filme, eles estão lá na telinha e só nela, longe da “realidade” de quem assiste e que, fora daquele período como espectador, ainda assim, possuí toda uma vida real. Mas é justamente sobre esta afirmação aí de cima que mora a ideia principal deste questionamento, onde fica a dúvida que encontramos e que o próprio filme de Haneke, ou a obra de René lá no início do texto, pretendem chegar: o que é existência?

Voltemos, então, ao cachimbo, para entender melhor o debate sobre a existência.

Quando vemos a figura do objeto (o cachimbo) ali exposta, está bem claro todos os elementos compostos no quadro: (a ilustração de) um cachimbo e uma frase escrita “isto não é um cachimbo“. A proposta da obra, embora de execução simples é, justamente, acirrar o debate do real x imaginário com uma simples ironia, um “gatilho” que desperta a discussão para os mais diferentes olhares e espectadores que observam o quadro de diferentes formas.

Aquele indivíduo que eu citei acima no caso do filme do Haneke, que nega a existência da ficção por, em um motivo óbvio, não ser algo tátil e não ser “real”, agora poderá, aqui, na obra de René, encontrar a amplitude deste debate em contradição ao seu argumento inicial, justamente pela “ironia” da pintura de Magritte. Isto porque a contradição dos fatos apresentados nos coloca em parafusos ideológicos e filosóficos, afinal, conseguimos VER o cachimbo, conseguimos IDENTIFICAR que é um cachimbo, percebemos TODOS os elementos que, sim, ali afirmam que a ilustração trata de um cachimbo e ponto final. Mas, ele existe ou não? Se o identificamos como um cachimbo ele não existe enquanto cachimbo?

Se considerarmos em essência a não transposição do mundo real, físico e tátil, iremos acabar concordando com a frase abaixo da ilustração, pois aquilo não se trata de um cachimbo, mas de um conjunto de representações imagéticas que, por consciência da nossa interpretação enquanto seres pensantes que conseguem organizar uma linha de raciocínio, nos dá a possibilidade de VER um cachimbo mas que na verdade não É um cachimbo; isto porque uma pintura, sob a lógica simplista que separa o mundo real do imaginário, não passa de um objeto que, na teoria, é apenas um amontoado de tinta e papel organizados sob uma forma DE algo, mas que não realidade não É algo. Complicado, não? Nem tanto.

É nesta confusão de VER e SER que gira a obra de René, por mais simples que a ilustração faça parecer. Vemos o cachimbo, não é? Então ele passa a SER um cachimbo, porque assim o visualizamos como tal? Nesta proposição, conseguimos entender melhor o que Haneke quis dizer em Funny Games, onde a existência extrapola o campo físico (do objeto tátil) e, por muitas vezes, entra em um limbo confuso aonde o real e imaginário são figuras de um mesmo universo, colidindo para um mundo metafísico muito mais complexo do que pensamos ou conseguimos imaginar rotineiramente. Afinal, se um objeto imaginário – como no caso da ilustração do cachimbo – passa a ser interpretado como objeto, ainda que não extrapole o campo do imaginário, ele já não existe de alguma forma? E, por este exemplo, temos as próprias mitologias antigas; ainda que elas sejam atualmente comprovadas como mitologias, ficção, um mundo imaginário, a obra que as originou EXISTE, o universo mitológico EXISTE, as criaturas mitológicas EXISTEM, mesmo que apenas na nossa imaginação, estão lá e existem sob a forma de algum objeto fictício e imaginário. Ou podemos negar, também, os nossos exercícios de imaginação?

Se voltarmos ao cachimbo, que não é cachimbo, mas talvez seja cachimbo, sob a óptica de perceber o imaginário, como podemos negar que ele existe? Afinal, não podemos toca-lo, tudo bem, mas ele está ali, criado e exposto, em contato conosco e reagindo com o espectador que o observa e analisa, mesmo que não em objeto físico, ainda assim, nos permite saber que se trata de um cachimbo. Ou seja, ele existe, sim, mesmo que não no “mundo real”, mesmo que você considere que, apesar de tudo, ele ainda é uma “figura imaginária” de uma ilustração, esta ilustração ainda existe e está lá, sendo a interpretação de um cachimbo. E, por isto, entramos num debate mais complexo ainda: como algo pode existir (no imaginário) e ao mesmo tempo não existir (no real)? É uma existência que acaba negando a existência ou, novamente, concordamos (mesmo sem perceber), com a afirmação de Haneke, que a ficção e o real existem da mesma forma em um limbo esquisito metafísico?

Percebemos que nosso debate que parecia simples, começa a entrar numa esfera metafísica e metalinguística bizarramente confusa. Metalinguística? Sim, claro, a linguagem falando da linguagem, embora você talvez não perceba. Isto porque, pensando na lógica mais simplista, o debate da obra de René só existe por causa da própria frase abaixo da imagem. Fosse apenas o cachimbo desenhado, ninguém sequer discutiria a “existência” do objeto; o espectador da obra iria olhar a ilustração, iria ver a existência o cachimbo e voilá, pronto, não questionaria absolutamente nada. Mas, através da frase, o “gatilho” para a discussão, é que podemos entrar neste debate, sobre a óptica ainda mais profunda de que, afinal, só conseguimos perceber a existência filosófica do objeto em questão – o cachimbo – quando apresentamos, ali, uma frase que, por ironia…já nega a existência do objeto! Perceberam que coisa cíclica e fantástica? A frase de negação (afinal, ela afirma que NÃO é) da existência do objeto é a principal função que nos leva a crer que o objeto existe! E, por isto, passamos a questionar, também, a linguagem: se ela nega mas acaba afirmarndo ela não está afirmando pela negação? Ou seja, a negação é a não-negação da existência (ou não) do objeto?

É engraçado como uma pequena interpretação sobre uma obra, ou um filme, pode nos abrir um grande debate muito profundo. Se pensarmos numa análise ainda mais dissociativa, o próprio debate existencialista que a obra gera já não nos prova a existência do objeto inserido na mesma? Ou seja, discutir a existência do cachimbo, ou dos personagens do Haneke, já não reforçam o fato de que eles existem de alguma forma (mesmo que não seja no real)? Isto porque você não pode discutir o nada; não o “nada absoluto” enquanto vazio de sua totalidade, por assim dizer, porque ao discutir a existência do próprio nada de uma forma imaginária e simbólica já estamos dando existência ao mesmo; passamos a perceber o nada como “algo”, nem que este “algo” seja apenas um objeto de discussão, de alguma forma, já coloca em dúvida a existência do nada. A própria linguagem nos ajuda a refletir isto porque, ao nos referirmos ao nada como um objeto (sujeito de uma afirmação), já estamos inserindo-o em um campo contrário a não-existência. E, da mesma forma que o nada, ao nos referirmos ao cachimbo de René, ou aos personagens de Haneke – todos frutos de um objeto (sujeito de uma afirmação) – já estamos, de alguma forma, compactuando com a existência do imaginário e, por isto, negando a não-existência da ficção. Ela acaba existindo, não é?

E, desta forma, voltamos ao tópico inicial: afinal, há diferença entre a existência do real e imaginário? Ou o fato do imaginário existir já é o suficiente para podermos considerar sua existência tão “existência” enquanto o real?

Não quero chegar a conclusão nenhuma, apenas abrir meus caros leitores a pensarem!

Boa tarde e continuem me seguindo!

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2 pensamentos sobre “Isto não é um cachimbo

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