Como a gente vai tomar esta cidade na porrada – vamos jantar a cabeça do prefeito!

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Pra quem acompanha o blog, já deve ter percebido que eu escrevi dois textos intitulados de ” Do macaco ao burro” comentando algumas questões sociais, principalmente, ligadas ao processo de perpetuação do establishment. Estava acabando o terceiro, com o nome de “como a exclusividade dos mecanismos de força favorece o establishment“, mas aí o Brasil resolveu entrar em revolução e me pegou de supetão. Então, antes de terminar o texto, resolvi deixar uma breve resenha sobre os eventos que ocorreram em Porto Alegre e no resto do nosso país, ontem; talvez seja menos formal que os outros textos que eu escrevi, mas é impossível tudo isso passar em branco. Segue:

Este é o meu relato dos protestos ocorridos no dia 17 de junho de 2013, em Porto Alegre. Não é o relato dos bundas rachadas da RBS e da mídia tradicional que, mais uma vez, acompanhou tudo como mera espectadora, do conforto de sua distância segura, bem longe e falando merda, enquanto o bicho pegava ali na avenida, pertinho da sede deles.

Eu vi, estive e permaneci na frente do confronto, do lado direito da Ipiranga (sentido bairro-Centro), até a PM conseguir dominar a área com um milhão de bombas de efeito moral e balas de borracha, em uma legítima tática de guerra, parecendo uma incursão de legionários romanos prontos para matar todo mundo. Eu sou testemunha ocular do que ocorreu, de toda a furdunça que tomou conta do Brasil nos últimos dias e, principalmente, desta noite em especial. Meu relato não se trata de “nós e eles“, ninguém me contou porra nenhuma; estou falando de mim, sim, ali no coração do furacão, vendo um bando de animais de farda tratando a população da única maneira que aprenderam: como se ainda estivéssemos na ditadura. Alias, o próprio nome desta corporação já resume sua atividade-fim, afinal, é uma polícia MILITAR determinada para tratar de questões exclusivamente CIVIS. E é só isto que eles sabem fazer, deste sua criação até hoje, como um bom projeto frustrado de milicos que tentam aplicar a caserna na rua.

A coisa já vinha tomando forma há tempos, muitos protestos pela questão da tarifa já tinham rolado e, inclusive, eu havia participado dos grandes protestos que rolaram em Porto Alegre, ali em Abril e anteriormente; inclusive naquele quando a gente passou pelo túnel e tomou o Centro da capital, com umas 10 mil pessoas nas ruas:

Mas, nas últimas semanas a coisa tomou proporções cabulosas, depois que a galera de farda e que usa o lema “servir e PROTEGER” resolveu mostrar as garrinhas; aquela polícia que era bacana no filme Tropa de Elite, agora não faz mais parte da ficção; eles não estão dando porrada no Baiano do filme, não, estão na rua, atacando todo mundo que discorde do que eles pensam (se é que pensam). A PM veio escalonando uma onda de violência que deixou claro a sua função no Estado brasileiro: mandar nesta porra toda, ignorando, inclusive, o governador. Eles decidem, eles fazem o que querem e todo mundo assiste quietinho e bate palma. Depois o governador vai lá e defende os atos da PM, ignora a violência da autoridade e mostra, mais uma vez, que é a putinha que a polícia usa para legitimar esta merda toda.

Quando os protestos começaram lá em Abril, ainda pacíficos, a PM já agredia todo mundo de graça; quando a coisa foi ficando maior, a PM foi ficando criativa, inovando nas formas de agressão. Começou com umas borrachadas em Porto Alegre, aí evoluiu para as bombas de efeito moral em São Paulo, aí passou pros atropelamentos no Distrito Federal e terminou ontem, com a PM a paisana puxando o fuzil no meio do Rio de Janeiro e dando tiros no povo, com a intenção clara de ABATER a população. Mas, por que a PM faz isto? A quem a PM protege? Com certeza não foi a mim, nem as 15 mil pessoas que lá estavam em Porto Alegre, assim como não é a para a grande parte da população, que mal e mal vê estes manés desfilando na rua pra fazer alguma coisa. E, quando desfilam, é pra cometer algum abuso de autoridade padrão.

O protesto de ontem não era nem feito pelo “grupo oficial” (digamos assim, pela falta de termos), que vinha organizando os outros protestos há tempos; ao menos aqui em Porto Alegre. Era organizado por galera comum, umas pessoas aleatórias que nem manjavam muito sobre manifestações. Mais ou menos naquele naipe que os caras da Carta Capital descreveram uns dias atrás (e você pode ler aqui); era pra ser uma manifestação típica de Zona Sul do Rio, com direito a rosas, abraços, caras pintadas, tudo na mais perfeita ordem e progresso, de uma galera feliz por não estar incomodando ninguém, nem o trânsito. Uma manifestação legitimamente pacífica. A possibilidade de problemas superiores a um muro pichado ou umas vidraças trincadas era zero, nula total. Mas iria acontecer igual,15 mil pessoas na rua (ou mais), não importa pelo que seja, é gente pra caralho.

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A reunião, como sempre, começou no Centro Histórico, em frente a Prefeitura. Ali, a massa se reuniu, cada qual com seus motivos, para unir todo mundo e marchar pela cidade, convocando a todos por uma luta que “não era mais pelos 20 centavos“, como todo mundo deixou bem claro durante a semana. Fui com um amigo meu, calmo, tranquilo e da paz. Como a maioria ali, pode-se dizer, estávamos no estereótipo perfeito da Carta Capital, de mudar o mundo com muito amor e na crença do reconhecimento pela maioria, sem precisar de nenhum meio de força para isto; uma noite tranquila, não existia probabilidade de acontecer merda nenhuma. Atentei apenas para um fato curioso: não havia muitos policiais na Prefeitura, como era costume nos outros protestos; isto me preocupou, porque era um sintoma de que eles já estavam mal-intencionados, flanqueando a manifestação para, quando desse bobeira, cagar todo mundo na porrada em um ponto desprevenido.

Eu e meu camarada nos juntamos a massa e partimos em direção a Avenida Borges de Medeiros; era gigante mesmo, muita gente, muito maior que o protesto de Abril. Paramos para descolar um rango ali em algum daqueles botecos do Centro, enquanto aquele mundaréu de pessoas não acabava de passar nunca, sempre aparecendo uma nova onda de gente, todo mundo seguindo rumo a Borges. Muito diferente do que disseram os caros amigos da revista Vejinha, que tentaram desmerecer a manifestação durante toda a semana, não se tratava de apenas “playboys de classe média“; a diversidade pegou bonita e muita gente diferente estava lá, todos putos com a situação do país. Vi motoboy, branco, preto, japonês, uns gringos, gordo, magro, classe média, gente pobre, uns de terno, hippies, anarcos, skinheads, punks, socialistas, direita, esquerda, uns movimentos sociais, uns contra movimentos sociais, alguns partidos, outros contra os partidos. Tinha tudo, parecia a feira da fruta da galera. Provando, mais uma vez, que o estabilshment não fere só uma camada da sociedade, mas TODA sociedade conjuntamente. Estava todo mundo muito puto com os rumos do Brasil, não importa pelo que fosse, cada um tinha a sua pauta para reclamar do país.

Marchávamos todos ali pela avenida Borges de Medeiros e, logo de cara, recebemos o primeiro saldo positivo da manifestação. Em massa, a galera dos prédios colocava lençóis brancos nas janelas, em apoio ao movimento nas ruas. Alguns, inclusive, disponibilizando a senha do Wi-Fi para quem quisesse usar, caso precisasse mandar notícias pela internet, em virtude de algum abuso policial; mas, até o momento, não havia a mínima possibilidade de ocorrer qualquer tipo de confronto, até porque a polícia inexistia na rua.

Dobramos em direção a Salgado Filho e, após, para a Avenida João Pessoa, onde tudo seguia na mais santa paz, sem nenhum tipo de situação que chamasse mais atenção. Em alguns momentos, inclusive, parecia um bloco de carnaval, com a bandinha puxando uma música e o povo curtindo de boa, sem muitas obrigações de porra nenhuma. Reparei um outro detalhe que já dava margem para a emboscada que a PM preparava: havia um helicóptero no ar, rondando todo o protesto desde que havíamos entrado na Avenida João Pessoa; eu não faço ideia se era da PM ou se era de jornalismo, mas um helicóptero rondando manifestação nunca é bom sinal. Se fosse da PM, óbvio, estavam cuidando os manifestantes, calculando os passos e “prevendo” o trajeto para informar ao comando de terra; se fosse de jornalismo, por que eles estariam ali para uma manifestação pacífica? Jornalista só gosta de tragédia, de noticiar a violência e o caos; alguma coisa eles sabiam…

Seguíamos pela João Pessoa e, nela, ocorreram pequenos distúrbios, os primeiros da noite. Alguém subiu na parada de ônibus, alguém pichou uma parede, um outro tentou quebrar um vidro de uma concessionária mas, dentre as 15 mil pessoas, até então, era algo “plausível”. Estes que tentaram fazer merda, inclusive, foram reprimidos pelos outros manifestantes que, como um bom protesto copiado da Zona Sul do Rio, queriam fazer tudo de forma ordeira e bela, como uma grande reedição do clássico Movimento Cansei; qualquer pichação ou subida no ônibus era uma afronta moral ao “direito de protestar correto” (como se isto existisse em algum lugar, em uma cartilha mágica) e rapidamente era coibida pela maioria, que não aceitava a incursão da depredação ao ato pacífico.

Tudo transcorria na maior naturalidade possível, como qualquer aglomeração de massa, ali, tranquilo e na boa, sem maiores problemas que as próprias pessoas não conseguissem resolver entre elas; democracia plena, afinal. Neste ponto, eu conversava com um outro amigo nosso via celular, que estava vindo com a namorada para nos encontrar e marchar com a gente. Quando nos aproximamos da esquina entre a Avenida João Pessoa e a Avenida Ipiranga, encontramos este casal, num postinho que fica ali, ao lado de um monumento maçônico, acho eu. Neste mesmo momento a coisa mudou de figura muito rapidamente e nem deu muito pra explicar; mal este casal de amigos chegou, Porto Alegre começou a pegar fogo. Como eu havia previsto, a PM estava preparando o seu palquinho de guerra lá na frente, ao longo da Avenida Ipiranga; estavam todos fazendo uma linha de soldados, armados com escudos, armas não-letais (como eles gostam de dizer) e bombas de efeito moral. A primeira dúvida veio de cara, afinal, pra que tudo isto em uma manifestação que, até então, não havia tido nenhum ato de violência? Tudo se respondia pela localidade que eles visivelmente tentavam defender; a PM, “curiosamente”, se posicionava na frente de um prédio em especial: a RBS, maior emissora da região SUL (mais adiante eu comento sobre isto).

Na esquina, ainda no posto, como demoramos pra nos encontrar com o casal de amigos, acabamos ficando pra trás. Vi que, um pouco mais adiante da gente, a coisa tomava outra forma; não pelo lado dos manifestantes – que continuavam no seu carnavalzinho fora de época – mas pela polícia que, propriamente, aproveitou uma esquina aonde os grupos se dividiriam naturalmente. Pra quem não conhece Porto Alegre, a Avenida Ipiranga é cortada por um arroio; então, naquele ponto, cada grupo de manifestantes seguia para um lado, dispersando o grosso da massa em grupos menores. Justamente pra pegar todo mundo em pânico e promover o caos, a PM sabiamente se posicionou para alvejar o povo onde pudesse atingir menores grupos em diferentes momentos; eu estava ali no meião, não via muita coisa naquele momento de início, porque só dava pra ver a galera correndo e os sons das bombas ao fundo. O pessoal que ia na frente tentou “organizar”, pacificamente, uma maneira de agir; todo mundo se sentou no chão, mais uma vez, em um puro sinal de não-violência, para tentar mostrar aos policiais que ninguém saria dali mas, também, ninguém usaria da força para nada. Não adiantou, a PM lançou as bombas de efeito moral no meio da galera, que causou uma muvuca de 15 mil pessoas correndo em debandada, de volta para a Avenida João Pessoa, na maioria desesperados e já sentindo os efeitos das bombas.

O caos tomou conta, aquela coisa de sempre, uma massa recuando, gente já chorando (ou por nervosismo ou em questão do efeito moral), uma gritaria e muita confusão. Aos poucos, já me afastava dos meus amigos porque senti que o bicho iria pegar ali mesmo; a galera foi pro posto e lá ficou, até onde eu sei. Me posicionei na beira do riacho, do lado direito da Avenida Ipiranga, aonde reconhecidamente estava a maioria do pessoal pacífico; como eu, um bom número de pessoas ficou ali vendo a ação patética da PM. Do lado esquerdo da Avenida Ipiranga, a porrada comia com o pessoal mais radical, que fazia frente para a PM de maneira muito bonita. Fizeram barricadas, logo arranjaram paus e pedras e cercaram a rua, impedindo o avanço da polícia. Tentavam algumas incursões com fogos de artificio e pedaços de pau, agindo como dava para conter o avanço da turba de porcos do outro lado. A polícia, por sua vez, fazia tudo como planejado, “protegendo” a valorosa sede da RBS e, aos poucos, dispersando a massa com uma saraivada de bombas de efeito moral; em alguns momentos, inclusive, parecia que nossos honrados policiais estavam saudando às festas juninas, porque uma pessoa normal não pode crer que a quantidade de bombas disparadas é típica de um trabalho bem feito.

A situação ficava sinistra do lado esquerdo e os manifestantes tentavam fazer o que dava; diminuíam os efeitos das bombas com o vinagre, jogavam algumas bombas no riacho e tentavam avançar contra a PM, mas era humanamente impossível. Seguraram até ontem conseguiram, até ficar tudo insustentável, mas tiveram que recuar. E aí coisa mudou de forma, deixando ainda mais claro que a polícia só estava lá pra cagar todo mundo na porrada. Após o ataque ao lado esquerdo – que, na teoria, era o pessoal mais radical – a polícia deu a sua demonstração mais cabal de showzinho de poder: passou a atacar a galera do lado direito que, como eu disse, era tomada pelo pessoal pacífico. Numa esperança de fazer todo mundo sumir (afinal, é só o que eles sabem fazer), a PM começou a jogar muitas bombas de efeito moral na gente, ali na direita. A esta hora a grande maioria já tinha recuado completamente, a multidão voltava pela Avenida João Pessoa. Ali na Ipiranga permanecia eu e mais uns 30 ou 40 caras, tentando fazer de tudo pra PM recuar e parar de palhaçada, até porque lugar de palhaço é no circo. Não tínhamos os paus do outro lado para a barricada, mas revidamos com pedras e tijolos; tentávamos segurar o avanço da polícia até o ponto que dava, enquanto eles transformavam a rua em um espetáculo de guerra; a esta altura já não se via porra nenhuma, era tudo uma nuvem disforme de efeito moral e praticamente inviável permanecer ali por muito tempo. Éramos salvos por alguns aleatórios que ainda tinham guardado um resto de vinagre e, cooperativamente, nos emprestavam pra podermos respirar em meio aquele caos. A violência foi escalonando e ficou tudo incontrolável, tentávamos responder os ataques da PM com as poucas maneiras que tínhamos, mas éramos poucos e o efeito moral atacava até os mais resistentes; vimos que era hora de recuar quando a PM começou a ensaiar meter uma viatura cortando a avenida. Depois do que ocorreu em Brasília, acho que ninguém é bobo de ficar no meio da rua esperando ser atropelado pelos manés do “servir e PROTEGER“. Recuamos aos poucos, entramos na primeira rua que dava, a famosa Lima e Silva, reduto boêmio de Porto Alegre.

Lá, conseguímos fazer uma mini-barreira com as latas de lixo da Prefeitura, impedindo, ao menos, que a polícia jogasse os veículos contra a gente. Um pessoal permanecia na esquina, tentando revidar o avanço e recuando o abuso da PM, mas para mim, ali já estava acabado. Tive que ir pra longe e ficar num canto, respirando ar puro porque o efeito moral estava matando meus pulmões. Ouvia um pessoal gritar “vamos nos reagrupar na João Pessoa, está todo mundo lá!“, mas ainda tentávamos, em vão, impedir a incursão da PM  que cada vez mais avançava na avenida. Aos poucos todos foram recuando e adentrando a Lima e Silva, vindo pela rua e admitindo que não tinha mais o que fazer, ali. Nesta hora, avancei e tentei encontrar um outro grupo de amigos meus (o pessoal da FNT), que puxava as músicas da manifestação e já estava longe pra caralho. Consegui encontra-los muito adiante, dobramos a rua Loureiro da Silva e fomos em direção ao Largo Zumbi dos Palmares; ali, a manifestação acabava para a maioria. Um grupo ficou no próprio Largo, acertando os últimos detalhes e já dispersando, um grupo trancava o trânsito no meio da rua, outro grupo continuava na João Pessoa e muitos vinham pela Lima e Silva; mas a coisa já diminuía ao natural. Fiquei sabendo que um bom número de pessoas foi pro Palácio do Piratini e que o bicho pegou na João Pessoa, no mesmo momento que a gente era acuado ali na Lima e Silva. Pra mim, naquele momento, já havia acabado. Estava exausto, com dor em todo corpo e com os olhos ainda fodidos por causa do efeito moral; tentei catar um ônibus, o que era missão inviável, porque a Carris tinha tirado todos de circulação, depois que incendiaram um deles na João Pessoa. Andei, andei, andei e voltei para a Lima e Silva; vi que o caos tinha passado por ali; todas lixeiras viradas, coisas queimadas e muito estrago. Encontrei o casal de amigos meus e fomos para o Speed – único lugar aberto – tomar uma cerveja; na TV passava um VT da invasão da Alerj, que o povão do boteco vibrava que nem gol em Copa. A invasão era sinônimo de retomada; talvez não uma retomada real, mas simbólica e isto já vale.

Tomamos a cerveja e parti em direção ao meu rumo, tentando achar como ir para casa. Nada funcionava, a cidade havia realmente parado. Caminhei até o Hospital de Clínicas e descolei um táxi, onde a primeira pergunta do taxista foi algo como “tu estava no protesto?“; meio ressabiado, falei que sim, mas não havia visto a confusão. E, para minha surpresa, o fim da noite terminou com a frase do taxista, que largou: tá certo, tem que quebrar essa merda tudo mesmo! Acabando toda a maratona de manifestações com um singelo “tá certo, tem que quebrar essa merda tudo mesmo!“, vindo de um taxista, do povão, completamente aleatório, que não participou de nada, mas concordava em gênero, número e grau. E, talvez, tenha sido a melhor maneira de resumir a noite.

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Quando eu falei nos outros dois posts que vivíamos em uma sociedade onde uma minoria decidia, controlava e CAGAVA NA CABEÇA da maioria, não era mentira. Fica claro cada vez mais, pelos rumos que um mero “protesto das passagens” tomou; realmente, “não é sobre 20 centavos“, de forma alguma. Ficou evidente, ontem, como rolou em São Paulo, como rolou no Rio de Janeiro, como rolou em um monte de cidades. Não estamos falando de porra nenhuma de passagem. Falamos de opressão, mesmo, de um Estado que se preocupa em proteger APENAS seu establishment, representado por um grupo de pessoas que deve estar, agora, com o cu na mão em casa, com o medo de ser invadida qualquer hora dessas. Era o povinho que até uma semana estava querendo jogar as comunidades pobres da Zona Sul do Rio pra bem longe, pra não estragar a vista da janela da sala; era o povinho que achava que iria transformar o Maracanax em um palco de negócios, ou que a Copa seria um manifesto da putaria imobiliária; o povinho que acreditava que o monopólio do transporte público era a coisa mais normal do mundo; o povinho que via pobre na rua e achava que era “falta de merecimento“, que a pobreza no Brasil era porque a galera é vagabunda; o povinho que não saia de Pinheiros, ou de Laranjeiras, ou das 3 Figueiras. Acreditava que o abuso moral sobre a população iria se perpetuar na maior segurança do universo, que “brasileiro é submisso, mesmo“. Confiava nas forças de Estado, que a polícia poderia reprimir as favelas, manifestantes, qualquer um, tudo para manter a pequena segurança de uma minoria.

A PM localizada na RBS foi planejada, como evidenciava o meu primeiro texto “Do macaco ao burro“; os dois órgãos que agem a favor do establishment, novamente, contracenando juntos. A PM descendo o pau no povo na rua e a RBS – mídia de massa – fazendo de tudo para desarticular o movimento. Tentou incitar a justificativa dos “vândalos”, disse que a quebradeira era vandalismo, espalhou por aí com RBS, Globo, Folha, Veja, Uol, entre outros, tentando na marra fazer a opinião pública acreditar neste fato. Mas não manjou que a galera iria peitar a polícia e largar o foda-se, acreditou que a gente não iria fazer frente e que eles iriam dizer o que quisessem e acabar tudo assim. Mas não aconteceu. Nós fomos pra porrada; tomamos as bombas, guardamos as balas de borracha no peito e tocamos o terror nessa cidade, assim como no resto do Brasil. Não a toa que, para os nossos camaradas do Rio de Janeiro, a polícia teve que apelar pro fuzil; fuzil, no meio da rua, numa clara cena de GUERRA CIVIL.

Muita gente proclama a questão da “não violência”, o uso de atitudes ditas como “vandalismo”. Salvo raras exceções, que eu também acho absurdo – como o caso do cara que teve o carro queimado no Rio de Janeiro (e que alias, já ganhou um carro novo) – o que é vandalismo? Quebraram as janelas de um banco? Aqueles mesmos putos que te cobram capitalização de juros, mesmo sendo ilegal, que te atocham de juros e fazem tudo pra você se ajoelhar e pedir clemência cheio de dívidas? Sérião mesmo, que quebrar a janela destes merdas é um problema? Tacaram fogo em um ônibus? Ônibus daquela mesma empresa ridícula que até semana passada queria estuprar a gente com mais um aumento patético? Aquela mesma empresa que monopoliza o transporte e, em poucos dias, recupera o “prejuízo” deste ônibus queimado? Sérião mesmo que estão preocupados com o patrimônio destes caras? Saquearam uma rede de lojas? Uma loja que tem seguro, que atocha o preço pra foder todo mundo que compra lá e que não está nem aí pra o que eu ou você pensa? Sérião mesmo que isto é tão abominável assim, se preocupar com quem CAGA pra você? Depredaram a ciclofaxia do Fortunati? Aquela que custou uma caralhada de milhões, superfaturada, e é só uma pintura de 500 metros? Queimaram as lixeirinhas bonitas da cidade? Outra obra completamente superfatura com um valor completamente acima de qualquer lógica? Sérião mesmo que tem gente que ainda acha que nada disso é válido porque ameaçaram o “patrimônio” (descrito desta forma, vagamente assim)? Como se o bem social do povo fosse INFERIOR a meia dúzia de vidros, lixeiras e um guard-rail?

No meu terceiro texto eu comentava sobre a diferença de força e violência. A galera geralmente associa violência NECESSARIAMENTE a força. Diz-se, pela opinião comum, que a agressão física é violência; mas, na verdade, qualquer dano ou prejuízo, físico ou moral, é um tipo de violência. A gente divulga o discurso do establishment sem nem saber, alegando que o “uso da violência” (no correto, o uso da força) é errado, que “atacar” os policiais é errado, que “atacar” símbolos do establishment é errado, que a gente devolve violência com paz e amor. Que paz, meu caro? Nós não somos os primeiros a cometer a violência, afinal, todo dia nos corroem com a violência moral de um governo fodido. O povo por aqui é estuprado e vandalizado diariamente pelas atitudes mais esdrúxulas possíveis; somos vítimas do Estado, da iniciativa privada, da mídia, da polícia; isto é o Brasil, véi, acordem! Crescemos em meio ao coronelismo do pensamento, de acreditar que o uso da força é EXCLUSIVIDADE da PM e que qualquer um além da própria a use, seja lá porque, é invariavelmente errado. Que porra é esta? Somos Cristo, agora, que apanhamos e damos a outra face? Felizmente, vimos que não; embora ainda pequeno em todos os atos, vimos que uma parcela já tem consciência que a violência, se bem empregada, é uma maneira legítima para a manifestação manter a força e, principalmente, o medo. Sim, isto mesmo, o medo. A nossa revolta causa medo; na polícia que age cada vez mais descontrolada, na imprensa que bate cabeça sem saber o que falar, nos políticos que não respondem as manifestações com nexo e, claro, medo no establishment, no Eike, nos Marinho, nos Sirotsky, nos putos da ATP, em todo mundo. Durante gerações, eles se mantiveram no poder pelo domínio do medo; o medo psicológico, a violência moral contra a população, que acreditava – e boa parcela ainda acredita – ser vítima dos mesmos, mão de obra barata para eles fazerem o que quiserem e poderem aproveitar a boa vida que a sociedade sustentava.

A gente virou a moeda, cacete, viramos esta porra na marra. Antes era a população que tinha que viver na insegurança, na incerteza de não poder sair sem medo medo e andar pela cidade, na incerteza de não saber se amanhã teria um trabalho, ou se amanhã a gente estaria vivo; uma constante incerteza, estabelecida pela desigualdade social que o establishment criou para se manter todo pimpão lá em cima. Agora são eles que estão olhando pros dois lados; são eles que estão saindo com o cu na mão, seja governo, seja polícia, seja mídia, sejam grandes empresários, todos confusos sem entender tudo muito bem. E vivem um elo delicado; basta apenas um deles quebrar que o brazilian dream da gentrificação destes babacas vai por água abaixo, em pleno ano de Copa, com o mundo todo vendo. Já vimos alguns pequenos atos (fontefonte e fonte) que comprovam que a polícia, cada vez mais, cede a pressão popular. E se a polícia ceder, se em algum Estado a PM resolver ligar o foda-se e entrar em greve, ou não levantar armas para os manifestantes, eles ainda são o único órgão que detém a estrutura de força pra manter o establishment; sem eles, aí o bicho pega.

Nenhuma revolução foi feita com amor, ou com 1 milhão de pessoas sentando na rua e se vestindo de branco; o establishment não liga pra isto, desde que tudo volte ao normal depois e continue sustentando “o progresso” deles. O que eles não gostam é do medo, do caos que, geralmente, eles nunca vivenciaram em suas vidinhas de luxo e exclusão. Revoluções foram feitas na porrada, no sangue, da Bastilha a Turquia, passando pelo Muro de Berlin, tudo foi conquistado com a galera indo pra rua e tacando o foda-se, gritando com geral, dando porrada na polícia e dominando os opressores na mesma moeda dos anos anteriores de violência moral: com sangue nos olhos. E em um mundo de internet, nem fica tão difícil conferir o que eu digo. Você pode ver aqui, aqui e aqui.

A coisa mudou, a gente está tomando e vai tomar a rua na porrada. Instauramos a revolução, mandamos nessa cidade e o próximo passo é jantar a cabeça do prefeito! E, pra terminar, posto a música dos Racionais:

Confesso que queria
Ver Davi matar Golias
Nos trevos e cancelas
Becos e vielas
Guetos e favelas
Quero ver você trocar de igual
Subir os degraus, precipícios
E vida difícil, oh povo feliz

Quem samba fica,
Quem não samba, camba
Chegou, salve geral da mansão dos bamba
Não se faz revolução sem um fura na mão
Sem justiça não há paz, é escravidão

Boa noite e sigam-me!

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