Do macaco ao burro: uma análise de discurso e o protesto sobre as passagens no Brasil

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Dizem que a grama do vizinho sempre é mais verde. Neste caso, até a violência do vizinho é, sim, bem mais bonita.

Ainda na repercussão do meu texto feito na semana passada (que vocês podem ler aqui), resolvi fazer um levantamento do discurso da mídia de massa, na tentativa de elucidar o meu argumento sobre como o establishment – a elite atual – se utiliza da propaganda ideológica para garantir os benefícios da própria classe, em detrimento ao direito de bem estar social do resto da população. Utilizando como base um série de eventos recentes, protestos e tumultos mundias, resolvi comparar com o caso do protesto das passagens ocorrido no Brasil; a ideia, justamente, é estabelecer um parâmetro, mostrando que na mesma situação, O MESMO veículo de mídia se porta de uma maneira para as relações exteriores (no caso, os protestos pelo mundo) e de outra completamente diferente para as relações interiores (no caso, os protestos brasileiros).

Isto porque, como também dito no outro texto, os próprios veículos de massa do Brasil corroboram e estão diretamente ligados ao pensamento ideológico do establishment, na medida em que eles próprios são instituições promovidas e mantidas pela elite; as organizações Globo são da família Marinho, a Abril da família Civita, o Grupo Folha da família Frias de Oliveira e assim por diante, demonstrando claramente que, ao invés de manter a função primordial de um veículo de comunicação – a divulgação de uma informação – os mesmos se utilizam de seu sentimento de aprovação e da importância que exercem no cotidiano social para, desta forma, estabelecer uma visão ideológica ao qual só interessa aos próprios donos do veículos e seus associados. A ideia geral não é disseminar a verdade do fato, mas construir, sutilmente, uma rede de opiniões favoráveis ao próprio pensamento elitista, garantindo através disso a reprovação de qualquer ato contrário ao establishment pela maioria da população.

Utilizei como base 3 veículos online de grande acesso, o G1 (Globo.com), o grupo UOL (que faz parte do Grupo Folha) e a Veja. Usei reportagens de situações recentes ao redor do mundo e, após, comparei com a repercussão da situação brasileira, fazendo pequenos comentários que eu acho interessante destacar. Novamente, ressalto, o ato de garantir a comunicação pró-establishment é, entre outras coisas, um trabalho de sutileza, aonde os detalhes falam mais alto do que o escopo da matéria; muitas vezes, são pequenos pontos, a inclusão de uma frase ou um detalhe que, na lógica mais abjeta, são a tentativa de deslegitimar uma ação, dando forças aos órgãos – instituições sociais e intelectuais – para a repreensão do ato. Para manter o padrão, tentei manter a busca em 3 reportagens por manifestação, embora em alguns casos eu tive que diminuir (dado o pouco número de notícias) e em outros aumentar (dado o absurdo das situações colocadas). Retirei, também, qualquer material de colunistas em blogs pessoais (a exceção de um caso, que destacarei) e outros indivíduos mais mal-intencionados ainda, com uma visão ainda mais discrepante da realidade. Sem mais delongas, vamos a análise:

G1:

Turquia

Fato: O governo anunciou uma obra em uma famosa praça do país e, com isto, teria de derrubar uma série de árvores de um parque; as ruas da Turquia foram tomadas por uma série de protestos, parando o país e saindo da esfera de apenas defender as árvores, evoluindo para uma crítica social ao primeiro-ministro turco, pedindo a sua renúncia. Tamanha a proporção que o protesto tomou, foram acionadas as forças policiais do Estado e, dentre outras coisas, uma série de confrontos gerou depredação, violência e a morte de alguns manifestantes.

Reportagem 1:

Premiê da Turquia se reúne com alguns representantes do protesto

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Reportagem 2:

Manifestantes confrontam polícia no 4º dia de protesto na Turquia

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Reportagem 3:

Erdogan recebe apoio, mas protestos antigoverno continuam na Turquia

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Notem, nas 3 reportagens destacadas sobre o confronto na Turquia, EM NENHUM momento foi usada a palavra “vândalo” ou qualquer forma depreciativa para descrever as manifestações. O grupo Globo, inclusive, destaca a destruição, os confrontos e até as prisões e mortes, mas mantém a compostura – quase numa relação de neutralidade – justamente para não tomar partido sobre o efeito da revolta em si; em uma passagem na terceira reportagem, inclusive, é possível ler uma breve explicação dizendo que “os protestos, derivados da indignação por causa da violenta repressão…“, mostrando que, mesmo com a violência e proporção do ato dos manifestantes, ainda assim, há a justificativa de resposta por uma questão de violência do Estado, oriunda da repressão aos ecologistas que protegiam as árvores.

O tônus das reportagens apresentadas pelo grupo Globo, no caso dos protestos na Turquia, mantém muito mais a visão de compreensão – tentando explicar a situação política e econômica da região para o leitor – do que propriamente de repressão. Em nenhum momento, alias, é visto algum uso de informação ou termo na tentativa de desmerecer os atos que, por sinal, apresentaram números de depredação, feridos e mortos, muito superiores aos atos do Brasil.

França

Fato: Após a possível proposta de aprovação do casamento gay no país, manifestantes contrários a emenda tomaram as ruas, em uma série de protestos que geraram atos de violência e confronto com as forças policiais do Estado.

Reportagem 1:

Protestos contra o casamento gay terminam em confusão na França

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Reportagem 2:

Deputados debatem casamento gay na França e protestos se intensificam

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Reparem nesta reportagem em especial que, pela metade do texto, há um parágrafo mostrando que determinados grupos de extrema-direita (ligados ao nazismo) consideram que a manifestação ideológica de suas ideias só pode ser defendida com o uso enérgico de força, com o propósito de que, só assim, suas revindicações serão ouvidas.

Mais uma vez, ainda que o grupo Globo relate o acontecimento e até o discurso de ódio de um dos manifestantes, novamente não toma partido sobre as declarações, sobre os protestos, ou sobre a situação. A dinâmica da notícia é, mais uma vez, relatar o fato com imparcialidade, sem demonstrar preferência por algum lado. Cabe ao leitor a interpretação da ação, de quem julga ser certo ou errado na situação.

Reportagem 3:

Presidente francês pede calma após protestos contra o casamento gay

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Na reportagem acima, mesmo com o pouco texto (porque o foco da matéria é o vídeo), há um fato curioso. O grupo Globo FAZ QUESTÃO de colocar a seguinte frase (grifos meus), dizendo: “A manifestação PACÍFICA de milhares de pessoas, em Paris, foi interrompida POR UM GRUPO que atacou jornalistas e policiais“. Note que há uma tentativa clara de, na frase destacada, minimizar a violência da manifestação, justamente dando ênfase que a violência ficou a cargo de um grupo específico, em um dado momento e que, pela força da maioria, não condizia com o ato do resto das “milhares de pessoas”.

Neste pequeno trecho, podemos perceber que o grupo Globo, de forma sutil, posiciona a sua tentativa de não deslegitimar o ato através da violência, argumentando que, mesmo a violência acontecendo, faz parte do grupo que não representa a maioria pacífica. Desta forma, o grupo Globo “isola” os atos enérgicos gerados pelo protesto para, assim, garantir que tudo o que é feito em Paris, na interpretação dos fatos feita pela emissora, seja passada como uma manifestação popular válida, de uma maioria inocente aos atos errados de poucos, que não representam ninguém além deles mesmos.

Inglaterra

Fato: Após a morte de um jovem no subúrbio por uma patrulha policial, uma onda de protestos tomou conta de todo território inglês. O que começou com um protesto por uma questão específica – a morte do jovem – acabou tomando proporções gigantescas, terminando em uma série de saques e incêndios em várias cidades, levando a uma situação de caos, por um período, toda Inglaterra.

Reportagem 1:

Entenda os tumultos no Reino Unido

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Reportagem 2:

Londres tem noite calma, mas violência se espalha pela Inglaterra

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Reportagem 3:

Tumultos na Inglaterra se espalham e chegam a Liverpool

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Vamos lembrar que o tumulto da Inglaterra gerou uma onda de saques, milhares de roubos, confusões, prédios públicos e privados depredados e incendiados, pichações, mortes, prisões, agressões, entre outros problemas não relatados. Como o grupo Globo descreve isto tudo, ao longo de suas matérias? Como “distúrbios“. Só. Em apenas UMA reportagem é colocada a palavra “vandalismo” (a primeira delas), citada apenas UMA vez e, ainda assim, não por parte do jornal, mas usada no contexto de que “alguns moradores relataram atos…“; ou seja, quando a palavra é citada, não é o grupo Globo que está assumindo a autoria do termo, mas sim a própria população inglesa. Outro fato a se destacar é que, dentre as 9 reportagens citadas – 3 da Turquia, 3 da França e 3 da Inglaterra – esta é a PRIMEIRA E ÚNICA vez que vimos algum termo depreciativo se referindo as manifestações.

Notem que, mais precisamente na reportagem 2 e 3, aonde são mostrados os números dos prejuízos e as cidades atingidas, em nenhum dos momentos o grupo Globo usa palavras negativas para analisar os manifestantes; mesmo quando fala dos confrontos e das prisões, mantém o uso dos termos como “pessoas foram…” ou “jovens foram…“, deixando claro que, mesmo com os crimes e contravenções cometidos, ainda assim, a reportagem se refere a cidadãos, pessoas.

Na primeira reportagem, inclusive, crucial para a análise, o grupo Globo faz praticamente uma matéria especial, na tentativa de explicar que, de alguma forma, mesmo com o caos gerado pelas manifestações, HÁ UMA JUSTIFICATIVA para isto tudo, destacando a morte do cidadão pela polícia, o desemprego e os problemas sociais da Inglaterra atual; vale citar, para comparação, a frase que diz o seguinte: “existe uma criminalidade, mas tratar tão somente como criminalidade comum e banal pode fazer com que nós não observemos questões mais profundas desse problema social“. Definindo, desta maneira, a posição evidente da reportagem em tentar criar um sentimento de compreensão com os manifestantes que, mesmo violentos, são as vítimas de um sistema social problemático.

A própria reportagem é iniciada com o termo “Entenda os tumultos…“, quase que numa tentativa de amenização do problema pela emissora, analisando que há uma lógica por trás de toda violência dos atos, que os seus leitores, ao ler todo o artigo, justamente, olharão de forma compreensiva (entendendo) os tumultos.

Brasil

Fato: Após mais um ano de súbito aumento das passagens do transporte coletivo sem explicações devidas sobre os mesmos, milhares de pessoas foram as ruas em diferentes cidades, exigindo a redução imediata das passagens. Em pontos específicos, houveram depredações e pichações por parte dos manifestantes, assim como resposta violenta por parte da polícia que, em muitos casos, agiu com uso exagerado de força.

Reportagem 1:

Protestos sem autorização travam Av. Paulista a cada 4 dias em 2013

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Na primeira reportagem relatando os protestos nacionais, já podemos captar alguns detalhes do descaminho jornalístico pelo grupo Globo. Repare que, já na abertura, temos um título destacando a suposta “ilegalidade” dos protestos, na medida que os mesmos não tem autorização do Estado para ocorrer. O mote da reportagem é única e exclusivamente o debate da legitimidade de um ato através de sua autorização que, segundo o que o grupo Globo tenta transparecer, é o caminho mais essencial para a existência do protesto. Falamos aqui das manifestações da Turquia, França e Inglaterra, muito mais violentas, com maior destruição de patrimônio e, inclusive, com pessoas mortas; em nenhum dos casos o grupo Globo sequer comentou sobre autorizações, sobre a legitimidade do ato se, no caso dos estrangeiros, o governo permitiu ou não os protestos de serem realizados. Ora, se nas manifestações do exterior o tônus das reportagens era entender a motivação social dos grupos, por que aqui o mais importante é dar legitimidade através da autorização que, supostamente, os grupos não tinham?

Mas, não só isto, podemos ver no subtítulo da matéria o uso da palavra “vandalismo” que, inclusive, está inclusa ali justamente para ganhar destaque. Você viu alguma das manifestações no exterior com o uso deste termo de maneira tão evidente? Não; na grande maioria dos casos, sequer existem termos depreciativos para descrever os protestos estrangeiros. Por causa disto é que me surge a dúvida: por que o termo “vandalismo” – claramente negativo – foi usado para os protestos no Brasil, mas não no exterior, aonde a depredação e os estragos foram muito maiores?

Para finalizar, podemos ler, mais adiante, que o grupo Globo descreve o prejuízo angariado pelos protestos como “um rastro de destruição“. Perceberam a diferença da dinâmica de discurso? Enquanto a manifestação inglesa – trazendo caos generalizado ao país, prejuízos quase bilionários e mortes – é descrita com termos genéricos e até amenizadores, como “distúrbios” e “tumultos“, a manifestação brasileira que, de maneira alguma chegou em proporções ao caso inglês, é descrito como UM RASTRO DE DESTRUIÇÃO; uma tentativa muito visível de, com a propaganda ideológica da emissora, deslegitimar o ato dos manifestantes e, também, deixar a opinião pública contra os mesmos, aumentando o fato de maneira vil, com o uso de jargões para dar uma dinâmica catastrófica a uma situação que, quando ocorrida no exterior, foi minimizada de todas as formas.

Reportagem 2:

Manifestantes depredam estação de Metrô, banca e shopping na Av. Paulista

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Sendo completamente redundante, vemos outra reportagem aonde o destaque está nos termos “vandalismo” e “rastro de destruição“. Ou seja, não bastasse UMA reportagem usando o termo, era necessário uma segunda para, justamente, enfatizar na opinião pública o ar depreciativo e negativo do protesto.

Mas, o mais interessante desta reportagem é na passagem que diz, “o grupo, que já tinha entrado em confronto com a Polícia Militar”; notem que, diferente do caso francês – aonde a tentativa é de reforçar a maioria pacífica e uma minoria agressiva, com focos de violência isolados – no caso do protesto brasileiro, o grupo Globo faz questão de enfatizar o confronto, inclusive com o destaque para a repetição do mesmo, dizendo nas entrelinhas que os manifestantes causam atos de violência repetidas vezes.

Reportagem 3:

Após protestos contra aumento das passagens, cidade exibe marcas de vandalismo

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E, por fim, o pior vem por último. Reparem que, na matéria acima, o grupo Globo utiliza dois pontos para deslegitimar a ação. O primeiro é, novamente, destacando a depredação das manifestações, utilizando termos negativos para isto; vimos que, no caso do protesto brasileiro, EM TODAS reportagens citadas havia o foco em tentar deslegitimar a ação, dando valor ao aspecto do que aconteceu de errado nos protestos; diferente das manifestações internacionais, aonde em alguns casos, inclusive, o grupo Globo trata de fazer uma matéria especial para explicar o problema social da região, na tentativa de dar sentido ao ato, por mais violento que seja.

Mas, o segundo ponto para atacar a manifestação brasileira é ainda mais interessante. Notem que a reportagem dá destaque a depredação das instituições religiosas. Por uma convenção social estabelecida, é praticamente unanimidade de que a agressão a símbolos e espaços religiosos é uma afronta moral e de liberdade porque, entre outras coisas, o respeito ao culto é um dever de uma democracia de fato. Mostrando que os manifestantes atacaram Igrejas Católicas – religião majoritária no Brasil – é visível a tentativa do grupo Globo em deixar uma imagem negativa dos protestos, na tentativa de argumentar um discurso sutil de que, se os manifestantes atacam até instituições religiosas, podem atacar tudo.

Não só isto, não há nenhuma prova para o fato de que as depredações foram feitas por manifestantes. Poderia ser, muito bem, uma bala de borracha oriunda das armas da polícia mas, previamente, o grupo Globo acaba com o espaço para diálogo, caracterizando TODA destruição como obra dos manifestantes, sem apresentar fato nenhum. Vale lembrar que, inclusive, no último protesto realizado em São Paulo, um policial foi filmado quebrando o vidro do próprio carro, em uma tentativa de, provavelmente, culpar os manifestantes:

Uol

Turquia

Reportagem 1:

Repressão a protestos intensifica críticas europeias à Turquia

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Reportagem 2:

Premier turco propõe referendo para conter protestos

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Reparem que, no caso do grupo UOL, as reportagens sobre a Turquia, tal qual o grupo Globo, tentam dar imparcialidade ao tema, demonstrando o conhecimento do fato, dos dois lados envolvidos mas, ainda assim, relatando o protesto e todo caos da maneira mais neutra possível, sem tomar partido para ninguém. É nítida a visão jornalística de que, no caso da Turquia, há espaço para a interpretação do leitor, aonde o veículo de comunicação só publica o fato, sem opinar sobre o mesmo. Desta forma, não há tentativa de delinear a opinião do leitor de acordo com algum argumento do próprio jornal, tentando legitimar um dos lados e deslegitimar o outro.

França

Reportagem 1:

Apesar dos protestos, França celebra nesta quarta o primeiro casamento gay

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Reportagem 2:

Milhares tomam centro de Paris para protestar contra o casamento gay

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Mais uma vez, o grupo UOL publica o fato mas ignora os atos. Tudo sobre o protesto francês é apresentado com um comentário genérico, na medida em que se avalia a existência da manifestação mas, mesmo assim, não se entra em detalhes do que ocorreu ou de como ocorreu. Na primeira reportagem, o UOL até afirma sobre as questões da “violência na represália” por parte dos movimentos anti-gays mas, em nenhum momento, aprofunda a discussão sobre os atos, vandalismo ou depredação, apenas colocando uma mensagem superficial em qualquer tipo de distúrbio que os protestos possam ter gerado.

O grupo UOL consegue se abster de qualquer parcialidade na notícia sobre a França: comunica o fato, mas não defende ou condena ninguém.

Inglaterra

Reportagem 1:

Desemprego e decadência urbana explicam revolta na Inglaterra e sua semelhança com tumultos na França

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No caso da Inglaterra, a reportagem do grupo UOL é mais caricata ainda que as outras. Reparem que, já no título, a matéria começa com a frase (grifos meus) “Desemprego e decadência urbana EXPLICAM revolta…” . Como no caso do grupo Globo, a tentativa do grupo UOL é a de legitimar o ato inglês, mesmo reconhecendo a violência urbana e a depredação do patrimônio na situação, apresentando uma justificativa social que, por causa disso, é o estopim para o problema gerado, sendo um resultado plausível a uma situação em que os indivíduos foram vítimas de um problema do Estado.

A tentativa do grupo UOL é a de garantir a explicação para a violência; de garantir que, no caso inglês, há uma situação de ação e reação e que, só por se sentir oprimida, a população resolveu agir na mesma moeda em que estava sendo tratada. O uso do termo “explicam” e todo o tônus da reportagem, citando o desemprego e as injustiças sociais na Inglaterra, garantem o “tempero” do discurso literário, mostrando que o grupo UOL praticamente sai em defesa de, como diz no título, tentar “explicar” a violência dos protestos.

Brasil

Reportagem 1:

Afif elogia “dedicação” da PM ao coibir os protestos em SP

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Reparem que, já na primeira reportagem, há o uso de um indivíduo de destaque na opinião pública – no caso, Afif – mostrando que ele condena veementemente a atuação dos manifestantes. Desta forma, há a tentativa forçosa de usar uma figura pública e de respeito, para que, através do discurso ideológico, o grupo UOL consiga ser o formador de opinião, usando um exemplo de alguém destacado na sociedade para deslegitimar o protesto.

Reportagem 2:

Tática e armas são essenciais, mas PM também precisa manter disciplina

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Reportagem 3:

Governo pede investigação de protestos contra o aumento das passagens

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Reportagem 3:

“Lincha”, “Mata”, ouviu policial apedrejado durante protesto em SP

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Reportagem 4:

Editorial – Retomar a Paulista

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Quanto aos protestos brasileiros, o grupo UOL adota uma postura diferente do grupo Globo, mas não menos nociva. Todas as reportagens postadas tem uma mesma lógica no seu discurso: destacar o trabalho policial, ou a postura militar, visivelmente defendendo um lado específico na questão dos protestos. Neste caso, o grupo UOL se coloca em apoio as forças de repressão a própria manifestação que, aqui, são representadas pela força policial do Estado.

Há relatos de centenas de feridos (e você pode conferir aqui) – inclusive com 2 vídeos circulando na internet com o linchamento de jornalistas por parte de policiais – mas a matéria feita pelo grupo UOL foca em quem? Sim, no ÚNICO caso registrado de policial ferido com mais gravidade; não só isto, a mesma matéria usa termos visando a supervalorização do próprio trabalho do policial em questão, como visto na utilização da frase “vive dia de popstar“, tentando reverter a opinião pública sobre a violência dos orgãos de força do Estado e glorificando o trabalho do sujeito, inclusive, comparando-o a um “astro”. Claro, a tentativa disto é, entre outras coisas, mostrar o lado mais humano da estrutura policial, desgastada por anos de abuso de autoridade por parte dos próprios PMs e que, por hora, interessam ao grupo UOL que possuam uma imagem mais cativante, ligada a uma natureza mais bondosa; justamente para garantir a deslegitimação das manifestações, na medida em que, se os policiais tiverem uma visão mais positiva pela opinião pública, obviamente a massa verá os manifestantes como o grande gerador dos confrontos.

Na reportagem 2, inclusive, vemos a tentativa do grupo UOL em descrever a postura militar atual e brasileira, com um breve texto, comparando-a, entre outras coisas, aos “legionários romanos“. Novamente a ideia é de, com a propaganda ideológica, abdicar qualquer responsabilidade social – de preservação da segurança própria e alheia – do trabalho do policial, colocando-o em um patamar de guerreiro heroico, de um bravo combatente que, em meio aos conflitos urbanos, mantém a sua postura de caserna que lhe garante a confiança necessária para exercer sua profissão do melhor jeito possível, mesmo que para isso, as vezes, seja feito o uso de força desproporcional. Note, também, que todas reportagens do grupo UOL, sobre o protesto, possuem um profundo caráter discursivo em relação a martirização do trabalho policial, colocando sempre a visão de que, no caso dos protestos brasileiros, os manifestantes seriam unidades do mal, vândalos e vingativos, enquanto a polícia está ali apenas cumprindo seu papel de maneira honesta e correta, colocando inclusive sua vida em risco, para não permitir a expansão do suposto mal para as outras esferas da sociedade.

A dualidade das reportagens transparece de maneira muito clara, aonde a força policial representa O BEM e, todos aqueles que a confrontam, – inclusive os manifestantes – representam O MAL. Fica mais evidente na última reportagem (a única que coloquei aqui sendo de um blog pessoal de colunista), justamente para mostrar a construção retórica de que, em um caráter quase épico, a função da polícia é RETOMAR a (avenida) Paulista; ora, retomar de quem? Afinal, a avenida já saiu dali, alguma vez? Notadamente a função do colunista é, claro, reforçar a ideia de que estamos tratando de um duelo entre duas unidades, uma representante do bem (a policia, salvadora da “prisão” que os manifestantes criaram) e outra do mal (os manifestantes, responsáveis pelo caos social da cidade).

Veja

Turquia

Reportagem 1:

Turcos ignoram ameaças do governo e voltam às ruas para protestar

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Na reportagem em questão, o destaque do próprio título se refere ao ato da população em ignorar a preocupação do governo e, mesmo com ameaças, os manifestantes saem para rua e seguem com os protestos. Vale lembrar que o próprio grupo Veja EM NENHUM MOMENTO chama os manifestantes de vândalos, marginais, ou qualquer termo depreciativo para os mesmos. A ênfase em destacar romanticamente a rebeldia dos manifestantes, ainda que sutilmente, mostra que a Veja, para o caso da Turquia, não mostra opinião contrária as manifestações.

França

Reportagem 1:

Protesto contra casamento gay em Paris termina em confronto

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Mesmo se referindo as prisões de vários manifestantes contra o casamento gay, em nenhum momento o grupo Veja se refere aos mesmos como vândalos, ou nenhum outro termo negativo. Ainda que, evidentemente, estes manifestantes tenham sido detidos por distúrbios na cidade, o grupo Veja mantém a compostura e se refere aos manifestantes como “pessoas“.

Inglaterra

Reportagem 1:

Distúrbios se espalham para mais três cidades na Inglaterra

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O grupo Veja, sobre o caso da Inglaterra, é, talvez, o único que não tenha tentado entender o anseio social dos protestos. Como vemos na matéria, é relatado o grande número de incidentes e, até, destaca um possível oportunismo nas manifestações, alegando que “não há mais relação com a justiça“. Mas, ainda diferente do caso brasileiro, em nenhum momento o grupo Veja assume o uso de termos negativos aos manifestantes, mantendo sempre uma formalidade de distância, analisando o fato com um olhar externo.

Brasil

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Protesto em SP tem dez presos por formação de quadrilha e vandalismo

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Reportagem 2:

Vice-prefeita de São Paulo diz que atos de vandalismo impedem diálogo

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Reportagem 3:

Protesto contra aumento da tarifa de ônibus tem 15 detidos

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Como os outros grupos de mídia de massa, a diferença entre a matéria referente aos protestos internacionais e os protestos nacionais, pelo grupo Veja, é apresentado de forma muito sútil.

Repare que, como no caso do grupo Globo e do grupo UOL, o tônus das reportagens muda abruptamente de tom, quando se fala dos protestos brasileiros. Enquanto vemos a tentativa de neutralidade quase genérica quando se referem aos protestos na Turquia, França e Inglaterra, o grupo Veja, quando fala dos protestos no Brasil, mantém a ideia de relatar de maneira detalhada o “rastro de destruição” (créditos a Globo pela criação do termo), destacando apenas o lado negativo das manifestações; justamente na tentativa mais vulgar de colocar a opinião pública – com um discurso de marginalização do ato – contra os próprios manifestantes.

Utilizando a página para dissertar a destruição, se referindo com detalhes vívidos sobre coisas como “placas de trânsito foram danificadas“, ou “lixeiras foram queimadas“, ou “uma fogueira chegou a ser acesa no meio das faixas“, ou “espalhando o lixo pelas avenidas“, a ideia do grupo Veja é, desta maneira, hiperbolizar o lado negativo do protesto brasileiro; é válido lembrar que as cenas de violência ocorreram em TODOS os lugares do mundo, mas o detalhamento de situações negativas só ocorre quando se referem ao protesto nacional, na tentativa de desqualificar, apenas, os manifestantes brasileiros. Inclusive, na reportagem 2, há um destaque para a fala da vice-prefeita de São Paulo, alegando que “atos de vandalismo impedem o diálogo“; ora, mas que diálogo, na medida em que a passagem aumentou, mais uma vez, sem consulta popular, sem o diálogo com a população? Utilizar a figura da vice-prefeita, tal qual o caso de Afif pelo grupo UOL, é apenas uma tentativa vulgar de reforçar o argumento com uma figura de respeito, para garantir a opinião pública favorável as causas do próprio establishment.

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E com isto, pessoal, eu encerro minha análise. É bem provável que, graças aos protestos de hoje, talvez vejamos algumas matérias mais favoráveis a manifestação. Isto porque, entre outras coisas, muitos jornalistas foram agredidos. Desta forma, mesmo com o interesse da mídia de massa em garantir o establishment, ainda assim, os jornalistas defenderão a própria classe. Mas, antes de tudo, o importante na minha análise é evidenciar um fato corriqueiro, uma situação que, passando isolada, ninguém acaba percebendo. Mas, quando comparamos várias matérias, dos mesmos veículos, conseguimos visualizar de maneira muito mais própria como os veículos de massa se utilizam de sua importância social para desestabilizar qualquer mudança na sociedade.

Quem já leu algumas teorias sobre comunicação sabe que, claro, o espectador não é uma esponja burra que absorve a informação sem peneira-la com suas próprias interpretações. Mas, ainda assim, a mídia de massa possui um poder de penetração e, principalmente, na formação de opiniões através dos seus moldes de discurso que, como podemos perceber, é muito complexo e forte. Não a toa ainda vimos a importância que uma Revista Veja, ou um Jornal Nacional tem em pautar conversas, definir assuntos e gerar discursos; o agendamento que os veículos de mídia tradicionais propiciam ainda são grandes disseminadores de certas mensagens, principalmente pelo respeito que os mesmos adquiriram no contexto social da nossa realidade. Não a toa esperamos, para dar crédito de veracidade a uma notícia, que ela apareça no Jornal Nacional, por exemplo; afinal, se eles noticiam um fato é porque evidentemente aquilo está correto.

E, neste sentido, é importante notarmos que, aos poucos, estes veículos exercem o “poder social” que possuem para propagar o discurso A em detrimento ao discurso B, na tentativa de conciliar a informação com uma opinião específica; opinião, esta, não interessante a população geral, mas a um pequeno grupo que, ainda nos dias atuais, tem pleno interesse em exercer controle sobre todas as outras camadas da sociedade, seja pelo dinheiro, seja pela detenção dos meios de produção, seja pela detenção dos meios de comunicação, seja pela força. Não importa o que, apenas que se mantenha a estrutura dominante do jeito que está.

Editado dia 14/06/2012: Pra provar que a mídia de massa tem rabo preso, olhem este vídeo e vejam como jornalistas são CLARAMENTE instruídos a dar uma opinião que, as vezes, não condiz nem com o que ele quer falar. Reparem a jornalista Mariana Godoy, quando ia falar sobre os manifestantes feridos, volta atrás no meio da frase, gagueja e muda tom, alegando que, estes mesmos, entraram em confronto com a polícia:

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