Do macaco ao burro: como construímos uma sociedade de escravos sem escravidão

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Eu tive um pouco de receio em fazer este texto, principalmente pela coleta de informações necessárias (um vasto material), mas vamos lá. Tempos atrás eu li dois artigos com temas muito parecidos, ambos muito interessantes, que eu inclusive já postei por aqui, só não me lembro onde. Para reavivar a memória, indico 3 links sobre o assunto: os dois artigos citados e um outro post que eu tinha feito muito tempo atrás, conhecido como Sem lamparinas, nós não teríamos a luz!. Os artigos você pode ler aqui e aqui.

Como podem perceber, todos textos tem um tema em comum: a relação de trabalho. No primeiro, o meu texto (antigo, lá dos primórdios do blog), eu comentava de maneira enfática sobre como temos uma visão social de diferenciar o conhecido “trabalho intelectual” do que argumentamos como “trabalho braçal”, como se alguma de forma pudéssemos dar mais dignidade ao primeiro que o segundo, refletido financeiramente nos altos cargos executivos bem remunerados. No segundo texto (em inglês), vemos como o trabalho quase mecânico da empresa Amazon destruiu uma ideologia local, colocando em frangalhos as relações financeiras de uma pequena cidade para criar um método/ciclo de trabalho quase desumano, sustentando apenas o interesse econômico da própria empresa, em detrimento do bem estar dos seus contratados. No terceiro texto – e mais positivo – é discutido sobre as diferenças entre gerações, argumentando que as novas gerações inseridas no mercado de trabalho não se importam muito com um respaldo financeiro maior, mas sim com uma atitude quase ideológica de acreditar no próprio bem-estar, de maneira quase egocêntrica, vislumbrando que a auto-realização é mais importante do que a renda em si.

São 3 visões diferentes sobre o mesmo processo e que, dado este fato recente (mas poderia ser este outro fato, também), me levaram a discutir de forma mais aprofundada e séria o que eu já tinha escrito ironicamente com o texto das Lamparinas, postado ali em cima. O norte para minha discussão se abriu na seguinte esfera de questionamento:

Até que ponto o indivíduo é realmente livre? Até que ponto nós estamos criando uma sociedade mais igualitária e qual a influência dos processos trabalhistas neste reflexo social?

Quer dizer, é uma perspectiva básica que tenhamos uma visão mais igualitária, na medida em que as democracias e o direito das minorias aumentam consideravelmente, aliadas, claro, ao maior poder de renda da população em geral, que também cresce consideravelmente em todo mundo, da mesma maneira que a tecnologia (principalmente a era digital) e a indústria cultural encurtam distâncias e diferenças, gerando uma maior comunicatividade entre diversas castas sociais que outrora nunca se comunicariam. Mas, isto contribuiu para nossa liberdade enquanto indivíduos, ou são apenas fatores “macro” que nada apresentam para o indivíduo em si, surgindo apenas como um embuste argumentativo para enganar as massas? E é isto que quero debater, com uma visão não tão positiva sobre o mundo, encarando uma singela análise que eu faço sobre a sociedade, a Elite Contemporânea (carinhosamente chamada como “nova aristocracia Industrial”; você entenderão mais adiante) e o trabalho.

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O primeiro ponto é muito prático, embora extenso. Para começar a análise, devemos primordialmente fazer uma análise histórica do nosso passado social recente, assim como nossas metrópoles evoluíram ao longo da história, principalmente no que se refere às elites. Pego, principalmente, o ponto que acho fundamental para a história recente das sociedades ocidentais e, dali, parto minha análise: a ascensão dos burgos. A ascensão dos burgos, no conceito mais simples da história e da sociedade, nos trouxe dois pontos importantes para a discussão do tema: a disseminação de grande quantidade de capital para novas classes sociais (desligadas da realeza histórica) e a disseminação da “alta-cultura” (como poderíamos assim chamar a produção cultural que, até então, era confraternizada apenas nos alto-escalões da aristocracia europeia), ambos da mesma forma.

O surgimento daquele pequeno comerciante histórico oriundo do burgo, que ascende pelo força da geração de renda do próprio negócio em si, entre outras coisas, trouxe a quebra de paradigma necessária para criar uma realidade aonde “todos poderíamos ser ricos“, acabando de vez com o enraizamento histórico das grandes famílias europeias (ricas pela hereditariedade) e do poder onipotente do clero – principalmente o católico – criando uma nova dinâmica social, aonde pessoas teoricamente “comuns” poderiam estar inseridas no establishment que o próprio fator financeiro pudesse pagar, ascendendo através da riqueza de seu próprio esforço. É também neste período que, de uma certa maneira, vemos se criar a semente social da famosa teoria concretizada por Adorno, conhecida como “indústria cultural“, na medida em que o poder financeiro não mais alcançava apenas as grandes famílias ricas oriundas das antigas monarquias, mas se expandia para os “novos-ricos” (frutos do comércio local) da “nova Europa dos burgos”; a disseminação da “alta-cultura” dava um novo passo para a popularização da mesma e, neste sentido, víamos a expansão da produção cultural sobre uma óptica plenamente mercantilista, fugindo dos conceitos clássicos da arte pela beleza inerente da mesma; era comum os novos ricos – oriundos dos burgos – pagarem artistas para pintarem seus próprios bustos, ou recriar obras famosas, justamente para os mesmos se sentirem inseridos socialmente pela demanda cultural, até então exclusiva para a aristocracia europeia. Pode parecer bobo, mas uma animação discute isto de uma forma bem visual e de fácil entendimento:

Sim, isto mesmo, Noiva Cadáver, de Tim Burton. Embora se passando na Era Vitoriana (muito após os primeiros burgos da Baixa Idade Média) a briga entre as duas famílias dos noivos evidencia de maneira quase brilhante esta relação social entre as antigas famílias da aristocracia, hereditariamente inseridas no establishment de sua época (representada pela noiva), em contraponto as novas famílias ricas oriundas do pequeno comércio (representado pelo noivo), ainda não tão bem aceitos socialmente.

É neste ponto que entra um primeiro detalhe muito importante, que quero salientar: a diferença social entre “novos ricos trabalhadores” e “velhos ricos aristocráticos” evidenciam uma questão muito importante para o debate atual do tema. Isto porque, mesmo que os “novos ricos trabalhadores” possuíssem até mais dinheiro que os “velhos aristocratas” (muitas vezes falidos), de uma certa forma, não havia a aceitação social dos antigos aristocratas para com os novos ricos, evidenciada justamente na separação cultural, aonde a antiga aristocracia europeia ainda era exclusivamente a detentora, produtora e ostentadora de tudo aquilo que pudesse ser definido como “alta-classe”, a produção cultural ligada, principalmente, a riqueza acadêmica do estudo artístico em si, que não fosse oriunda da cultura popular. Este fator, principalmente, foi o que levou aos novos ricos vindo dos burgos a “construir” a sua própria arte – como dito, em uma proposta mercantilista, comprando artistas para criar a produção de bustos, obras, pinturas, musicas etc. – para mostrar que, sim, mesmo ascendendo de classes sociais diferentes da antiga aristocracia europeia, os “novos ricos” tinham interesse em compartilhar do mesmo establishment que a aristocracia, quebrando a exclusividade cultural da classe através do dinheiro.

E, neste ponto, conseguimos reparar a primeira relação que a quebra do paradigma instituído pelo crescimento dos burgos nos trouxe: não é apenas o acúmulo de capital que, no sentido mais literal, eleva um determinado grupo ou indivíduo a uma ascensão social que, dentre outras coisas, somaria ao status do próprio grupo ou indivíduo algum tipo de detenção de “poder social” ou, em outras palavras, do pertencimento ao establishment de sua época. Como no período histórico da ascensão dos burgos europeus, a aristocracia ainda tinha o seu “poder social”, evidenciado na exclusividade da produção cultural, excluindo as outras camadas por uma série de “parâmetros sociais” aonde só os pertencentes desta classe poderiam usufruir; nisto, não adiantava apenas o dinheiro dos “novos ricos”, porque, subjetivamente, a inserção ao establishment da época, em um primeiro momento, não poderia ser comprada financeiramente, mas dependia de uma série de fatores biopsicossociais que iam além da detenção de capital.

Este primeiro ponto da discussão, podemos até estabelecer uma relação atual muito evidente no nosso cotidiano, mostrando que o paradigma burgos x aristocracia se recicla em diferentes épocas, cada qual com os detentores de capital da sua geração. Basicamente, ainda constituímos preconceituosamente, de um modo geral, aquela linha tênue entre ricos “com classe” (ligados a hereditariedade do gênero, o rico que “se porta como rico“), dos ricos “sem classe” (vindos geralmente das classes mais baixas que, embora ricos, na sabedoria popular, “não se portam como ricos“). É o caso dos jogadores de futebol, milionários, mesmo possuindo uma grande quantidade de dinheiro, ainda assim, frutos de classes sociais inferiores e, desta forma, tendo uma formação social muito diferente da elite (establishment) atual. Esta relação, embora muitas vezes não chegue a ser perceptível, ainda é um fruto da nossa crendice de tentar, de alguma forma, estabelecer hierarquias sociais imutáveis, quase como sociedades de castas (como a Índia, por exemplo) que, mesmo quando o indivíduo ascenda financeiramente de alguma forma, ele ainda não será um rico biológico/hereditário, ou de uma família rica; como muito dito, “manterá o espírito de pobre“, como se isto fosse alguma definição per se.

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Neste primeiro ponto de debate, principalmente sobre as relações sociais e econômicas do paradigma entre burgos x aristocracia, não é muito necessário o aprofundamento do meu argumento. Há inúmeros teóricos que já o fizeram e, dentre eles, muitos nacionais, como Rudiger discutindo sobre Adorno, ou a própria Marilena Chauí, detestada por muitos e amada por outros muitos. O que precisamos entender disto, basicamente, é a sua “evolução histórica” e a diferença entre o SER e o TER, aonde nem sempre um complementa o outro. Mas, dando mais uns passos e voltando à história…

Com o enraizamento e crescimento dos burgos na metrópole europeia, mesmo a contragosto, a antiga aristocracia “aceitou” as novas famílias ricas no establishment, principalmente porque, economicamente, era viável para a massa falida aristocrática continuar em um meio financeiro favorável, na medida em que o outrora pequeno comércio dos burgos agora dominava a Europa, enquanto a aristocracia – que mais nada produzia – amargava uma crise financeira exponencial. Querendo ou não, com o passar dos anos, agregar os “novos ricos”  ao establishment era a sobrevida financeira da antiga aristocracia, na medida que, para os “novos ricos”, conquistar o tão importante “poder social” era, para muitos, mais importante que o próprio dinheiro em si. Novamente, podemos ver toda a relação explícita na animação A Noiva Cadáver, de Tim Burton, aonde o casamento arranjado era a salvação financeira para a família da noiva, ao mesmo tempo que representava a ascensão social para a família do noivo.

Dando mais um passo longo na história, já na Revolução Industrial, podemos evidenciar uma evolução do processo de controle do “poder social”, do establishment evidenciado no período em questão. Note que, até aqui, eu ainda não havia usado o termo “burguês” (mesmo que tenha me referido aos burgos várias vezes) porque, justamente, o principal idealizador da expressão surgiu mais ou menos no meio do que é conhecido como “Segunda Revolução Industrial“. O idealizador, também amado por muitos e odiado por muitos, claro, haveria de ser o renomado Karl Marx. Sim, historicamente o termo teria surgido ainda na época dos burgos da Baixa Idade Media, mas foi apenas com Karl Marx que ele ganhou a conotação quase filosófica que detém atualmente. E, deste período, é importante a análise da nova concepção organizacional e social do mundo Ocidental, principalmente na Europa. Vemos após a Revolução Industrial que, de uma forma quase orgânica, a antiga aristocracia europeia praticamente se simbiotizou com os “novos ricos” oriundos dos burgos de outrora, unindo suas famílias pelos motivos explicados anteriormente – e bem exemplificados na animação supracitada de Tim Burton; não havia mais uma diferenciação social discrepante entre as duas partes, aonde estes mesmos seriam descritos pelos teóricos da época e, inclusive por Marx, como: a classe controladora dos meios de produção. Ou, como ele gostava de chamar, os burgueses. Note que a importância histórica e ascensão dos burgueses foi tamanha que, destratados em outra época, acabaram virando o próprio termo que definiu o establishment de uma época, constituindo a elite social do período da Revolução Industrial.

É neste período que eu vejo uma grande mudança social, o nascimento do “capitalismo cultural“, por assim dizer, que vai dar embasamento aonde o meu argumento pretende chegar. Com a Revolução Industrial e a simbiose social entre  antiga aristocracia e novos ricos – originando a classe burguesa, descrita por Marx – percebemos que as classe sociais mais abastadas financeiramente e culturalmente, agora, convergiam para o mesmo caminho, sendo estes os detentores de todos os meios de produção (comercial e cultural) de massa. Desta forma, todos aqueles que não pertenciam à “classe detentora da produção” eram hierarquicamente inferiores, expresso na sua condição social, expresso na sua condição cultural e expresso, também, na sua falta de “poder social”.

Notem que o principal paradigma burgos x aristocracia de outrora se dava justamente em possuir, por assim dizer, 2 tipos de elite (comercial e cultural), além de, claro, todas classes sociais abaixo destas. Com o adendo histórico da Revolução Industrial e a monopolização dos meios de produção, a diferenciação da sociedade se “dualizou” entre ricos/burgueses/exploradores/detentores dos meios de produção (como definia Marx) e pobres/proletários/povo/explorados (como também definia Marx). Esta “dualização” da situação criou um clima de tensão gigante na Europa, principalmente pelo aumento da pobreza para a maioria da população, além do abuso do Estado em suas relações com o povo, culminando em uma série de revoluções sindicalistas e trabalhistas. Destas revoluções vieram as guerras, os Estados ditatoriais supostamente socialistas e aí o resto vocês já sabem.

Joseph Stalin, 1949

O que nós temos que entender, primeiramente, é que o ser humano é tão inteligente como uma jaca. A fruta, aquela mesmo que cai, se espatifa no chão e fica fedendo. Posto isto, é importante entender a minha tentativa de neutralidade no tema (mesmo sabendo que a neutralidade absoluta é impossível), tentando analisar o meu argumento com um crivo realista, sem defender X ou Y, principalmente no que tange ao passado, à história e que não há mais o que mudar.

Eu não sou nem nunca foi marxista, comunista, nem nada do gênero; da mesma forma que, acredito, as revoluções sindicalistas e os próprios sindicatos, tais como greves, entre outras revoluções trabalhistas históricas – como as próprias guerras, oriundas de crises financeiras – acabaram por trazer uma dignidade relativamente confiante ao que outrora ficou conhecido como “proletário”. Graças aos inúmeros conflitos do passado que tivemos a carga horária regularizada, direitos trabalhistas criados, regulamentação do salário mínimo, salário diferenciado para os diferentes tipos de cargos assumidos por um indivíduo, enfim, uma situação melhor do que já existiu no nosso passado, principalmente no período da Revolução Industrial. Mas, como dito ali em cima, o ser humano é tão inteligente como uma jaca e, se damos alguns passos positivos para frente, damos outros mil passos negativos para trás. E é por isto que, na minha concepção, o principal trabalho da interpretação da situação social atual deve ser feito “separando” as coisas em diferentes pontos, diferente tópicos, justamente porque, se melhoramos socialmente em muitos fatores, pioramos socialmente em tantos outros.

O principal ponto que desejo argumentar explica o porquê de ter feito este resumão histórico-social aí em cima, não poupando detalhes do que eu achava importante acrescentar. A inserção de um indivíduo ou um grupo a um determinado grupo social mais restrito – o establishment de sua época – não somente proporciona os benefícios lógicos do acesso a “alta-cultura”, o poder financeiro, ou os eventos biopsicossociais exclusivos da elite, mas também, como dito, ao “poder social“, termo que eu usei várias vezes anteriormente.

Mas o que seria este tal “poder social”, por definição? Antes de qualquer coisa, claro, poderíamos definir o “poder social” como um conjunto de benefícios a um determinado grupo (establishment), oriundo da utilização dos meios de força – não apenas física – do Estado de se legitimar enquanto Estado. Basicamente o uso sistemático dos órgãos institucionais que se referem a manter a harmonia da sociedade do jeito que Montesquieu vislumbrou – com a divisão de Executivo, Legislativo e Judiciário – e que apenas na teoria defende a harmonia da sociedade de maneira uniforme mas, na prática, através dos uso constante da força, originada do abuso de poder, não se detém apenas ao uso de técnicas positivas visando o bem-estar da maioria, expandindo sua ação com o uso da violência sistemática, tanto física quanto psicológica, compactuando com a separação castiça da sociedade, servindo como o braço de influência e domínio social do establishment, na medida que é utilizado pelo mesmo como o mais básico controle das massas. Dentre estes órgãos e indivíduos, poderíamos citar a polícia, o Exército, mas também a própria legislação mal interpretada, juízes e políticos que, por muitas vezes, criam meios apenas para a defesa de um determinado grupo minoritário da sociedade. E, neste ponto, a inserção do indivíduo em um seleto grupo social garante, também, o aumento do dito “poder social”; ou seja, fazer parte do establishment é a garantia de que os órgãos do Estado estejam disponíveis para a compactuação da defesa do mesmo.

São inúmeros os casos – passados e recentes – aonde os órgãos de força do Estado foram usados, principalmente, como forma de defesa para determinado grupo exclusivo da sociedade, em dissonância com o seu dever de existência, não presando pela harmonia e bem-estar da maioria da população (poderíamos citar, por exemplo, a situação atual das remoções do Horto Florestal, aonde já mostrei aqui, por mais de uma vez, que o projeto tende a beneficiar apenas uma minoria inclusa na elite carioca. Você pode ler aqui e aqui) . Tanto na Baixa Idade Média, com o início dos burgos, quanto na Revolução Industrial, com os seus detentores dos meios de produção, quando nossa Elite atual, a inserção do indivíduo no establishment da sua época lhe garante, por óbvio, a influência nos meios legitimadores de defesa do Estado, ora com vantagens nos setores jurídicos, ora nos setores legisladores, ora nos setores executivos. Claro, a divisão terminológica de Montesquieu é posterior ao surgimento da ascensão dos burgos, mas, da mesma forma, havia divisão de poderes no período dos mesmos, instituído pelas diferentes classes na sociedade europeia. Não conceituado como Montesquieu coloca, mas agindo na perpetuação de Estados da mesma forma, com seus órgãos existindo, da mesma maneira, na proteção de uma minoria favorecida.

A busca pela afirmação de um determinado grupo minoritário no establishment de sua época, não só culturalmente representa uma mudança para os indivíduos nele inseridos, mas também para o seu tratamento com o Estado – como exemplificado acima – mostrando ser uma situação de total benefício para aqueles que pertencem a este grupo social. Mas, justamente com a garantia da exclusividade de tratamento do Estado per se, é necessário que o maior fator para separar a elite de uma época seja, obviamente, o fato de ser exclusiva, feita para uma minoria, levando ao constante discurso de soberania social, intrínseco no fato de que, mesmo sendo uma classe social matematicamente em menor número que as demais, ainda assim, seu poder de influência na sociedade lhe vislumbra a garantia de proteção exclusiva garantida pelos órgãos necessários. Tal qual a antiga aristocracia europeia, assim como os detentores dos meios de produção da Revolução Industrial, a elite atual precisa, necessariamente, como meio de afirmação da sua existência, que o seu grupo seja, entre outros motivos, seleto. Esta seletividade, claro, variando de acordo com o contexto biopsicossocial do período histórico, modernizou também no seu discurso. Se na antiga aristocracia europeia a inserção no establishment se dava principalmente pela seletividade hereditária (oriunda do patriarcado), na Revolução Industrial a inserção no establishment considerava as posses dos meios de produção (no caso, as empresas); mas, como como a elite atual demanda a sua exclusividade de casta? Qual a definição de discurso para estar inserido no establishment de nossa época?

Pessoalmente, acho que é justamente por isto tão importante debatermos o “desmembramento” de diferentes nichos do mesmo argumento, separando a análise em diferentes pontos. E, no que eu consigo perceber, o discurso do establishment atual prevê um período de mistura entre a Baixa Idade Media e a Revolução Industrial (quase como num neo-medievalismo pós industrial), remontando principalmente a estruturação hierárquica hereditária pré-burguesia da Europa, com o valor de pertencer a uma família historicamente influente, mas também respeitando a inserção social oriunda do sucesso financeiro (ligado ao conceito de “detentor dos meios de produção”; no caso, o capital), como também acontecia na Revolução Industrial; basicamente, estamos falando de um establishment que vislumbra um indivíduo financeiramente bem sucedido mas, não só isto, que ainda assim possua um caráter familiar de importância hereditária, o rico per se, que não veio de classes sociais inferiores.

Explico isto analisando do seguinte modo e, antes de tudo, aproveitando para citar o que já tinha comentado lá no começo do texto, sobre o caso particular dos jogadores de futebol que acabam ganhando muito dinheiro rapidamente. Os jogadores acabam se “transformando” em ricos, sim, mas ricos pertencentes ao universo deles mesmos, vivendo uma condição social aonde apenas os próprios jogadores e os seus amigos e familiares estão aceitos em um discurso positivo pela sociedade, de um modo geral. A visão do “novo rico” – a exemplo do jogador de futebol – salvo raras exceções, funciona em contraste ao establishment do nosso tempo, sendo o jogador de futebol (como exemplo), o detentor de muitos bens mas, ainda assim, não possuidor da hereditariedade necessária para expressar a sua entrada na condição de establishment. Como no período da aristocracia e dos burgos, o jogador de futebol detém o capital, mas não detém o “poder social” inerente da hereditariedade necessária a elite do nosso tempo.

O que podemos perceber é que, no período atual, vemos a consequência histórica de anos e anos de convívio social entre as duas vertentes passadas (famílias tradicionais x novos ricos), que já não existem há muito tempo separadamente e, por todos os fatores comentados anteriormente, acabaram convergindo juntas para o mesmo establishment. Ou seja, a histórica união familiar da aristocracia europeia falida com os burgueses novos ricos (mais uma vez, como no exemplo da animação A Noiva Cadáver), acabou criando uma nova geração de aristocratas que, outrora formados apenas pela hereditariedade das famílias tradicionais, agora considera, também, a necessidade da participação dos seus indivíduos em diferentes estágios da detenção de produção (cultural e industrial) de massa. Ou, para a elite atual, poderíamos considera-los, por definição, como: “nova aristocracia Industrial”

A exemplo deste modelo, poderíamos citar como grande exemplo a família americana Rockfeller; vinda do seu sucesso financeiro no ramo petrolífero e com grande defesa natural ao próprio nome familiar, com a condição social de seu tempo, os Rockfeller  “migraram” naturalmente ao establishment de sua época. Inclusive, pela importância da família e das posses conquistadas com o capital, os Rockfeller acabam sendo uma das famílias (até hoje) mais influentes na sociedade americana. Com esta constituição de “nova aristocracia Industrial”, oriunda da relação de posses e capital aliadas a importância da hereditariedade, definimos principalmente a busca dos novos paradigmas sociais. Para aqueles que gostariam de, em algum momento, estar inserido no establishment. Também excludente – como a antiga aristocracia europeia – a visão dos novos indivíduos do establishment também está pavimentada na relação de privilégios com uma minoria especial, determinada pelos fatores sociais necessários para criar, novamente, uma elite opressora, agindo desarmoniosamente nas relações biopsicossociais da sociedade, de um modo geral.

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Tal qual a falência da antiga aristocracia europeia e, no primeiro momento, a sua repulsa aos “novos ricos” oriundos dos burgos, vimos que a “nova aristocracia Industrial” não consegue assimilar as mudanças sociais, impostas principalmente pelas dinâmicas iniciadas no sindicalismo marxista – revigoradas atualmente com os novos agrupamentos trabalhistas, enfáticos na exigência dos direitos sociais e enraizados no cenário da democracia moderna, praticamente co-existindo com o Estado em qualquer país – e multiplicadas pela entrada das novas eras tecnológicas-digitais, “planificando”, principalmente, a comunicação interpessoal de indivíduos da mesma classe social, em diferentes locais do planeta. Como sua antecessora europeia, a “nova aristocracia Industrial” não consegue dialogar com as diferentes camadas da sociedade, recorrendo erroneamente e insistentemente aos mecanismos de força do Estado, em uma constante demonstração do seu “poder social” de controle das massas; ainda crê em uma série de ritos sociais antiquados e classistas, acreditando ser a pertencedora natural da riqueza (econômica e cultural) das nações, assim como a antiga aristocracia europeia, não aceitando a entrada de “novos ricos” (como no exemplo dado, citando os jogadores de futebol) e, muito menos, a maior expressão social das classes sociais mais baixas, fruto das políticas sociais modernas de inclusão das minorias. E é por isto que, de maneira evidente, vemos o preconceito aflorar sobre diferentes grupos da sociedade que, de alguma forma, ascendem financeiramente ou culturalmente, mas são fruto da cultura das massas, longe da criação da elite; o discurso permeado pela “nova aristocracia Industrial”, utilizando a sabatina do seu poder – oriundo de seus meios de estabelecer o “poder social”, como a utilização das mídias de massa, controlada exponencialmente pelo establishment – garante ainda nos tempos modernos a disseminação da ideia de diferenciação social entre o que advém do eruditismo clássico acadêmico (elencado como “cultura de verdade“, na sabedoria popular), em contrapartida ao que advém da cultura das massas, popular, visto em muitos aspectos, longe do eixo cultural acadêmico (como o caso do Funk, marginalizado até hoje).

Vivemos no período da “nova aristocracia Industrial”, aonde observamos uma elite que, não apenas pelo valor financeiro, se apega, também, a quem este capital pertence; não somente ao objeto, a acumulação em si, mas também daquele que a detém, na imagem de hereditariedade da aristocracia europeia clássica. Multiplicamos os dois conceitos passados: o valor da posse financeira e o valor da família, aplicados a uma sociedade digital com suas peculiaridades, principalmente, nos meios de comunicação; gerando um fluxo de informação maior entre diferentes indivíduos de diferentes classes sociais, os métodos de perpetuação da “nova aristocracia Industrial” são capilarizados em diferentes métodos. E neste ponto que, depois de tanto introduzir, finalmente inicio minha discussão, com a seguinte imagem:

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Todos sabem como eu odeio apócrifos de internet pela falta de comprovação óbvia, mas vá lá, está frase é fantástica, mesmo que não tenha sido este cidadão aí que escreveu. Dentre tudo que eu escrevi e expliquei ali acima, precisamos compreender principalmente dois pontos, daqui em diante:

1 – Os meios do Estado e da iniciativa privada que perpetuam a existência do establishment

2 – O discurso segregacionista do establishment, criando uma dinâmica de nova-escravatura assalariada

* Obviamente, eu acredito na capacidade de interpretação de vocês e, claro, não vou responder nenhuma das 2 questões claramente. Apenas vou expor, através do meu argumento, uma linha de pensamento para que vocês possam tirar suas próprias conclusões.

Quando me dei ao trabalho de escrever todo aquele texto lá em cima, justamente, foi para conceituarmos nossa elite atual (analisando sua evolução histórica), diferenciando o aspecto exclusivamente monetário e tentando entender que NEM TODO MUNDO que tem posse necessariamente é parte do establishment da contemporaneidade. De fato, se formos analisar todos aqueles indivíduos que estão esteticamente ligados ao imaginário da Indústria Cultural (como atores globais, jogadores de futebol, cantores pop etc.), pouco acrescentaríamos a esta discussão, na medida em que, em uma visão política, eles funcionam apenas como reprodutores do discurso já elaborado pelos grupos pertencentes ao establishment, sendo apenas um produto (cultural ou econômico) exteriorizado na mensagem de uma imagem humana, funcionando quase como uma extensão da detenção do meio de produção em si. Tendo como base a composição da união dos fatores sociais previamente explicados, como a questão financeira ( sobre a forma da detenção de posse), mas também somando a questão hereditária (da família como objeto de culto da elite), nosso establishment, a “nova aristocracia Industrial” na sociedade brasileira, tomaria formas muito mais políticas e menos visuais, agindo de maneira a não se expor a grande massa de um modo geral; compostas por um pequenos grupos de famílias ligadas principalmente à perpetuação na formação de opiniões da massa, diretores de grandes veículos de comunicação, um seleto grupo de empresários, assim como algumas famílias de políticos. A exemplo, poderíamos citar a família Marinho, proprietária da Rede Globo, mas que também atua fortemente no ramo de investimentos imobiliários e, não só isto, é uma das responsáveis pelos meandros políticos brasileiros, inclusive, sendo uma das principais idealizadoras da Ditadura. Poderíamos citar, também, o caso de Eike Batista, mega-investidor brasileiro mas que, também, garantiu boa parte de suas negociações baseadas em informações privilegiadas fornecidas pelo seu pai, ex-presidente da Vale do Rio Doce e ex-ministro de Minas e Energia; não só isto, Eike Batista é um dos principais idealizadores da gentrificação da Zona Sul carioca, atuando fortemente na política, inclusive, com a participação quase imoral em determinadas licitações. Por último, poderíamos citar, também como exemplo, a família ACM que, embora ligada à política, ainda assim, possui uma forte participação no setor de investimentos privados, através da empresa OAS, uma das maiores beneficiadas em licitações públicas e privadas em todo território nacional.

Citando apenas alguns exemplos do establishment brasileiro, já visualizamos algumas características da aristocracia europeia clássica, somadas com os fenômenos econômicos e sociais que surgiram no processo da Revolução Industrial, formando aquilo que eu chamei de “nova aristocracia Industrial”. São famílias que detém os meios de “poder social” por mais de uma geração, que atuam em diferentes nichos – mas sempre ligados às classes de influência política e social, como governo, comunicação, direito, investimento imobiliário – e que vislumbram a perpetuação de benefícios para sua família (incluindo, aí, a hereditariedade do establishment) através de novas maneiras de controlar grande parte do capital financeiro nacional e que, além de tudo, utilizam fortemente a sua influência no “poder social”, através de diversos mecanismos do Estado e da mídia de massa privada, justamente para perpetuar o discurso do bem-estar da relação elite x sociedade, garantindo a visão positiva da massa, ao mesmo tempo que intensificam a exclusividade do establishment, na medida em que seus indivíduos são, de certa forma, vistos como figuras intangíveis, intocáveis, em meio à população que vive uma outra realidade social.

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Muito embora esta “nova aristocracia Industrial” ainda detenha características parecidas do establishment do passado, ela lida com um problema que os seus antepassados históricos não tiveram que enfrentar: a comunicação virtual. E, sobre este aspecto, explica-se o que eu havia comentado anteriormente, com o processo de intensificação da utilização dos mecanismos de força do Estado; isto porque, graças a “planificação” da comunicação virtual, aonde diferentes indivíduos, de diferentes localidades do mundo e de diferentes classes sociais conseguem se comunicar em pé de igualdade, expondo de maneira muito mais eficiente informações que, outrora, o establishment conseguia e necessitava ocultar. Até a popularização da internet e das mídias sociais virtuais, qualquer informação contrária ao interesse do próprio establishment – espalhada, principalmente, de modo pessoal ou em mídias alternativas (como folhetins) – encontrava enorme dificuldade para repercutir a um número considerável de indivíduos, justamente porque a grande mídia tradicional – como TV, rádio, jornal – é submissa ao próprio establishment porque, obviamente, o mesmo é o dono dela.

A comunicação virtual, pelo motivo mais simples, transcende uma barreira social antiga e comum aos meios de comunicação tradicionais: o impedimento da participação ativa do espectador (ou, no caso, aquele indivíduo ou grupo que não possua acesso aos instrumentos necessários para a produção de conteúdo); com a pluralização de acessos, fontes e indivíduos, a internet serve como o principal meio de grupos sociais das castas mais baixas conseguirem se organizar, compartilhar opiniões e, desta forma, perceber com “novos olhos” como são atingidos pelo poder da mão (quase) invisível daqueles grupos que detém o “poder social”. A comunicação virtual permite que, em um sentido de democracia utópica, todos os cidadãos consigam suprimir a sua necessidade de informação básica sobre aquilo que procuram, acabando com o intermediador que filtra a mensagem conforme o interesse lhe favorece. Foi o que aconteceu no caso que eu postei lá em cima, aonde um grupo de Funcionários (e ex Funcionários) da Livraria Cultura resolveu expor os métodos trabalhistas completamente obsoletos da empresa, mostrando que, embora o discurso do slogan, a Livraria não mantinha nada do que a estrutura de trabalho oferecia. Em questão de poucas semanas, este mesmo grupo de protesto chegou aos olhos de diferentes tipos de mídia alternativa e, não só isto, a diferentes grupos de pessoas dentro de todo território nacional que, como eu, ficaram sabendo da causa, única e exclusivamente por causa da própria internet.

Em uma comparação simples, poderíamos analisar o período do próprio Marx, aonde a sua necessidade de expor ideias estava “presa” aos limites tecnológicos da época, permitindo que seu ideal filosófico fosse divulgado de uma maneira muito mais vagarosa e com um resultado muito mais lento, efetivamente alcançando um resultado global apenas anos depois da produção do próprio Manifesto Comunista. A falta de condições na expansão de informação acabava limitando determinados temas divergentes, que ficavam restritos a determinadas regiões concentradas próximas aos produtores do próprio conteúdo em si.

Mas, da mesma maneira que, na atualidade, podemos disseminar uma informação com muito mais autonomia, sentimos na mesma proporção a “mão pesada” com que a “nova aristocracia Industrial” responde à liberdade de expressão, agindo principalmente na reeducação social, através de sua influência e “poder social”, usando de seus métodos para que, como seus antecessores, possam perpetuar sua condição privilegiada na sociedade. Zizek diz, eu já citei aqui em outro artigo, mas não custa nada lembrar:

O rei só é rei porque assim seus súditos acreditam

A frase de Zizek nos permite, novamente, analisa-la sobre várias realidades. Quando a aristocracia precisa garantir a perpetuação da mesma, através dos organismos do Estado para continuar existindo, basicamente, ela conta com um meio muito simples de coação: as forças policiais-militares. Se a aristocracia  precisa garantir a segurança de seu espaço/meio na sociedade, utiliza justamente o seu “poder social” como forma de influência política para, principalmente, coagir o Estado a usar da força policial-militar para perpetuar o bem-estar da própria aristocracia, suprimindo qualquer tipo de revolta popular e/ou impedindo um contato mais próximo de indivíduos ou grupos das classes mais baixas com a elite. Situação comum (e bem atual) aonde a força policial-militar – mesmo não inserida no seleto grupo do establishment – age de forma a defende-la por uma questão de respeito ao discurso da ordem social, apegada as normas legais civis e militares, seguindo as instruções de seus superiores (coagidos pela elite política) a sustentar a condição de segurança de uma minoria, em detrimento da maioria em geral. A função de coação do Estado – orientado pelo establishment – garante que, sobre a pretensão de segurança e ordem social, um grupo de indivíduos (no caso, as próprias forças policiais-militares) sintam-se, de certa forma, inclusos no projeto de harmonia da nação, acreditando não defender apenas o(s) interesse(s) exclusivo(s) do próprio establishment, utilizando a legitimidade da questão de pertencer a uma “figura de autoridade” como força-motriz no discurso de perpetuação do abuso de poder, revertido sobre a óptica imaginária de não-abuso, alegando ser parte essencial da permanência de ordem na sociedade; sabemos que, no processo biopsicossocial, os indivíduos da força policial-militar nunca serão membros da elite em si, mas, usufruindo da concordância moral do uso da autoridade que lhes é atribuída, o sentimento de dever cumprido – honrando uma ética egocêntrica de civilidade através da ordem, com base no pretexto da educação policial-militar – substitui-se a lógica democrática mais básica, da necessidade de se criar uma harmonia com os diferentes membros da sociedade que, na realidade, são apenas suprimidos e tratados como “afrontadores” (ou seja lá qual for o termo usado) da ordem e civilidade da nação, em um discurso garantindo pela propaganda ideológica do establishment. Afinal, mantemos os nossos reis sendo súditos deles mesmos.

Podemos ver a propaganda ideológica do establishment – no sentido de garantir a ordem social através da autoridade policial-militar – muito forte na atualidade, quando sobre o pretexto de um suposto interesse no dever de garantir a segurança da população, observamos a polícia ou Exército hostilizando manifestantes (muitas vezes pacíficos), simplesmente por causa do comando de um superior que, defendido pelo discurso de apenas um indivíduo (ou de um pequeno grupo), possuí mais valor do que  opinião de grande parte da população de uma região. Para exemplo recente, temos o caso aqui mesmo em Porto Alegre, aonde a ATP (Associação dos Transportadores de Passageiros), em defesa dos interesses da própria associação (promovida por um pequeno grupo de empresários detentores do “poder social”, que trabalham diretamente com a comercialização de transporte público e, inclusive, evitam através de manobras políticas licitações de concorrência na região Sul), acabou publicando uma carta aonde, basicamente, tentava convocar a população a desprezar os próprios indivíduos que estavam defendendo os interesses da população (no caso, a passagem mais barata), utilizando algumas afirmações aonde apenas os próprios proprietários da ATP se sentem confortáveis a concordar com o discurso, alegando de maneira vil uma pressuposta “defesa da maioria”, quando nada trazem em benefício da mesma e só pensam em defender o interesse do próprio establishment:

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O exemplo em questão deixa de maneira bem clara a utilização da mídia de massa (afinal, a mensagem foi colocada no jornal de maior circulação da capital gaúcha, a Zero Hora), na tentativa de construir um discurso de vitimização da elite – apoiada sobre a óptica da ordem social, alegando uma suposta violência daqueles que atacam a ATP – em detrimento de todos aqueles que discordam ideologicamente de manter a defesa dos interesses de um pequeno grupo (o establishment) que, neste caso, é defendido pela perpetuação dos direitos quase vitalícios de comércio do mesmo grupo de empresários no transporte público gaúcho, encabeçado pela ATP. Mesmo que, socialmente, para a maioria da população esteja claro a vantagem da abertura de concorrência no transporte – principalmente para que se baixe o preço das passagens de ônibus – ainda assim, a ATP faz um apelo emocional distorcido, justamente em uma tentativa de tentar colocar a população contra aqueles que a própria Associação vê como um problema para a perpetuação de sua condição de exclusividade. Quando chegamos a contemporaneidade e, principalmente pela velocidade de se propagar uma informação contrária no universo virtual (a internet), a “nova aristocracia Industrial” teve de selar sua perpetuação social de uma maneira mais sutil, utilizando a força Estatal apenas como último apelo quando não há mais a escapatória de sucumbir moralmente e fisicamente. E, no exemplo em questão, vemos o seu meio de atuação antes de apelar às forças do Estado descritas anteriormente, utilizando o espaço garantindo pelo establishment nas mídia de massa, como forma de manipulação dos indivíduos. A tentativa de corroborar um discurso, garantindo que não se precise chegar as vias de fato – com o uso da violência policial-militar – garante ao establishment que o mesmo permaneça presente nos processos de disseminação de propaganda ideológica, sem ter a imagem atrelada ao mau uso da própria violência de Estado. Basicamente, enquanto a elite não precisar contar com a violência física de fato, “atacará” utilizando todo tipo de discurso ideológico que precisa, tentando convencer o máximo possível de indivíduos das classes mais baixas de que, sim, a mensagem do establishment ainda é a mais correta socialmente.

Ora, podemos perceber CLARAMENTE pela mensagem exposta na carta que, dentre outras coisas, o discurso da mesma é voltado a uma quase vitimização daqueles (poucos) indivíduos que controlam a decisão da maioria, utilizando uma inversão de lógica tão sútil que, em determinado ponto, a mensagem basicamente se apega a um valor moral quase heroico da ATP em manter a ordem da sociedade, esquecendo que o próprio organismo (no caso, a ATP) é o principal estopim para a desordem causada, oriunda do aumento abusivo da passagem sem prestações de conta, que a Associação defende. O texto leva a crer que o próprio cidadão, em parte, é culpado pelo “problema as passagens”, na medida em que ele é um violador da “ordem pública” (escrito em destaque, alias) e isto, segundo a hierarquia do discurso exposto na carta, passa a ser um problema ainda maior que o próprio aumento dos ônibus, na medida em que uma quebra de valores na própria questão de “ordem” é, para a ATP, o maior dos crimes sociais. Vale salientar que a utilização do termo “ordem pública”, claro, é utilizado de maneira completamente genérica, fazendo apelo justamente à força Estatal, de uma maneira a acreditar que qualquer um que se oponha à ATP de maneira ideológica é, naturalmente, um indivíduo amora, um afrontador dos padrões de harmonia da sociedade.

Mas esta carta não nos mostra apenas o que a ATP pretende comunicar, exemplifica todo o discurso da “nova aristocracia Industrial” e a sua tentativa de auto-defesa do establishment através da propaganda ideológica, evidenciando sua sutileza de mensagens em quase parecer que não há interesse auto-protetor no discurso da elite, levando a crer que tudo não passa de uma honesta força de expressão em tentar explicar as outras camadas sociais os problemas da Associação em vista do não-aumento. A carta da ATP evidência como age a elite atual, justamente porque a própria Associação representa o interesse de um grupo de indivíduos que na elite estão inseridos. Mas, não apenas neste caso, quando observamos Eike Batista atuando (ilegalmente e imoralmente) na reforma do complexo do Maracanã (ou seria Maracanax?), ou quando observamos a família Marinho atuando na expulsão de comunidades centenárias do Rio de Janeiro para construir um estacionamento – defendendo um discurso de modernidade urbana (supostamente benéfica à população, maquiando a nociva gentrificação que ambos pretendem), aliado à utilização de eventos desportivos internacionais – percebemos a formação sútil de discursos negativamente camuflados, com a pompa da harmonia social, da “nova aristocracia Industrial”. Estes indivíduos não agem apenas com a força do Estado, não precisam apenas da polícia e do Exército, mas garantem que se perpetuarão, também, utilizando dos próprios meios – muitas vezes de comunicação – para garantir que a realidade de seus atos não seja a mesma imagem que a sociedade vê.

Da mesma forma que temos o sórdido Eike estuprando obras e regiões públicas conquistadas em licitações duvidosas, camuflamos com o benevolente Eike, preocupado em despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas, camuflamos com o benevolente Eike que cresceu financeiramente por conta própria, fruto de muito esforço. Da mesma forma que temos a sórdida família Marinho querendo expulsar famílias de suas habitações à força, ou a sórdida família Marinho que apoiou a Ditadura, camuflamos com a benevolente família Marinho que apoia e cria projetos sociais, camuflamos com a benevolente família que ajuda na expansão econômica de várias regiões do Brasil, através de sua rede de TV. Da mesma maneira que temos a sórdida ATP formando um cartel de pequenos empresários dominando o transporte público gaúcho, camuflamos com a benevolente ATP que busca a satisfação da ordem pública, camuflamos com a benevolente ATP que busca a garantia da harmonia da cidade. E, desta forma, se garante a propaganda da compensação, na visão pública, de que, afinal, os fins justificam os meios; principalmente os meios do establishment. Nesta gangorra de discursos que a “nova aristocracia Industrial” se afirma, garantindo que, enquanto possam agir para a perpetuação do establishment de maneira inescrupulosa, utilizando de todos os métodos necessários para a existência e exclusividade social destes indivíduos, “equilibram” sua imagem com pequenas ações que acabam não suprindo o mal causado, mas são suficientes para declarar um estágio de cegueira social no resto da população, vendo-os como bons indivíduos vitoriosos.

A formação do discurso enraizado pela “nova aristocracia Industrial” forma um novo padrão de proteção ao establishment, não precisando mais vislumbrar sua existência apenas com as forças políticas e financeiras oriundas do Estado, conseguindo existir principalmente no meio privado, utilizando-se do Estado apenas como uma reserva de segurança social, caso a iniciativa privada tenha algum colapso financeiro. Com isso, justamente, vemos uma sociedade em que, pela visão da maioria, qualquer tipo de afronta – física, verbal ou ideológica – a estes indivíduos é, antes de tudo, uma afronta pessoal à liberdade de criação e incentivo de prosperidade comercial para o povo, na medida em que o próprio establishment tende a definir sua propaganda de separação ideológica, alegando que há uma diferença comercial na “vida estatal” e “vida privada”, de maneira que a segunda, por questão de origem do seu investimento, recebe a força do poder de auto-regulamentação dos indivíduos que nela estão inseridos; ou seja, basicamente, só quem pode condenar uma instituição privada é a própria instituição privada, na crença ritualística de que, em tese, ninguém é forçado a usa-la. Vemos a força deste discurso, principalmente, na definição comum dos cidadãos de que, conforme um serviço privado é ofertado, “só utiliza/compra quem quer“, partindo da suposta liberdade de escolha da sociedade em garantir a permanência de existência do mesmo. E é neste discurso que, muitas vezes, se garantem os abusos de poder criados pela própria elite; como no caso dos projetos imobiliários criados por Eike, privados, aonde “ele não obriga ninguém a utiliza-los“; ou nas questões da família Marinho que, da mesma forma, “não obriga ninguém a ver sua TV“; ou em um sentido mais amplo, como a própria ATP, defendida por muitos na crença de que “você não é obrigado a pagar o ônibus, pode andar a pé, ir de táxi etc.“. Vislumbrando desta forma, o crescimento do establishment no setor privado cria, para o mesmo, a desassociação de qualquer obrigação moral com o resto da sociedade, principalmente porque, através da propaganda ideológica, credita (novamente) a culpa da situação a própria população, que, de comum acordo, perpetua a força financeira da elite.

Partindo destes meios de propagação do discurso ideológico, a elite tende a contar com um último fator para garantir sua auto-proteção: a desvinculação da obrigação moral do indivíduo per se. Este ponto – o mais complicado – tende a unir tudo o que já foi dito acima. O establishment, através de sua propaganda ideológica, cria uma concordância, apoiado pela visão pública da maioria, de que qualquer tipo de indivíduo, respeitando a sua privacidade (baseada no conceito de diferença pública x privada, explicada acima para o caso de empresas), detém uma série de motivações próprias que, por algum tipo de contrato social imutável, não devem ser questionadas enquanto argumento para desqualificação de suas ações para sociedade. Para facilitar o entendimento, basicamente, podemos dizer que a ação que um cidadão toma em vida pública, não pode e jamais deve ser questionada em vida privada.

Tivemos a situação recente do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aonde o mesmo participou de um bate-boca no restaurante, com um músico que acabou agredido sabe-se lá por quem, ou pelo próprio prefeito, ou por algum segurança do mesmo.

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Neste ato vimos, principalmente, o poder de influência da “nova aristocracia Industrial” em garantir a sua força de “poder social” através do discurso. Analisemos a situação, primeiramente, ignorando os indivíduo em questão:

Temos A, que xinga B. B, irritado, agride A. Ora, na nossa noção moral de sociedade, vislumbramos a ideia de que a agressão física NUNCA corresponde a uma agressão verbal; ou seja, mesmo que alguém lhe ofenda verbalmente, chegar ao uso de violência física é, ainda assim, mais errado. Se B se sentiu irritado, o que fazia parte lógica do fato de estar sendo xingado, tinha pleno direito de usar os meios legais – chamando segurança ou a polícia – para garantir a sua integridade moral, sem o uso da força física em si. Mas não foi o que fez; preferiu partir para a porrada. Não fosse este (A) um artista qualquer e (B) Eduardo Paes, para descaso de consciência, estaríamos discutindo isto, aqui, assim? Obviamente, não. Até porque, de fato, nem seria noticiado.

A autoridade moral do discurso, do “poder social” que a elite possuí (encabeçada, aqui, pelo prefeito do RJ) é tão efetivo que, mesmo na situação descrita acima, ainda assim, Eduardo Paes conseguiu converter a realidade de sua ação, na medida em que, com a imagem que criou de si – defendido sutilmente pelos meios de comunicação de massa – era a vítima da situação, hostilizado pelo músico que, claro, foi o causador do problema. A violência de Eduardo Paes, para visão da maioria, embora exagerada, fora plenamente justificável, justamente pela propaganda ideológica de creditar a separação de indivíduos, aonde, claro, o Paes privado não pode ser comparado ao Paes público, levando a crer que, não importa a besteira que o prefeito faça em seu mandato, a crítica social só é válida enquanto ele estiver em gabinete. Afinal, o que você acha disto?

Exporto, para critério de comparação, novamente a situação do comunicado da ATP. Naquela relação, tínhamos a população, agredida com um aumento na passagem, agredida pela polícia que, em busca dos seus direitos através de greves, foi violentamente oprimida; esta população, agredida de diferentes formas (fisicamente, moralmente e financeiramente), resolveu dar resposta as represálias de uma minoria autoritária, pichando alguns muros e quebrando alguma vidraças da própria sede ATP, não colocando em risco a integridade física de ninguém, apenas o próprio bem material da empresa. Em paralelo ao caso do prefeito Paes, na situação da ATP, temos a população – vítima – que respondeu com a agressão física, tal qual o prefeito fez no seu caso. Mas por que, embora estejamos tratando de dois casos de vítimas que respondem com agressão, apenas o caso de Paes ganhou a aprovação do ato pela mídia de massa? Justamente porque, antes de tudo, Paes representa o establishment, do mesmo modo que a ATP, não importando a ordem dos fatos, considerando que a tentativa dos meios de comunicação de massa é, sempre, garantir a justificativa plausível para a defesa da elite.

Novamente, a diferença dos discursos, evidenciada nos exemplos, esclarece o tamanho dos poderes de influencia da “nova aristocracia Industrial”, que age direta e indiretamente na autonomia social do resto da população, através de pura propaganda ideológica pelos meios de comunicação de massa. Zizek, como na frase escrita lá atrás, mostra claramente que a submissão dos indivíduos é a necessidade para a criação dos “reis”. Aqui, mais uma vez, mostro que este fato ocorre corriqueiramente, em diferentes momentos do nosso cotidiano e, muitas vezes, nem percebemos. Os meandros do establishment para garantir a subsistência da própria elite estão na sutileza da ação, no fingimento de que a agenda setting de seus discursos é inexiste, que é apenas fruto de devaneios conspiratórios. Como dito, historicamente, a garantia da elite se baseia na sua exclusividade, na seletividade de um pequeno grupo por intermédio das relações biopsicossociais de sua época. E, atualmente, nossa elite faz uso de uma gangorra de ações X imagens, para garantir que possam agir sem que o resto da população perceba o ato, mostrando apenas o que interessa a eles que a sociedade veja; a garantia de que imposição do establishment para os outros setores sociais passa, sim, pelo fato de que, dia após dia, engolimos o discurso de morosidade social dos indivíduos que, em qualquer ação mais enérgica, ou diferente do que se espera para o agendamento social, acabará julgado pelos outros indivíduos da própria sociedade que está inserido. Não por valores criados por eles mesmos, mas por valores que a própria elite define como necessários para o desenvolvimento de discurso em prol da auto-defesa da mesma.

A diferença de posicionamentos para um mesmo tema – dando diferentes conotações (positivas ou negativas) para diferentes nichos sociais – ficou ainda mais evidente em uma situação recente, ocorrida no lançamento do Maracanã (Maracanax) de Eike:

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Vimos de maneira quase cômica como os veículos de mídia de massa – obviamente, resultantes da elite, como a Globo (da família Marinho) – tendem a evidenciar o protecionismo de interesses da “nova aristocracia Industrial”. Na primeira foto, o veículo de mídia faz questão de destituir a legitimidade do ato (no caso, o ato de pichar), alegando ser “obra de vândalos“, justamente porque a mensagem expressa nas paredes do novo Maracanax de Eike – também parte atuante do establishment – tinha um viés pejorativo, confrontando uma série de interesses financeiros e políticos da própria elite. No segundo caso, uma foto do livreto entregue na porta do próprio estádio, vimos que uma empresa parceira do evento – a abertura do Maracanax – de forma muito óbvia incentiva a todos a, tal qual o ato anterior (reprimido pela Globo), sair por ai e pichar a cidade. Ato, este, que passou em branco de qualquer citação em algum veículo de comunicação de massa, justamente porque estava ligado a uma campanha promocional difundida por um grupo oriundo da própria elite e, claro, por isto, recebe a defesa moral para sua existência.

Novamente, vimos o tratamento diferenciado, na medida em que, quando consideramos o mesmo ato (no caso, a pichação) com diferentes ópticas, claro, deixamos expressa a vontade subjetiva de elencar a preferencialidade social, mostrando que, sim, há determinados grupos (no caso, a “nova aristocracia Industrial”) que recebem a liberdade do discurso para fazer o que julgam certo – mesmo que isto corresponda ao descumprimento da própria legislação, levando em consideração que pichar é uma contravenção – quando outros grupos sociais, utilizando a mesma proposta, acabam reprimidos e/ou tratados por termos pejorativos, tentando desqualificar a legitimidade da ação em si.

Como último exemplo – ainda sobre os eventos esportivos internacionais que acontecerão no país – podemos verificar as novas regras absurdas de um dos Estádios da Copa:

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Veja os itens proibidos na Nova Arena Pernambuco. Observe que alguns itens, obviamente, são quesitos de legalidade e moral BÁSICA (como o fato de não portar armas, por exemplo, já explícito na legislação brasileira). Mas, a maioria dos itens se refere a situações inofensivas, comuns no imaginário popular do torcedor brasileiro e mundial, como o caso de instrumentos e bandeiras. Não só isto, há ainda os itens absurdos, como o veto à guarda-chuvas e comidas, claramente em defesa de pequenos grupos de empresários, para que aumentem a venda dos produtos exclusivos dentro dos estádios. Ora, mas quem estipulou estas regras? Um pequeno grupo de pessoas, todas em defesa de perpetuar os interesses econômicos da própria elite, sob um discurso falacioso de conforto e segurança, apresentado de maneira genérica e sem dados registrados de que, sim, estas proibições efetivamente melhoram a qualidade do evento e da segurança dos torcedores presentes no mesmo. Sob um discurso de prevencionismo e a alegação de que determinadas proibições ajudam a conter a violência, os vetos foram criados para, na teoria, defender a própria torcida de problemas. Ora, mas as medidas efetivamente combativas, como identificação dos integrantes das organizadas, a prisão preventiva em horários de jogos de torcedores com histórico de violência, o policiamento inteligente ao redor do evento e a divisão sensata das torcidas no estádio não seria mais efetivo do que proibir bandeiras, guarda-chuvas e maças?

As medidas das Novas Arenas evidenciam, justamente pelo seu absurdo, o poder camuflado do discurso da elite. Elite, esta, que viu no futebol uma possibilidade real de capitalização financeira, resolveu investir no mesmo e, para isto, para lucrar ainda mais, precisava “mudar a cara”, o perfil do torcedor clássico do estádio brasileiro, sem muito poder aquisitivo e folclórico pelo seu lado passional e humilde, oriundo das classes mais baixas da sociedade brasileira, presente na arquibancada, mas disposto a pagar pouco para consumir o esporte. Para realizar esta mudança, claro, evidenciando mais uma vez a força do discurso da “nova aristocracia Industrial”, percebemos que estes mesmos indivíduos construíram, através dos meios de comunicação de massa, uma mensagem quase unânime na propaganda ideológica de que ERA NECESSÁRIO o futebol brasileiro adequar os estádios daqui aos padrões de conforto europeus, com uma premissa de que lá o dito “espetáculo futebol” é feito com muito mais profissionalismo do que o exercido por aqui. Esta mesma mídia de massa, a serviço do establishment, ignorou o fato de que o modelo europeu importado para o Brasil – aos moldes de Inglaterra de Thatcher e da Liga Espanhola atual – já reconhecem o erro do discurso elitista do futebol e que, em muitos destes mesmo lugares, já estão em vias de fato de adotar o modelo futebolista alemão (ignorado solenemente no Brasil), que preserva áreas populares no estádio e connta divisão igualitária das verbas televisivas para todos os times da mesma Liga.

O discurso do futebol brasileiro atual é a cara da própria propaganda ideológica da elite per se: preocupada em garantir apenas os interesses dos investidores, ricos sócios oriundos da “nova aristocracia Industrial” (como o próprio Eike, ou a família ACM) que compraram os estádios por milhões obscuros em todo território nacional, o discurso do futebol atual estupra a tradição do mesmo, ignorando completamente a noção sociológica de integração das diferentes castas no mesmo espaço de convívio, mas  se apegando ao protecionismo de uma classe específica com interesses claros sobre o próprio esporte; não pela dinâmica social que o mesmo representa, apenas pelo benefício capital nele inserido.

Mas, indo além do discurso que garante a perpetuação do establishment atual, encabeçada pela “nova aristocracia Industrial”, há também uma dinâmica econômica mercadológica muito interessante a se analisar, principalmente sobre a proposta do “poder social” com base no uso dos mecanismos de capital privado para isto. É neste ponto que fica evidente a suposta frase de Aldous Huxley (que eu coloquei lá em cima), sobre a ideia de uma escravidão sem muros, de uma democracia anti-democrática (e aqui, vemos também a relação do artigo da Amazon e a reportagem sobre a Livraria Cultura).

Com base na necessidade imutável criada pela dinâmica de sociedades ligadas exclusivamente ao poder econômico, a elite ganha força de poder em sua existência, justamente porque, mesmo sendo numericamente minoritária em relação as outras classes, ainda assim, possuí a maior concentração de renda e, em muitos países, representando quase toda a riqueza da nação (como mostra o vídeo sobre a divisão de renda da sociedade americana, postado no começo do meu texto), concentrada em um grupo que não ultrapassa os 5% da população. Principalmente sobre a dinâmica da não-ação das outras classes, justamente pela esfera de necessidade em que as mesmas acabam sendo “escravas de si mesmo”, na ideia de que os indivíduos nelas inseridos, antes de tudo, precisam do trabalho – o gerador de capital do cidadão – para a sobrevivência do mesmo.

Tanto na reportagem da Amazon como na reportagem da Livraria Cultura, fica evidente o processo de “aprisionamento social”, impedindo qualquer contestação de melhorias pelas classes sociais mais baixas, pelos sindicatos, ou por qualquer união de trabalhadores, justamente porque, estes, mais do que nunca se veem como vítimas de sua labuta, exercendo o emprego como a única forma de afirmação social, de garantir sua subsistência para as dívidas geradas de necessidades básicas de qualquer ser humano. A questão de estar inserido em uma sociedade ligada ao crédito financeiro, a especulação do capital, ao poder monetário, impede o trabalhador (oriundo das classes mais baixas) de, por meios mais práticos, reagir contra os abusos evidentes na sua condição de trabalho sub-humana. Na reportagem da Amazon, alias, vemos como este meio de controle social funciona de maneira plena, no seguinte critério adotado pela própria empresa, com uma dinâmica de que, no fim das contas, não adianta o trabalhador não se adequar a labuta desumana oferecida pela empresa; caso ele se demita, seja demitido, ou até mesmo proteste contra determinados abusos, ainda assim, há centenas e centenas de outros indivíduos prontos para suprir a vaga do mesmo, substituindo a necessidade de cumprimento para qualquer reivindicação do indivíduo. Foi o que também, na prática, aconteceu com os ex-funcionários da Cultura, demitidos por exigirem direitos básicos. Sabia-se que, mesmo com o protesto dos funcionários ante a situação da Livraria Cultura, aquele pequeno grupo poderia ser rapidamente substituído por outros indivíduos dispostos a suprir a mesma condição desumana sem reclamar.

A ideia do poder sobre a sociedade ligada diretamente ao capital cria, entre outras coisas, o principal motivo da individualização das castas mais baixas – competindo diretamente entre si – e permitindo assim que a “nova aristocracia Industrial” (controladora dos meios de produção) exerça um método de controle, de “poder social”, ainda mais influente e invisível do que suas antecessoras. A organização dos trabalhadores (através de greves, sindicatos, ou da maneira que for) não influi mais em um grande baque a elite, evidenciando as medidas absurdas adotadas pelas empresas e seus detentores, na medida que, por mais que um certo grupo necessariamente se organize e proponha algum protesto ou greve metodicamente elaborado, há centenas de outros indivíduos que, de uma forma ou de outra, dependerão do emprego desumano ofertado assim como ele é, justamente para poder girar a máquina financeira aonde a vida da metrópole moderna está inserida, levando a crer na necessidade quase inerente de que possuir um emprego apenas pelo fato de possuir, é ainda melhor do que não o ter. Isto porque, não apenas pela noção do ego, do indivíduo efetivamente poder se sentir parte de alguma operação durante o seu cotidiano – em contrapartida ao ócio solitário do desemprego – vivemos um contrato histórico-social que evidencia a necessidade da geração de renda para a sobrevivência do indivíduo com um mínimo de conforto. Afinal, desde os nossos anseios mais básicos, como alimentação e moradia, até os nossos desejos mais fúteis, como diversão e lazer, passam todos sobre o crivo da necessidade de se possuir dinheiro para obtê-los.

A relação de trabalho criada na nova dinâmica do mundo globalizado influenciou abertamente na desconstrução do poder de revolução das classes mais baixas. Atingidos cada vez mais pela competição – exposta no argumento acima – tal qual a necessidade da garantia de um meio de gerar renda, visualizamos um problema ainda maior para estas classes exigirem seus direitos básicos, suas condições de dignidade no trabalho: a impessoalidade do chefe (ou, no caso, dos detentores dos meios de produção). Dada a nova dinâmica de distanciamento, criada principalmente pelo controle de poder por poucos indivíduos influentes em grandes conglomerados multinacionais, com diferentes sedes em diferentes localidades de todo o mundo, ligadas apenas pelo mesmo sistema de controle, a falta de interação do empregado com os seus superiores, de certa forma, protege aos próprios superiores em si; longe de qualquer problema ou reivindicação dos seus trabalhadores, o superior efetivamente não percebe nenhum tipo de revolta social, considerando que, na maioria dos casos, este mesmo indivíduo não mora nem na mesma cidade do reclamante em si, o sentido visual de ver o problema pessoalmente, de perceber a incomodação dos seus contratado, perde total propósito, na medida que este mesmo superior só sentira a demanda das reclamações acumuladas após algum problema financeiro da própria empresa que, pela lógica, só se apresenta muito tempo depois após a própria reivindicação do funcionário em si. Ou seja, o encurtamento – mas também o distanciamento – da globalização acabou, de certa forma, trazendo um “muro social” invisível, apresentado na forma de proteger, novamente, a casta mais alta da hierarquia social: a elite, controladora dos meios de produção (no caso, as empresas).

A exemplo, temos a situação recente da Livraria Cultura que, comparando com as revoluções trabalhistas oriundas do marxismo, presentes no século passado, apresentou dinâmicas sociais completamente diferentes. Se formos pensar, por exemplo, na condição desumana de uma indústria têxtil de um século e meio atrás, a greve dos funcionários pararia por completo o funcionamento da empresa (até porque, pelo tamanho, a empresa possuía um número significativamente menor de pessoas) e, de forma muito rápida, a paralisação afetaria economicamente o(s) dono(s) da fábrica (no caso, a elite), exigindo do mesmo algum tipo de ação – de modo rápido – para minimizar o descontentamento dos seus empregados. Agora, analisando como exemplo o caso da Livraria Cultura, a paralisação, reclamação ou revolta dos funcionários em uma das inúmeras sedes espalhadas em todo território nacional, pouco tende a apresentar algum efeito direto aos diretores da empresa em si. Justamente por causa da impessoalidade das grandes corporações, a paralisação de UMA filial (mesmo que estejamos falando de uma paralisação total) gera um efeito diminuto na cadeia de lojas do varejista que, desta forma, consegue especular com maior sapiência algum tipo de punição aos funcionários revoltosos, sem trazer, de fato, nenhum benefício solicitado pelos mesmos. É mais fácil para os detentores dos meios de produção – a elite – “driblar” a necessidade de cumprimento mínimo na dignidade dos trabalhadores, justamente porque qualquer tipo de greve/protesto efetivamente danoso exige uma concentração muito maior, com a adesão de um número muito grande de funcionários, o que inviabiliza qualquer lógica para os grevistas, na medida em que uma união de grandes proporções é praticamente impossível.

Nesta impessoalidade, vemos a defesa das grandes castas sociais, elitistas, em prol da submissão das classes menores, vítimas de um sistema que pouco os defende. Exatamente como no caso da Amazon, mesmo que o empregado não concordasse com as condições sub-humanas de trabalho, pouco teria como exigir algum tipo de melhora, principalmente pela dependência financeira – argumentada acima – assim como a falta de ferramentas sociais para determinar algum tipo de prejuízo ao seu empregador – também argumentado acima – que, no caso específico da Amazon, sequer morava no mesmo país que os empregados da empresa em questão.

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Com a condição criada pela relação de trabalho moderna – misturando a impessoalidade com a necessidade financeira – vemos que, além disso, para garantir a satisfação do próprio empregador, há um esforço da própria “nova aristocracia Industrial” – através da mídia de massa, novamente – em difundir o conceito de que devemos trabalhar mais, por prazer, relacionando nossa labuta a uma necessidade de auto-realização não ligada apenas ao capital, mas a felicidade inerente de fazer parte de algo, da criação subjetiva de um meio aonde o indivíduo está feliz ali por se sentir presente naquilo per se. E é justamente o caso do segundo texto, postado lá no início do tópico, que entramos no debate da debilidade deste argumento, vendo que esta realização só tende a favorecer a concentração financeira e cultural do establishment, em detrimento das outras classes sociais.

No texto, vemos que a reportagem mostra que as novas gerações estão trabalhando mais e recebendo menos. Mas, tanto para a reportagem quanto para os entrevistados, isto não é uma relação nociva, na medida em que, pelo discurso apresentado na matéria, justamente focada na visão de que, em uma mudança de comportamento oriunda da nova visão da sociedade, visualizamos o trabalho não apenas como uma realização financeira, mas também como uma extensão da nossa vida, acreditando que, não apenas pelo salário, há também outros métodos de requerer a felicidade no emprego. Mais além, a matéria mostra, também, alguns casos de jovens supostamente bem sucedidos, trabalhadores que, em dias normais, não se desligam do seu trabalho, chegando a perder a noção da diferença entre sua vida pessoal ou sua vida de empregado, desenvolvendo em essência o que se define pelo conceito de workaholic, mas tentando dar uma visão humanitária a isto, na óptica de que o conceito do workah0lic clássico estava inerentemente ligado ao trabalho corporativo, burocrático e tecnocrata, mas que as novas gerações – workaholics que negam o workaholicismo – não se enquadram no perfil, principalmente pela busca de auto-realização, a satisfação pessoal em empregos “alternativos”, fugindo da imagem do mercado corporativo padrão e investindo em novos tipos de trabalho.

Pessoalmente, vejo esta forma de visão negativa em vários pontos, mas tentarei resumir em um argumento único. Com esta visão, o primeiro problema que podemos analisar é, justamente, a questão do próprio salário em si; se acreditarmos que a resposta ao trabalho de um funcionário não está ligada ao quesito financeiro – mas também há uma série de fatores subjetivos – desarticulamos os direitos trabalhistas básicos, oriundos de uma série de fatores socialmente objetivos, e passamos a analisar a questão toda com dinâmicas pouco factuais, girando principalmente sobre questões ao qual cada indivíduo enxerga a resposta por uma série de interpretações pessoais, obtendo uma respostas diferente para cada pessoa no mundo. Ora, é simples de perceber o quão nocivo é o fato do funcionário se desapegar da necessidade de receber melhor, agregando fatores de felicidade completamente subjetivos as suas realizações profissionais: enquanto o salário é a própria situação matemática da retribuição de uma relação entre empregador x empregado (você recebe X por Y horas trabalhadas/produzidas), argumentos como “sucesso” ou “felicidades” são completamente imprecisos, variando de pessoa (empregado) para pessoa (empregado); afinal, como posso mensurar uma diminuição relativa no salário médio através de diferentes “níveis” de felicidade entre funcionários diferentes?

Desta forma, quando vemos a contribuição de discursos do tipo, sobre a alegação de que, em uma visão de mundo contemporâneo perfeito, o indivíduo aceita trabalhar mais e receber menos – dada a sua relação de felicidade com o cargo exercido – vemos que, novamente, de maneira sutil, a propaganda ideológica do establishment age com o intuito de corroborar a cegueira social das classes mais baixas, garantindo que estas, por sua vez, não se preocupem com a renda inerente da produção gerada pelo seu próprio trabalho, podendo assim, como expresso nas entrelinhas, abrir mão de maiores pagamentos que, desta forma, são revertidos (evidentemente) para a maior lucratividade dos altos escalões da própria corporação (muitas vezes, membro da elite). A lucratividade é estática, determinada previamente pela própria empresa para determinado produto ou serviço ofertado pela mesma,  não deixando de existir em nenhuma hipótese; um funcionário receber menos não condiz com uma diminuição média do preço do produto ou serviço ofertado, assim como não apresenta nenhuma melhora substancial para o consumidor, na medida em que todo o processo gerado a partir da produção de determinado produto ou serviço, oriunda do trabalho deste mesmo funcionário, continuará existindo com o mesmo custo, independente se ele aceite receber mais ou menos; um funcionário que se dispõe a receber menos – seja lá qual motivo subjetivo agregado – só representa perda para o próprio funcionário, além de todos os indivíduos da classe a qual ele está inserido, baixando a renda média de seu grupo e estabelecendo um novo padrão mínimo para a contratação de um trabalhador.

Além do que, creditar conceitos subjetivos e positivos – como “felicidade”, ou “auto-realização” – ao próprio emprego, não deveriam ser vistos como diferenciais atrativos. Em uma relação de trabalho humanamente sadia, é mister acreditar que, por um motivo de sensatez, todos os empregados tenham um mínimo de condições de apreciar, de alguma forma, aquela função que exercem, sem precisar trocar sua “felicidade” em detrimento de um salário menor. Ou seja, uma condição não está necessariamente ligada a outra, nem DEVERIA ser especulada esta realidade porque, para uma questão de humanidade, deveríamos crer que uma empresa com condições mínimas de funcionamento deveria, por si só, operar com funcionários felizes E bem pagos. Novamente, tentar estabelecer uma comparação entre os argumentos é fruto do discurso ideológico da propaganda do establishment, querendo elencar valores completamente diferentes aos indivíduos, fazendo classes sociais inferiores acreditarem na necessidade de, ou procurar empregos bem remunerados, ou procurar a felicidade através de empregos com menor remuneração. Por uma questão de lógica óbvia – levando a crer que todo ser humano quer ser feliz – é sensato perceber porque a “nova geração” de empregados prefere, desta forma, optar pela menor remuneração e mais felicidade, deixando crer no mito de comparação entre os dois pontos e, claro, levando a elite a contratar funcionários felizes…mas cada vez mais baratos. Nesta tática, vemos novamente o aprisionamento social e cultural, o poder de persuasão da “nova aristocracia Industrial” em vislumbrar, através da manipulação do discurso, o controle das massas, criando uma série de pequenos “ritos” ligados a própria questão de sobrevivência necessária ao indivíduo de uma sociedade ligada exclusivamente ao capital.

Para perceber este exemplo, cito (algo que eu tanto critico aqui): o mercado de agências de propaganda. É de praxe em quase todos os casos deste nicho que, sabidamente, agências pagam muito mal os seus funcionários e, não só isso, fazem os mesmos exercer muito mais horas de trabalho do que o estipulado na legislação, ou na carteira de trabalho. Mas por que quase nenhum dos contratados reclama deste tipo de abuso? Justamente porque há um senso comum no meio sobre a situação subjetiva de que, não só como trabalho, a agência é um “aprendizado”, aonde funcionários de cargos mais baixos DEVEM experimentar o processo de sofrimento para valorizar o mercado de trabalho e o próprio emprego em si – ambos escaços – percebendo a situação de competitividade aonde só os (supostamente) melhores e mais dedicados publicitários sobrevivem; além disso, vemos que o próprio espaço de trabalho das agências é montado para poder passar a mensagem da informalidade do serviço, levando os funcionários a crer no sentimento de que, mesmo na situação de total submissão, não estão ali não apenas pelo trabalho, mas pela diversão do serviço em si. A informalidade, camuflada como diversão, leva estes mesmos funcionários – mal remunerados – a não se importarem com esta questão, a não considerar que, mesmo exercendo funções por muitas vezes completamente estressantes e carregadas de responsabilidade, tudo isto não precisa se refletir no recebimento de mais dinheiro e, desta forma, a agência pode lhes pagar mal, sendo um local divertido, feliz, amistoso, diferente dos outros tipos de trabalho vigentes na sociedade. Isto, claro, permite aos próprios donos da agência lucrar mais, pagando muito menos por uma equipe que, mesmo recebendo migalhas, ainda assim, exerce seu trabalho com um esplendor impar, justamente porque acredita na subjetividade do discurso imposto pelo establishment.

HLB

Mas, não só isso, o discurso positivamente camuflado na dinâmica de agregar mais trabalho e menos salário gera, por consequência, um problema ainda maior: a não divisão de relações entre vida pessoa x empresa.

Quando percebemos a mensagem ligada ao fato de enxergar na produção de trabalho a dinâmica de não estar abertamente ligada ao salário, de funcionar como uma extensão de suas realizações, de vislumbrar o serviço como uma realização pessoal, criamos uma sociedade aonde confundimos cada vez mais as diferenças sociais de indivíduos que não separam o seu universo de trabalho com o seu universo pessoal. Trabalhadores determinam cada vez mais tempo para resolver situações ligadas ao emprego – recebendo menos – e, além de tudo, não percebendo isto, levando a crer que, em uma dinâmica de mundo moderno, tanto a labuta quanto a vida pessoal convergem para o mesmo mecanismo social, aonde todos estão ligados invariavelmente pelo mesmo processo. É o caso de empregados, como diz a reportagem, que passam “24 horas ligados à empresa“, através de celulares, e-mails, facebook ou seja lá o que for, trabalhando para a corporação não importando a hora que seja. O trabalho passa a não ser apenas a sua atividade geradora de renda, mas sim a sua própria ocupação, definindo sua vida em relação ao que você faz para gerar sua própria renda. Basicamente uma “robotização” social, criando indivíduos que produzem em uma escala absurdamente maior, descansam cada vez menos, se desligam de suas obrigações cada vez menos – o que, obviamente, agrega uma série de problemas de saúde – e, mesmo assim, não recebem adequadamente. Para a garantia de “poder social” do establishment, esta é a melhor maneira de poder controlar as castas mais baixas, cada vez menos críticas sobre as relações sociais aonde estão inseridas, apenas preocupadas em dormir, acordar, comer e trabalhar…para sobreviver.

E, desta forma, com uma relação cada vez mais dependente da própria situação financeira, vemos classes sociais mais baixas que não conseguem “quebrar a corrente”, vivendo uma situação social análoga a escravidão, sem a necessidade das correntes ou do sofrimento – ao menos do sofrimento aparente – acreditando em uma suposta liberdade social, suprindo suas necessidades ou frustrações oriundas da falta de viver de fato, compensando os problemas da humanidade no consumismo por desejos fúteis, acumulando bens e pertences em uma tentativa de tapar os buracos da “prisão sem grades”, acreditando que a liberdade de uma sociedade é unicamente ligada ao seu poder de consumo, ao fato de que, agora, podemos comprar mais e compensar os buracos e problemas sociais que visualizamos todos os dias. Do macaco, chegamos ao burro, uma população que não percebe a fragilidade do sistema financeiro, a fragilidade da própria sociedade – coordenada por uma pequena elite social, controlando todo o resto da população financeiramente e culturalmente – manipulada e persuadida a acreditar na eficiência da democracia política, quando é fácil e mais sensato perceber que ainda vivemos alheios aos senhores de engenho que ainda existem e, das formas mais sutis, ainda mandam nos seus escravos. Pior que os antigos escravos, que ainda brigavam pela sua liberdade, somos utopicamente burros, burros de carga, desempenhados a produzir todas as necessidades do establishment e não questionar o porquê deles continuarem exercendo qualquer tipo de “poder social”, mesmo sendo uma minoria no mundo moderno; acreditamos na inércia social, na função de que, como meros indivíduos isolados, não somos capazes – e nem devemos – questionar isto. Evoluímos ou regredimos, em qual visão nos encaixamos melhor? Macacos ou burros, afinal?

A resposta é muito pessoal, mas a previsão é fácil de concluir. Com uma discrepância cada vez mais considerável entre o establishment nacional e o resto das outras camadas da sociedade, não é difícil de acreditar que agreguemos mais aspectos da época medieval, aonde surgiram os antigos burgos lá do início do texto. Se já consideramos aspectos cruciais da influência da aristocracia europeia, das relações entre elite e classes mais baixas, da mesma forma, poderemos vislumbrar mudanças ainda mais radicais para a nação brasileira. A prisão cultural e financeira nos torna, cada vez mais, dependentes das dívidas financeiras que, obviamente, nos levam também a não-realização de nossos desejos pessoais, na medida em que criamos uma população vivendo do pagamento cíclico das próprias dívidas acumuladas anteriormente. Aliado ao aumento das atividade ligadas ao trabalho em detrimento das relações pessoais, é possível perceber cada vez mais um Brasil disposto a expandir seu Neo-Medievalismo (citado lá no início do texto), na medida em que, no aspecto mais contundente, tendemos a aumentar os problemas da sociedade – como violência, assaltos, mal planejamento social – criando um universo urbano quase feudal, aonde apenas a elite (encabeçada pela “nova aristocracia Industrial”) usufruirá das relações positivas oriundas dos aspectos biopsicossociais de nossas cidades, esbanjando eventos, esbanjando posses, esbanjando a segurança garantida pelas forças de Estado, visando, como de costume, proteger apenas a minoria mais abastada. Enquanto isto, o resto da população, evitando problemas da falta de planejamento social (como a violência urbana), vivendo com a falta de verba adequada para os indivíduos e, além disso, evitando demasiado desgaste para garantir melhor disposição no trabalho, viverá cada vez mais enclausurada (nas suas casa ou em pequenos espaços de convívio, como bares próximos à residência), cada vez mais ligada à família e com um circulo de amigos reduzido, restrito, ignorando o contato social urbano das metrópoles, das ruas, evitando o crescimento da vida e do convívio nos próprios espaços de convivência oferecidos pela cidade em si. Além disto, claro, reforçando o conceito do feudo, as classes mais baixas ficarão ainda mais presas a sua elite, principalmente através das dívidas adquiridas pelos baixos salários, vivendo numa situação de constante servidão (não percebendo isto, claro, na lógica de acreditar em sua pseudo-liberdade, a “prisão sem muros”), compensando a própria condição de “escravo não-escravo”, gastando cada vez mais em bens tecnológicos para suas residências; substituindo, desta forma, a religião oriunda dos feudos, construindo verdadeiros “templos digitais” em suas próprias casas, acreditando que vive uma relação de interação entre o homem x máquina completamente sadia, não percebendo que, dado o grau de contato com a própria tecnologia, estaremos em uma relação quase que religiosa com a mesma.

A sociedade dos burros, afinal, vinda do macaco, preparada para continuar animalesca, repetindo seus atos ciclicamente, acreditando – sempre – que a geração atual, mesmo com todos seus problemas, é intelectualmente superior aos antepassados. Não aprendendo com os erros, não diagnosticando a submissão e, para a grande maioria, vivendo a margem da própria vida.

Boa Noite!

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3 pensamentos sobre “Do macaco ao burro: como construímos uma sociedade de escravos sem escravidão

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