Meu gato bateu as botas

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Pois é, galera, quem acompanha o blog percebeu que eu não posto há um bom tempo. Faz sentido, porque meu gato de quase 16 anos morreu neste domingo que passou. Na quarta-feira, ele foi internado as pressas com um problema na bexiga, fez uma cirurgia, mas não resistiu ao pós-cirúrgico. Estava velho, não aguentou todo processo, bateu as botas no domingo pela manhã, antes do meio-dia. Calculando que eu tenho pouco mais de 25 anos e ele quase 16, eu convivia com o bicho desde uns 9 anos; pra falar a verdade, eu nem me lembro direito que idade eu tinha quando ele chegou aqui em casa, mas foda-se, foi muito tempo igual e este é o ponto principal de eu estar comentando a morte dele.

Era um gato persa gordo imenso, veio parar aqui em casa por um fato inusitado: tinha nariz. Quem bem sabe, o gato persa tem aquela cara bizarra achatada; e, todo mundo que compra/adota um gato desta raça, quer o bicho justamente por esta característica peculiar. Como meu gato tinha nariz, meu tio (que criava gatos) não conseguiu vende-lo enquanto filhote. E aí ele veio aqui pra minha casa, o reduto dos animais rejeitados.

Foi o meu primeiro bicho e um dos que mais ficou aqui em casa. Já passaram cachorros, já passaram peixes, já passaram passarinhos, já passou até o próprio filho deste gato, mas lá estava ele, firme e forte por quase 16 anos. Sendo um gato velho, com comportamento de gato velho, mas lá, no canto dele. Morreu, acabou, é triste – eu sei – mas não vou cair no conto do vigário de me promover fazendo textinho de morte ou depressão, nem escrever o fato de como ver um animal partir é uma experiência transcendental, profunda, triste e blábláblá. Um monte de gente já fez isto, alguns ganharam uns bons milhões e até viraram filmes. Eu acho bem escroto usar a morte do bicho para sentimentalismo raso e auto-promoção. Quem já teve um bicho que bateu as botas, sabe como é, pronto. Quem não teve um bicho, não sabe. Fim. A vida como ela é, goste ou não. O que eu vou falar aqui é uma experiência puramente pessoal e longe de ser um fato universal, porque só quem conheceu o gato talvez venha a entender.

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Existe aquele dito popular que fala que “o bicho fica com a cara do dono” e, por um lado, é bem verdade. A convivência e a própria educação que o humano “ensina” ao animal, acabam deixando ele do jeito que você quer; o jeito que você é, refletido em um animal “irracional”, basicamente. Logo, pela lógica mais simples de todas, se eu vou falar do lado “pessoal” do meu gato, claro, este texto é quase uma autocrítica a quem eu fui até hoje, interpretado em quase 16 anos que eu convivi com aquele felino acima do peso.

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O primeiro ponto que eu quero tocar é justamente sobre aquela clássica briga de “por que um gato e não um cachorro?”; nem eu sei o porquê, não to nem aí pra opinião de vocês, foda-se, eu gostava mais dele do que de cachorros (e eu tenho cachorros). Não existe uma justificativa moral para isto. Cada um tem o animal que acha melhor e eu tinha um gato. Um gato gordo, folgado e com um gênio duvidoso. Este era ele e eu criei ele assim, cabe a mim dizer como ele era.

Quem dá de cara com a página principal do blog, logo lê aquela frase em latim ali em cima, que basicamente quer dizer algo como “através da verdade, enquanto vivi, eu conquistei o universo”. Claro, se você não for minimamente inteligente, vai perceber que ninguém ali está levando as coisas ao pé da letra. Ninguém vai dominar o universo inteiro e não existe uma verdade absoluta no mundo; é uma colocação poética, de Christopher Marlowe, na sua versão da obra de Fausto. A verdade não está no fato absoluto, mas na sua visão dela, no que você entende por ela e como você interpreta o mundo. Assim como o universo não é no sentido literal, mas falando exatamente do “universo” do indivíduo, aonde ele vive e está inserido. Se a gente pudesse interpreta-la de uma maneira mais popular, estaríamos quase dizendo que “se eu sou honesto nas minhas atitudes comigo mesmo e com os que me cercam, parabéns, eu sou foda”. Brincadeiras a parte, é exatamente isto. Mas por que eu estaria falando sobre isto? Por que esta frase explica muito sobre mim e, consequentemente, sobre meu gato? É sobre isto que eu quero falar.

O bichano cresceu boa parte da sua vida como o centro das atenções, desde pequeno ele foi estupidamente genioso, um animal cheio de vontades e folgado além da conta; não a toa teria de morrer dormindo num domingo e virar cinzas antes do dia do trabalho. Maior ironia para a sua morosidade, impossível. Como gato, fez muita merda de gatos, caçava baratas, caçava o papel higiênico, caçou os passarinhos aqui de casa e nem precisava de nada disto, porque ele tinha a comida dele; fazia porque gatos são naturalmente caçadores, mesmo os gordos e folgados, como ele. Nunca respeitou muito as autoridades e não respeitava as cachorras daqui de casa, também: dava porrada nelas e roubava a comida do prato das cadelas quando bem entendia. Alias, logo que as cachorras chegaram em casa – para mostrar quem mandava – cagou na cama da minha mãe, demonstrando total indignação em ter de conviver com bichos novos sem ser avisado. Deu porrada no próprio filho, vomitava nos tapetes da casa toda vez que alguém limpava, comia até passar mal e vomitar tudo, pedia para comer requeijão e uma vez me roubou um pedaço de pizza, quando eu sai para ir no banheiro e deixei o prato em cima da cama; não a toa morreu com mais de 5 kilos, o que é bastante para um gato de quase 16 anos. Era assim, folgado, indolente, escroto, no melhor e mais poético sentido dos termos. Atacava quem tentava dar remédio para ele, odiava a faxineira e vivia numa constante guerra para garantir que o seu espaço de dormir – um trapo velho que ficava na cozinha – não fosse violado por ninguém. Foi-se Pumba, o gato, depois de quase 16 anos, nascido no fatídico ano de 1998, naquela Copa escrota em que Travequinho pipocou e o mestre Zidane cagou na nossa cabeça.

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E se este gato era como era, exatamente, diz muito sobre ser quem eu sou. Frequentemente eu me pego xingando jornalistas, mandando e-mail para presidente e perdendo meu tempo batendo boca com empresas e outros caras (na teoria) mais fodas e importantes do que eu; a galera que consiste a mais bela “nata social” do Brasil. Eu sempre digo para minha namorada que eu poderia me colocar no meu lugar e considerar que eles tem muito mais poder, tempo e dinheiro do que eu e que este tipo de coisa nunca vai levar a lugar nenhum; mas foda-se, isto não quer dizer que eles são melhores do que eu. De fato, eles não são ninguém e eu não me coloco no meu lugar porque humildemente sei que sou melhor do que todos eles juntos, mais inteligente, mais preparado e posso, sim, xingar e desmerecer quem eu bem entender que está abaixo de mim e daqueles que eu defendo. Esta é a minha lógica, meu universo e através da verdade vou, aos poucos, ganhando de quem eu quero. De um jeito ou de outro.

Ele, Pumba, claro, educado por mim, crescendo comigo, não haveria de ser diferente; e viveu todos estes anos assim. Se não gostava das cachorras, batia; se não gostava da comida, cuspia fora; se estava afim, vomitada nos tapetes; se queria fazer merda, ia caçar a gaiola dos passarinhos na madrugada, derrubando a porra toda e acordando todo mundo no meio da noite. Não foi um gato educado, era genioso, mas também não era de fazer muita coisa, afinal, qualquer que fosse a atividade, era trabalho demais para exerce-la por muito tempo. A desobrigação de qualquer coisa foi outro ponto em que combinamos; se ele era espaçoso e de poucas atividades estressantes, parabéns, é porque eu também sou assim. Afinal, não perderia tanto tempo criticando o sistema corporativo/workaholic se eu tivesse efetivamente algum interesse em ser um coxinha corporativo de terno e cara de bunda. Era o meu gato, não precisava falar como gente, mas sabia o que queria, sabia o que dizer. Eu, através da verdade no meu universo; ele, através da verdade no universo dele, cada qual fazendo da forma mais honesta o que acreditava ser certo para garantir a sua sobrevivência – e relevância – ao longo dos anos.

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Como gato, era um animal noturno. Como eu, ficava acordado durante a madrugada; foram frequentes as vezes que fui dar uma volta pela casa lá pelas 3 ou 4 da manhã e estava ele, lá, todo pimpão caminhando e acordadão, mesmo depois de velho, fazendo o que queria durante a noite, não durante o dia. Afinal, sabiamente os felinos entendem o valor da madrugada muito melhor do que nós, humanos. E ele, Pumba, sabia a felicidade de virar a noite para passar o dia deitado sem muitos compromissos.

Imponente, grande, um dos maiores gatos que eu já vi; uma vez um estranho passando na rua, viu o gato na janela e gritou algo como “ih, olha lá, é o maior gato do mundo!“. Talvez não fosse o maior, mas sabia ocupar o seu espaço e estar presente, sempre em volta quando precisava chamar atenção, ou disputando espaço com os outros animais da casa quando queria; mas, se quisesse, também sumia, ficava no canto dele, conforme quando morreu, quieto, sem incomodar ninguém e dormindo. Viveu como haveria de viver e, conforme prometi, não vou entrar em detalhes de morte. É injusto ficar neste blábláblá; até porque, ao que cabe à justiça moral, o gato viveu quase 90 anos humanos, melhor do que muitos nós iremos viver, então não existe motivo de choradeira. A (talvez) única injustiça com os animais é o fato de que, socialmente, não podemos fazer as mesmas coisas que eles. Veja bem, mesmo que ele fosse meu gato, obviamente, nunca poderíamos beber juntos em vida, porque o corpo de um gato não administra o álcool. Injustiça, esta, que acaba separando o mundo dos humanos do mundo dos animais em alguns momentos-chave da vida de ambos. Injustiça, esta, que pode ser ignorada em morte. Ao melhor estilo irlandês/cigano/mexicano, por que perder o meu tempo se lamuriando com a morte triste e católica de pregação, choro e arrependimento, quando sabidamente o gato teve uma vida plena? Se nunca pude beber com o gato em vida, esta é a melhor oportunidade que eu tenho para homenageá lo em morte. Fica aqui a minha homenagem aos quase 16 anos de vida para Pumba, o gato:

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3 pensamentos sobre “Meu gato bateu as botas

  1. vai para o meu blog este teu testemunho incivilizado de gato de botas com personalidade de ARTAUD…………PARABÉNS PELA FELINA
    CONVIVÊNCIA,,,,,,,,,,,,,,,,ZE AUGUSTHO MARQUES

  2. vai para o meu blog este teu testemunho incivilizado de gato de botas com personalidade de ARTAUD…………parebéns pela felina convivência…….Zé Augustho Marques

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