Lapadas do Povo – Speed

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Vamos aos fatos: Porto Alegre é a capital mundial do Xis. E, dentro da capital mundial, há o rei dos reis, conhecido como Speed Lanches.

Para quem é de fora, ou é um turista na própria cidade, não deve estar acostumado com o conceito do Xis. O Xis é a evolução gaudéria-brasuca do famoso Cheeseburger, que é uma evolução natural do convencional Hamburger. Na transição do Hamburger para o Cheeseburger, basicamente, a evolução foi o acréscimo do queijo, dando o nome ao próprio alimento. Na evolução do Cheeseburger para o Xis – que nada mais é do que um termo abrasileirado da mesma palavra – houve o acréscimo de tudo. Tudo mesmo, sem restrições de sabores ou aspectos.

Um bom Xis que mereça destaque, realmente, deve conter o máximo de coisas no maior espaço possível: maionese, ervilha, batata, ovo, mais maionese, carne, alface, tomate, queijo, milho e mais um pouco de maionese, tudo no meio daquele pão prensado pra esquentar o saboroso sanduíche. Esta aí a fórmula do sucesso, eis o kit felicidade e a maior criação brasileira depois do avião, do samba e da feijoada…o nosso querido Xis!

Mas, se estamos falando da capital mundial do Xis, por que dentre tantos estabelecimentos especializados nisso há um que é considerado o rei dos reis?

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A história do Speed se une a proporção em que este singelo boteco aí da foto (lá do começo da postagem) ganhou fama. Cravejado ali, na rua mais boêmia da capital gaúcha – Lima e Silva – ficava o miúdo espaço gerenciado pelo famoso Pereira (gremista fanático) e que, junto com a vida noturna das boates da região, servia o mais saudável e completo alimento para todos aqueles aventureiros que iriam curtir a noite da Cidade Baixa. Era o ponto de parada antes da festa ou depois da festa; a única certeza absoluta era a passada em algum momento da madrugada para comer o Xis do Speed e garantir com sucesso a satisfação plena alimentar.

O preço, na época módico, aliado ao seu tamanho monstro, unia todos aqueles esfomeados que não estavam nem aí para aparência do local e se empanturravam com o mais variado cardápio de Xis da cidade, indo do tradicional e famoso Xis Salada aos mais elaborados Xis com Bacon e Xis Coração. Mas não era apenas o tamanho descabido que atraia as milhares de bocas famintas que ali se alimentavam toda noite. Pessoalmente eu defendo que, antes de tudo, o Speed tem um sabor bom pra caralho, fazendo este o diferencial do sanduíche para os concorrentes, que não chegam nem aos pés; o segredo da fórmula está na combinação perfeita da maionese e a salada de tomates fresca, com a carne bem macia, se juntando no mesmo paladar do ovo e da batata palha que, embora a simplicidade dos ingredientes, cria uma mistura única. Mas, enfim, talvez eu esteja errado e não tenha nenhum segredo; o único fato é que, realmente, o pequeno estabelecimento logo se tornou o maior império mundial do Xis. A ascensão meteórica fez a casa se expandir para outros dois espaços – todos próximos – um na esquina da mesma rua e o outro na famosa padaria, que carinhosamente ficou conhecida como Padoka, além de abrir uma telentrega e passar a aceitar cartão (o que foi praticamente uma revolução).

Reunia, ali, todo tipo de gente, desde headbangers, rockeiros, pagodeiros, funkeiros, ricos, pobres, mulheres, mendigos; você encontrava o maior resumo democrático dos estilos de Porto Alegre, todos sentados no balcão com um único intuito: saciar a fome da maneira mais selvagem possível. Frequentemente você puxava papo com pessoas que nunca conversaria em outro momento do dia, dando início aos mais variados e estúpidos tipos de assunto, só para render umas boas histórias de pescador com gente aleatória. Foi na porta do Speed que, conversando com um mendigo, eu e uns amigos reparamos que ele andava com uma camiseta de Formandos Ciências Contábeis; ficamos na dúvida: estávamos na frente de um gênio subestimado e maltratado pela vida ou estávamos na frente de um cara que ganhou uma doação e nunca havia feito a faculdade em questão? Este era o tipo de filosofia ébria que o Speed lhe fazia refletir.

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Foto da Padoka, abrindo durante o dia.

Mas então veio a mão de ferro Fortunatiana, que ao invés de se preocupar com boates e casas noturnas, fechou botecos alegando “risco eminente à vida“. Porque fazia muito mais sentido, claro, ao invés de vistoriar um local fechado e sem saídas que recebia mais de mil pessoas por noite, ficar vistoriando bares que tinham meia dúzia de mesas e uma porta imensa. Tal qual Speed, outros locais caíram na malha fina maluca do psicopata e prefeito, tornando a Cidade Baixa um lugar ermo e vazio por um tempo. E, neste período, não sei o porquê – talvez brigas internas – o Speed acabou se separando, mantendo apenas a casa original. Além disso, teve de sofrer algumas reformas, atendendo as satisfações do rei-ditador-prefeito, que não vistoria boate, mas vistoria boteco, culminando em vários aspectos que mudaram o visual da casa e a deixaram mais ou menos assim:

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Eu confesso que algumas mudanças realmente foram muito boas. A inserção de mesas foi uma benção, porque todos aqueles que viveram o antes e o depois do Speed, como eu, sabem como era um saco comer o trambolho imenso do Xis tendo que se equilibrar, ora sem mesa, ora apertado no balcão, ainda mais tomando um refri. Além disso, com este elevado na porta (que imita um deck), aquela confusão de gente na entrada do estabelecimento acabou sumindo, criando assim um ambiente mais organizado e mais fácil de circular; até porque as vezes o cidadão quer ir no banheiro, ou tomar uma cerveja de boa na garoa e, com o acesso lotado, ficava uma merda de ficar circulando e esbarrando na galera, como se fosse uma festa, quando na verdade é uma lancheria.

Mas, na medida que as inovações trouxeram o benefício claro do conforto, há de se concordar que, com toda esta pinta de lanchonete americana, o Speed acabou perdendo o charme da casa antiga, com um portão que mais parecia uma garagem e todo o atrolho em volta do caixa, deixando o Pereira maluco com a vida. Não só isto, com a inflação das coisas, o antigo preço módico acabou dando uma subida considerável, o que tornou o Xis mais caro, comparado a antigamente; ainda é barato, sim, mas incomparável com o custo x benefício de outras épocas, aonde praticamente te garantia uma refeição por, em média, 5 reais.

No entanto, mesmo com os “contras” atuais, quem é rei nunca perde sua majestade e não foram as pequenas mudanças que tiraram o antigo posto do Speed. Comi lá recentemente e, ainda assim, estamos falando do melhor Xis do mundo, o rei absoluto de Porto Alegre. Quem conheceu a antiga casa, claro, guarda a nostalgia do local; mas, inegavelmente, a nova casa ainda vale – e MUITO – a visita, garantindo no coração da boemia gaúcha uma opção gigante e barata de uma comida (nada) saudável e light, mas ainda assim, muito apetitosa.

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E é isto, galerinha. Boa tarde e continuem me seguindo! Fui!

Nome: Speed Lanches

Endereço: Rua General Lima e Silva, 427

Média de preço: 8 a 12 reais sem bebida e uns 15 com refrigerante.

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