Menos uma para o mercadinho da prostituição

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Bom, galera, não venho postando muito porque estou escrevendo (e retomando) o conto dos 7 dias de Luiz, mas ontem aconteceu um fato para Porto Alegre que não poderia passar em branco: a agência de publicidade DCS fechou as portas, depois de 27 anos de operações.

Alguns devem se perguntar qual a relevância do fato e, realmente, para a maioria não deve ser nenhuma grande notícia. Mas para mim, formado em publicidade, isto é um feito positivamente incrível. Principalmente sobre minha defesa ideológica, que debaterei brevemente abaixo.

Mas antes de chegar ao meu argumento, vou situar vocês sobre o passado recente da DCS: a empresa foi pega em um escândalo de superfaturamento junto ao setor de marketing do Banco Banrisul. Como era de se esperar, neste Brasilzão de meu Deus, acharam um bode-expiatório rico, que ficou preso uns meses, foi solto, acabou, o papo morreu aí e, inclusive, alguns dos diretores supracitados no relatório da investigação, continuaram trabalhando ATÉ O ÚLTIMO DIA DA EMPRESA, provando o carnavalis brasilis que é a justiça tupiniquim, aonde um cara é comprovadamente ladrão e sequer é indiciado ou preso. Obviamente, em decorrência da queimação de filme gigante, a agência nunca mais se reestruturou e acabou dando cabo ontem, sem muito alarde e sem nem anunciar nos meios virtuais; o site ainda funciona, facebook também. Mas isto é o de menos, resultado de um processo nocivo secundário e que, de fato, indigna a todos cidadãos do bem, não só ao “mundo publicitário”. A minha indignação é direcionada propriamente a um outro universo, ao universo da prostituição; não declarada, ok, mas prostituição mesmo assim.

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Eu já havia escrito um texto antigo sobre o fato da sociedade atual desvalorizar – mas ainda precisar MUITO – do trabalho braçal, que você pode ler aqui. E a desvalorização do trabalho braçal ocorre em decorrência da ultra-valorização (não apenas salarial, mas social) do que representa tudo aquilo que for trabalho “não-braçal”; ou, como eu gosto de chamar, “trabalho intelectual” (não que assim o seja, mas ok).

Para entender o porquê da ultra-valorização do suposto “trabalho intelectual”, devemos analisá-lo de uma maneira mais profunda, olhando bem as relações de trabalho e o relacionamento social que os subordinados (empregados) tem hoje em dia com suas corporações (empregadores) e chefes. E para isto que eu fiz este texto de hoje, focando no mercado prostituído e ridículo que eu conheço do tal “trabalho intelectual”, dando de exemplo a relação nociva das famosas agências de publicidade. Admito, nem todas são assim, claro, mas estarei aqui citando uns 95% dos casos nacionais, inclusive esta empresa aí de cima que encerrou as atividades ontem, e era não assumidamente a maior senzala publicitária de Porto Alegre.

[ATENÇÃO: SE VOCÊ É UM CABAÇO QUE TRABALHA POR AMOR, PARE DE LER AQUI, PARA NÃO SE OFENDER. VOLTE PARA SEU UNIVERSO FELIZ SEMI-ESCRAVO E CONTINUE ACHANDO QUE É UMA MARAVILHA A PROSTITUIÇÃO INTELECTUAL DA SUA VIDA]

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O que me deixa tão irritado, afinal? Todo o processo do mundo corporativo ao qual se cria, quase universalmente (tirando países com desigualdade social mínima, como Noruega e afins, aonde as leis trabalhistas são fortes e a carga horária decente), um mundo aonde o funcionário tem quase um DEVER MORAL de ter uma vida de dedicações ao “universo do emprego”, se dedicando (quase que) arbitrariamente a um um envolvimento além do necessário no ambiente social nocivo e/ou irrelevante para si – além do próprio salário, afinal é para isto que arranjamos emprego (ou deveria ser) – apenas com o intuito de “garantir o futuro”, ou qualquer papo ideológico corporativista do naipe, que gera uma malha de robozinhos destinados a matar ou morrer por uma vaga de qualquer que seja a empresa, caso ela “tenha nome, né, baita currículo“.

O que nós constituímos, basicamente, é uma situação aonde o cidadão não trabalha exclusivamente para ganhar dinheiro – até porque, na maioria das vezes, os empregos tem salários ridículos – ou também não trabalha porque acredita na função enquanto dever social. O cara trabalha por uma hierarquia de sofrimento meritocrática, porque vive em uma realidade de imaginar que, se ele sujeitar fodamente a sua vida durante um período, ele terá o reconhecimento necessário no futuro, para aí sim se livrar destas humilhações. Acredita que se passar 25 anos tomando chibatada de um chefe maluco, depois, claro, ganhará promoções que o coloquem no topo da nata dos mandões. E aí vai lá e inverte tudo, a ilusão da dedicação: você se fode durante muito tempo por acreditar que viver uma vida de merda lhe fará futuramente um merda com vida boa.

E é aí que entra a minha crítica a DCS e outros mercadinhos de prostituição, principalmente sobre o meio publicitário, aonde eu conheço e vejo quase que diariamente. Basicamente o que se constitui é um universo aonde 1% da agência ganha MUITO bem e trabalha pouco e os outros 99% morrem de fome ganhando um salário ridiculamente mal pago, que mal dá pra cobrir as refeições mensais do funcionário. A alegação? Aquele 1% “tem experiência, eles chegaram lá, são os fodões“; os outros 99% precisam RALAR (qualquer um que use esta palavra para definir mal salário, é um boçal), precisam sofrer, trabalhar muito e ganhar pouco para, quem sabe, daqui a 20 anos ser o 1%. Que promissor! Que edificante!

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E assim nós criamos um mercado ridiculamente prostituído e escravo, aonde se crê que o sofrimento é um valor inerente do trabalho, de que é necessário o caminho tortuoso de pessoas disputando e se matando para receber 700 reais e passar 12 horas socado numa agência comendo pizza, de achar que isto é normal, que é a “vida do trabalhador”, “vida do publicitário” ou o que quer que seja e ainda definir isto de uma maneira meio cômica, com um certo orgulho de dizer “hoje eu virei a noite trabalhando, loucura demais!“, de se auto-intitular workaholic, entre outras coisas do gênero. Perpetuamos uma ideia com base em uma filosofia bizarra de competição, levando a crer que a merda de vida do empregador é o único caminho louvável para o apogeu empregatício de chefe mandão no futuro. Afinal, é a estrada necessária a se passar, conviver com a dor para evoluir.

Isto, entre outras coisas, gera a possibilidade real e que acontece diariamente, de agências fodidas como esta tal de DCS pagando mixarias para pessoas que tinham responsabilidades gigantes nos seus cargos. A justificativa: não quer esta vaga? Tem outro que queira, a fila anda, faz parte do aprendizado vivenciar isto.

Que aprendizado, cara pálida?

A labuta nunca foi um reduto de intelectualidade – mesmo os ditos trabalhos não-braçais – se resumem, exclusivamente, a uma produção de algo para ser distribuído a terceiros. Você produz conteúdo, produz peças, produz capital, enfim, você tá lá por um motivo, para gerar alguma forma de serviço para um empregador que lhe pague. Ponto, isto é trabalho. A conceituação de definir o trabalho com um processo além do que ele é (um gerador de capital), cria um sistema filosófico aonde cabações de marca maior acreditam que o dinheiro não é necessário, que trabalhar de graça (ou abaixo de um valor digno) é lindamente bonito e necessário para fazer parte de um processo maior de “aprendizado da vida”, alguma suposta conceituação maquiada de acreditar piamente na ideia de que, sim, aquilo é a necessidade sadia de conhecimento humanitário universal, afinal todos passam por aquele processo. Errado e ridículo. Prostituição disfarçada, eu diria. Dúvida? Então leia esta reportagem aqui. Ou esta aqui. E termine lendo este texto aqui.

1 – O primeiro texto fala justamente sobre a questão de como a “geração dos 20” trabalha cada vez mais e ganha cada vez menos.

2 – O segundo texto (em inglês, me desculpem) conta como a entrada da Amazon no mercado inglês, com uma filosofia de pagar pouco e ter muito trabalho, fodeu com uma cidade inteira.

3 – O último texto fala justamente sobre as pessoas que trabalham demais, se dedicam muito a vida corporativa e como isto prejudica, além do próprio rendimento, a saúde do indivíduo.

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O que que difere estes 99% de sofredores de uma agência para uma puta, alias? A puta trabalha no mercado do prazer, com o objetivo do lucro; em alguns casos, recebe muito bem, por sinal. Já os 99% de sofredores trabalham por prazer (como o primeiro quadrinho que eu postei ali acima) e o lucro não é lá tão importante assim, afinal, recebem pouco e não se importam muito com isto. Ou seja, a puta, no final das contas, está em um mercado muito mais digno do que o nosso. Em uma escala social, a puta tem mais direitos, mais oportunidades e recebe mais. E é por isto que eu me refiro a estas agências como “os mercadinhos da prostituição“, porque elas não são nada além disto mesmo. Pura e simples prostituição; um bando de ananás vendendo o corpo por vontade própria, recebendo mal, sob uma crendice de uma filosofia errada. Além de putas, trabalhamos em regime de semi-escravidão. Que digno! Que belo!

A associação da vida particular com o trabalho, levando a crer que as coisas se misturam e, de fato, deveríamos viver para ou no trabalho, cria e perpetua o mundo da injustiça social e salarial. É cada vez mais comum ver estes crentes corporativos fazendo horas-extra por amor, enforcando o almoço pra terminar alguma pendência, cobrando baixíssimos salários porque “isto eu faço porque eu gosto” ou “isto vale o aprendizado“, entre outras milhões de justificativas para receber pouco e não reclamar sobre isto. Se o burro que recebe pouco está feliz, é competente e gera resultados, porque o chefe que ganha 18 mil vezes mais vai se importar? E é isto que acontece. A disparidade gritante entre funcionários e qualquer um que tenha um carguinho melhor. Os peões fazendo todo o mundo girar e recebendo misérias, enquanto os chefões ficam lá colhendo os frutos e comendo caviar, como verdadeiros reis. Reinados que, como descreveria Zizek, “o rei só é rei porque assim os súditos acreditam“.

Não existe justificativa lógica para a disparidade salarial e da falta de dignidade social que corrobore uma diferença tão grande, apenas porque os burrões que recebem migalhas acreditam que assim deva ser, amém. Parafraseando, poderíamos dizer que “o chefe faz o que faz porque assim os funcionários o creditam como tal“. Não existe uma culpa de ação APENAS sobre aquele 1% feliz e bem remunerada, mas também sobre as prostituas dos 99%, porque aceitam a disposição de uma filosofia e perpetuam que o mercado pague baixos salários e explore os funcionários, defendendo a competitividade esdrúxula desde a entrevista de emprego até a saída da corporação, trabalhando quase igual um presidiário numa mina de carvão, mas se enganando que aquilo tudo faz parte de um processo maior de meritocracia laboral.

Eu fico muito feliz, sim, que uma agência como a DCS tenha fechado desta maneira deprimente, saindo na surdina assim, sem nem dar um adeus digno. Foda-se mesmo, bem grande, um bando de explorados pode vir e falar que “mesmo com todo sofrimento, eu tenho ótimas lembranças daquele lugar“, ou “foi um ótimo aprendizado, era uma família“, eu não me engano com este papo. A real é que eles pagavam mal demais os funcionários, destratavam os estagiários (muitas vezes de maneira maquiada, colocando uma pressão fodida em uma galera que ganhava uns 500 contos por mês), criavam um universo bem feudal, aonde os sócios que roubavam e viajavam constantemente pra Europa, recebiam rios de dinheiro, enquanto a galera que suava, perdia o sono e dormia na agência, tava lá ganhando trocadinhos. Bem-feito, fechou, menos um mercadinho de prostituição, menos um local de abuso de poder descabido, menos uma destas merdas enfeiando a minha sociedade perfeita utópica. Poderiam, alias, ocorrer uma sucessão de fechamentos de agências, de grandões mandões quebrando, de gente lacrando as portas e chorando na rua, que o seu honesto negocinho sumiu. Quem sabe com a falta de locais assim, os 99% de sofredores acordasse pra vida e percebesse como estes grandes conglomerados de agências foderam com o mercado publicitário, criando um ambiente nocivo de hipsters que acham que tacar uma calça jeans descolada e publicar fotos no Instagram é muito mais digno do que ter um dinheiro considerável na conta, no final do mês. De malucos que acham que trabalhar 12 horas por dia, dormir na agência, viver na agência, conviver só com gente da agência, é uma situação normal de um trabalhador normal. De trouxas que acham que receber 500 reais por mês como estagiário e ter as funções de um mega-gerente de contas “faz parte“.

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Não, eu não acredito que deveríamos viver em um maravilhoso mundo comunista aonde todos recebem quantitativamente ao seu trabalho. Mas por que não podemos seguir um modelo melhor, como o norueguês? Lá, eles sabem que a preservação da boa relação com o funcionário é fundamental para uma sociedade sadia; lá, mesmo os cargos mais baixos tem suas horas de trabalho respeitadas e, mesmo os postos mais baixos de uma empresa qualquer, recebem salários que sejam minimamente dignos a uma condição de vida decente, não um mero apoio financeiro, um cala boca de moedas. Porque lá, ninguém se prostitui de graça, os trabalhadores tem consciência de sua importância na máquina capitalista e EXIGEM o que lhes é necessário. Lá, não existem DCS’ da vida, nem outras merdas do tipo, porque lá este tipo de trabalho não tem espaço. Lá esta gente não se cria.

Termino meu artigo com uma frase reflexiva de Lao Tse, escrita há quase 2.500 anos atrás, mas que até o presente momento continua verdadeira:

Aquele que se apega ao trabalho não cria nada que perdure. Se quiser viver segundo o Tao, faça seu trabalho e depois se afaste dele.

E era isto, galera. Fica o meu desabafo, boa noite e sigam-me!

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