O crime de Santa Maria

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Na terça-feira passada, eu fui em um show. Era em uma das casas noturnas mais famosas de Porto Alegre. Começava às 21h e terminava por volta da meia noite. A casa estava lotada; não estava insuportavelmente cheia – já vi situações piores, mas o ambiente não era agradável. Gente se esmagando em um cubículo escuro com uma ventilação tosca, aonde sequer dava para se movimentar com um mínimo de mobilidade e que, claro, só contava com uma forma de sair. Uma porta velha de madeira que fica sempre fechada, servindo tanto para entrada como saída da casa noturna, com um segurança barrando a movimentação e impedindo que o povo circulasse em determinada área em volta. Imagine. A casa foi reformada (divida em dois pisos) faz uns anos e, para bom conhecedor da noite de Porto Alegre, já devem saber aonde eu estava.

Lembro que, na saída, comentei com um amigo que estava comigo no show:

Cara, esta merda super-lotada do jeito que está, com esta reforma aí, não aguenta muito tempo não. Um dia o piso deste treco vai desabar. 

Hoje, domingo, o Brasil acordou com a notícia de que, em Santa Maria (RS), uma casa noturna havia pegado fogo e cerca de 230 pessoas haviam morrido asfixiadas. Pessoas que não conseguiram sair de dentro do estabelecimento a tempo. Casa, esta, em moldes parecidíssimos da que eu estava na terça-feira, com todos os tipos de problemas de segurança e mobilidade possíveis. Mas aberta…e dando shows. Vários shows. Logo que fiquei sabendo da história, me deparei com uma imagem mental do que eu tinha comentado na terça-feira.

Não, não estou aqui querendo pagar de profeta do apocalipse, nem porra nenhuma. É uma simples constatação de quem sai na noite e frequenta QUALQUER tipo de casa noturna pelo Brasil inteiro. É só dar um breve olhada no ambiente que o sentimento é o mesmo, de que vai dar merda a qualquer instante. E não precisa nem ser algo tão devastador como um incêndio, porque qualquer briga (comum em qualquer festa) que tome proporções um pouco maiores, dadas as condições das casas noturnas, já podem se tornar o cenário ideal para correria, gente pisoteada e muitas mortes desnecessárias, causadas por um acúmulo de situações que podem muito bem ser evitadas.

As duas palavras que eu mais ouvi hoje, acompanhando a repercussão do fato de Santa Maria, foram “fatalidade” e “tragédia“; mas eu discordo de como empregaram ambos os termos. Quando eu penso cá com meus botões em uma fatalidade, ou tragédia, me vem a cabeça qualquer situação eventual e completamente bizarra, aonde o(s) envolvido(s) participem de uma maneira tão sui-generis que aquilo ocorra uma vez em um milhão e não possa ser evitada de maneira alguma. Um cidadão sair pra caminhar, tomar um raio na cabeça e morrer na hora: isto é uma fatalidade. O que ocorreu em Santa Maria, não é. Lá, foi pura negligência; e negligência, contando com a sorte da vida de cerca de 1500 pessoas (que estavam dentro da boate), não é um fatalidade. É um crime contra a vida.

É engraçado que os que mais usaram estes termos são os mais interessados em que porra nenhuma aconteça e tudo seja esquecido logo. Digo aqui, os primeiros a garantir a propagação do que aconteceu como um “fatalidade”, ora políticos, ora os donos de boate, ora os fiscais de vários setores responsáveis por garantir a verificação da segurança, todos interessados em tratar o assunto como uma “tragédia peculiar”, ou qualquer coisa do tipo que teria ocorrido, ali, quase como um desastre natural inevitável. Alias, nas palavras do governador, que em menos de 24 horas já proferiu a frase:

– É uma falta de respeito procurar culpados neste momento.

Fonte

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Como assim, cara pálida? Isto tudo é medo? Digo isto, porque em caso semelhante, na Argentina (Buenos Aires), a população foi as ruas e, por pressão popular, após a tragédia, o prefeito de Buenos Aires acabou substituído do cargo. Porque lá, a primeira coisa que todos sacaram foi uma. Sacaram que, nestes casos, não existe fatalidade, mas sim negligência. Negligência esta que, novamente, envolve diferentes setores, todos conspirando toscamente pra tirar uma grana fácil para não fazer porra nenhuma de maneira séria, ignorando serviços ao qual, teoricamente, o povo deveria receber pela iniciativa pública, mas são solenemente ignorados porque sempre tem alguém para ser corrupto e enganar a população, fingindo que trabalha mas não faz nada.

Protesto na Argentina, após o incidente.
Protesto na Argentina, após o incidente.

Quantas vezes eu já xinguei o governo, aqui, por ações completamente absurdas (pra inglês ver, né), principalmente da SMIC, aonde os mesmos faziam quase uma operação de guerra para prender ambulantes vendendo cerveja em isopor? E isto ninguém me contou, presenciei em primeira mão a menos de 10 metros, quando vi 6 policiais armados com espingardas – mais o fiscal da SMIC – fazerem um cerco monstruoso no meio da rua, com uma operação digna de SWAT. Tudo isto para prender um cara vendendo cerveja na frente do Olímpico (estádio). Motivo: o vendedor ambulante não tinha alvará, estava ilegal.

Irônico, não?

O que eu sempre discuti aqui, assim como em outros lugares – e quem me conhece sabe, é a questão dos “dois pesos e duas medidas”. Qual o ganho REAL para o Estado, por exemplo, ao deslocar 6 PMs com equipamentos, mais um fiscal, justamente para prender um vendedor que não vai nem justificar o valor de uma força-tarefa deste tamanho? Se prestar a prender um cara que vende, sei lá, 20 cervejas em um dia de trabalho, aonde o Estado se preocupa em fazer uma operação praticamente militar… mas e as “grandes casas noturnas”, por que não recebem a mesma preocupação? E isto que eu sempre discuti: por que eles escolhem a dedo quem fiscalizar?

Claro, é uma pergunta retórica, ao menos pra mim, aonde o motivo é totalmente aparente. Aonde eles dizem “tragédia“, o que se quer dizer é “propina“. Aonde eles dizem “fatalidade“, o que se quer dizer é “falcatrua“. Qualquer boate ou casa de festas com um poder um pouco maior de influência e/ou dinheiro, trabalha completamente (ou praticamente) na ilegalidade, tal qual o ambulante da operação que eu vi. Mas, claro, continuam operando firmes e fortes, noites e noites, sem o menor pudor, porque a coisa rola por debaixo dos panos. Enquanto deslocam uma manada de funcionários para prender o cara do isopor, não se cobra do dono da casa noturna nenhum documento; isto, porque ele não precisa de documentos, ele compra o fiscal, ou compra o alvará, ou compra quem precisar. Se não tem segurança, foda-se, é só pagar alguém graúdo da prefeitura, ou dos órgãos de execução e pronto, a boate continua aberta mesmo sendo uma bomba-relógio evidente. Exemplo, aliás, no caso recente de Santa Maria, aonde, segundo os jornais, o alvará da casa estava vencido desde agosto (2012) e o extintor de emergência sequer funcionou quando acionado. Tragédia, isto? Pra mim, não.

Fonte

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É muito fácil “não apontar culpados” quando há uma máfia óbvia e invisível na abertura de casas noturnas por aí. A real é que o dono está cagando para o cliente – quando mais gente melhor e foda-se mesmo, o dono está cagando pra segurança (porque muitas vezes ele sequer fica na boate), o dono está cagando pros funcionários, o dono caga pra tudo; só não caga para o dinheiro que ele consegue fazer. O governo, por sua vez (e como não é de hoje) caga pra população, os fiscais cagam pra fiscalização séria, todo mundo caga pra tudo. E os frequentadores – o elo mais fraco da corrente – entram ali desavisados, acreditando que um ambiente destes, no mínimo, está um pouquinho segurado contra eventuais intempéries. Doce ilusão, coitado, o cliente mal sabe quem está ali, um bando de babacas jogando dados e apostando a vida dele. E, como eu disse, jogar com a vida dos outros não é tragédia, mas crime. Premeditado, ainda por cima.

Fonte

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Me recordando ainda do show de terça-feira, depois de ver as notícias sobre Santa Maria, eu parei pra pensar sobre uma série de pequenos detalhes que passam despercebidos, parecem óbvios, mas quando a gente adentra na festa, a gente mal e mal percebe. Fiquei pensando: quantas vezes eu já vi um extintor em uma boate? Nunca. Quantas boates que eu conheço que tem saída de emergência, ou mais de uma saída alternativa? Nenhuma. Quantas boates eu conheço que tenha profissionais visivelmente treinados, principalmente na segurança? Nenhuma. Quantas boates eu conheço que respeitam o limite máximo de pessoas? Nenhuma. Quantas boates que tem algum sistema contra incêndios aparente, ou até uma mísera porta corta-fogo? Nenhuma. Quantas boates tem um sistema de ventilação digno, que não deixe todo mundo suando como um porco ou respirando o mesmo ar saturado? Nenhuma. Quantas boates possuem algum estudo sobre mobilidade e segurança, para distribuir os elementos da casa (bar, banheiros, portas etc.) da melhor maneira possível? Nenhuma. É praxe o caos descontrolado, o dono ligando o foda-se e sorrindo em casa, rico e feliz, afinal, não precisa de nada além de meia dúzia de contatos que lhe garantam a abertura (ilegal) do seu clube. Propina e mais propina, é tudo movido (e feito) pelo dinheiro.

A bola de neve eventual me parecia meio lógica demais, era questão de tempo até um caso como o de Santa Maria ocorrer e é neste ponto, claro, que remonta a minha discussão. Tragédia? Fatalidade? Não apontar os culpados? Assim é fácil de tratar um assunto tão polêmico – imunizando já de cara todos os responsáveis – porque aquelas 230 vítimas não poderão se defender mais. Alegar que este é um acontecimento isolado, também, é de uma covardia, burrice e canalhice sem tamanho, digna do descaso proporcional à (falta de) fiscalização das casas. As casas noturnas estão fodidas, todas, vivendo na base da sujeira e molhando a mão de alguns interessados em que elas continuem na ilegalidade, pagando gordas propinas para continuarem abertas. Estes mesmos sujeitos, agora, estampam os jornais prometendo “investigações sérias” e condolências, além de toda a propaganda hipócrita e política corriqueira nestas situações com muitas vítimas, com pompas de que são sujeitos sérios e dedicados, à serviço das mazelas do povo.

E eu volto a me questionar: de que merda adianta? Alguém vai voltar no tempo? Não. Investigar depois que o caos já aconteceu – e poderia SIM ser evitado – é uma obrigação e um dever moral daqueles que causaram tudo isto, para ao menos amenizar a consciência de que NADA fizeram antes do fato consumado. O que se fica é uma corriqueira dúvida, assim como em outros casos de desastres no Brasil: precisaria tudo isto ocorrer pra tomarem providências sérias?

Isto, acreditando que alguma providência irão tomar.

E encerro a postagem com o vídeo do Zeca Pagodinho, falando o pensamento mais simples e prático sobre esta situação de Santa Maria (RS), que é igual a situação de Xerém (RJ), que é igual a de Teresópolis (RJ) 2 anos atrás, que é igual a de Santa Catarina em 2011 (SC), que é igual a da falta de estrutura urbana nas zonas de seca do Nordeste, que é igual a tudo que ocorre pelas terras tupiniquins, como sempre, poderia ser evitado. E nós sabemos por quem.

Pra quem quiser ajudar de alguma maneira, segue algumas formas:

Mutirão para doação ao Hemocentro

Donativo em dinheiro pelo Vakinha.com

Como ajudar, via Globo.com

Doações, por ZeroHora

Editado às 14h46min de 28/01/2013: E pra provar ainda mais tudo que eu disse – confirmando a NEGLIGÊNCIA TOTAL dos órgãos públicos relativos à segurança, em pouco mais de um dia após o que aconteceu em Santa Maria, AGORA SIM as autoridades resolveram efetivamente fiscalizar o que já deveria ser fiscalizado (leia aqui e leia aqui). Além disso, conseguimos a prova mais cabal sobre a índole mafiosa daqueles que coordenam as casas de show (leia aqui leia aqui), aonde as imagens de segurança “misteriosamente” desapareceram, impossibilitando uma avaliação sobre o que teria ocorrido.

Não precisou nem uma semana, nem mesmo um dia, para eu confirmar o que eu postei ontem na madrugada. Em poucas horas, as atitudes de todos aqueles que deveriam presar pela segurança (mas não o fizeram), o desespero em tentar parecer sério e preocupado, ou ocultar provas, ou aprovar qualquer tipo de medida às pressas para “evitar que outra tragédia ocorra“, são as maneiras mais hipócritas de disfarçar o erro deles próprios, cobrindo tudo com um imenso véu de seriedade forçada. Este tipo de atitude só garante o que anteriormente eu tinha dito: por que a fiscalização em massa ocorre DEPOIS do acontecido? Porque precisa dar uma merda gigante pra, aí sim, rolar uma união entre prefeitura, deputados e agentes para fiscalizar as boates do Brasil? É preciso morrer 230 pessoas pra se tomar alguma atitude?

E digo mais: daqui a 6 meses, lá pelo meio do ano, os mesmos órgãos que agora estão tentando fazer tudo parecer sério e cheios de preocupação, sequer vão se importar com o fato de milhares de casas noturnas irregulares continuarem abertas. Podem apostar.

Editado às 16h20min de 28/01/2013: Posto aqui, mais um depoimento que vai de acordo com o que eu disse. Novamente, retirado de uma matéria com um dos conhecidos das vítimas (leia aqui), a questão colocada pelo aposentado é a mesma que eu coloco no texto, aonde obviamente nenhuma “autoridade” irá conseguir achar algum argumento com devida eficácia. Segue:

Para Cirineo Anversa, de 74 anos e morador de uma cidade próxima a Santa Maria, é inexplicável que ninguém tenha impedido a casa noturna de funcionar sem um plano contra incêndio.

Eu fico admirado. Lá na lavoura, se você faz um armazém, os bombeiros vão lá ver se tem extintor, mangueira de incêndio, tudo certinho. E um clube como esse, que entra 1.500 pessoas, deixam funcionar desse jeito, com porta estreita para sair, sem extintor funcionando. Era isso que eles deviam olhar‘, apontou o aposentado.

Editado às 17h40min de 28/01/2013: O Datena é bizonhamente tosco e sensacionalista. Mas, sejamos sinceros, o trabalho dele na entrevista concedida pelo prefeito de Santa Maria, foi louvável. Muito mais do que o resto da mídia, com condolências genéricas (em sua maioria das vezes), ou focar no sofrimento dos parentes das vítimas, com fotos para literalmente chocar e reforçar a dor alheia, Datena fez o que deveria, ainda enquanto o assunto está vivo e não caiu no marasmo. Entrevistou o prefeito, rapidamente, mas não perdeu o foco.

Com poucas perguntas, tentou debater o assunto mais óbvio: quem permitia uma boate sem alvará continuar aberta? Como serão feitas as investigações? O que mudará? O prefeito, claro, se esquivou de todas as perguntas, não disse nada com nada e certificou-se de provar a sua hipocrisia, alegando que “no mês passado, foi fechada uma casa semelhante“, tentando mostrar que está fazendo algum tipo de serviço. Mas, vale a menção por Datena, que tocou na ferida e mandou muito bem.

Não sei aonde achar o vídeo, mas, talvez seja mostrado no canal oficial: Brasil Urgente

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5 pensamentos sobre “O crime de Santa Maria

  1. Esse foi o comentário que deixei no facebook

    Só queria entender uma coisa…. se a casa noturna de Santa Maria,funcionava há 4 anos e estava com o alvará dos bombeiros o ppci vencido desde Agosto de 2012 e eles não tinham saída de emergência, como eles tinham o alvará dos bombeiros antes? Depois de Agosto eles tiraram as saídas de emergências? Se NUNCA existiu essas saídas como eles tinham o alvará anteriormente? Os bombeiros dizem que é obrigatório essas saídas….. tem algo errado nisso! Existem várias casas noturnas em POA que não tem saídas de emergência e tem o alvará em dia! Como isso é possível? Alguém pode me explicar isso?

    1. Agora começa aquele clássico “jogo de empurra”.
      Todo mundo trabalhou certo, os bombeiros, a prefeitura, a casa noturna. Todo mundo vai dizer que é inocente e que “cumpriu com suas obrigações”, foi uma eventual fatalidade que causou a morte de quase 300 pessoas.
      Como você bem colocou: se o alvará existia antes – sem as portas – o que foram feitas com elas? Fizeram as portas e elas sumiram?

      Isto prova a má-fé daqueles que trabalham pra fiscalizar, mas não fazem nada.

  2. Muito bom o texto, e qualquer um que sai pra balada sabe que se há casas com boa estrutura são poucas, a maioria segue realmente os mesmos padrões da Kiss, como ela existem milhares, então não sejamos tão hipócritas a ponto de ficar jogando a culpa de um lado para o outro, aconteceu lá, acenteceria em qualquer outro lugar. E o que está faltando culpados? Ou será que pessoas responsaveis, órgãos de fiscalização responsáveis que não deixem que esse tipo de casa abra suas portas?

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