Os 7 dias de Luiz – O segundo passo

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Luiz finalmente havia terminado sua lista. Depois de muitas horas concentrado em seu projeto, algumas pesquisas e várias decisões, estava completamente exausto. Sua noite tinha sido longa, muito intensa e incomum, ele não estava acostumado com tantas informações em um dia de semana qualquer. Estirou-se pela cama da maneira como estava e logo dormiu, sem nem perceber o sol já iluminando sua janela, muito menos o barulho do trânsito matinal, misturado com os insistentes passarinhos que se acumulavam em uma grande árvore em frente ao seu prédio. O celular foi o primeiro a acusar os sinais da “nova vida” de Luiz; foram poucas as horas de sono que conseguiu descansar em absoluta paz, antes de seu chefe começar a procura-lo insistentemente, lotando a caixa de mensagens do telefone rapidamente. Queria saber aonde andava o funcionário exemplar, pois já estava algumas horas atrasado e não dava sequer um sinal de vida. Precisavam dele na empresa para, como sempre, resolver os problemas (urgentes e) alheios. Luiz, por sua vez, pouco reparava no celular vibrando e piscando incessantemente na escrivaninha; dormia, após muitos anos, como realmente deveria. Sua primeira conquista a ser reparada, de fato, não passou nem perto da lista que tinha acabado de criar, mas sim em um descanso digno, leve, sem obrigações e horários. Sua primeira vitória, afinal.

Luiz acordou quando já se passavam das 14 horas, em uma tarde que beirava os 30 graus, com um céu impecavelmente azul e uma leve brisa no ar, que ajudava a amenizar o calor do verão. Levantou cansado, pesado e com olheiras, com dores em todo corpo e uma sensação de moleza indescritível. As (quase) 9 horas de sono pareciam mais de dois séculos hibernando em um descanso profundo. Havia dormido demais, claro, e isto cobrava seu preço naquela moleza característica ao despertar, que mais lembrava as antigas ressacas da adolescência. Mal sentia suas pernas ao caminhar, tudo ao seu redor parecia acontecer em câmera lenta. No entanto, sua cabeça estava completamente tranquila, sem qualquer sinal de remorso, feliz com o descanso digno e prolongado. Após longos anos, era a primeira vez em que, neste horário, ainda não havia enfrentado o trânsito, nem vestido seu terno, muito menos se encontrava no trabalho, debruçado sobre livros e processos fazendo as mesmas coisas de sempre. A dor do corpo compensava, afinal, agora Luiz só devia explicações ao próprio Luiz.

Ainda confuso, sentindo os sinais do sono, Luiz finalmente estava disposto a pegar o celular e conferir as 37 novas mensagens do seu chefe. Variando de “AONDE VC ESTA????” a “POR FAVOR ME LIGUE!”, todas com o mesmo tom característico de cobrança, querendo informações o mais rápido possível. Lendo cuidadosamente uma a uma, Luiz havia reparado um detalhe que não poderia deixar passar: para colocar sua recém criada lista em prática, antes, ele deveria tomar outras providências sobre sua vida. Não haveria sentido criar a lista se ela não representasse uma significativa mudança no comportamento diário dele. Se a ela tivesse apenas um significado efêmero, seria um engodo, uma grande enrolação. Para isto não acontecer, primeiramente, ele deveria rever alguns hábitos antigos. E a lista teria que esperar mais algumas horas.

Prontamente, Luiz se arrumou para agilizar suas obrigações o mais rápido possível. Colocou a primeira camiseta que estava no armário, uma antiga bermuda florida de ir à praia e um chinelo de dedos, já gasto pela idade. Não queria se arrumar, nada de camisas sociais ou ternos, pois atrapalhavam seus novos pensamentos. Comeu dois velhos pedaços de pizza que estavam na geladeira, pegou seus documentos na mesa da sala, a chave do carro e pronto, já estava decidido no que tinha de fazer, rumo ao seu destino. Com o corpo já amenizando as dores do sono prolongado, Luiz desceu as escadas rapidamente, sem esperar pelo elevador antigo do prédio, que demorava demais para chegar no seu andar. Cruzou o pequeno jardim da entrada, com o passo acelerado e motivado para o que viria fazer. Seguindo pela rua, ainda matutando sobre como realizar determinadas coisas, foi ao encontro de seu carro que ficava em um estacionamento no final da quadra. O celular voltava a tocar, com mensagens e mais mensagens que não paravam de chegar. Luiz sabia, seu primeiro destino deveria ser o escritório que trabalhava, resolver tudo de uma vez por todas.

Dirigiu seu carro ao longo da avenida que contornava o mar, mas agora com outra perspectiva completamente diferente. Os intermináveis anos trabalhando o faziam trafegar exatamente pelo mesmo caminho todos os dias, mas sem perceber a paisagem que o cercava, os pequenos detalhes que tomavam conta de todo o trajeto. Agora, conseguia observar o mar – calmo e tranquilo naquele dia quente de verão; observava as pessoas que circulavam a orla, trabalhando, correndo, sentadas, turistas, o movimento típico que aquela região abrigava. Observava, distante, os pequenos barcos navegando livremente no mar, contornando as praias da cidade; percebia o suave movimento que a brisa fazia, balançando as árvores a sua volta. Tudo parecia diferente. Até mesmo seu carro, agora, lhe passava outra sensação. Dirigir não parecia tão tedioso quanto nos dias que acordava cedo e acabava caindo no trânsito insuportável das primeiras horas da manhã. Com a rua e a cabeça mais tranquilas, conseguia trafegar com prazer, aproveitando a pista lentamente, quase como na cena de um filme dos anos 60. Mas o que mais chamou sua atenção foi o futebol dos moleques na areia, correndo sobre o sol escaldante como se o calor não fosse um problema. Fazia lembrar os jogos de sua juventude e de suas memórias da noite passada.

Quando dobrou a rua para o a área central da cidade e o Theatro Municipal já se aproximava, novamente a ansiedade começou a tomar conta de seu corpo; suava e tremia, como tinha acontecido na noite anterior. Não conseguia disfarçar a grande atitude que, dali a poucos minutos, estaria tomando. Estacionou o carro no prédio aonde estava acostumado a deixa-lo, atravessou a rua e foi de encontro ao escritório aonde trabalhava. Subiu apressadamente as escadas até o nono andar, aonde ficava a entrada do escritório. Sua velocidade ao subir contrastava com seu nervosismo, pois embora subisse cada andar cada vez mais rápido, mais e mais suava frio e tremia, sem saber direito o que faria quando chegasse. Abriu vagarosamente a grade de metal, depois afastou a antiga porta de madeira e adentrou a sala principal, aonde todos o aguardavam em um círculo. No centro, se encontravam seu chefe e o sócio. Ao lado de ambos, estavam os outros 7 funcionários que compunham os advogados do escritório, todos de braços cruzados e surpresos com a chegada inesperada de Luiz. Com um passo a frente, seu chefe foi o primeiro a falar, ainda que atordoado com a chegada repentina, começou a questionar:

– Luiz, o que aconteceu? Por onde você andou? 15 horas e você me aparece agora? Qual a explicação para isso?

Luiz respirou fundo, pensou, olhou para os lados, tremia e suava, naquele pequeno segundo que parecia durar mais de um dia. Prontamente, retomou sua habitual calma e, sem pretender estender muito a conversa, logo interrompeu a sessão de perguntas e tomou a vez, com o intuito de explicar tudo o mais rápido possível e acabar com o angustiante momento:

– Boa Tarde, meus amigos e colegas. Como vocês puderam ver, eu estive ausente hoje mais cedo. Não, eu não passei mal, nem tive problemas sérios. Eu apenas tive uma noite de insônia completamente estranha, que se prolongou pela minha manhã. Agora, mais tranquilo, veio a calhar vir aqui, até o escritório, neste momento e avisar: eu estou me demitindo!

Ao pronunciar a última frase, o impasse foi geral. Os funcionários se entreolharam, alguns comentaram algo ao sussurros e se cutucaram. Outros, levaram as mãos ao rosto sem crer que aquele momento fosse real. Os chefes ficaram completamente estupefatos, afinal, acabavam de perder um dos melhores funcionários sem um motivo aparente. Mas Luiz logo continuou:

– Não, o problema não é com nenhum de vocês, nem com o meu emprego, nem com ninguém. Eu simplesmente decidi que deveria mudar algumas coisas e, para isso, estou aqui decidido a dar o primeiro passo. Estou me demitindo o mais rápido possível, porque esta mudança é meio que urgente.

E assim, ainda extasiados, os funcionários não entendiam muito bem o que estava a acontecer naquele exato momento. Luiz terminou as palavras e cumprimentou um a um. Falou algumas poucas coisas para cada, deu conselhos, agradeceu os bons momentos, virou as costas e saiu apressadamente pela porta, sem dar maiores explicações sobre nada. Uma grande surpresa para o pequeno escritório de advocacia, que há anos não presenciava uma situação tão estranha quanto aquela. Um dos sócios ainda tentou acompanhar a velocidade de Luiz, gritando seu nome pela escada e dizendo que lhe dariam um aumento significativo, mas era tudo em vão. O agora ex-funcionário já havia descido e pouco ligava para as palavras que vinham do escritório, porque ali, entre outras coisas, representava o seu mais recente passado, deixado para trás na mesma velocidade em que proferiu o bizarro discurso de despedida. Saiu do prédio, se despediu do porteiro – contando que tinha acabado de se demitir – atravessou a rua, agora sem suar e tremer, pegou o carro na garagem e foi embora. Outra lição da nova vida de Luiz acabava de ser compreendida: o relógio marcava apenas 4 horas de um belíssimo dia de sol, mas ele simplesmente já havia encerrado todos os seus compromissos massantes. Haviam ainda 8 horas para o dia acabar, 8 horas de profunda liberdade, aonde Luiz poderia fazer o que quisesse sem ser atordoado por quem quer que fosse, seguindo aonde quisesse, como quisesse, da maneira que quisesse. Este era o primeiro momento puramente livre que ele experimentava em mais de 10 anos de vida. Um século vivendo enjaulado e só agora ele conseguia enxergar.

Luiz seguia rumo a sua casa, mas não para ficar lá; queria aproveitar o seu dia livre ainda, curtir suas horas de liberdade. Deixou o carro no estacionamento e subiu no apartamento só para pegar os cartões do banco, que tinha deixado no quarto, em cima da escrivaninha. Dali, seguiu rumo a uma agência que ficava na mesma quadra de seu apartamento, aonde tirou uma quantia significativa de dinheiro, para poder usufruir quando finalmente colocasse a lista em prática. Deixou o dinheiro em casa e foi para um pequeno mercado de bairro, que ficava 4 quadras de seu apartamento, aonde vendiam algumas especiarias, cervejas e produtos importados. Entrou no estabelecimento, pegou um fardo de cervejas importadas (as mais caras que seu dinheiro poderia oferecer), pagou e foi embora, realizando na sua imaginação que aquela bebida seria a sua mais nova companheira, para o vindouro fim de tarde que se aproximava rapidamente. Abordou o primeiro táxi a passar pela rua e seguiu um rumo já mentalmente traçado: iria para a Praia Vermelha.

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Fez seu trajeto e desceu do táxi próximo a entrada do bondinho, aonde logo seguiu, animado, rumo ao seu destino. Cruzou o calçadão, encontrando a praia praticamente vazia, com apenas alguns pescadores, crianças e banhistas, poucas pessoas que poderiam aproveitar o final de tarde em uma quarta-feira de trabalho como aquela. Agora, Luiz era um daqueles poucos privilegiados, se juntando ao pequeno grupo. Sentou-se na beira da praia, quase com os pés no mar, aproveitando aquele momento solitário, aonde o tempo parecia passar mais devagar e a humanidade não se importava com o relógio ou com a pressa da metrópole; no ritmo quase musical das ondas batendo suavemente na areia, junto com o Sol que distante se punha, a praia justificava o seu nome, ficando com o horizonte de um avermelhado cobre característico, estendendo por suas rochas e areia. “A beleza da despreocupação“, imaginava Luiz. Este era o sentimento presente naquele singelo momento aonde parecia que, sim, havia vida de verdade na Cidade Maravilhosa.

Sentado, Luiz bebia uma cerveja e outra, vendo vagarosamente o Sol sumindo por trás do horizonte, enquanto aproveitava os últimos suspiros daquele dia que antecederia o começo da sua lista. Era lá, na areia vermelha da praia de mesmo nome, observando o mais belo cenário da criação do mundo. Luiz imaginava ele mesmo como o futuro responsável pela criação de um universo inteiro – ainda que egoísta e solitário – mas belo, como o Sol que quase já não se enxergava. Permaneceu na areia, já na noite que se iniciava, sentindo no ar o cheiro do milho cozido e do acarajé da baiana, que começavam a ser feitos para calar a fome dos turistas e pedestres agora apareciam em maior número. E ali ficou Luiz, até sua cerveja finalmente acabar, noite adentro, como em um momento quase ritualístico, sabendo que ali seria o fim de um dia, mas o começo de um novo momento na vida dele próprio.

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