Os 7 dias de Luiz

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Nem ele sabe direito como tudo ocorreu. Assim, aparentemente do nada, veio aquela vontade. Talvez tenha sido o latido distante do cachorro da vizinha, ecoando pela rua quase vazia, ou a sua insônia costumeira, vendo os mesmos programas repetidos no canal de TV paga, ao qual ele assistia religiosamente todo final de dia, esperando o sono vir. Foi tudo meio estranho, rápido demais. Depois daquele dia, Luiz nunca mais foi o mesmo. Ninguém soube explicar como, mas a mudança havia sido radical, visível até para aqueles que pouco o conheciam, como os novos vizinhos do andar de baixo.

Habituado a rotina e aos mesmos processos de sempre, as coisas não lhe motivavam mais como há 15 anos atrás. Tudo era exatamente igual na vida de Luiz. O cachorro da vizinha poderia latir toda noite, os programas da TV poderiam ser os mesmos de sempre, Luiz não se incomodava com isso; era a sina de sua insônia, de sua vida que girava sobre o mesmo e constante ciclo. De fato, Luiz nem reparava mais os detalhes que o cercavam, tudo fazia parte do mesmo apanhado de repetições, dia após dia. Talvez, fosse outra noite qualquer, todos aqueles acontecimentos passariam em branco, como sempre. Mas não naquele dia.

Luiz era um sujeito controlado, solteiro e com poucas ambições, já habituado com a sua vida de empregado e um salário mediano. Tralhava há 7 anos no mesmo escritório de advocacia, sem muitas emoções, o seu dia se resumia a empilhar e analisar processos tributários, encaminhando com suas anotações os detalhes de cada cliente para um advogado superior, sócio do escritório e chefe. Em uma mistura de secretário e advogado, Luiz era um bom trabalhador, concentrado sobre uma escrivaninha antiga, em um velho escritório com cheiro (e cheio de) de velhos livros sobre Direito, cuidadosamente mobiliado em madeira, na área Central do Rio de Janeiro. Escritório, este, bem próximo ao Theatro Municipal, quase 3 quadras do prédio que veio a desabar algum tempo atrás. A queda do prédio, alias, talvez tenha sido o evento mais emocionante na vida de Luiz nos últimos 10 anos. Naquele dia, fazendo hora-extra para terminar de organizar um processo, viu toda confusão que tomou conta do Rio de Janeiro pela janela; enquanto descansava entre uma pilha de papéis e outra, via as ambulâncias se acumularem, os repórteres, toda a movimentação que a tragédia assim trouxe. Ao menos, algo de diferente tinha acontecido no seu dia, pensou na ocasião.

Luiz, como ele mesmo se descrevia, era um cara de rotina – não que assim gostasse, mas assim necessitava. Acordava todo dia por volta das 6 horas da manhã, comia sempre a mesma refeição matinal, o pão com manteiga e o copo de Nescafé feito às pressas. Tomava um banho rápido, colocava seu terno (que já ficava arrumado na noite anterior) e saia de casa, um pequeno e antigo apartamento alugado nos arredores do Flamengo, modesto, de apenas 1 quarto. Dirigia seu carro, pegava o mesmo e diário trânsito ouvindo as mesmas notícias no rádio, até chegar no trabalho. No trabalho, era um cidadão exemplar. Um ótimo funcionário, sem reclamações e desavenças, amigo de todo mundo e sempre muito prestativo. Só descansava na hora do almoço, quando descia do escritório e encarava o calor carioca, suando no terno perfeitamente passado, para comer o mesmo prato-feito habitual, no mesmo restaurante de sempre, na mesma mesa que ficava de esquina em direção ao Theatro Municipal. Tudo como mandava a cartilha de Luiz, sem novidades, até o garçom já sabia e deixava o seu “cantinho” previamente ajeitado, sabendo que logo chegaria o cliente diário.

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Trabalhando das 8 horas as 18 horas, seu círculo de amizade atual basicamente se resumia as mesmas pessoas que encontrava o dia inteiro no serviço, funcionários, como ele, trabalhadores do escritório de advocacia. Esporadicamente, Luiz se estendia em um happy hour, tomava uns chopps, comia uns pastéis e ficava no bar (o mesmo que almoçava), conversando com os amigos do trabalho, variando o papo entre clientes estranhos, mulheres e futebol. Luiz, alias, era torcedor do Flamengo, mas há mais de 15 anos não ia ao estádio; acompanhava da TV, mais barato e mais prático, para quem estava cansado do dia estressante no escritório e não queria atravessar a cidade pra ir no Maracanã ou no Engenhão. Não valia todo o esforço, ainda mais, segundo o que ele dizia, “para ver esta vergonha que é o Flamengo atual“. Coincidentemente, a desistência de Luiz em acompanhar o Flamengo datava, mais ou menos, da mesma época em que iniciou sua vida de rotina.

Nos finais de semana, dormia até mais tarde. Quando acordava, dava uma caminhada pelas ruas, passeava pelas esquinas e se estendia até a orla da praia, quase como um estranho em sua própria cidade, visitando os arredores do bairro com uma cara de turista, aonde tudo parecia uma grande novidade. Quando estava de bom humor, sentava na areia e aproveitava a brisa do mar, naquele que talvez fosse o único momento fora de sua rotina. Quando de muito bom humor, almoçava na rua, em um botequinho que ficava a duas quadras de seu apartamento e servia uns bons pratos com peixe e camarão, com promoção nos finais de semana. Luiz era assim, metódico. Metódico até no final de semana. E esta foi a maior surpresa que aquele dia lhe reservou, naquele dia em que mudou tudo. Há quem imagine que foi o acúmulo, coisa que acontece com qualquer um. Luiz, como um copo recebendo pequenas doses de líquido, foi se enchendo aos poucos. E, naquela noite, transbordou.

Era uma terça-feira do recém iniciado verão, a semana estava apenas começando e a meteorologia prometia sol durante todos os dias. Já se passavam das 20 horas e o calor não dava trégua, mostrando que aquele seria um verão mais intenso que o comum para os cariocas. Luiz já havia voltado para casa e estava no seu ritual semanal, sentado a frente do sofá assistindo TV, esperando as horas passarem para se deitar. Quando o cachorro da vizinha tornou a latir e a emissora tornou a repetir o mesmo programa pela terceira vez no mesmo dia, Luiz mudou; tudo de uma maneira tão rápida e sutil, que ficaria difícil imaginar o quão significativa seria esta mudança na vida dele. Foi ali, naquele ponto, aquele centésimo de segundo quase imperceptível, que alguma coisa estranha aconteceu. Um calafrio subiu sua espinha, enquanto uma gota de suor escorreu pela sua testa.

Com a sua habitual calma, Luiz se levantou, foi até a cozinha e bebeu dois copos de água gelada, tentando se acalmar e reascender o “velho Luiz” de sempre. Não adiantou. Pensou que era o calor do verão que o incomodava, sem dinheiro para ar-condicionado, tinha que sobreviver com os ventiladores que não davam conta de dissipar aquela massa quente que acumulava em seu apartamento. Luiz foi até o banheiro e lavou o rosto. Não, não era o calor. Ali mesmo, em frente ao espelho e a pia, ficou claro que algo estava estranho em Luiz, que agora já tremia e suava frio, como num ataque de pânico. Pensou que fosse alguma doença, mas aparentemente nada estava errado, pulsação normal, sentidos inalterados, ele simplesmente não sabia o que era. A única certeza de Luiz era uma só: a cada segundo que se passava, com mais raiva ele ficava e uma ansiedade incompreensível tomava conta de seu corpo. Luiz, até então controlado, foi tomado por um ódio inimaginável, fora de si, que nem ele sabia identificar o motivo. Demorou, voltando a sentar no sofá, esperou mais de uma hora sem entender, mas o ódio dentro de si não passava. Luiz estava inquieto. Caminhava pela casa, vagava como uma alma desencontrada por todos os cômodos, tentando entender qual o motivo de tamanha raiva. Do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o banheiro, assim ia a noite de Luiz, estendendo-se em um gigante lapso de tempo que não parecia passar, tentando encontrar um significado para algo que nem ele sabia direito do que se tratava.

Como numa alusão bíblica, foi na “hora do Diabo” (3 da manhã) que Luiz finalmente percebeu: não havia significado para a raiva, porque ele próprio não possuía um significado, enquanto indivíduo. A raiva de Luiz era interna, com ele mesmo por ter se tornado quem ele era, um pobre coitado sem perspectivas. 40 e muitos anos de vida, sem nenhum sentido, completamente vazio. 7 anos no mesmo trabalho para nada. Luiz não era ninguém além de um robô, um projeto, um escravo mal remunerado sobrevivendo a uma condição que ele mesmo havia lhe imposto por pensar que, assim, todos seus anseios estariam cumpridos. A mesma rotina de sempre, para morrer dia após dia, sem nada fazer de sua vida. Agora, depois de muito tempo, Luiz finalmente havia enxergado e se considerava um boçal, um serviçal, sobrevivendo em uma condição ao qual ele mesmo não aguentava. E foi neste momento, naquele inquietante momento, que Luiz se deu conta do fracasso que ele era. “Quem sou eu, afinal?“, indagou Luiz, chegando a conclusão de que menos de 20 pessoas provavelmente estariam no enterro dele, se ele morresse naquele exato momento. De fato, demoraria mais de uma semana para alguém se dar conta de sua ausência, caso ele morresse ali sozinho, naquele apartamento alugado. A grande vida de Luiz tinha ruído, caindo completamente abaixo em uma noite, como o prédio próximo ao escritório ao qual trabalhava, chegava ao fim um ciclo, da forma mais dramática possível.

Luiz se levantou atordoado e passou a caminhar freneticamente pelo apartamento, sem rumo e sem lógica. Com a cabeça ocupada, Luiz se lembrava dos anos de antigamente, antes de abandonar o Flamengo, quando ainda não tinha muitas obrigações e conseguia fazer o que quisesse o dia todo. Era o legítimo moleque da Zona Sul carioca, vivendo de praia em praia, acordando cedo só para surfar e jogar uma bola na beira do mar, com a molecada do bairro e uns caras mais velhos que apareciam pra fechar o time. Sua vida se resumia em poucas coisas além de, claro, pensar na próxima festa do final de semana, em qual boate de Copacabana ele iria, com qual mulher de Ipanema ele deveria sair, ou em qual bar da Lapa ele iria encher a cara. Eram os anos de ouro da juventude de Luiz, que só tinha obrigação mesmo em ir ao Maracanã – ver com orgulho aquele time de Zico – e planejar o que fazer na semana de Carnaval. Lembrava de sua antiga residência em Botafogo, morando no fundo da casa, em um quarto separado da casa de seus pais. Lembrava, também, quando ia para a casa de sua avó materna, na Urca, pertinho do antigo Cassino/TV Tupi; tudo pronto, sem hora para acordar ou comer, nem o tempo perdido no Colégio e posteriormente na Faculdade o incomodavam, somadas a tantas coisas boas, nada atrapalhava o dia de Luiz. O pensamento de que aquela época nunca acabaria, na cabeça dele como de qualquer outro, foi dando lugar ao Luiz atual, sentado no sofá e arrependido do rumo que sua vida medíocre tinha chegado. Solteiro, sem dinheiro e sem perspectivas nenhuma de melhora, morando em um apartamento velho e alugado, sem nada que pudesse fazer.

Mais calmo, compreensivo, Luiz decidiu que iria mudar. Já tranquilo, depois das horas de sofrimento e raiva, pensando mais claramente, Luiz foi até o quarto e pegou um velho caderno dentro do armário, uma caneta e começou a pensar, afinal, como ele iria fazer para mudar. Já não suava frio como antes, estava reencontrando sua habitual calma. Sentado na cama, começou a anotar. Luiz tinha cerca de 6 mil reais no banco, economizados arduamente para trocar de carro. “Mas para que outro carro?“, pensou Luiz, agora percebendo as coisas sobre um novo olhar. A cabeça matutava, mas nada era escrito no papel. Nenhuma ideia parecia suficientemente boa. Anos e anos de escritório já não o deixavam imaginar muita coisa, uma visão inovadora fora de sua rotina diária era um processo quase impossível. “Como mudar, o que fazer?“, pensava Luiz, naquele momento de angustiante agonia, querendo ser uma pessoa diferente, mas ainda sofrendo com a realidade que estava inserido.

Luiz era um sujeito culto, gostava de ler e tinha sua própria mini-biblioteca no quarto, em uma pequena estante acima da cama. Foi no meio de seus pensamentos, na falta de ideias que, ao passar os olhos pela estante, visualizou um pequeno livro muito antigo sobre contos bíblicos. Pelo que se lembrava, aquele livro nem era seu, mas de uma ex-namorada de muitos anos atrás, que cursava teologia e atualmente nem morava mais no Rio de Janeiro. Mas foi naquela veloz olhada quase de soslaio, que Luiz teve a brilhante ideia de sua vida. A partir daquele momento, ele interpretaria Deus: cansado de viver a vida para os outros, Luiz seria o Deus de seu próprio universo, dando vida ao mundo ao qual ele mesmo queria, antes de se tornar um sujeito acomodado e sem motivações. Levado pelo romantismo religioso, Luiz iria se aproveitar dos 6 mil reais no banco e faria a sua reedição da criação do universo (o universo de Luiz, claro), aproveitando o máximo que pudesse, com tudo que pudesse, em apenas 7 dias pelo Rio de Janeiro, relembrando seus tempos de juventude.

Luiz não era criativo, a rotina tinha aniquilado sua criatividade, também. Embora culto, não saberia muito bem como utilizar os 7 dias da melhor maneira possível. O primeiro problema estava resolvido, sua ideia já estava encaminhada, mas como como elabora-la? Haveriam de ser 7 dias incríveis, mas ele não sabia como bola-los, nem muito bem o que fazer; parecia tudo meio vago, ainda, entre pensamentos distantes e emoções efusivas, mas nada realmente concreto. Foi na batucada do caderno, enquanto passava o lápis de mão em mão, que lhe veio a inspiração final. Entre uma batucada e outra, foi olhando a estante novamente e avistando um velho livro de Nietzsche (este, livro dele), que uma bela frase do filósofo lhe veio na memória:

“Sem música, a vida não faria sentido

Pronto! Estava decidido! Para Luiz recriar o “universo de Luiz”, era preciso que ele fosse, antes de tudo, embalado por uma canção. Ou, no caso mais específico dele, por 7 canções diferentes. Cada dia da criação do “universo de Luiz” seria embalado por uma música, de uma década distinta. Música, esta, longe de cumprir um papel erudito, mas aquelas que melhor representassem o “Rio de Janeiro de Luiz”, com o qual ele se identificava e sonhava nos tempos de antigamente. E foi então que ele rapidamente se levantou da cama e pegou seu notebook, afim de pesquisar algumas músicas, lembrar de outras, para bolar sua lista. Embalado pela nostalgia, pelas memórias de quando mais novo, Luiz já não se importava com o sol nascendo na janela, ou com o fato de que, logo logo, estaria matando o seu primeiro dia de trabalho em longos 7 anos. Luiz estava compenetrado com as músicas e em finalizar sua lista o mais rápido possível, para logo poder colocar em prática a sua criação. E, num último suspiro de sua insônia, Luiz bolou sua lista:

1 – Noel Rosa (1930-40) – Conversa de Botequim

2 – Zé Kéti (1950) – A voz do morro

3 – Chico Buarque (1960) – Roda Viva

4 – Cartola (1970) – O Sol nascerá

5 – Tim Maia (1980) – Do Leme ao Pontal

6 – Claudinho & Buchecha (1990) – Rap do Salgueiro

7 – Marcelo D2 & Seu Jorge (2000) – Pode Acreditar  (Meu Laiá Laiá)

Estava lá, decido e finalizado, “O universo de Luiz”, a recriação de cada dia de sua epopeia na cidade do Rio de Janeiro, passando por diferentes décadas e por diferentes estilos, o seu próprio mundo estava pronto para começar, naquele que seria um marco para definir o “antes de Luiz” e “depois de Luiz”, mudando o rumo da sua vida para deixar de ser um sujeito vivendo para os outros, passando a viver apenas para si mesmo.

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