O dia em que eu vi o pé fantasma

Este é um causo muito antigo, eu nem lembro do fato em si, mas é daquelas histórias de família que um passa pro outro, vai contando aos poucos e todo mundo acaba conhecendo algum dia; aconteceu comigo e com minha tia, quando eu ainda era pequeno, deveria ter uns 4 ou 5 anos e por isso a memória não ajuda muito. Tudo o que eu sei, foram o que disseram pra mim ao longo dos anos, descrevendo a história com muitos detalhes.

Foi mais uma daquelas situações sui generis típicas do verão, quando eu estava no Rio de Janeiro passando férias com minha família de lá. Eu ficava uns 4 meses de pura vagabundagem, só migrando de casa de parente em casa de parente que nem um parasita, comendo, sujando e aprontando tudo. Minha rotina era quase a mesma todo santo dia, eu passava a manhã e a tarde na casa da minha avó e do meu avô, aonde tinha uma criançada da mesma idade pra eu brincar no prédio e, a noite, periodicamente eu era “escalado” para dormir na casa da minha tia e do meu tio, que ficava bem perto e dava um descanso pra minha avó, para recompor as energias do moleque enchendo o saco o dia todo. Como ambos os tios trabalhavam com plantão, muitas vezes eles não podiam ficar de boa em casa, o que ocasionava situações tipo esta da história, que eu contarei abaixo.

Meu tio estava de plantão e estávamos nós lá, minha tia e eu, sozinhos naquele apartamento monstro, porque eles moravam em um baita edifício daqueles dos anos 60, aonde todos os cômodos pareciam ser construídos gigantemente para abrigar uma família enorme. O que eu fazia na casa da minha tia era quase sempre a mesma coisa, comer, tomar banho e ficar vendo desenhos em VHS da Disney no quarto dela, porque ela tinha uma coleção quase completa deles, praticamente todos os clássicos infantis. E esta história remonta bem a esta parte, depois de comer e tomar banho, aonde eu estava lá vendo um monte de desenhos, como de costume, atirado no chão; eu gostava de ficar no chão porque o verão do Rio de Janeiro parece um passeio no Inferno, então ficar deitado no piso de madeira era a alternativa mais saudável para escapar do calor insuportável que emanava aquele bafo quente que cobria toda Cidade Maravilhosa. Ainda mais nos anos 90, aonde praticamente NINGUÉM tinha ar-condicionado, e minha tia não era exceção. Suportava-se o calor com aquele ventiladorzinho de teto e muita paciência.

O quarto dos meus tios era estrategicamente bem posicionado na casa, pois a porta dele dava direto para o corredor e, seguindo reto, dava a porta de entrada para a sala. A sala era gigantesca (com dois ambientes) e, de noite, ficava num breu sinistro, totalmente escura; como era muito grande, aquela sensação fodida de incerteza que a escuridão passava era digna de um bom filme de terror, dando uma dimensão de espaço maior ainda, parecendo que tudo fosse mais assustador e intimidador. Quem sentava no chão do quarto – como o meu caso – conseguia ver um bom pedaço daquele mar preto da sala, o que pensando para uma criança, era BEM tenso. Ficar encarando pelo vão sem luz durante um bom tempo era digno de cena do Exorcista, ou qualquer coisa do gênero, imaginando a criatura sinistra que iria sair do escuro e vir caminhando pelo corredor, justamente para a porta do quarto dos meus tios.

Daí que eu estava lá concentrado vendo os desenhos no chão e minha tinha na cama, vendo comigo e de papo, com aqueles conversas de criança. Lá pelas tantas, conta a história que eu fiquei olhando fixamente para a sala, concentradão em olhar pra sala, como se estivesse vendo alguma coisa. Minha tia viu que eu estava compenetrado e, na mesma hora, eu larguei aquela pergunta:

– Mônica, o que é aquele pé ali na sala?

– Que pé? – Pergunta minha tia.

– Aquele ali, tem um pé no meio da sala, Mônica, de quem é?

Minha tia, como boa cagona, simplesmente me recolheu do chão, me botou na cama e trancou o quarto e nós dois dormimos ali no quarto, minha tia morrendo de medo e eu, criança, sem entender porra nenhuma direito. Conta a história que só no dia seguinte, quando tudo clareou, foi que minha tia se deu ao trabalho de sair do quarto e dar uma boa olhada na casa, inclusive na sala, para verificar se tinha alguma coisa. Obviamente, nunca encontrou nada, nem sinal de vida, nem de arrobamento, nem de que alguém tivesse passado pelo apartamento de noite.

O que resta até hoje como dúvida, claro, é a simples pergunta: que pé era aquele que eu vi?

Anúncios

2 pensamentos sobre “O dia em que eu vi o pé fantasma

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s