Lapadas do Povo – São Jorge

Este restaurante me surgiu de uma necessidade bem condizente com a cara do Lapadas do Povo: eu precisava almoçar perto do mecânico do meu carro, que fica ali pela Navegantes, no Quarto Distrito. Como é uma região industrial, no meio do nada, abandonada pelo resto da cidade, era difícil descolar um estabelecimento proporcionando um rango legal para quando surgia a necessidade e eu tinha que passar lá no horário do almoço. Tudo ali em volta parece meio MadMax, casas abandonadas, aqueles galpões gigantes que estocam coisas que ninguém sabe direito o que é, prédios arruinados com o mato tomando conta; quem já andou por ali sabe que aquela região é bem aquele tipo de bairro que a prefeitura faz questão de negar que exista em época de campanha eleitoral. Navegantes, o que? Não existe! Imaginação.

Para quem não conhece bem a capital gaúcha, o Quarto Distrito de Porto Alegre foi uma das regiões mais ricas da cidade, lá pelos anos 60 e 70. Composto pelos bairros Floresta, São Geraldo, Anchieta, São João, IAPI, Passo d’Areia, Humaitá e Farrapos, era uma região industrial, acesso de todos aqueles que vinham da Grande Porto Alegre para morar e trabalhar no chão de fábrica. Cresceu muito, foi economicamente importante e tinha um certo glamour, concentrando pequenos bairros de trabalhadores com renda média, como no casso do IAPI ou Passo d’Areia; aquelas regiões operárias aonde se construíam pequenos condomínios pra galera da mesma fábrica morar e socializar, de forma que ficasse todo mundo reunido próximo um do outo. Foi uma região responsável pelo crescimento da capital, economicamente, e aonde colocou Porto Alegre no mapa de grandes empresas e polos comerciais. Era o braço forte da cidade.

Mas, de uns 20 anos pra cá, o Quarto Distrito caiu no ostracismo e foi meio que abandonado pelo prefeitura (grande novidade); depois que as outras regiões constituíram sua independência financeira, cagaram legal pra esta região que ficou largada a sorte. A galera que lá morava se mudou, a única coisa que restou foram alguns escritórios, pequenas fábricas e muitas oficinas de carro, como o caso do meu mecânico, que aluga um galpão das antigas ali perto da saída de Porto Alegre. Com o abandono óbvio, o Quarto Distrito ficou tomado de violência, casas condenadas e viciados. Do luxo ao lixo, é um lugar que todo mundo acaba passando, circulando, mas ninguém quer morar. Eu consegui algumas fotos legais neste blog, para podermos ter ideia do tamanho da degradação do local:

Sabendo da situação, vocês poderiam imaginar o drama de achar qualquer estabelecimento por ali; qualquer volta pela região demanda uma descoberta bizarra, no entanto pouca produtiva. Mas foi um dia desses, uns 2 meses atrás, que eu passei lá, por volta das duas da tarde e necessitava muito almoçar. Na hora do desespero não existe muito critério, quem tem boca vai à Roma e você sai tirando informação de todo mundo. Perguntei para o meu mecânico aonde ficava o lugar mais próximo com um prato feito digno; ele me indicou uma casa/prédio, seguindo na mesma rua pela próxima esquina, eu encontraria o tal do Restaurante São Jorge. E lá fui eu.

O lugar é interessante e cativante desde a sua concepção comercial em si. Dada a falta de mercados do tipo nas voltas do bairro (Navegantes), o tal do Restaurante São Jorge é, na verdade, um grande “faz tudo” ao mesmo tempo. É lancheria, restaurante, mini-mercado, padaria etc. Como não há muito espaço para nada, fica tudo concentrado no mesmo local, tentando atingir as mais diversas necessidades do pessoal do bairro ao mesmo tempo e no mesmo recinto. Então, você tá lá descolando seu rango, tem gente na volta comprando pão pro café, gente fazendo compras no mercado, a galera almoçando pra voltar pra firma e todo mundo pagando no mesmo caixa; enfim, uma muvuca gigante. Como era de se esperar, de uma região aonde o setor industrial fala mais alto, o resultado do bar foi justamente o que eu tinha em mente: um restaurante bem povão. Como mostram as fotos abaixo, dá pra ter noção do clima da festa:

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Como podemos observar aí, a junção de “tudo em um” funciona magicamente bem, aonde o lugar fica com uma legítima cara de botequim do povo, concentrando todas as necessidades do pessoal que vem do trabalho pra ali saciar seus anseios alimentícios. Tudo ao alcance, o balcão com os salgados, a padaria no fundo, o mercado, as mesas pro almoço, a geladeira com a TV acima, tá tudo ali estrategicamente posicionado para atender as necessidades gerais de todo mundo, depois de um descanso saudável do chão de fábrica árduo e cheio de obrigações braçais; sem muito esforço, essa é a ideia. Da mesma forma que você pode sentar na mesa e esperar o almoço, o caixa é perto, a padaria é perto, o mercado é perto, tudo para facilitar a vida de quem já vem de outras funções e tem aquele momento no boteco pra descontrair sem ficar enrolando. Essas mesas que cá aparecem na foto são aonde se serve o almoço, disputadas com afinco pra ter uma boa posição da televisão, que fica acima da geladeira vermelha da segunda foto.

Cheguei lá fora do horário de pico, meio desesperançoso de que o bar fosse me servir almoço – afinal este tipo de lugar tem horário para servir a comida – já com a consciência que, no máximo, conseguiria comprar um lanche, um xis ou algo do tipo. O lugar já me surpreendeu aí; mesmo totalmente fora de horário, a moça do caixa me disse que tinha almoço do mesmo jeito. Ponto positivo, pra gente que nem eu que gosta de comer tarde, esse tipo de detalhe faz toda a diferença. Contando com a conveniência do bar vazio, consegui uma mesa estrategicamente posicionada para ficar vendo um Video Show maroto enquanto comia.

Eu confesso que não me atrelei muito a olhar o cardápio, já cheguei e pedi um A la Minuta de carne. Sei que, mais ao canto, tem uma mesa de buffet e, pelo que entendi, dá pra ir lá se servir quem não quiser o prato feito. Como eu não tenho muito mistério, fui no que gosto e confio, na batata frita, no arroz e na carne. E não me arrependi. Quando chegou o prato, já me veio outra grata surpresa sobre o local, pois a comida era servida numa bandeja! Dado o tamanho e proporção do prato feito, eles não conseguem servir a parada nos clássicos pratos de vidro comum; para dar mais espaço, o almoço vem disposto neste prato aí de metal da foto de baixo, que é uma mini-bandeja mais larga para caber mais e mais coisas, o que obviamente atende os mais vorazes paladares. Outro ponto positivo, além do horário, a grande vantagem de saciar os apetites mais famintos com uma quantidade de comida pra ninguém reclamar. Acompanhado da clássica Coca 600, meu almoço, além de grande, estava extremamente competente e bem feito. O bife no ponto certo, o arroz temperado, batata frita feita na hora e o ovo estrategicamente posicionado em cima do bife, o que obviamente é um destaque do esmero de um cozinheiro preocupado com a satisfação do cliente. Tudo isso, considerando que eu fui servido fora do horário de pico, o que poderia cair com a qualidade da casa, mas não aconteceu.

Já estava satisfeito com o que me tinha sido apresentado até o momento, o ambiente botecão com a cara do bairro, a comida, mas ainda faltava espaço pra mais uma surpresa agradável e terminar o meu dia gratificando ainda mais o almoço. Fui pagar a conta todo pimpão que ia me sair uns 15 reais, já estava pronto pra desembolsar esta grana feliz, afinal tinha sido um preço justo para o que me foi concedido. Mas, além de tudo, o preço do restaurante é MUITO BARATO e, pra finalizar com chave de ouro, o terceiro ponto positivo da casa. Nota dez para o estabelecimento, comer bem, muito e um preço abaixo da média. Depois que fui a primeira vez, voltei mais duas vezes. É um lugar longe, não dá pra ficar indo toda hora, mas toda vez que estou ali perto eu trato de almoçar no Restaurante São Jorge. Grata surpresa, uma daquelas descobertas que é quase como achar dente em galinha.

Enfim, valeu a confiança do mecânico, além de consertar o meu carro, soube indicar um restaurante digno e gostoso, imponente o suficiente para ser citado aqui no Lapadas do Povo e servir de indicação para a galera que quer almoçar ali em Navegantes e não sabe aonde comer. Alias, não façam como a prefeitura, ainda há muita coisa a se aproveitar naquela região; conheçam o local, visitem, reativem o comércio e façam aquela região crescer novamente. A cidade agradece.

Nome: São Jorge

Endereço: Rua Beirute, 319 – E pra quem quiser um mecânico, só seguir reto na rua, Marco Car no número 215

Média de preço: Com 10 reais almoça e toma um refri

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