Lapadas do Povo – Tutti Giorni

Falar o que? Porto Alegre, ah, Porto Alegre.

Este post não começa com alegria. É com imenso desgosto que venho aqui falar as palavras que se seguem. Alguns já sabem do problema em questão – devem frequentar o bar, ou ler o jornal – mas para outros é pura novidade. Para um outro tipo de pessoa, os babacas de plantão, isso talvez nem seja um problema, mas motivo de felicidade. Afinal, o que mais tem no mundo é gente babaca, que gosta de ver a desgraça e bater palma que nem foca amestrada.

Quanto eu comecei a fazer o Lapadas do Povo, justamente a ideia era resgatar um grande aspecto por hora carente de críticas, meio esquecido neste mundo: o boteco, o famoso pé-sujo. Eu via um milhão de blogs diferentes destinados a comida, bebida, mas com um foco específico em restaurantes e estabelecimentos chiques. Era comfort food, fusion food, chefs estrelados, vinho, champagne, comida cara e ambientes categoricamente desenhados pelos melhores arquitetos e cozinheiros. Não conhecia um blog falando especificamente do bar do povão, aquele pé-sujo chinelão frequentado por pessoas de havaianas e bermuda, comendo fritura e tomando cerveja de pé. Alguns blogs até dedicavam poucos posts a estes lugares, mas falavam de uma maneira tão distante, tão sem propriedade, que você via que estes caras não compreendiam a verdadeira função social do boteco: a preservação da cultura regional. Tratavam estas biroscas muito friamente, acostumados aos restaurantes cinco estrelas, pouco entendiam seu valor.

Quando eu comento sobre o argumento de “a preservação da cultura regional“, eu gostaria de ressaltar uma figura importante da televisão atual:

Para quem não conhece o cidadão aí de cima, ele se chama Anthony Bourdain. Até pouco tempo atrás, Anthony tinha (encerrou recentemente) um programa chamado Sem Reservas. A proposta do show era bem simples, ele viajava pelo mundo conhecendo os lugares mais undergrounds de cada cidade. Visitava restaurantes populares, carrocinhas de rua, mercadões a céu aberto, tudo aonde você poderia encontrar exclusivamente um tipo de gente: o povão.

Foi pro Vietnam, Alemanha, Rússia, Chile, mas sempre com o mesmo objetivo de tentar entender a cultura através de seus estabelecimentos mais simples. Como isso? O que ele defendia era exatamente o que eu digo. Quando ele se propunha a visitar APENAS estabelecimentos populares, o que ele queria demonstrar era justamente o fato de que, para se conhecer uma cultura sem estereótipos externos – aquela visão caricata de turista – você deveria entender o que o povo frequenta no seu cotidiano. O boteco encravado no coração da cidade, no meio de sua área comercial, com toda sua simplicidade de estrutura, era um resumo da melhor explicação de todos os elementos que compunham a sociedade. Você é o que você come, não é? A cidade é o que o povão frequenta, então. O resumo da vida social está ali, não precisa ser um acadêmico para entender.

E toda essa ladainha escrita aí em cima tem um motivo: o fechamento do Tutti Giorni.

Se para as boas situações o boteco representa o povo, para as ruins também há de ser assim. E o exemplo perfeito para isso, é o descaso do governo gaúcho, mais uma vez punindo a boemia da cidade, na medida em que se reforça o argumento de que, há anos, estamos largados ao abandono. Porto Alegre é uma região de ninguém, um Madmax dos pampas. A vida noturna – e a cultura popular – perde mais um baluarte nesta terça-feira passada (dia 20), quando efetivamente o bar Tutti Giorni encerrou suas atividades, em um dos maiores pontos turísticos da capital, o viaduto da Borges de Medeiros. Viaduto esse, exemplo máximo da consideração que nossos estimados governantes tem com a preservação da cidade. Há anos está largado ao vento, abandonado e mal cuidado, virado em lixo, sujeira, sem segurança e com estabelecimentos comerciais cada vez mais escassos; o viaduto esta horrível. O que eles pensam da gente está impresso ali: somos merda, merecemos merda.

É até irônico, fecha-se o Tutti Giorni por causa de uma briga judicial ridiculamente antiga, um processo com um resultado e argumento dúbio sob uma dívida e valores estranhos, com a tutela do estado que, novamente, lava as mãos e nada faz quando não lhe interessa (economicamente, claro). Alias, faz sim, porque é um dos responsáveis máximos por este movimento de “limpeza cultural” que vemos na cidade há uns bons três anos, aonde a prefeitura fecha a bel-prazer um bando de botecos do povão com argumentos levianos e infames, protegidos pela óptica de “fazer valer a lei“. Lei que só vale quando eles querem.

Esta mesma lei, desrespeitada constantemente, inclusive, por outros bares. Estes “outros”, lugares chiques; afinal, gente chique é diferente. A lei tem outro valor e a prefeitura faz uma vista grossa do caralho quando passamos nas regiões da classe A. Permite um monte de lugar continuar aberto com o maior número de irregularidades possíveis e não está nem aí. Impediram cadeiras na Cidade Baixa, mas não impedem na Padre Chagas. Mesas na rua, só se forem de restaurantes descolados com nome em outra língua; aí ninguém reclama, é bonito, é moderno e fashion. Dificultam as pessoas de permanecerem circulando aonde quiserem, fecharam o Russo, fecharem o Speed, fecharam o Élio, todos não estavam de acordo com as normas de Saúde; mas o McDonald’s com barata, o Habib’s com bactéria abortiva, esses reabriram em menos de uma semana. Mistério! O barulho do Tutti incomodava, já o barulho constante da Pink Elephant não. É incrível como a força de vontade de fechar determinados lugares não se espelha em outros.

Quando resolvem encher a Padre Chagas de cadeira na calçada, carro em fila dupla, barulheira e gente se amontoando e enchendo o saco, aí a Prefeitura inexiste.

O ataque é claro, sistemático, passivo-agressivo, mas voltado com um objetivo: extirpar a boemia como se ela fosse um câncer. E um monte de bobalhões bate palma, diz que “essa gente” não vai mais fazer baderna, não vai ter mais barulho, afinal, agora é lindo e maravilhoso. O viaduto da Borges vazio é uma delícia, silêncio, ninguém na rua. É o sono dos anjos. Todos dormem em paz e “essa gente” não vai mais frequentar a região. Todos felizes, não? Ao menos aqueles que o governo tenta agradar. Estes comemoram a “vitória”. Vão se masturbar com o silêncio, gozar da falta do que fazer e admirar a cidade morrer, vestindo suas lindas pantufinhas e vendo novela. “Viva o Centro“, diz o slogan da campanha da prefeitura. E eu pergunto: viver do que? Só se for de crack.

Está claro, a boemia incomoda meia dúzia de babaquinhas e, como era se se esperar, isso incomoda os ouvidos do (nada) maravilhoso governo gaúcho, que sempre tem uma solução rápida, prática e imbecil. É natural o desgosto de certas pessoas apantufadas pela boemia, porque é nela que as pessoas discutem, argumentam, bebem, conversam e se articulam. Na boemia surgem movimentos, surgem protestos, surge vida de fato; vida que vive, não essa vida de pantufa. Não a toa a boemia não liga para esmero, beleza, cadeiras confortáveis, comida boa, chef com nome e nem porra nenhuma; isso é tudo frescura de coxinha, de gente que saiu da Padre Chagas e tem medo de pegar ônibus. O que importa na boemia é a companhia, os amigos que a cercam e a cerveja que se bebe; a boemia é povão. E povão é boteco, cultura afinal.

Ver um bar como o Tutti Giorni fechar as portas, ver a Cidade Baixa agonizar, o Tuim ser impedido de vender cigarros, o Speed sendo detido pela Saúde, pra mim está claro: o descaso do governo com grande parte da população é esse. O povão – a cultura de fato e de direito – não tem mais lugar de existência. A regra é simples, ou o povão se sujeita a consumir uma merda genérica oriunda de alguma rede bagaceira de comida importada, ou não sai mais de casa. Ou você vai no restaurante do chef descolado e acha maravilhoso e cool, ou você não faz nada. Não há mais espaço para cultura popular em Porto Alegre. É a triste aceitação de uma condição tosca: mataram a boemia. E matar a boemia é um aspecto nocivo para qualquer lugar, não só para a boemia em si.

Quando venho aqui discursar sobre o fato de “extirparem a vida noturna”, a relação me parece até óbvia demais. O descaso que o governo constantemente mostra com Porto Alegre é o reflexo que mantém em sua relação com a vida noturna, a boemia da cidade. A capital largada e abandonada que vemos aí, todo dia, é exatamente igual ao passarmos no antes bairro boêmio da cidade – a Cidade Baixa – que agora frequentemente está vazio, largado e escuro. Vemos o reduto de ratos toscos que se tornou a Prefeitura da cidade, na medida em que o sr. Prefeito faz um bafafá danado pra lançar uma ciclovia de 400 metros como o maior feito da história do homem. É assim que eles enxergam a cidade: atrasada. As novidades que eles se prezam a discutir, de fato, não são novidades para quem REALMENTE percebe os problemas da cidade. Somos governados por um bando dinossauros com pensamentos pré-históricos.

E é assim que gradativamente vemos menos gente se importando com o atraso que Porto Alegre se tornou, porque sabiamente eles assassinaram a boemia, o reduto dos reclamões e inconformados. Mataram o coração da cidade, sua cultura, a vida ativa dela e agora só quem tem espaço de se expressar são aqueles que não querem fazer, que não sabem fazer. Não protestam, não reclamam, está tudo ótimo como está. Ou, como disse um antigo cliente do Tutti, Rodrigo Rosa (na ZH):

– Isso é o reflexo da pobreza do nosso pensamento sobre a cidade – define o artista gráfico Rodrigo Rosa. – Toda a extensão do viaduto da Borges deveria estar repleta de bares e vida social. Deveria ser um lugar vivo, e não marginalizado.

Mas, para não perder o foco, voltamos ao que interessa e o que, obviamente, gerou o desabafo acima: Tutti Giorni.

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Embora o tradicional nome que carrega, encravado ali nas escadarias do outrora glorioso viaduto da Borges, recente point de publicitários e afins, o bar clássico dos cartunistas é um lugar que, até então, eu não conhecia. Resolvi tirar o atraso logo em um dia tão cheio de tristezas, na despedida de tudo. Já rolam boatos que Nani (o dono) reabrirá ali pela Andradas, mas eu deveria conhecer o lugar antigo antes do fatídico final. Era quase um dever moral.

Com um misto de curiosidade e frustração pelo fechamento, me dispus a ir lá acompanhar os últimos momentos do boteco e tentar captar o porquê de ser tão emblemático. Eu já conhecia os botecos abaixo do viaduto, aonde já tomei cerveja, mas confesso que mesmo com todo o nome, nunca nem tinha visto o Tutti na minha frente. Mas fui lá disposto a me atualizar. Não fui de manhã para comer o rango, embora digam que o almoço (a dois reais a vianda) seja bem bom. Fui a noite, beber cerveja e observar o clima do ambiente. Isso, claro, me dando uma bela margem para conhecer o futuro novo Tutti e descolar um carreteiro de almoço, que dizem ser bem digno. Mas isso, meus amigos, será outra história. Meu intuito, dessa vez, era justamente aproveitar o happy hour, horário das figuras carimbadas, para me unir ao clima de nostalgia e despedida com quem obviamente mais entendia da casa. E foi exatamente o que eu esperava.

A tristeza estava estampada no ar, no clima pesado da noite fria de 11 graus da capital gaúcha. As figuras iam, aos poucos, chegando lentamente e comentando das mais diversas formas sobre como o resultado do fechamento da casa influenciaria na vida de cada um. Alguns tristes, outros com raiva, estava todo mundo ali conversando sobre aquele momento marcante; uma frustração meio geral, visto que não se tinha mais o que fazer para reverter a situação, só lamentar. Até o dono Nani, conhecido por não ficar de noite, não conseguia ir embora. Sempre puxava papo com alguém e ia protelando o que parecia ser o último dia da casa. Ninguém queria o fim do dia. Nem os clientes tradicionais, nem os curiosos, como eu.

Flávio Gomes, no seu texto da morte de Sócrates, descreveu um boteco que ele foi uma vez em Pinheiros, algo mais ou menos assim: “um velho e empoeirado e querido pub em Pinheiros, faz frio, as portas já fechadas, o dono não quer nem saber, quem quiser fumar, fume, fumem e bebam antes que o mundo acabe, o amigo tocando violão“. Era exatamente este o clima no Tutti:

Lá, o tempo ainda não passou, o relógio demora a andar; entrar ali me pareceu um passeio de volta à 1970. Lugar pequeno, poucas mesas de madeira dentro, o teto baixo e a umidade das paredes de alvenaria e cimento, todas lotadas de desenhos dos mais diversos artistas (como mostram as fotos). O peso da história é visível em cada canto do pequeno local; são tantas passagens importantes, que em uma das paredes podemos ver um desenho cravado de Ziraldo, homenageando o dono. Entende-se logo de cara o porquê da alcunha de “o bar dos cartunistas“; no pouco mais de uma hora que ali fiquei, o que mais vi foi gente com bloquinhos, canetas e cadernos. Entre a conversa e o gole, cada um desenhava um pouco. Justo.

Mas, além dos próprios desenhistas, clientes fiéis do boteco, todo tipo de gente ali aparecia. Do mais estranho ao mais normal, gente arrumada, gente elegante, gente que saiu de casa e foi como estava, gente de moletom, gente de bermuda, gente lendo jornal, gente fotografando; mulher maquiada e mulher de moicano, homem com barba por fazer, homem com gel e de terno. Enfim, o povo. É o típico lugar que é só chegar, pegar uma cadeira e beber uma cerveja; ninguém vai lhe reprimir por nada. Beba, fume, a vida é sua. De fato, um lugar tão cativante e interessante, que é fácil puxar assunto com qualquer um em volta: todos parecem amigos e entram no clima do lugar, parecendo uma grande conversa coletiva. Ainda mais em um momento como o de ontem, ninguém queria picuinha e discussão.

O lugar é tão peculiar que o fato de não servir comida (além de bolinhos de batata) não se tornou um empecilho. Realmente, eram tantos os motivos para atrair sua atenção, tantos os pontos positivos, que eu nem liguei em não ter um tira-gosto para acompanhar minha Heineken gelada. Coisas da vida, afinal; obviamente, o fator “falta de tira-gosto” em nenhum momento influenciava negativamente na casa. Um detalhe que passou despercebido, diante de tantos outros pontos positivos.

Era pouco depois das 20h quando eu me aprumei pra ir embora. Cheguei quando a casa estava abrindo, não pretendia me estender muito. Cumpri o meu papel de conhecer o local antes de fechar. Queria ter ficado mais. Como todos os outros ali presentes, creio que ninguém queria ir embora. Ao menos, consegui conhecer o estabelecimento antes de fecharem. Enfim, dever cumprido. Ficou apenas o mea culpa de não ter ido antes, aproveitado mais vezes um espaço tão bacana como aquele, no viaduto mais importante da cidade, cartão postal de anos e que agora figura entre mais um dos tantos pontos de descaso do governo. Uma pena.

Mas, esperamos que em breve retorne na Andradas, para provar o carreteiro do almoço e tomar mais cervejas de noite. Restam apenas as fotos para a recordação. Valeu pela luta em se manter aberto e toda repercussão que deu. Talvez assim, algumas filosofias babacas do governo mudem. E, como era de se esperar, este tópico tinha de terminar com duas coisas: música e fotos!

Boa noite e sigam-me!

Nome: Tutti Giorni

Endereço: Antigo – Viaduto da Borges de Medeiros, Novo – Em algum lugar da Andradas, no futuro

Média de preço: Almoço 2 reais a vianda. Cerveja variando de 6 a 8 reais. Rolha do vinho 5 reais.

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