São Manoel e meu clone – a tulpa

Vocês já leram sobre isso? É um daqueles conceitos sobrenaturais completamente bizarros, que possuí toda uma história estranha por trás e uma justificativa ainda mais estranha.

Pois é, para quem não sabe, Tulpa é um termo extraído do budismo tibetano. O termo faz referência a um ser – objeto ou criatura – criado unica e exclusivamente pela força de vontade de outro indivíduo. Basicamente, a teoria diz que, caso a pessoa racionalize vorazmente determinada coisa, ela tem o poder de cria-la de fato; não exatamente sobre a forma esperada, mas cria algo conhecido como Tulpa. Um exemplo clássico usado recentemente para explicar a Tulpa é o caso de pessoas que viram espíritos; diz-se que, em determinadas situações a pessoa está tão assustada, com tanto medo de efetivamente ver um espírito que, inconscientemente, ela acaba racionalizando a criatura e, assim, criando uma Tulpa e confundido-a com um espírito. O budismo tibetano vai além: diz que a maioria das Tulpas não tem vontade própria, depende da existência do seu criador; só em casos extremos que, dada a “força de vontade” da Tulpa, ela poderá viver depois da morte do criador, sendo assim um ser a parte.

É um conceito utilizado, também, para explicar como determinadas crianças conseguem “ver” coisas que supostamente adultos não podem enxergar. Obviamente, com uma mente mais livre e aberta a criatividade, a força de vontade das crianças em “criar” um objeto é maior e mais fácil. Por isso, sabemos de inúmeras crianças que “materializam” amigos imaginários, espíritos e outras criaturas, muitas vezes extrapolando o limite do irreal e efetivamente acreditando que, de fato, tais seres existem. Bizarro, não? Enfim, dei esta breve explicação justamente para contar um causo antigo que me ocorreu no tão famoso colégio São Manoel, que eu sempre comento por aqui.

Como já disse várias vezes, o São Manoel era um colégio de turno integral. Isso quer dizer que os estudantes – como eu – entravam na instituição às sete e meia da manhã e passavam o dia lá, só saindo as cinco e meia da tarde, já no final do dia. Havia uma divisão lógica no nosso dia, justamente para entreter a criançada durante todo o tempo. Durante a manhã, tínhamos a aula convencional, com as matérias que deveríamos aprender. De tarde, fazíamos nossos temas e praticávamos atividades extras, como futebol, informática, judô etc.

Obviamente, a lógica da aula de manhã e atividades de tarde era justamente para prevenir que a criançada matasse os períodos mais cedo, porque você tinha a obrigação de estar na aula da manhã para aprender o conteúdo e completar o seu ensino fundamental de maneira tradicional. Caso invertessem os horários e as atividades recreativas fossem feitas no primeiro período (antes do almoço), era meio que óbvio que ninguém iria acordar cedo pra ir na aula, sabendo que o conteúdo mesmo só seria passado de tarde. Mas, mesmo com toda essa dinâmica, como boa criança, eu e muitos outros frequentemente matávamos umas aulas de manhã. Apoiado pelas justificativas mais idiotas, como gripe, mal-estar, sono, era praxe o cara engambelar as primeiras aulas e chegar no colégio na hora do almoço. E este causo, se refere justamente a um dia desses:

Estava morrendo de sono, cansadão, não conseguia levantar de maneira alguma. Meu pai, em um acesso de pura bondade, resolveu me deixar dormindo até as dez horas, para eu recuperar o sono e ir apenas pro período da tarde. Perfeito, era o que toda criança sonhava. Poder matar a aula chata, ir de tarde jogar um futebol e, ainda, ser apoiado pelos pais na defesa da ausência. Era uma daquelas poucas situações acadêmicas sem erro, só tinha a dar certo e aproveitar. Estava tudo em minhas mãos, era a faca e o queijo da vagabundagem infantil.

Acordei lá pelas dez, como combinado, me arrumei, tomei café, enrolei mais um pouco, fiquei esperando e fui para aula. Como morava relativamente perto do colégio, não demorava uns dez minutos para eu chegar na escola. Fui subindo a rua, tranquilo e sereno que nem baile de moreno, despreocupado com as minhas obrigações e felizão por ter dormido até mais tarde. Entrei na rua do colégio, dobrei a esquina e fui caminhando até o portão, aonde também ficava a guarita do guardinha que cuidava para ver se ninguém tentava fugir. Chegando lá, como de praxe, dei bom dia pro guardinha. Neste momento, a coisa já começou a ficar estranha. O guardinha me olhou surpreendido, passou um rádio para alguém e disse apavorado:

Aonde tu estavas????????

Prontamente, respondi:

Ué, estava em casa, cheguei agora. Não me senti bem (mentira clássica) de manhã e meu pai deixou eu vir só de tarde.

O guardinha me olhou incrédulo e falou para eu ficar parado esperando ali, que a diretora queria falar comigo. Ok, lá vinha merda e eu nem tinha entrado no colégio ainda. Dessa vez eu era inocente. Avistei de longe a diretora, também incrédula, correndo a passos largos, meio que surpresa de me ver ali paradão na porta, já pronta para aquela bronca que eu nem sabia o motivo de estar tomando. E começou:

Aonde você andava, Lucas???? Isso é atitude de um aluno? Como você faz isso??? Todo mundo preocupado aqui e você fazendo essa brincadeira sem graça!

Mas o que eu fiz? Acabei de chegar aqui e não sei de nada! 

Como assim? Que brincadeira é essa, Lucas? O que você quer dizer com isso???

Acabei de chegar aqui, ué. Não vim na aula de manhã, não estava bem. Não tem brincadeira nenhuma.

Tá, Lucas, tá. Acabou a piadinha, isso é sério, vem comigo agora.

E lá fui eu, acompanhando a diretora para a sala dela, para esclarecer algo que eu nem fazia ideia do que era, mas que supostamente era culpa minha. Tomar bronca era tão comum que, até quando eu não tinha culpa, eu não sabia mesmo se não tinha feito merda. Enfim, pelo sim pelo não, fui acompanhar a diretora pra sala dela, tomar um devido esporro de graça sem saber muito bem qual o grau da conversa. Fazer o que, né, a vida do estudante ruim é assim: até quando você acha que tem razão, não dá para garantir isso com certeza absoluta.

Cheguei lá, aquela sala espaçosa, bancos confortáveis, um bando de trabalhos de alunos e outras bugigangas típicas de colégio…e a diretora possessa. Ela era uma loira, meio gordinha, típica perua de novela da Globo. Se vestia toda arrumada, cheia de estampas, parecia uma mistura de Claudia Jimenez com Aracy Balabanian. Se sentou na cadeira e prontamente já começou a me metralhar:

Olha só, Lucas. Não dá mais. Essa sua brincadeira extrapolou tudo, foi fora dos limites, não tem cabimento. Não sei o que fazer, acho que vou ter que tomar a pior atitude possível. Isso pode lhe causar uma expulsão.

Aí eu me apavorei. Expulsão, como assim? Eu nem sei o que fiz e posso ser expulso! Que merda é essa? Complô? Sim, eu geralmente fazia besteiras; mas ao menos eu sabia do que se tratava. Eu estava ali, sentado, sem saber de porra nenhuma e ameaçando ser expulso! Que merda, eim? Resolvi indagar, ainda apavorado e sem entender muito bem:

– Mas expulso por que???? O que eu fiz de errado???

Com um misto de raiva, tristeza, preocupação, fiquei ali com vontade de encher aquela gorda de porrada. Mas o mais cabível era eu ouvir a versão dela, que também parecia meio que surpresa com o fato de eu negar veementemente alguma coisa que eu nem sabia o que era. E veio:

– O que você fez de errado, Lucas? O que? Você simplesmente foge do colégio, passa umas 4 horas andando pela rua e reaparece agora, como se nada tivesse acontecido! Imagina se acontece um acidente? O colégio seria o responsável e você simplesmente sumiu por aí. Isso foi uma atitude totalmente errada, não há como se desculpar. Estávamos todos aqui apavorados atrás de ti, te procurando em todos os lugares do colégio e você estava na rua. Ainda aparece ali no portão como se nada tivesse acontecido!

Que porra é essa?“, pensei eu. “Como assim, eu não sumi. De fato, eu nem apareci. Cheguei agora e tá todo mundo ai me acusando de sumir“. Resolvi emendar para não deixar a gorda achar que eu era culpado:

– Olha só, eu já disse antes. Não vim de manhã, eu não estava aqui. Eu não sumi! Eu não apareci hoje no colégio e tenho provas! – E tinha mesmo, era só ligar pro meu pai.

A diretora nem me ouviu até o final, prontamente saiu da sala sem dar motivo algum e me deixou lá, esperando que nem otário. Passaram uns cinco minutos e eu lá, sem entender nada direito, volta a diretora com três colegas meus de diferentes nichos da turma: duas meninas e um cara. Coloca eles sentados juntos na sala e diz:

Quem aí viu o Lucas hoje? – Todo mundo concordou com a cabeça, fazendo sinal de positivo.

Não só isso, começaram a falar todos ao mesmo tempo. Uma das colegas tinha me visto caminhando no corredor. O outro tinha me visto no pátio da escola antes do sinal. E o pior, a terceira, tinha me visto abrindo o meu armário (tínhamos armários individuais para guardar nossas tralhas) e pegando o meu material para ir pra sala de aula. Três pessoas diferentes, que nem eram muito amigas, concordavam com o absurdo. Fossem três pessoas amigas e que me odiassem, poderiam estar fazendo um complô malévolo para me sacanear, mas não era o caso! Todas as três concordavam que, de fato, eu estava no colégio de manhã. Tinham me visto, confirmavam isso, em diferentes pontos da instituição; e pior ainda, me viram no meu armário!

Carai, véi, a coisa estava ficando tensa. Como eu iria argumentar? Eram três contra um. Mesmo eu, sei lá, começava a duvidar da minha credibilidade. Vai que eu estivesse com sono e tivese sonhado que fiquei em casa, ou que eu era maluco e estava delirando totalmente. Vai saber, era uma situação muito bizarra pra compreender e poder acreditar piamente na minha humilde prova. Comecei a ficar cagado de verdade, eu estava perigando ser expulso do colégio por uma situação que eu nem sequer compreendia. Criança, ainda, estava nervoso e não conseguia pensar em uma situação lógica, alguma coisa que eu pudesse me defender frente as acusações e sair de lá com a razão. Estava fodido. Num último suspiro de razão, antes de toda aquela confusão tomar proporções horríveis, fiz a coisa mais sensata do mundo:

Liga pro meu pai!

Ligaram, ele atendeu, a diretora perguntou se eu tinha ficado em casa de manhã. Ele confirmou, ficou todo mundo com cara de bunda e eu sai muito vitorioso. Enfrentei o sistema, esfreguei na cara da diretora que ela estava errada em uma situação aparentemente impossível e ainda continuei no colégio, sem ser expulso.

Mas não foi uma vitória que me deu tranquilidade. Porra, olha que história estranha. Até hoje eu fico encucado com o fato de pessoas terem me visto em um lugar que eu não poderia estar. E digo pessoaS, no plural, porque foram 3 indivíduos me vendo em lugares distintos. Hoje, depois de conhecer o conceito da Tulpa, atribuo perfeitamente a situação a ele. O pessoal deveria estar tão crente no fato de eu estar no colégio que, efetivamente, criaram uma entidade minha a parte; no fundo, poderíamos estar todos certos e o mundo ser um lugar muito estranho. Bando de bruxos.

Boa Tarde e sigam-me!

Editado às 15h 36 min do dia 15/06/2012: Como o Sr. Papagiorgio deixou claro no comentário, há um conceito que eu acho que se encaixa melhor ao caso, ao invés da Tulpa. Realmente, segundo a história, é mais provável que tenha sido um Doppelgänger. Confesso que nunca tinha ouvido falar, mas fui ler na wikipedia e, de fato, é bem interessante: Doppelgänger, segundo as lendas germânicas de onde provém, é um monstro ou ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa que ele escolhe ou que passa a acompanhar (como dando uma ideia de que cada pessoa tem o seu próprio). Ele imita em tudo a pessoa copiada, até mesmo as suas características internas mais profundas.

Fica aí a informação pro pessoal!

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3 pensamentos sobre “São Manoel e meu clone – a tulpa

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