A religião, o culto e a sua origem

Este é um assunto que sempre me intrigou. Aonde e porque começou tudo? “Tudo”, que eu me refiro, relativo a religião. É um ponto curioso, culturalmente muito interessante.

Veja bem, a primeira vista a resposta é simples – o clássico clichê – “começou porque o homem não sabia explicar a origem de determinadas coisas, aí se apegou a criação de seres superiores que agiam aonde ele não tinha conhecimento“. A resposta padrão que, inclusive, implica sobre o argumento de transição do politeísmo de várias sociedades a um único Deus. Conforme os povos conheciam e reconheciam a ciência, foi natural a migração de vários deuses ligados a eventos físicos e químicos para um só Ser, se valendo de situações mais subjetivas, como a vida após a morte ou a criação de tudo.

Até aí tudo bem, é quase consenso o conhecimento geral sobre esse “conceito social”, por assim dizer, de ordem cronológica dos fatos. Mas, há um grande problema…

Quando focamos o debate especificamente sobre está óptica, estamos centrando toda discussão em cima de um ponto, a definição massiva de religiosidade ao qual conhecemos – ocidentalizada – e o seu argumento de criação como instituição social. E é por isso que o título do meu texto consta outra palavrinha: o culto. Quando coloco este debate, não quero especificamente discutir sobre a religiosidade, justamente por ser excessivamente estudada, mas sobre a origem do culto (no sentido bem claro de cultuar) em si. Quando levamos o debate a escala de religião, nos focamos no debate da instituição (e sua relação com a sociedade), esquecendo que, antes de tudo, a instituição vem de um culto, sendo este a “raiz de tudo”. Desta forma, lembramos também que, muitos dos cultos, de alguma forma, não são considerados oficialmente como religiões, mas na prática funcionam sobre o mesmo aspecto: a ideia de haver contato/explicação sobre determinados temas com uma forma não convencional/científica, tentando formalizar através da crença uma reunião de filosofias de vida parecidas.

Ou seja, é uma discussão mais ampla. Justamente porque, quando nos livrarmos do aspecto de instituição religiosa, saímos também do debate sobre a INTENÇÃO de determinados sujeitos com a crença da maioria, o que foi (e é) a ideia de religiosidade institucionalizada em sua essência: uma forma de controle de massa.

O que proponho a me perguntar é, justamente, aonde surgiu a ideia do culto?

A primeira resposta, claro, como demonstrei, remete a um clichê clássico. Mas, fugindo da “bolha” ao qual me propus na minha dúvida, temos uma grande área de estudos incompreendidos. Isso porque, se analisarmos de uma forma “macro”, pegando a “base cultista” de diferentes lugares do planeta, em todos os casos a coisa se converte para o mesmo lugar. O que quero dizer, basicamente é que, tirando os pequenos detalhes, as miudezas que diferenciam nominalmente as diferentes crenças, de uma maneira geral todos convertem para o mesmo caminho, a mesma conclusão e da mesma forma.

Ora, analisemos o caso simples da condição de “figura criadora da Terra” e a sua relação com o homem. Embora os pormenores se mostrem diferentes, TODAS as formas de culto, monoteístas ou politeístas sempre acreditaram na criação como uma forma divina, uma figura espetacular e que, do mesmo jeito, possuí um grau de perfeição ao qual os mortais, nós, tentamos nos espelhar como exemplo. Isso, somando claro que, além da criação, há também uma relação de não-contato direto com mortais “normais”, intervindo através de meios indiretos, ora com mensagens, ou através de “pessoas especiais” ao qual recebem a dádiva de poder repassar a mensagem de uma forma mais crítica, revendo a relação homem-Deus com um olhar mais compreensivo que o restante da massa.

Isso poderia ser datado como uma coincidência pontual, algo muito vago (obviamente), por se tratar de um princípio básico da crença: o sobrenatural. A fonte de que há de se crer em algo “superior” e desconhecido.

No entanto, ao analisarmos do mesmo modo outras coincidências “menores” dos cultos, percebemos que alguns determinados padrões são compatíveis para diferentes crenças, em diferentes lugares e em diferentes tempos. Como a relação simbólica de “elementos mágicos”, vemos que em sua maioria os cultos convergem para o mesmo caminho, acreditando que, algumas iconografias padrões possuem poderes sobre as escolhas e as situações ao qual o indivíduo esta presente. Seja pela adoração de uma figura em específico, pelo desenho de uma forma geométrica padrão, pela compreensão de um termo ou texto, toda crença acredita – visualmente – em algo que demanda mistério por sua concepção artística em si.

Exemplo claro disso é a suástica – famosa pelos nazistas – mas usada anteriormente em vários pontos do planeta, em diferentes cultos e em sociedades que nunca, no mundo antigo, tiveram contato aparente. Como celtas, povos latinos e indianos poderiam achar que o mesmo elemento, uma figura bem específica e marcante, poderia ter os mesmos poderes mágicos? É justamente por esta óptica que, olhando para as diferenças crenças, embora com suas peculiaridades, a maioria converge a um mesmo significado:

Citando a suástica como exemplo, poderíamos dar ainda outros exemplos mais específicos. É o caso das construções piramidais em diferentes pontos do planeta e em diferentes épocas – todas com a mesma visão mágica – acreditando que determinada estrutura possuía uma relação mística muito além da compreensão do ser humano. Como diferentes sociedades poderiam crer que, através do mesmo elemento, o contato com o mundo além-homem poderia ser estabelecido? O que dignificou o “elemento pirâmide” como um poder de atração aos povos antigos?

Pirâmide do Egito, Oriente Médio.
Pirâmide Asteca, América Latina.
Pirâmide em Roma, Europa.
Pirâmide submersa do Japão, Ásia.

É curioso que, ao analisarmos alguns elementos – mesmos os povos sem nenhuma relação aparente – todos eram bastante sistemáticos em seus cultos, possuindo quase uma regra para determinados pontos que convergiam sempre para o mesmo “sistema mundial” de crenças, tratando tudo com semelhanças muito interessantes. De fato, as diferenças são muito mais pontuais, se mostrando bem menores do que se percebe. Embora muitos dos vários grupos briguem até hoje como forma de determinação (inclusive com famosas guerras intermináveis), cada qual defendendo sua instituição religiosa, de uma forma geral todas as sociedades se apegam quase que mecanicamente às mesmas situações na hora de crer em algo, ou em determinado culto.

Outro bom exemplo sobre isso é o caso tão debatido atualmente, sobre o fato do cristianismo – na relação Maria e filho de Deus – se assemelhar em diferentes pontos a cultos egípcios, que por sua vez se assemelham a cultos mesopotâmicos, que por sua vez se assemelham a cultos hindus. Embora perceba-se que, cada culto possuí uma determinada peculiaridade, novamente nota-se a semelhança muito forte entre a forma de ver o sobrenatural, convergindo sempre para um fator comum, quase como uma grande regra:

A coincidência existiria, tratando-se de povos que formalmente se comunicaram e tiveram relações, ou que evoluíram categoricamente se amparando uns nos outros. Mas, como explicar a série de situações quando estes povos – reconhecidamente – só foram se encontrar séculos depois das suas crenças já formadas e vigorando como instituições sociais? A relação de conversão religiosa não existia, ou se talvez existisse (como no caso Romanos – Gregos), é muito difícil pensar que alguma determinada sociedade em questão se daria ao trabalho de modificar ou adaptar seu sistema de crendices com base em opiniões alheias. Se ainda hoje existem guerras exclusivamente por vontade de afirmação em determinadas crenças, como imaginar que, antigamente, com muito menos diálogo entre povos e nenhuma concepção de direitos civis formalmente escrita, as sociedades convergiriam no mesmo sistema de crenças por boa vontade? Ainda mais no mundo antigo, aonde o papel da religião era muito mais presente no cotidiano social do que o atual. Mostrar superioridade no seu culto era, antes de tudo, mostrar uma superioridade social.

Mas até este ponto, ainda nos prendemos muito nos aspectos comuns de religiões-instituições, em sua maioria, presentes fortemente nas sociedades modernas. O tema começa a ficar mais confuso quando aderimos o debate ao âmbito de pequenos ou antigos cultos, como a bruxaria tradicional (esoterismo) e o espiritismo, visto como “corrente filosófica”, que mesmo com suas diferenças também remetem ao mesmo ponto.

Analisemos por exemplo que, todo culto possuí um paraíso após a morte. Mesmo aqueles que creem em ressurreição, há sempre aquele “caminho” a percorrer entre uma vida e outra, ou o “ponto final” depois de muitas vidas; sempre remetendo a um lugar confiável, iconograficamente muito parecido em todos os cultos, o paraíso é uma figura recorrente aos mesmos temas. O céu, a tranquilidade, os tons em azul e verde, a vontade de relaxar, o descanso, a natureza, embora cada qual tenha um nome, todos os cultos levam a mesma busca em seu sentindo de “paz interior“: um lugar melhor em um plano diferente ao qual vivemos. Mesmo os que não creem propriamente em paraíso, veem o mundo futuro com um olhar de tranquilidade, uma vida pós-vida melhor do que o que se tem no presente.

Parece besteira, claro, mas porque nenhum culto conseguiu pensar iconograficamente em um paraíso abaixo da Terra, ao invés de acima? Por que a referência recorrente ao que é bucólico? Alias, porque todo culto tem a visão de que teremos uma tranquilidade futura? Ou por que esta relação de encontro com a paz interior? Por que o consenso sobre uma vida pós-vida melhor?

O sentimento bucólico, como dito acima, também é uma constante entre vários cultos, vendo a natureza com um olhar especial, quase como uma “mãe” que ensina de alguma forma o homem e sua relação com a vida. Aquela “mãe natural” que rege, através do empirismo humano, os ensinamentos necessários para a sociedade melhor. Note que as referências a Messias (em várias crenças) remetem sempre a uma infância no campo, algum trabalho referente a situações clássicas da família fora da cidade conturbada (como fazendeiro, artesão), assim como várias parábolas ou passagens exemplificadas através de elementos naturais, como plantas, flores, animais, aplicando depois em um contexto social humano. Não só em cultos grandes, ou religiões-instituições, o bucólico sempre esteve presente no ato de “crer” em algo.

Exemplo disso temos os celtas, druidas, bruxaria tradicional, nórdicos e afins. O uso constante da natureza se dava, também, através de sua simbologia e poder sobre a sociedade. Era uma relação essencial para a existência da crença, de forma a entender que a natureza era parte essencial na criação da história do sobrenatural, de forma a influenciar no homem e na crença em si. Crer no poder na natureza era, antes de tudo, “entender” sobre si mesmo.

E isto tudo é curioso, além das similaridades aparentes, justamente pelo processo da tríplice homem-sociedade-culto. Analisando a história mundial de um olhar bem amplo, não existiram sociedades que evoluíram consideravelmente desassociando o homem do ato de crer em algo. Mesmo que cada qual interpretando de diferente forma, o culto esteve fortemente ligado à evolução dos povos, quase como uma “base organizadora” de pessoas, assim como linguagem, escritas, costumes etc. E, justamente sobre este aspecto é interessante a análise, visto que embora os diferentes cultos, em um dado momento todos convertem ao mesmo caminho, ora pelo misticismo, pela visão pós-vida, pela construção de seus elementos simbólicos, “equalizando” – por assim dizer – as diferentes formas de crer em uma mesma base social ao qual todos se inserem da mesma maneira, buscando as mesmas explicações e, em algum ponto, apresentando os mesmos resultados nas diferentes crenças. Por que essa repetição? Com qual naturalidade isso se deu? Como?

Esta é a grande charada. “Decifrar” a fisionomia do mito, a “espinha dorsal” de toda a crença e, buscar em sua raiz, onde originou-se o fato “crer” como uma forma de SER (referindo-se a sociedade). Se temos o reaproveitamento constante, a reposição de diferentes cultos com a mesma “fórmula básica”, aonde que podemos buscar a origem da crença, aonde remetemos a, talvez, o “primeiro” culto do mundo, que de uma forma ou de outra se espalhou, ressurgiu e se renovou, resistindo bravamente as intemperes do tempo, estando presente em basicamente toda história do homem?

Eis o mistério da fé.

Leiam e sigam-me! Até mais!

Editado dia 17/01/2013, à 01h 36min: O leitor Joaquim Lima levantou um ponto interessante sobre o uso da suástica, com alguns dados que eu desconhecia. Posto, aqui, o comentário dele, na íntegra:

Em realidade, a questão da “suástica”(ou qualquer outra nomenclatura que este símbolo contenha.), provém de uma sistêmica de cultos arcaico(como já fora demonstrada neste blog.) que é denominada por “alguns”(terrível não citar exatamente as fontes, o registro mais conhecido é de HELENA PETROVNA BLAVATSKY, algumas “escolas iniciáticas” determinam também este conceito) como SABEDORIA INICIÁTICA DAS IDADES, ao qual referia-se ao estudo esotérico(palavra usada no sentido de “profundo”, “profundidade”, ou para “os eleitos”, “poucos”, significa que era necessário um extremo dedicar-se a esses estudos e técnicas, similar a qualquer especialismo das “modernas ciências”.) que estes símbolos demonstram em diversos níveis de realidade(da objetiva a subjetiva), as escolas pitagóricas usavam símbolos geométricos para registrar os fenômenos que acercavam a realidade.A suástica remonta a “pedra cúbica da lei”, ao qual tinha como síntese várias codificações(inclusive um sistema muito similar ao “plano cartesiano” ou a senoide, os contrastes e o equilíbrio), pesquise e inclua no seu site…poderia escrever mais, mas estou sem tempo.

Seguindo o conselho, vou dar uma lida sobre o assunto. Assim que tiver mais informações, incluo aqui! Boa Noite e sigam-me!

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5 pensamentos sobre “A religião, o culto e a sua origem

  1. Interessante o teu texto. As questões que tu coloca são interessantes. Me pergunto também, e com alguma frequência, acerca das semelhanças entre as diversas religiões e cultos, como surgiram, etc.

    Confesso, na verdade, que fiquei curioso com algumas das informações que tu coloca. Principalmente a questão da suástica. A faculdade de história me tornou um chato, neste sentido, e eu me sinto tentado a questionar a fonte dessa informação e que tipo de estudo existe a respeito dessas semelhanças.

    Chatice à parte, gostei do teu texto. Tu escreve bem e a reflexão proposta é válida. =)

    1. Realmente, a relação da suástica é muito ampla. No entanto, a questão que levanto ali, em específico, é sobre a semelhança do desenho para diferentes sociedades.
      Quanto a sua utilização, realmente não tenho nenhuma fonte se estes povos utilizavam com o mesmo intuito ou o mesmo significado. Mas, mesmo assim, fica a dúvida: como/porque que efetivamente essas sociedades recorriam ao mesmo símbolo para interpretar diferentes coisas?
      Não estou me recordando agora, mas tempos atrás li um livro sobre o tema, ao qual a escritora entrava mais a fundo nesse estudo sobre o símbolo.
      Se não me falha a memória, é este livro: http://www.relativa.com.br/livros_template.asp?Codigo_Produto=33671&Livro=Propaganda-e-persuasao-na-Alemanha-nazista&Autor=PAULA-DIEHL

      No entanto, não precisamos ir longe. A suástica, até hoje, é amplamente utilizada nos cultos e povos orientais:

      http://formigarras.blogspot.com.br/2011/02/cruz-suastica-jose-berardo.html

      Ainda assim, há referências em outros povos espalhados pelo mundo:

      Navajo:

      Asteca:

      Construções de Russia, EUA, Inglaterra:

      http://www.flickr.com/groups/swastika/discuss/108362/

      Celta:

      Mas entendo a sua dúvida. Eu também não faço ideia de datas das referências acima. Podem ser imagens antigas, podem ser modernas, a interpretação do desenho é bem relativa e difícil datar de onde foram retiradas.

  2. Em realidade, a questão da “suástica”(ou qualquer outra nomenclatura que este símbolo contenha.), provém de uma sistêmica de cultos arcaico(como já fora demonstrada neste blog.) que é denominada por “alguns”(terrível não citar exatamente as fontes, o registro mais conhecido é de HELENA PETROVNA BLAVATSKY, algumas “escolas iniciáticas” determinam também este conceito) como SABEDORIA INICIÁTICA DAS IDADES, ao qual referia-se ao estudo esotérico(palavra usada no sentido de “profundo”, “profundidade”, ou para “os eleitos”, “poucos”, significa que era necessário um extremo dedicar-se a esses estudos e técnicas, similar a qualquer especialismo das “modernas ciências”.) que estes símbolos demonstram em diversos níveis de realidade(da objetiva a subjetiva), as escolas pitagóricas usavam símbolos geométricos para registrar os fenômenos que acercavam a realidade.A suástica remonta a “pedra cúbica da lei”, ao qual tinha como síntese várias codificações(inclusive um sistema muito similar ao “plano cartesiano” ou a senoide, os contrastes e o equilíbrio), pesquise e inclua no seu site…poderia escrever mais, mas estou sem tempo.

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